Mercy

2 Capitulo 2 - O passado ainda assombra o presente


Como eu ia dizendo, as coisas só pioram com o tempo, pelo menos comigo é assim, quando minha vida começou a se desgraçar eu ouvia meus amigos dizendo que com o tempo tudo ia melhorar e na verdade aconteceu tudo ao contrario, eu via tudo se destruindo bem debaixo dos meus olhos e não fazia nada a respeito – até porque não tinha muito o que se fazer – sentia uma espécie de vazio dentro do peito. Eu morri da pior maneira possível, aquela em que ainda se respira.

De todos que estavam do meu lado, a única que ficou foi a Rachel e eu sentia que era eu e ela contra todo mundo. Se for pra ser assim, que assim seja, eu não vou dar o braço a torcer e nunca vou deixar que eles acabem com o que há de melhor em mim. Querem me chamar de vadia? Pois chamem, por que a partir de agora eu serei a maior vadia que vocês respeitam...

Separei a blusa mais decotada que tinha no meu armário, a saia mais indecente, vesti, dei umas voltinhas, me olhei no espelho, admirei-me e decidi que seria com essa roupa que eu iria pra escola no dia seguinte.

Fui até a casa da Lauren, que ficava na mesma rua, pedi a ela três saquinhos de cocaína, escondi na mochila e voltei a tempo para o jantar. Comi, escovei os dentes e dormi novamente. Acordei com o despertador apitando pra caralho, eu estava mais do que atrasada.

Tomei o banho mais rápido da história, vesti a roupa que eu havia separado na noite passada, passei uma maquiagem talvez pesada demais pra ocasião e desci para o café.

—Onde a senhorita pensa que vai assim – disse minha mãe colocando as panquecas no meu prato

—Escola. – respondi desconfortável

—Parece que está indo para uma boate de prostitutas – brincou

—Estou ousada ultimamente – sorri

—Ousada e atrasada também, vá comendo no carro pra não chegar muito tarde.

Ela me deu carona até a escola, quando cheguei pude notar todos os olhares voltados para mim e pela primeira vez em dois anos eu pouco me importei com isso, até gostei.

—Que gata – Rachel berrou da escada

—Essa blusa que eu usei no seu aniversário passado – sorri

Pude ver Noah e os meninos do basquete me dando umas olhadas mas nada demais, lancei uma piscadinha que fez com que todos se espantassem já que geralmente eu costumava ignora-los ou mostrar o dedo do meio.

Entrei na sala de história e me sentei ao lado de Marcus, já que ele sempre me passava a resposta dos testes.

—Uau, o que houve com as suas roupas? – perguntou interessado

—Resolvi me arrumar mais um pouquinho, gostou?

—G-gostei – gaguejou enquanto olhava para os meus seios. Sorri e voltei a copiar as perguntas do teste.

Lauren chegou atrasada e afobada como sempre, se ela havia cheirado antes de vir a escola com certeza ela estava doida pra entregar nosso squad de drogados-que-ninguém-imagina-que-se-droga. Dan chegou logo depois, também muito afobado como se estivessem fugindo de alguma coisa.

—Lauren – sussurrei

—Que foi? – sua pupila estava mais dilatada do que o normal

—Você cheirou antes de vir pra escola? – ela apenas deu um sorrisinho safado.

—Eu disse que era uma péssima idéia – Dan entrou na conversa. Ele era um dos garotos do basquete, era negro, cabelos espetados e um dos melhores amigos do Noah, também é ele que consegue as drogas pra gente mas ninguém sabe como.

—Vocês perderam a cabeça de vez né?

—Teria como vocês terminarem essa conversa fora da minha sala de aula? – a senhora baixinha, gordinha e rabugenta nos repreendeu.

A aula passou voando, por incrível que pareça quando pisquei o olho já estava na hora do almoço, vulgo, meu horário favorito do dia. Eu, Dan, Lauren e Rachel sentamos juntos pra almoçar pela primeira vez na vida e não discutimos sobre política, ideais ou coisas do tipo.

Eu podia ouvir cochichos pelo refeitório, e era isso que eu queria: atenção. Eu jamais perderia o posto de vadia do colégio, isso era obvio, mas eu queria mais, eu queria ser lembrada, queria que meu nome fosse ícone naquele colégio.

Noah P.O.V

O que aquela garota estava querendo? Eu sempre soube que todo aquele papo de bullying não passava de drama dela e que na verdade ela adorou a “faminha” que conseguiu nas minhas costas, ela ama aparecer e ninguém percebe isso, mas eu sempre disse que ela não me engana com essa cara de sonsa.

—Viram como a Crystal veio pra escola hoje? – Vampiro perguntou. Ele era meu melhor amigo, eu amo esse filho da puta mais do que amo minha família, apesar de as vezes ele vacilar pra caralho

—Ela estava sensacional né? – Peter falou e todos o olharam com reprovação – quer dizer, ela é bonitinha – completou e deu uma mordida em seu burrito.

—Pra mim ela quer chamar atenção – Julie interrompeu

—Engraçado, né? Ano passado ela era a santa de Half Moon Bay, este ano mudou radicalmente – ironizei

—As vezes as pessoas precisam mudar, Noah – senti o clima pesar e parece que não fui o único. Julie adorava fazer esse tipo de coisa pra me fazer lembrar do nosso namoro – que foi uma merda – e que eu a magoei muito. Eu nunca senti nada por ela, essa é a verdade, mas eu não tinha coragem de terminar ao vê-la tão apaixonada por mim a ponto de fugir de casa só pra ir me ver em Nova York. Eu sinto muito por ela, de verdade, mas não havia nada mais que eu pudesse fazer.

Sexta-feira vai ter o primeiro jogo dos Lions do ano, eu estava tão nervoso que mal comia, dormia ou fazia qualquer outra coisa a não ser treinar pra caralho. Eu procurei pelo Dan o dia inteiro para irmos pra quadra e esse otário não estava em lugar nenhum, eu já estava ficando puto, odiava quando ele sumia do nada pra se drogar ainda mais na semana do jogo.

Dan tinha problemas em casa, varias vezes ele foi morar na casa de alguém do basquete ou até mesmo na rua, vivia drogado e fodia a gente quando tínhamos jogo.

—Dangerous – liguei pra ele

—Fala – disse alterado e com muito barulho no fundo

—Onde você tá, cara? Esqueceu do treino?

—Estou aqui atrás da escola – pude ouvir gritos de garotas e uma voz bem familiar.

—Com quem você tá?

—Rachel, Lauren, Yolanda e Crystal – gargalhou

—Vai pra quadra! – ordenei

—Ah, ele não vai pra lugar nenhum, não – Rachel tomou o telefone da mão dele.

Eu odiava todas aquelas garotas e não entendia como o Dan podia andar com elas, era como se ele não fosse nosso amigo, ninguém o reconhecia e nem o queria por perto.

Fui até o portão dos fundos da escola e me deparei com os cinco rolando na grama, rindo alto e Yolanda vomitando ao lado da lixeira preta e grande. Quando Dan me viu, se aproximou ainda rindo muito e disse algumas coisas que eu não entendi direito.

—Você é muito chato – Crystal gritou de longe – vá embora!

—Cala a porra da sua boca – gritei de volta irritado e pude ver ela se aproximando pisando forte.

—Tem medo? – ironizou

—De você? – soltei uma risada sem humor – tenho medo de você destruir o meu amigo com a sua ignorância – continuei

—Tem medo que eu destrua alguém? Logo você, que me destruiu? – ela me olhou com aqueles olhos castanhos escuros e eu pude perceber o quanto eu tinha raiva dela e que esse sentimento jamais passaria. Eu odiava a Crystal. Odiava o sorriso dela e seus dentes levemente separados, odiava o cabelo dela super-preto naquele corte Chanel ridículo, odiava o cheiro dela de rosas – me dava ânsia de vomito – odiava até mesmo aquela covinha que ela tinha no queixo.

Crystal P.O.V

Eu odiava o Noah. Odiava o cabelo dele bagunçado, aquela barba falhada que ele nunca fazia, os olhos grandes dele, a sobrancelha grossa e sempre arqueada, odiava mais ainda aquele casaco do time de basquete que ele sempre usava e principalmente quando ele sorria, acreditando que com aquele sorriso pudesse mudar o mundo. Eu odiava a insensibilidade dele, parecia que tinha uma pedra no lugar do coração – e talvez até tenha mesmo – ele não se colocava no lugar do outro e era o cara mais escroto que eu já conheci em toda a minha vida. Eu definitivamente odiava o Noah Berry.

E vocês devem estar se perguntando o motivo de todo esse ódio e podem acreditar, não é gratuito, ele já me fez um mal que ninguém jamais imaginaria. Mas isso eu não vou contar hoje.

Dan falou com a gente sobre a festa que daria na sexta em sua casa em comemoração aos três anos de Tigers, todas ficaram animadas e até eu fiquei um pouco, confesso, mas nada demais, eu sabia que seria a mesma merdinha de sempre: sexo,drogas e brigas. Não acontecia nada alem disso nas festas que ele organizava, já tinha se tornado clichê, mas mesmo sabendo tudo que iria acontecer, as pessoas ainda se matavam por um convite. Popularidade é tudo quando se está no ensino médio