Mentalizada
10 Capítulo 9
Nunca pensei em qual seria a sensação de beijar alguém. Mas posso descrever isso em uma palavra: Maravilhoso.
Leo era apenas meu amigo. Mas ele parece que virou algo a mais agora. Tenho uma leve impressão que as coisas entre nós dois vão mudar depois daquele beijo. Consigo me lembrar perfeitamente de cada detalhe, cada segundo, cada gesto. Era como se o mundo tivesse parado e nada mais importasse além de nós dois. Nunca experimentei algo dessa maneira.
Desde o dia em que presenciei a morte de minha mãe, meus dias se tornaram pesadelos. Todo lugar em que pasei com ela, tudo o que ela me ensinou, todas as lembranças. Isso tudo eram motivos para me entristecer. Só havia horror na minha vida. É por isso que é tão estranho ocorrer algo romântico comigo. Eu não estou acostumada. Mas não posso negar que fiquei feliz. Pelo menos irei ter algum motivo para acordar com um sorriso no rosto.
A chegada de Leo foi como uma bênção. Parece que foi de propósito ele aparecer bem depois de eu perder minha mãe. Ele me apoiou muito durante esse tempo todo em que, sem ele, eu não teria ninguém.
É incrível como as coisas que acontecem comigo parecem ser todas combinadas. Às vezes penso que, mesmo eu sendo livre do governo e do RG, estou tendo os meus dias controlados por alguém. Isso não é comum e muito menos normal. Seus dias sendo combinados, planejados e registrados. Todos os momentos definidos.
Nesse exato momento estou comendo nozes deitada no colo de Leo. Como eu lhe disse, o seu cafuné é relaxante, então ele insistiu em acariciar meus cabelos. Ficamos desse jeito desde que o nosso piquenique acabou, até agora. O silêncio tomou conta do local, mas nessa situação ele não está me incomodando. Pra falar a verdade, está até ótimo desse jeito, pois podemos observar a natureza e ouvir o som dos pássaros tranquilamente, como eu adoro o fazer.
Como na maior parte das vezes, Leo foi quem quebrou o silêncio:
— O que somos?
Fiquei um pouco confusa com a sua pergunta, mas respondi normalmente.
— O início da rebelião — me virei pra olhar para ele. — Por quê?
— Eu não quis me referir à isso. Eu quis dizer o que somos um para o outro?
Me levantei e sentei à sua frente. Suas mãos já haviam largado meus cabelos e agora estavam rente ao seu tronco apoiadas no chão.
— Disso eu não sei. Mas eu sei que você é especial pra mim. Que você é perfeito.
— Como é fofa! Por quê você teve que sair do meu colo? Volta aqui — ele imitou um olhar de cachorrinho abandonado e eu não consegui resistir.
Voltamos na posição antiga, mas, dessa vez, não tinham mais nozes. E o silêncio retornou. Certo, admito, a falta de barulhos está me deixando com uma pontinha de incômodo. Então decido continuar a conversa, só que, dessa vez, sobre outro assusto.
— Leo... Por que é que estão vindo atrás de nós? Por que o caçador está vindo novamente para a floresta? Por que meus dias estão parecendo que estão sendo controlados e planejados? — disse de uma maneira desesperada.
— Calma! Espera aí! Se você quer que eu te conte sobre o governo mais uma vez, eu conto. Mas não dá pra falar tudo de uma vez.
— Desculpe.
— Certo. O pessoal do governo já deve estar sabendo que nós estamos aqui. Sendo assim, eles irão fazer de tudo para poder nos pegar. E se isso acontecer... eu morro.
Entrei em choque total, e na mesma hora levantei extremamente desesperada do colo do Leo.
— O quê? Como assim você morre? O que você quis di...
Ele me interrompeu com um selinho. Levou suas mãos as minhas bochechas e me olhou profundamente.
— Apenas... não faça perguntas demais. Certo? — balancei a cabeça concordando.
Ele encostou sua testa na minha e fechou os olhos. Acabei fechando os olhos junto com ele e ele se deixou continuar.
— Lembra o que eu te disse sobre o RG? Que aqueles que tinham até doze anos podiam ser registrados e os que tinham mais eram mortos. Quando o meu pai criou o RG, ele só se deu conta do que havia criado um dia depois. Ele foi até a justiça e tentou reverter tudo, mas era tarde demais. Os nomes das pessoas seriam registrados no dia seguinte, sem exceções. E os que já tinham completado a idade-limite, foram mortos em praça pública. Isso foi para mostrar o início do Registramento Geral.
Ele fez uma pausa e se afastou de mim, largando meu rosto. Seus olhos continuavam fechados, mas lágrimas os forçavam à abrir. Seus olhos miraram ao chão, em um ponto específico. Era como se tudo o que havia acontecido durante essa época estivesse refletido em seu olhar e ele o tentasse esconder, guardando-o para si.
— Leo — falei levantando seu queixo até seus olhos encontrarem os meus -, eu sei que foi difícil e você tenta esquecer, mas você deve usar suas fraquezas do passado para ter motivos para ser forte no futuro. Não esconda isso dentro de si mesmo. Desabafe comigo. Eu estou aqui... sempre.
Soltei seu queixo. Seus lábios levemente grossos formaram um sorriso. Suas lágrimas foram parando na medida em que eu as enxugava com o meu polegar. Mesmo chorando ele não deixava de ser lindo. Ele me olhou atentamente e voltou a falar.
— Acho que deveríamos formar uma promessa. Desde agora só iremos chorar se for por motivos de alegria. Coisas que nós alegram. E os que forem de tristeza, seguraremos as lágrimas e não deixaremos elas saírem. O que acha?
— Esse foi o meu primeiro passo para me vingar do governo — disse mostrando-lhe um sorrisso.
Ele sorriu comigo. Era tão bom ver ele daquela maneira novamente. Aquele Leo que é confiante, esperto e forte. Que não se deixa abater por motivos bestas. Esse é o tipo de Leo que eu conheço. É com ele que eu quero enfrentar o pessoal do governo e destruir o RG. É com Leonardo Martins.
— Bem, ainda falta uma pergunta para eu te responder, certo? — ele me perguntou e eu concondei. — Então, que tal, irmos colher algumas amoras enquanto eu vou te falando sobre isso?
— Claro — respondi com um sorrisso. Não sei o porquê, mas tudo está me fazendo sorrir hoje.
Fomos andando floresta adentro. Eu estava com meu arco e flecha pronto, caso aparecesse um esquilo ou algum membro do governo. Leo carregava o potinho de sempre, onde nos acostumamos a colocar somente amoras nele. Não conseguia me lembrar muito bem do local exato da árvore, então apenas seguia para onde o Leo andava.
Já estava começando a me cansar. Não consigo identificar mais nenhuma árvore. O caminho que eu fiz para encontrar meu arco era na direção oposta e para esse outro lado eu não conheço absolutamente nada. Leo percebeu que eu estava começando a ficar para trás e deu uma pausa.
— Eu ainda não entendo como é que você foi correndo até uma árvore bem próxima da cidade e nem ficou suada, enquanto caminhar poucos metros faz você andar lentamente — disse ele confuso.
— Eu sou estranha, mesmo. Mas você se acostuma com o tempo — respondi sentando-me na grama.
Ele se deitou ao meu lado colocando seus braços atrás da cabeça. Seus cabelos levemente bagunçados ficaram refletidos com a tênue luz vinda do céu. Seus olhos estavam a observar as nuvens a desaparecem com o vento. Rapidamente, ele percebeu que eu o observara e ficou me encarando. Desviei mu olhar e comecei a olhar para as nuvens, como ele antes.
— Por que você só usa camiseta preta, Bella? — ele me perguntou fazendo-me analisar minha roupa.
— Ah! É que minha mãe dizia que é uma forma de se misturar no meio da floresta. Por quê?
— É que eu te vejo usando apenas ela e ainda por cima seu cabelo também é preto. Assim você quase não possui cores.
— Eu sei. Mas eu acho que não conseguiria me vestir muito colorida. Eu não conseguiria me ver em meio à um arco-iris.
— Tudo bem. Você continua sendo perfeita, mesmo usando preto.
Corei novamente. Ele, mais uma vez, estava me elogiando e quando isso acontece não consigo evitar ficar vermelha. É um costume que eu acabei desenvolvendo quando o conheci. Minha cabeça estava abaixada. Tentei evitar que ele me visse com as bochechas daquela maneira, pois ele iria me chamar de fofa, o que faria eu corar mais ainda.
— O que acha de voltarmos a procurar as amoras? — ele perguntou-me.
— Certo. Já descansei o suficiente.
Ele se levantou e voltamos a andar. Por mais incrivel que pareça, não demorou tanto para chegarmos à árvore. Começamos a colher todas que estavam maduras e, uma ou outra, não conseguimos evitar comer.
Havia uma amora bem no topo da árvore, a qual eu não estava conseguindo pegar nem pulando. Senti duas mãos a envolverem minha cintura e me levantarem para pegar a fruta. Leo...
Ele me colocou no chão lentamente e com cuidado, abraçando-me por trás e beijando minha nuca. Ele foi em direção a minha orelha e sussurrou:
— Da próxima vez, deixa que eu pego as que estão no alto — sua voz sedutora e maravilhosa fez meu corpo arrepiar-se por completo.
— Claro, senhor das amoras altas! — disse da mesma maneira que ele.
Ele me soltou e virou-me nos calcanhares segurando em meus ombros. Me olhou profundamente dentro de meus olhos, me fazendo derreter por dentro. Seus olhos cor de mel ficaram encarando os meus. Não conseguia me livrar daquele olhar.
— Qual era mesmo sua última pergunta? — perguntou Leo, estragando o clima.
— Ah... Por que meus dias estão parecendo que estão sendo planejados e controlados?
Algo me diz que ele se chocou com a minha pergunta, pois a sua reação em seguida não foi a que eu esperava. Ele soltou meus ombros, pegou o potinho com amoras e o tampou. Segurou em minha mão e foi andando rapidamente — mais parecia que estava correndo — em direção ao nosso abrigo.
— Leo! Por que estamos correndo? Espera!
Ele não me ouvia. Apenas continuava segurando minha mão fimemente para eu não soltar e continuava a seguir seu caminho. Eu continuei a implicar, até que chegamos ao nosso abrigo e ele fez questão que eu entrasse dentro da caverna. Ascendeu algumas velas e começou, finalmente, a responder minha pergunta.
— O que eu vou te falar é muito perigoso. Isso que está acontecendo com você não é comum, é algo que só acontece com aqueles que são realmente rebeldes. Aqueles que desafiam o governo, desobedecem regras e leis, não cumprem punições. Aqueles que querem se vingar de algo e ir contra o RG, como você, acabam sendo mentalizados.
— Mentalizados? E... o que significa isto? — perguntei gaguejando um pouco, devido ao medo.
— Significa que você está em perigo. Provavelmente, quando o caçador veio para cá e encontrou você e sua mãe, ele perguntou se vocês haviam passado pelo RG, certo? — balancei a cabeça concordando. — Como vocês não passaram, ele mentalizou vocês duas. Mas como matou sua mãe, ele acabou mentlizando apenas você.
Ele fez uma pequena pausa, e momentos de tensão invadiram nosso local.
— Mentalizar alguém é gravar seu rosto, tamanho, aparência e levar para o governo. Assim que eles souberam de você, mandaram a nevasca para tentar te matar. Como não funcionou, eles enviaram o caçador atrás de mim, pois viram que eu era a única pessoa com quem você tinha contato. Assim eles te deixariam abalada por ver que todos que se aproximarem de você, morreriam.
Isso me deixou paralisada. Significa que minha mãe morreu por minha causa? Que o Leo quase teve sua vida tirada por minha culpa? Que o governo está atrás de mim e de todos que eu tenho contato?
— Mas, não se preocupe. Mesmo você estando mentalizada, eu também estou agora. Não vai demorar muito para o governo descobrir que matamos o caçador. E eu estava junto, então sou outro mentalizado.
— Isso significa que...
— Sim — ele me interrompeu. — Somos dois rebeldes que querem se vingar do governo, do RG e do meu pai.
Dei um abraço apertado nele, enterrando minha cabeça na curva de seu pescoço. Ele me abraçou de volta lhe sussurrei em seu ouvido:
— Obrigada por estar do meu lado. Eu não conseguiria sem você. Obrigada!
Ele me abraçou mais forte e ficamos assim por um tempo. Dois mentalizados em perigo que querem ir para guerra. Assim que nos afastamos ele entrelaçou seus dedos nos meus e ergueu nossas mãos ao alto. Ele me olhou atentamente e disse palavras de ordem, se referindo ao governo.
— A partir de agora seremos o início da rebelião. Somos Leo e Bella e usamos nossas fraquezas para termos motivos para sermos fortes. Vamos para guerra em busca dos direitos que não temos. Destruiremos o RG e libertaremos cada uma das pessoas que tiveram seus nomes escritos nele. E o governo que se prepare!
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