Meu Colega de Sala é um Androide
8 08 – Super Traços
Para mim era o fim. No capítulo anterior eu enfatizei que nunca desistia, mas naquela fase da minha vida eu não queria tentar mais nada, minha alma estava cansada de ser humilhada. Era como se eu fosse o Dick Vigarista tentando pegar o pombo correio, mas sem a ajuda do Muttley e com o dobro dos fracassos.
Eu tinha finalmente compreendido que o objetivo de Kentaro não era me matar diretamente, mas sim me matar aos poucos, através da vergonha.
Por isso eu me decidi naquele dia de setembro que não iria mais ser uma presa fácil. A partir dali iria agir com o máximo de frieza e responderia somente o necessário. A partir daquele momento eu iria me tornar uma androide! Se não pode vencê-los torne-se um deles, seria o meu novo lema.
O dia já começou testando minha nova postura de vida quando a diretora veio me avisar, antes mesmo da aula começar, que o resultado da tesouraria tinha chegado e que só um dos eventos que se tinha planejado ia conseguir o orçamento desejado e era o da Feira de Aniversário da Cidade que iria acontecer no dia 22 com o início da primavera. Isso significava que esse ano não iria haver o baile de Halloween, que era uma marca registrada da escola. Só de pensar na reação dos alunos quando soubessem da notícia eu queria arrancar meus cabelos, mas tudo o que fiz foi dizer com a voz mais mono tom que consegui:
— Tudo bem.
A diretora ficou confusa, mas sem dizer mais nenhuma palavra eu segui meu dia.
A situação mudou de repente quando Kentaro tentou conversar comigo durante as aulas, agora que ele estava um pouco mais comunicativo ele começou perguntando:
— Ouvi rumores de que o baile de Halloween foi cancelado o que isso significa?
— Nada demais. — respondi sem olhar para ele.
— Mas a Giovana parecia bem nervosa na primeira aula.
— Acho que sim.
— Será que é por isso que Charles me avisou ontem que iria partir para o ataque? — disse Kentaro reflexivo.
— Acho que sim. — respondi, a curiosidade me corroendo por dentro.
Depois disso ele não falou mais nada, aparentemente sem graça.
Quando o recreio chegou eu estava ponderando se valia a pena continuar com esse plano. Minhas amigas não pararam de reclamar sobre o cancelamento do baile e do fato da primavera estar muito perto o que obrigaria a gente a ficar após as aulas para que a promessa da Feira fosse cumprida.
No fim do recreio Giovana se aproximou sorridente de mãos dadas com Charles.
— A gente está namorando! — disse Giovana.
— Ah! — comecei mas me recompondo prossegui. — Fico feliz.
Abracei Giovana roboticamente e dei um aperto de mão suave em Charles.
Depois voltei para a sala me segurando para não sair pulando de alegria, eu estava torcendo por esse casal a pelo menos um ano.
As duas últimas aulas eram de Artes com o professor Lucas Coppelo, ele era um dos meus professores favoritos com seu jeito descontraído de dar aulas, seu apelido era Professor Neandertal, porque ele prendia o cabelo em um coque que fazia sua testa parecer curta, também tinha uma barba espessa que cobria metade de seu rosto, e a cereja no topo do bolo era o fato de sua arte favorita ser a rupestre.
Hoje, porém para o meu infortúnio a aula era em dupla, e eu fiquei com ninguém menos do que Kentaro, porque ele estava sentado ao meu lado. O objetivo da aula era tentar desenhar o rosto do colega de dupla prestando atenção nos detalhes que nos tornam únicos.
Eu não estava com muito medo porque já tinha feito um curso de desenho no passado, e entendia os conceitos básicos, mas o que me preocupava era manter minha compostura diante do olhar perscrutador de Kentaro.
Lá estava eu de frente para o meu arqui-inimigo tendo que observar seus traços por quase duas horas, o dia até ali parecia um fracasso, mas se eu conseguisse vencê-lo sairia satisfeita.
Eu comecei fazendo o esboço da cabeça de Kentaro, seu rosto era bem simétrico o que me ajudava. Para minha surpresa Kentaro passou a maior parte do tempo desenhando ao invés de me observar, provavelmente por causa de sua memória fotográfica, pensei comigo mesma. Tentei capturar o olhar penetrante, mas nessa hora eu fiquei nervosa e acabei usando a borracha mais do que deveria.
Suas sobrancelhas ficaram mais grossas do que o normal, seu nariz que era reto ficou um pouco torto. Seus lábios eram bonitos, mas no papel estavam quase comprimidos.
Eu comecei a me irritar, Kentaro parecia fazer o possível para me sabotar, seu olhar geralmente esperto parecia fechado formando vincos em sua testa, seu rosto pálido estava corado. E até mesmo a linha de seu maxilar geralmente suave e de forma arredondada estava rígida e distorcida para a direita por causa da tensão. Para piorar agora que estava no fim da aula ele não parava de se mexer, olhando para mim e para o papel enquanto coçava sua cabeça, quase sem parar.
Faltando cinco minutos observei o resultado de meu esforço e quase uivei de frustração. Não só tinha falhado em capturar seu olhar esperto, o menino no desenho parecia estar confuso, ruborizado, atrapalhado, o brilho nos olhos eu tinha capturado bem, mas de resto parecia que eu tinha desenhado um menino japonês que estava intimidado contemplando Godzilla destruindo Tóquio.
— O tempo acabou pessoal. — disse o Professor Lucas. — Mostrem o desenho um para o outro e semana que vêm a gente conversa sobre onde foram os acertos. E lembrem-se na arte não existe erros apenas acidentes felizes.
Ansiosa eu mostrei meu desenho para Kentaro primeiro, sem falar nenhuma palavra. Quando viu meu desenho ele quase deu um pulo da cadeira, passou a mão no cabelo de porco espinho e disse:
— É assim que você me vê?
"Tudo por sua culpa que não parava quieto" queria ter dito, mas ao invés disso disse:
— Sim.
Ele me devolveu o desenho e tentou tirar o dele do meu alcance, mas eu fui mais rápida e peguei o papel da mão dele.
Até ali meu plano de ser um androide não tinha dado perfeitamente certo, mas estava funcionando o suficiente. Infelizmente, diante daquela obra meu plano foi por água abaixo.
Os ruídos tranquilizantes de alunos conversando baixinho na sala foi interrompido por um trovão, que reverberou e ecoou por todo cômodo e se pudesse teria repercutido pela escola inteira. Esse trovão era a minha risada.
Eu comecei a gargalhar como se não houvesse amanhã, a risada tão forte que me causou espasmos pelo corpo todo.
Tentei me segurar mais ao invés de ajudar acabei dando uma pirueta na cadeira e me esparramei no chão com cadeira e tudo.
O Professor Lucas veio correndo para saber o que estava acontecendo:
— Vivien está tudo bem?
Entre as rajadas de gargalhada tudo o que consegui dizer foi:
— F-F-FE-FE-FEEIIOOO! — me encolhi no chão quase em posição fetal, lágrimas caindo de meus olhos. — Feio demais!
Eu apontei para o desenho de Kentaro que estava quase amassado em minha não.
— É o desenho mais feio que eu já vi na vida! — consegui dizer antes de voltar a rir.
Kentaro tinha quebrado cada regra da arte com aquela ilustração, Bob Ross devia estar se revirando no tumulo àquela altura. Até mesmo as obras de Picasso tinham mais simetria do que aquilo.
Em questão de minutos a epidemia se espalhou e a sala inteira estava rindo, mais da minha risada do que de qualquer outra coisa.
Kentaro ficou lá sorrindo um tanto sem graça, sem ter onde se esconder.
Chegou um ponto onde o professor teve que me retirar da sala, e após me oferecer um pouco de água ele me deixou em um banco do pátio, avisando para voltar para sala só quando tivesse me acalmado. Quem chegasse no pátio naquele momento iria pensar que eu era a filha do Arthur Fleck, rindo descontroladamente sozinha ainda que cada parte do meu corpo estivesse em dor.
Quando o sinal bateu, eu já tinha me acalmado o suficiente e voltei para sala pensando, nunca mais vou tentar ser um androide, apesar das dores é muito melhor ser uma humana.
Depois da escola levei Giovana para tomar milkshake por minha conta, para comemorar o namoro e passei quase o tempo todo na sorveteria reclamando do cancelamento do baile.
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