O dia era 31 de outubro, o fatídico Dia das Bruxas.

Para alguns era um dia de doces, para outros de travessuras e havia também aqueles que para o qual este era um dia de sustos e suspense assistindo filmes de terror.

Para mim por outro lado a única coisa que este dia poderia ser, resumindo em uma palavra, era um pesadelo, porque quando acordei descobri que estava sem internet em casa e que o técnico só viria resolver o problema no dia seguinte. Eu tinha um trabalho urgente para terminar e não conseguiria cumprir essa tarefa sem a ajuda da internet. Por isso eu passei a tarde na biblioteca da escola, a conexão era horrível, mas era melhor do que nada.

As seis horas da tarde a biblioteca fechou no exato momento em que terminei minha pesquisa.

Fui invadida por uma sensação de inquietação enquanto andava pelos corredores vazios da escola em direção a diretoria, tudo estava particularmente escuro e ao longe eu conseguia ouvir o que parecia ser gritos vindos da direção do anfiteatro. Provavelmente a primeira sessão do Cine Terror havia começado.

Haveria três sessões do Cine Terror aquela noite, a primeira começando as seis, a segunda as oito e a terceira as dez da noite.

A diretoria também estava vazia e com as luzes apagadas, mas para minha satisfação o portão de saída só estava encostado e eu passei por ele.

Voltei para casa em um ritmo mais lento do que o normal refletindo se nesse momento a She-Devil e o Kentaro estariam se divertindo. Não ficaria nem um pouco surpresa se descobrisse que os dois estavam se beijando enquanto o filme passava. Para um androide e uma guerreira gótica ver humanos serem massacrados deve ser a coisa mais próxima de uma comédia romântica.

Ao chegar na frente de casa notei que tinha esquecido minha mochila, com meu celular e todo o resto, na escola. Irritada eu decidi voltar para buscá-la.

Quando cheguei na biblioteca a porta estava trancada, mas para minha sorte o Sr. Johnson não estava muito longe dela. Ele pareceu extremamente incomodado de me ver ali, mesmo assim me ajudou a pegar as minhas coisas, por fim ele sugeriu que eu usasse o portão de entrada para sair da escola, agora que os alunos da segunda sessão estavam chegando.

Mesmo achando estranho, obedeci ao conselho dele.

Próximo do portão me deparei com Kentaro sentado sozinho em um dos bancos tomando uma garrafinha de água. Tentando não atrapalhar a noite dele, eu acenei para ele de longe e segui meu caminho.

— Vivien! — escutei Kentaro gritar atrás de mim.

Eu me virei e ele se aproximou, me encontrava a alguns passos do portão de entrada.

— Você veio no fim das contas — constatou Kentaro. — Como foi a primeira sessão?

— Na verdade eu estava na biblioteca terminando o trabalho de geografia. — respondi retirando o cabelo da frente do rosto.

— Ow — disse ele aprumando a jaqueta, a noite estava particularmente fria, me arrependi de não estar com uma blusa. — Não quer ficar e assistir essa sessão?

— Você sabe muito bem que não me dou bem com a Anna.

— Não precisa se preocupar, ela acabou de ir embora, Daniel Han a chamou para tocar em uma festa a fantasia — disse Kentaro com os ombros caídos. — Ia ser legal se você ficasse, eu pago pela comida.

— Não sei... — disse coçando a nuca. — Não estou com fome.

Nesse momento meu estomago roncou mal humorado, me lembrando que eu só tinha comido duas barrinhas de cereais nas últimas seis horas.

— Se não pode ficar, tudo bem — disse Kentaro chutando uma pedrinha no chão. — Eu entendo que não é todo mundo que consegue assistir filmes de terror.

— O que você está insinuando? — perguntei colocando uma das mãos na cintura.

— Nada — disse ele erguendo os braços exageradamente. — Quer dizer, eu sabia que você era medrosa, mas não sabia que o estágio da sua medrosite aguda era tão avançado.

— Você acha que não quero ficar por que estou com medo? — exclamei indignada. — Fique você sabendo que eu cresci assistindo esses tipos de filmes, para você ter uma ideia assisti O Enigma de Outro Mundo quando eu tinha cinco anos.

Omiti a parte na qual eu fiquei um mês sem dormir por causa disso, Kentaro não precisava saber de tudo.

— É mesmo? — disse ele de forma sarcástica.

— Como ousa duvidar de mim!

— Só tem um jeito de você me convencer Vivien. — disse Kentaro me oferecendo um meio sorriso.

— Tudo bem, eu fico — disse bufando. — Mas só vou ficar porque nunca rejeito comida de graça.

E porque eu estava sem internet em casa, mas como disse antes ele não precisava saber de tudo.

A gente se dirigiu para o anfiteatro.

Ao chegar na frente dele encontramos Alan e Charles em uma barraca vendendo pipocas e outros tipos de guloseimas. Sem perder tempo eu aproveitei para pegar um balde cheio de nachos com cheddar, uma quantidade generosa de bombons e um refrigerante extra grande.

Alan e Charles pareciam estar extremamente felizes com o sucesso do Cine Terror, um tanto quanto felizes demais para o meu gosto.

Quando Kentaro terminou de pagar ele observou sua carteira vazia e soltou um suspiro de lamentação. Eu dei um sorriso inocente para ele enquanto dava uma golada no meu refrigerante, satisfeita de saber que androides também tinham problemas financeiros.

Ao entrar na sala o lugar estava parcialmente iluminado, porque o filme ainda não havia começado. Havia mais de cem poltronas ali, mas apenas um terço delas estavam ocupadas até o momento. Eu e Kentaro nos acomodamos na ponta da última fileira, próximo a porta. Pouco depois de me sentar enviei uma mensagem para os meus pais avisando aonde estava e eles responderam que Victor iria vir me buscar as dez horas.

Enquanto os alunos chegavam e o filme não começava eu me voltei para Kentaro e perguntei:

— Qual é o nome do filme?

— A Mais Longa das Noites — disse Kentaro jogando uma porção de pipocas na boca.

— Nunca ouvi falar. — disse balançando a cabeça em tom de desaprovação.

— É o crossover do Jason, com o Freddy Krueger e com Michael Myers.

Estava explicado porque eu nunca tinha ouvido falar do filme, pensei engolindo em seco, devia ser um daqueles slashers que continham um péssimo roteiro, acompanhado de péssimas atuações e para completar péssimos efeitos especiais, a única coisa que esses filmes tinham em quantidade era sangue.

Contemplei meu balde de nachos e quase me arrependi de ter trazido comida, quase.

— Eu acho — disse engolindo uma porção de nachos. — Que seria muito mais legal se eles fizessem uma sessão com a trilogia do Senhor dos Anéis.

— Concordo que seria divertido — disse Kentaro se ajeitando na poltrona. — Mas não seria Cine Terror se não tivesse terror, não acha?

Como estava com a boca cheia respondi com um dar de ombros.

Instantes depois o filme iniciou. A história acompanhava um grupo de jovens se reunindo para festejar em um acampamento de verão. Um dos personagens começou a beijar uma garota e eles fugiram para um quarto vazio, o rapaz interrompeu os beijos alegando que precisava ir no banheiro primeiro. Dentro do banheiro o rapaz se observou no espelho comemorando e abaixou as calças. Na hora de se sentar na privada, porém, ele ouviu um ruído estranho vindo dela, curioso ele aproximou o rosto levantando a tampa, o ruído aumentou e aumentou até que as garras do Freddy Krueger cortaram a cabeça do rapaz fora.

Soltei um grito que era parte medo e parte ultraje pelo fato do homem ter sido morto no momento sagrado de sentar no trono.

Virei para o lado me sentindo enjoada e percebi que Kentaro estava olhando para o telão com um sorriso enorme no rosto.

A partir daí a história desandou e parecia que os diretores fizeram questão de não deixar nem mesmo uma cena passar sem alguma morte ridícula acontecer.

No momento em que Jason cortava uma mulher no meio o filme travou e meu grito ecoou por toda a sala, para minha sorte a escuridão parcial da sala escondeu minha identidade.

— Como você consegue achar um filme horrível desse engraçado? — perguntei para Kentaro apontando para a cena travada.

— O que tem nele para não amar? — disse Kentaro rindo. — Ele é tão absurdo que não me divirto assistindo um filme tão ruim desde que aluguei Samurai Cop.

Alguns minutos se passaram e o filme continuava parado, vários alunos começaram a reclamar. Ansiosa comecei a comer tudo o que tinha, incluindo as pipocas do Kentaro, ele me observou com uma expressão de espanto, como se eu fosse uma criatura de um filme de terror.

— O que foi? — disse com a boca cheia.

— Nada. — disse Kentaro desviando o olhar.

Não muito depois a comida tinha acabado e sem nada para comer comecei a roer as unhas.

— Tomara que o filme volte logo — disse cruzando os dedos.

Logo em seguida o oposto aconteceu, com um barulho de circuitos queimando o telão apagou lançando a sala na mais completa escuridão.

Várias pessoas gritaram, mas eu não, porque escondi meu rosto na jaqueta de Kentaro.

Os eventos que se seguiram iriam fazer eu desejar que o filme nunca tivesse travado.