Message in a bottle

32 Capítulo 31


Notas iniciais
Boa noite! Bom, esse é o último capítulo gente. Não deu para agradar boa parte dos leitores, eu presumo, mas apesar de tudo eu gostei muito da "companhia" de vocês durante essa jornada. Espero que reflitam após ler esse capítulo. Eu estava escutando a música 'one more time' da Laura Pausini enquanto finalizava a fic, se quiserem sentir o que vão ler, ouçam também. Obrigada a todos vocês principalmente pela paciência. See you! 😘

Na praia onde tudo tinha começado, Quinn permitiu-se recordar os acontecimentos de um ano antes.

Tinham-na enterrado ao lado de Catherine num pequeno cemitério perto de casa. Leroy e Quinn ficaram juntos durante o velório, cercados das pessoas cujas vidas Rachel tinha tocado – colegas de escola, antigos alunos de mergulho, empregados da loja. Foi uma cerimônia simples, e embora tivesse começado a chover assim que o ministro terminou de falar, todos continuaram presentes por um longo tempo depois.

Em seguida, foram para a casa de Rachel. Uma por uma, as pessoas ofereciam os pêsames e compartilhavam lembranças. Quando a última delas foi embora, deixando Leroy e Quinn sozinhos, o pai de Rachel tirou uma caixa do armário e pediu-lhe que se sentasse com ele pra examinarem-na juntos.

Na caixa havia centenas de fotografias. Durante as horas seguintes, Quinn percorreu a infância e a adolescência de Rachel – todos os pedaços da vida dela que apenas imaginara. Depois vieram as imagens mais recentes: a formatura no ensino fundamental e na faculdade; o Happenstance restaurado; Rachel na porta da loja reformada, antes da inauguração. Em cada foto, ela notou, o sorriso dela nunca mudava. Sorrindo com ela, Quinn também percebeu que seu estilo também não mudara: com exceção das fotografias tiradas em ocasiões especiais, desde a infância ela parecia vestir-se do mesmo modo – sempre de jeans ou shorts, camiseta e macassins.

Havia dezenas de fotos de Catherine. A princípio Leroy pareceu constrangido por Quinn vê-las, mas, estranhamente, aquelas fotos não a perturbaram. Não sentiu tristeza ou raiva ao vê-las – elas faziam parte de uma outra época da vida da morena.

Mais tarde, enquanto examinavam as últimas imagens, Quinn encontrou a Rachel por quem tinha se apaixonado. Uma foto em particular atraiu sua atenção, e ela segurou-a por um longo tempo. Percebendo sua expressão, Leroy contou que fora tirada poucas semanas antes do dia em que a garrafa surgira na praia em Cape Cod. Nela, Rachel estava na varanda dos fundos de sua casa, com a mesma aparência de quando a loira a visitara pela primeira vez.

No momento em que Quinn finalmente conseguiu desviar os olhos da fotografia, Leroy pegou-a de sua mão com toda a delicadeza.

Na manhã seguinte, ele estendeu-lhe um envelope. Ao abri-lo, ela viu que Leroy lhe dera aquela foto, assim como várias outras, e também as três cartas responsáveis por Quinn e Rachel terem se conhecido.

– Acho que ela ia gostar que você ficasse com elas.

Emocionada demais para responder, ela assentiu silenciosamente em agradecimento.

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Quinn não tinha uma lembrança clara dos seus primeiros dias de volta a Boston, e em retrospecto percebeu que na verdade não queria recordar. Lembrava-se, sim, que Santana a esperava no Aeroporto Logan quando seu avião pousou. Depois de dar uma olhada nela, a latina ligou no mesmo instante para sua esposa e pediu que ela levasse algumas roupas dela para a casa de Quinn, pois planejava ficar lá por alguns dias. Quinn passou a maior parte do tempo deitada, sem se dar sequer ao trabalho de levantar quando Tommy chegava da escola.

– Será que a mamãe vai ficar bem de novo algum dia? – perguntava ele.

– Ela só precisa de um pouco de tempo, Tommy – retrucava Santana. – Sei que está sendo difícil para você também, mas vai ficar tudo bem.

Os sonhos de Quinn, quando ela conseguia lembrar-se, eram fragmentados e confusos. Surpreendentemente, Rachel nunca chegou a aparecer neles. Ela não sabia se isso era uma espécie de mau augúrio ou sequer se deveria atribuir algum significado a esse fato. Em seu aturdimento, achava difícil pensar em qualquer coisa com clareza. Ia para cama cedo e ali ficava enquanto pudesse, envolta num tranquilizante casulo de escuridão.

Às vezes ao acordar, durante uma fração de segundo, ela experimentava uma realidade confusa, em que a situação toda parecia um engano terrível, absurdo demais para ter acontecido de verdade. Durante esse instante, tudo era como devia ser. Ela apurava os ouvidos para escutar os ruídos que Rachel fazia dentro do apartamento, certa de que a cama vazia significava apenas que a morena já estava na cozinha, tomando café e lendo jornal. Num instante ela iria encontrar-se com ela à mesa e diria, balançando a cabeça: Tive um pesadelo horrível...

Sua única lembrança dessa semana era uma insaciável necessidade de entender como aquilo podia ter acontecido. Antes de ir embora de Wilmington, ela fez Leroy prometer que telefonaria se soubesse de alguma novidade sobre o dia em que Rachel saíra no Happenstance. Mudando curiosamente de opinião, a loira acreditava que seu sofrimento de alguma forma seria menor se conhecesse os detalhes, o motivo. O que se recusava em acreditar era que Rachel velejaria ao encontro da tempestade, planejando não voltar. Sempre que o telefone tocava, despertava as suas esperanças de ouvir a voz de Leroy. Imaginava-se dizendo: “Sim, estou entendendo... Isto faz sentindo...”

É claro que no fundo sabia que isso jamais aconteceria. Naquela semana Leroy não telefonou com uma explicação, e nenhum esclarecimento lhe ocorreu num momento de meditação. Não, a resposta veio, por fim de um lugar que ela jamais teria previsto.

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Na praia de Cape Cod, um ano depois, ela refletia sem amargura na série de acontecimentos que a tinham levado até aquele lugar. Finalmente pronta, Quinn vasculhou sua sacola. Depois de encontrar o objeto que procurava, fixou os olhos nele, revivendo o momento em que a resposta enfim chegara. Ao contrário de sua lembrança dos dias que se seguiram à sua volta para Boston, essa recordação ainda era totalmente nítida.

Depois que Santana partira, Quinn tentara restabelecer uma espécie de rotina. Em sua confusão ao longo da semana anterior, ela ignorara os aspectos da vida que tinham continuado a existir. Enquanto Santana ajudava com Tommy e com a casa, por exemplo, ela empilhava num canto da sala de jantar toda a correspondência que se acumulava. Certa noite, depois do jantar, enquanto o garoto estava no cinema, Quinn começou a examinar a pilha distraidamente.

Havia algumas dezenas de cartas, três revistas e dois pacotes. Um dos embrulhos ela reconheceu como o presente de aniversário de Tommy, que encomendara de um catálogo; o segundo, porém, estava embrulhado em papel pardo, sem o nome do remetente. Era comprido e retangular, lacrado com fita adesiva. Havia duas etiquetas dizendo “Frágil” – uma perto do endereço e outra no lado oposto da caixa – e uma terceira em que estava escrito “Cuidado ao manusear”. Curiosa, ela resolveu abri-lo primeiro.

Foi nesse momento que viu o carimbo do correio de Wilmington, na Carolina do Norte, datado de duas semanas antes. Examinou o endereço grafado na frente.

Era a letra de Rachel.

– Não...

Ela largou o pacote na mesa, sentindo de repente um embrulho no estômago.

Encontrou uma tesoura na gaveta e, com as mãos trêmulas, pôs-se a cortar a fita, puxando o papel com cuidado. Já sabia o que encontraria lá dentro.

Depois de tirar o objeto e vasculhar a caixa para se certificar de que nada ficara lá dentro, ela retirou o lacre de proteção que o embrulhava, que estava bem presa no topo e no fundo, forçando-a a usar a tesoura mais uma vez. Por fim, depois de puxar os pedaços restantes de plástico, ela colocou o objeto em cima da escrivaninha e passou um longo tempo fitando-o, incapaz de se mover. Quando o ergueu à luz, viu o próprio reflexo.

A garrafa estava arrolhada, e a carta encontrava-se enrolada dentro dela. Depois de retirar a rolha – que a morena colocara frouxamente -, ela virou a garrafa de cabeça para baixo e o canudo deslizou para fora com facilidade. Como a carta que Quinn encontrara alguns meses antes, aquela estava presa por um pedaço de barbante. Ela desenrolou-o com gestos delicados, tomando cuidado para não rasgar o papel.

O texto fora escrito em caneta tinteiro. No canto superior havia a imagem de um navio antigo, as velas enfunadas ao vento.

Querida Quinn,

Você pode me perdoar?

Quinn colocou a carta sobre a escrivaninha. Sentiu um nó na garganta, que tornava sua respiração difícil. A luz vinda do teto formava um estranho prisma através das suas lágrimas inesperadas. Ela pegou um lenço de papel e enxugou os olhos. Controlando-se, recomeçou a leitura.

Você pode me perdoar?

Num mundo que eu raramente compreendo, existem ventos do destino que sopram quando menos os esperamos. Às vezes sopram com a força de um tufão, às vezes mal tocam nossa face. Mas eles não podem ser negados, trazendo, como muitas vezes fazem, um futuro impossível de ignorar. Você, minha querida, é o vento que eu não previ, o vendaval que soprou com mais força do que jamais imaginei ser possível. Você é o meu destino.

Errei, errei muito, ao ignorar o que era óbvio, e lhe peço perdão. Como um viajante cauteloso, tentei me proteger da ventania e em vez disso perdi minha alma. Fui uma tola em ignorar meu destino – mas até mesmo os tolos têm sentimentos, e acabei tomando consciência de que você é a coisa mais importante que tenho nesse mundo.

Sei que não sou perfeita; cometi mais erros nos últimos meses do que algumas pessoas cometem durante a vida inteira. Errei ao agir daquela forma quando encontrei as cartas, assim como ao esconder a verdade sobre o que estava enfrentando em relação ao meu passado. Quando corri atrás do seu carro pela rua, e depois disso, ao ver seu avião levantar voo, sabia que devia ter me esforçado mais para impedi-la de partir. Mas, acima de tudo, errei ao negar o que era óbvio para o meu coração: não posso continuar sem você.

Você tinha razão em tudo. Quando estávamos sentadas na cozinha da minha casa, tentei negar tudo o que você dizia, mesmo sabendo que era verdade. Como um pessoa que faz uma viagem olhando apenas para trás, eu ignorava que vinha à minha frente. Perdi a beleza de um futuro nascer do sol, aquela maravilhosa sensação de expectativa que faz a vida valer a pena. Foi um erro agir assim, um resultado da minha confusão, e queria ter entendido isso antes.

Agora, porém, olhando para o futuro, vejo seu rosto e ouço a sua voz, certa de que é o caminho que devo seguir. Meu maior desejo é que você me dê mais uma chance. Como deve ter adivinhado, tenho esperança de que esta garrafa exerça sua magia, como já fez antes, e que de alguma forma nos una outra vez.

Durante os primeiros dias depois de sua partida, eu queria acreditar que podia viver como sempre tinha vivido, mas não consegui. Cada vez que contemplava o pôr do sol, pensava em você. Cada vez que passava pelo telefone, queria ligar para você. Mesmo quando ia velejar, só conseguia pensar em você e nas horas maravilhosas que passamos juntas. Sabia, no fundo do coração, que minha vida jamais seria a mesma outra vez. Queria você de volta, mais do que imaginava possível. Só que, cada vez que a evocava, ouvia o que você disse na nossa última conversa. Por mais que eu a amasse, sabia que nosso amor não seria possível a não ser que nós, juntas, tivéssemos certeza de que eu me dedicaria por completo ao caminho que se abria à minha frente. Esses pensamentos continuaram me perturbando até a madrugada de ontem, quando a resposta enfim veio. Espero que, depois que eu lhe contar, ela signifique tanto pra você quanto significou para mim.

No meu sonho, eu me vi num praia com Catherine, no mesmo lugar aonde levei você depois do nosso almoço no Hank´s. o sol estava forte, os raios refletiam na areia. Caminhávamos lado a lado e ela escutava atentamente enquanto eu falava de você, de nós duas, das coisas maravilhosas que compartilhamos. Por fim, depois de um momento de hesitação, confessei que amo você, mas que me sentia culpada por isso. Ela não respondeu de imediato, só continuou andando, até enfim se virar para mim e perguntar:

Culpada por quê?

– Por causa de você – falei.

Ao ouvir isso, ela deu um sorriso divertido e ao mesmo tempo paciente, como costumava fazer. Então, tocando de leve o meu rosto, falou:

– Ah, Rach, quem você pensa que levou a garrafa até ela?

Quinn parou de ler. O zumbido baixo da geladeira parecia ecoar as palavras da carta:

Quem você pensa que levou a garrafa até ela?

Recostando-se na geladeira, ela fechou os olhos, tentando conter as lágrimas.

– Rachel – murmurou. – Rach...

Do lado de fora da janela vinha o ruído dos carros passando. Lentamente, ela recomeçou a leitura.

Acordei sentindo-me vazia e solitária. O sonho não me consolou. Pelo contrário, me fez sofrer ainda mais, pelo que eu tinha feito a nós duas, e comecei a chorar. Quando enfim me controlei, sabia o que tinha que fazer. Com as mãos trêmulas, escrevi duas cartas: esta que você lê agora, e uma para Catherine, na qual eu finalmente disse adeus. Hoje vou sair no Happenstance para enviar a correspondência para ela, como fiz com todas as outras. Será a minha última: a seu modo, Catherine me mandou seguir com a vida e decidi obedecer – não apenas às palavras dela, mas também aos impulsos do meu coração, que me levam de volta a você.

Ah, Quinn, sinto muito, muito mesmo, por tê-la magoado. Na semana que vem irei a Boston na esperança de que você encontre um modo de me perdoar. Talvez seja tarde demais. Não sei.

Eu a amo e sempre amarei. Estou cansada de ser solitária. Vejo crianças gritando e rindo enquanto brincam na areia, percebo que quero ter filhos com você. Quero ver Tommy virar homem. Quero segurar a sua mão e ver você chorar quando ele finalmente se casar, quero beijar você quando os sonhos dele se realizarem. Vou me mudar para Boston se você me pedir, porque não posso continuar assim. Sem você fico triste o tempo todo. Sentada aqui na cozinha, rezo para que você me aceite de volta, desta vez para sempre.

Rachel

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O dia chegava ao fim e o céu cinzento escurecia rapidamente. Embora tivesse lido a carta mil vezes, Quinn ainda experimentava os mesmo sentimentos que tivera quando lera pela primeira vez. No ano anterior, esses sentimentos a perseguiram durante todos os seus momentos.

Sentada na praia, ela tentou mais uma vez imaginá-la escrevendo a carta. Correu o dedo pelas palavras, percorrendo de leve a página, sabendo que a mão da morena estivera ali. Lutando para controlar as lágrimas, ela estudou a carta, como sempre fazia depois de lê-la. Em certos lugares havia manchas, como se a caneta tivesse vazado enquanto a morena escrevia. Isso lhe conferia uma aparência característica, quase de pressa. Seis palavras tinham sido riscadas, e a loira as examinava com especial atenção, perguntando-se o que ela teria pretendido dizer. Continuava sem saber a resposta. Como muitas coisas a respeito do último dia de vida de Rachel, tratava-se de um segredo que ela levara consigo. Quinn notou que no final da página a caligrafia da morena ficava difícil de ser lida, como se ela estivesse segurando a caneta com força.

Quando terminou, tornou a enrolar a carta com todo o cuidado e amarrou de novo o barbante em volta dela, preservando-a para que não se estragasse. Colocou-a de volta na garrafa e deixou-a de lado, perto da sacola. Sabia que quando chegasse em casa iria deixá-la em cima da sua escrivaninha, como sempre. À noite, quando a luz dos postes da rua entrava de soslaio em seu quarto, a garrafa brilhava na escuridão e era, em geral, a última coisa que ela via antes de adormecer.

Em seguida, pegou as fotos que Leroy lhe dera. Lembrou-se que depois de voltar para Boston ela as examinara uma por uma. Quando suas mãos começaram a tremer, guardara-as na gaveta e nunca mais olhara para elas.

Mas agora tornou a contemplá-las, e encontrou aquela que fora tirada na varanda. Segurando-a diante de si, recordou tudo a respeito de Rachel – seu olhar e o modo como ela se movimentava, seu sorriso fácil, as ruguinhas nos cantos dos olhos. Disse a si mesma que no dia seguinte talvez mandasse fazer uma cópia, uma ampliação para colocar na mesa de cabeceira, exatamente como a morena tinha feito com a fotografia de Catherine. Então sorriu com melancolia, sabendo que não iria fazer isso. As fotos voltariam para a gaveta, ao mesmo lugar de antes, debaixo das meias e junto aos brincos de pérolas que sua avó lhe dera. Seria triste demais ver o rosto de Rachel todos os dias, e a loira ainda não estava preparada para isso.

Desde o velório ela mantinha um contato esporádico com Leroy, telefonando de vez em quando para saber como ele estava passando. Na primeira vez em que ligou, contou-lhe o que tinha descoberto, a razão para Rachel ter saído no Happenstance naquele dia, e ambos acabaram chorando ao telefone. Ao longo dos meses, porém, eles finalmente passaram a conseguir mencionar o nome da morena sem chorar, e Leroy começara a descrever suas lembranças de Rachel quando criança, ou contar a Quinn as coisas que a morena dissera sobre ela durante suas longas separações.

Em julho, ela e Tommy foram para a Flórida e mergulharam nas Keys. Lá, como na Carolina do Norte, a água era quente, embora muito mais clara. Passaram oito dias mergulhando todas as manhãs e relaxando na praia à tarde. No caminho de volta a Boston, decidiram fazer a mesma coisa no ano seguinte. Tommy pediu de presente de aniversário a assinatura de uma revista de mergulho, e ironicamente o primeiro número continha um artigo sobre navios naufragados na Carolina do Norte, inclusive aquele em águas rasas que eles tinham visitado do Rachel.

Embora tivesse recebido convites, ela não saíra com ninguém desde a morte de Rachel. As pessoas no trabalho, com exceção de Santana, tentavam a todo momento arranjar-lhe alguém. Todos os candidatos eram descritos como bonitões e bons partidos, mas ela recusava todos os convites. De vez em quando escutava os colegas cochichando: “Ele ainda é jovem e atraente.” Outros mais compreensivos, comentavam apenas que ela ia acabar superando aquele sofrimento.

Foi um telefonema de Leroy, três semanas antes que a levara de volta a Cape Cod. Ao escutar a voz carinhosa dele, sugerindo que era hora de seguir em frente, as muralhas que ela erguera começaram enfim a ruir. Ela chorou durante a maior parte da noite, mas na manhã seguinte sabia o que devia fazer. Organizou-se para voltar lá – uma empreitada fácil, já que estavam em baixa temporada. E foi então que seu processo de cura finalmente começou.

Parada na areia, ela se perguntou se alguém a veria. Olhou para os dois lados, mas a praia estava deserta. Apenas o mar parecia mover-se, e ela se sentiu atraída pela fúria das águas. Pareciam iradas e perigosas, não o lugar romântico de que ela se lembrava. Ficou contemplando o mar por um longo tempo, pensando em Rachel, até ouvir um trovão ecoar pelo céu invernal.

O vento aumentou e ela sentiu a mente voar com ele. Por que tudo tinha terminado daquele modo? Ela não sabia. Outra lufada de vento e a loira sentiu Rachel ao seu lado, afastando uma mecha de cabelo do rosto. Rachel fizera isso na hora da despedida, e Quinn mais uma vez sentiu o toque dela. Havia tantas coisas que ela gostaria de poder mudar naquele dia, tanto arrependimento...

Ela a amava. Sempre amaria. Soube disso no momento em que a vira nas docas, e isso estava claro agora também – nem a passagem do tempo, nem a morte poderiam mudar seus sentimentos. Fechou os olhos e falou: “Sinto saudades suas, Rachel Berry”.

Por um momento imaginou que ela de algum modo a ouvira, porque o vento parou de repente.

Os primeiros pingos de chuva começaram a cair quando ela desarrolhou a garrafa de vidro transparente que segurava com tanta força e retirou a carta que escrevera para Rachel na véspera, aquela que fora ali enviar. Desenrolou-a e segurou-a à sua frente do mesmo modo que fizera com a primeira carta dela que encontrara. A pouca luz que restava mal era suficiente para que enxergasse as palavras, mas de qualquer modo, Quinn sabia todas elas de cor. Suas mãos tremeram um pouco quando ela começou a ler.

Meu amor,

Um ano se passou desde que me sentei com seu pai na cozinha. É tarde da noite, e, embora as palavras me estejam vindo com dificuldade, não consigo fugir à sensação de que está na hora de enfim responder à sua pergunta.

É claro que eu perdoo. Perdoo agora, e perdoei no momento em que li sua carta. Em meu coração eu não tinha escolha. Deixar você uma vez foi difícil. Fazer isso de novo teria sido impossível. Eu a amava demais para deixar que partisse de novo. Embora eu ainda chore pelo que poderia ter sido, sinto-me grata por você ter entrado na minha vida, mesmo que por um curto período de tempo. No inicio eu imaginava que nós tínhamos nos conhecido para que eu a ajudasse a superar sua dor. Agora, no entanto, um ano depois, passei a acreditar que foi o contrário.

Ironicamente, encontro-me na mesma posição em que você estava quando nos conhecemos. Enquanto escrevo, luto com o fantasma de alguém que amei e perdi. Agora compreendo melhor as dificuldades pelas quais você passou e percebo como deve ter sido doloroso retomar o curso da sua vida. Às vezes meu sofrimento é esmagador, e mesmo compreendendo que nunca mais vamos nos ver, parte de mim quer ficar presa a você para sempre. Para mim seria fácil fazer isso, por que o amor por outra pessoa poderia diminuir minhas lembranças de você. Porém, é este o paradoxo: mesmo sentindo demais a sua falta, é por sua causa que não tenho medo do futuro. Por ter sido capaz de se apaixonar por mim, você me deu esperança, meu amor. Você me ensinou que é possível seguir em frente, por mais terrível que seja a dor. A seu modo, você me fez acreditar que o amor verdadeiro não pode ser negado.

Neste momento acho que não estou pronta, mas esta é a minha escolha. Não se culpe. Garças a você, tenho esperança de que algum dia minha tristeza será substituída por alguma coisa bela. Graças a você, tenho forças para continuar.

Não sei se os mortos podem voltar a esta terra e moverem-se, invisíveis, entre aqueles que os amaram, mas se puderem, então sei que você estará comigo em todos os momentos. Quando eu escutar o mar, serão os seus sussurros; quando uma brisa fresca acariciar o meu rosto, será o seu espírito passando por mim. Você não vai ficar longe de mim para sempre, não importa o que aconteça em minha vida. Você está junto a Deus, junto à minha alma, ajudando a me guiar na direção de um futuro que não consigo prever.

Esta carta não é uma despedida, meu amor, é um agradecimento. Obrigada por ter entrado na minha vida, por me dar alegria, me amar e aceitar o meu amor em troca. Obrigada pelas lembranças que vou guardar para sempre. Mas, principalmente, obrigada por me mostrar que chegará um dia em que poderei enfim deixar você ir.

Te amo,

Q.

Depois de ler a carta uma última vez, Quinn enrolou-a e fechou-a dentro da garrafa. Girou o frasco em mãos algumas vezes, sabendo que sua viagem tinha completado um ciclo. Finalmente, quando sentiu que não podia esperar mais, jogou-a o mais distante que conseguiu.

Nesse momento, começou a soprar um vento forte e a neblina se dissipou aos poucos. Quinn ficou parada em silêncio, contemplando a garrafa que boiava em direção ao mar aberto. E, mesmo sabendo que isso era impossível, imaginou que aquela garrafa jamais pararia em terra firme – viajaria ao redor do mundo pelo resto dos tempos, passando por lugares tão distantes que ela própria jamais veria.

Alguns minutos após a garrafa desparecer de vista, Quinn iniciou o caminho de volta para o carro. Andou em silêncio sob a chuva, sorrindo de leve. Não sabia quando, ou onde, ou se algum dia sua carta apareceria, mas isso não tinha importância. De algum modo, sabia que Rachel receberia aquela mensagem.

The end.

Notas finais
Gostaram?! Obrigada mais uma vez gente. Vocês são os melhores, obrigada a todos aqueles que acompanharam e principalmente aqueles que comentaram sempre. Peço desculpas se não agradei, eu tentei 😉. Enfim... Até qualquer hora!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!