Metamorfose
5 Escolaridades
Um dia se passou desde o atentado.Hércules estava dentro de sua escola, ainda antes de bater o sinal para que os alunos fossem para as suas devidas salas. Só que nem mesmo sabia se faria isso, estava com o sério problema de ainda estar pensando no ocorrido do dia passado, paranóico. Encontrava-se encostado em uma parede enquanto outras pessoas andavam e conversavam em sua frente, como se fosse um verme antissocial. Não que não fosse, porém ele não era tão antissocial quanto parecia ser no momento. Mas os pensamentos eram variados demais. Iam desde r0;Meu deus será que ele é um irmão que eu nunca conhecir1; até r0;Meu deus será que sou um robô cheio de clones felizes por aí?r1;, e sempre chegavam ao consenso de um poderoso tapa na cara para que ele passasse a pensar em coisas melhores. Só não sabia o que. Ou talvez não tivesse o que. Pior ainda, era NECESSÁRIO pensar naquilo independente da utilidade de qualquer outro assunto.
Sem ser encontrado nem mesmo por Ísis, o garoto continuou daquele jeito até o sinal bater. Quando bateu, ele caminhou até sua sala, sentou-se em sua cadeira e voltou a refletir sobre o mesmo assunto pelo qual já matara horas de seus últimos dois dias refletindo. Na verdade devia era refletir que não havia ninguém na sala, portanto a aula seria de educação física. Mas não, não queria sair se podia ficar sentado em sua carteira alimentando seu sedentarismo e imaginação ou dormindo. E foi isso o que decidiu fazer. — Ei cara! É aula de educação física, o que está fazendo aí? — disse um homem que entrou na sala de repente, todo musculoso, alto, negro e careca. Era o professor de educação física, e isso não era muito difícil de deduzir por todo seu aspecto físico e seu jeito de falar e agir. — Considere como aula matada. — respondeu Hércules, meio aborrecido. — Está passando mal? r11; perguntou o professor, não estranhando muito a atitude do garoto de matar aula de educação física, mas de certa forma não gostando muito de seu comportamento como pessoa. Ele já tivera dias mais felizes. — Acho que é a AIDS. É uma doença comum hoje em dia, devo ter contraído uma. — Quando você quer fazer uma piada, faça-a feliz. Ela não soa como ironia irritante. O professor então se retirou, rindo um pouco da piada lá fora, mesmo que aquilo realmente desse a certeza de que ele estava com problemas. Enfim, o problema não era bem seu, não devia se preocupar com isso. Já na sexta série de Ísis não havia nada calmo. Não mesmo. Para começar, a professora estava com a cabeça em sua mesa, quase dormindo, desistindo de trabalhar naquela sala. Os alunos estavam fazendo uma básica e conhecida r0;disputa de sonsr1;, onde todos ligavam seus aparelhos de som no volume máximo e ficavam comparando as músicas e dando notas até acabarem todos os alunos. Aí repetiam o processo. E de novo. E assim ia até o fim da aula. A única que estava quieta, para variar, era a própria Ísis. Queria dar uma chance à professora, como fazia com todas as outras que desistiam e saíam da sala, ou seja, na verdade não conseguia chegar a lugar algum com aquilo. Mas tentava. Por que não? A professora também estava observando um pouco a pobre garotinha, totalmente afastada do resto da turma, encostada em sua carteira do mesmo jeito que ela em sua mesa. Então levantou de sua cadeira até bem confortável e caminhou até a carteira da menina, que ficava bem em sua frente. — Ísis, não é? — perguntou ela, se aproximando um pouco da menina. — Sim... — respondeu Ísis, encolhendo-se ainda mais em sua carteira. — Calma, calma... Eu não vou te fazer nenhum mal. Olha pra mim, você pode confiar em mim, eu sou sua professora. As duas então trocaram olhares. Ambas observaram como se viam nos olhares da outra facilmente. Tentavam fazer suas partes e eram interrompidas por alunos, estavam perdendo a paciência. Só que de bônus, a professora notou que Ísis estava muito mais triste e a partir daí passou a se preocupar realmente com ela. Instantes depois foram interrompidas por uma mensagem na máquina da carteira de Ísis. Mensagem aparentemente de mau gosto, já que irritou bastante a garotinha que estava perdendo a paciência. Ah, se estava! Essa foi a gota d\'água. — r0;Vá pro inferno com seus espíritosr1; me parece uma mensagem interessante. — comentou ela, furiosa, se levantando da carteira e caminhando até uma carteira ao fundo. O responsável era um garoto muito inteligente que esquecera que era impossível mandar mensagens no anonimato dentro de uma sala de aula. Garoto de visual muito comum, aliás, com um moicano loiro e o resto quase completamente cortado. Garoto que, assim que a viu, levantou-se do seu lugar e começou a se afastar até chegar na parede, onde ficou encurralado pelas carteiras prejudicando sua passagem. — Ei, qual é! Foi brincadeira! — disse ele, um pouco assustado. — Foi sim! — respondeu ela. — E eu odiei! No mesmo momento o resto da sala parou de fazer o que estava fazendo para observá-los. As variações de humor deles logo apareceram quando uns começaram a vaiar, outros a incentivar e todos mostravam sua amizade valorosa com o garoto ficando em suas carteiras apenas observando a situação e rindo.
— Não, não faz nada comigo! Pelo amor de Deus, é sério! — E por que você fez isso comigo? O que eu fiz pra você? O garoto então ficou calado, sem ter nenhuma resposta. Ela prosseguiu com seu primeiro discurso público, virando-se para toda a sala e ficando emocionada, no pior dos sentidos possíveis. Estava realmente triste e, ao começar a confessar isso, não conseguiu fugir de algumas lágrimas. — Aliás, o que eu fiz pra vocês todos?! Há algum verdadeiro motivo para eu realmente não poder ser como nenhum de vocês?! A sala ficou no mesmo estado do garoto, sem resposta, apesar de um ou outro aluno mais bagunceiro ter pensado em falar besteira. Depois pensaram na reação do resto da sala e resolveram ficarem quietos. A menina não prosseguiu, pelo contrário, não conseguiu aguentar o próprio discurso momentos depois e saiu da sala. Desceu as escadas e foi até o chafariz da floresta no fundo do colégio, correndo, ainda chorando. Sentou-se na frente de uma árvore qualquer e ficou lá. Um tempo se passou e um dos sinais tocou, assim determinando obviamente o fim de uma aula para iniciar-se outra. Hércules não estava mais em sua sala, aliás, estava bem longe de lá, assim como Ísis. Ele estava entrando no território da floresta também, distraído, pensando no incêndio do outro dia como fez desde que chegou a sua casa no dia passado. Devia ir até o chafariz. Quem sabe se acalmaria um pouco. Então foi andando até que sentiu o chão tremer um pouco e estranhou, mas continuou seu caminho. Momentos depois, várias raízes saíram do chão furiosamente e cobriram seu corpo quase que completamente, em um golpe bem rápido e quase que despercebido pelo garoto. Ele tentou queimá-las invocando uma porção cautelosamente pequena de fogo abaixo delas para não danificar a floresta. Maldição. Estava na floresta, não teria chances. Conseguiu queimá-las e amolecê-las para escapar, mas em seguida uma quantidade ainda maior saiu do chão e o agarrou novamente. Eram numerosas demais para ele, provavelmente não conseguiria fazer nada a tempo, e de fato não conseguiu: logo as raízes conseguiram sufocá-lo e fazê-lo desmaiar. — Ei vocês, parem agora!!! — gritou Ísis, com o tom mais autoritário de TODA sua vida. As raízes, em sinal de obediência, retornaram para o solo de onde vieram e deixaram o corpo de Hércules ali, adormecido. Corpo que quase apavorou a garota que, aliás, não fazia idéia de que as raízes estavam atacando justamente ele. Não perdeu seu tempo se desesperando ou fazendo mais nada, simplesmente foi verificar o pulso do garoto. Recebeu uma resposta positiva e se aliviou, então passou a raciocinar o que fazer no momento.
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