Mentalizada
7 Capítulo 6
Imaginem-se em uma situação onde você está sem forças e incapacitado de se movimentar. Que estava passando por dentro de um cubo de gelo e não conseguia enxergar quase nada. Que por mais que você se esforce, não tem como se levantar, apenas pode ficar caído por cima da neve congelante. E ainda por cima só consegue escutar os ventos carregando flocos de neve e batendo nos galhos congelados das árvores. É essa situação que eu passei.
Para piorar, eu havia acabado de entrar em uma escuridão sem fim e do nada eu enxerguei a claridade invadindo meus olhos. No início pensei que havia morrido, mas aos poucos me deparei com um ambiente bem familiar. A minha caverna.
— Olá! Está tudo bem? Está conseguindo me entender? — Um ser, com um rosto também familiar, estava demasiado perto de mim encarando meus olhos à alguns centímetros de distância de meu rosto.
Minha vista estava embaçada, o que não ajudava. Esfreguei os olhos para ver se conseguia enxergar novamente as coisas de um modo nítido. Pisquei algumas vezes e logo reconheci o ser que estava à poucos centímetros de distância de mim. Leo.
— Você está viva! Eu não acredito! — Ele gritou levando suas mãos as minhas bochechas. — Você está viva. — Ele me abraçou com força e eu tossi um pouco, o que fez ele se afastar.
— O que aconteceu? — Fiz o que consegui pra tentar minha voz firme, mas ela saiu trêmula e baixa.
— É tudo culpa minha... — Ele me soltou e se afastou, mirando seus olhos ao chão.
— Não é culpa sua... Calma!
— Claro que é, Bella! Eu não devia ter mandado você buscar aquelas maçãs. É tudo culpa minha. Minh...
Interrompi-o levando meu dedo indicador aos seus lábios. Havia chegado demasiado perto dele, e nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância. Ele rapidamente se calou e começou a me encarar olhando profundamente em meus olhos. Retirei meu dedo lentamente. Dava para se reconhecer a culpa que ele sentia estampada em seu rosto. Mas não foi culpa dele.
— Apenas me diz o que aconteceu. Eu preciso saber! Por favor, Leo! — Pedi. Ele ficou quieto por uns três segundos e depois voltou a falar.
— Certo. Mas é uma longa história...
— Não se preocupe, tenho tempo de sobra.
— Então vamos lá...
E ele me contou. Ele havia ido colher amoras, para comermos junto das maçãs, quando percebeu a nevasca se aproximando. Olhou atentamente para ela, mas parecia haver um limite que impedia da neve chegar até ele. Leo se aproximou um pouco mais, e os flocos de neve não passavam daquele ponto. Existia um local definido para a neve atingir. Isso impediria dela o alcançar. Uma parte da floresta estava nevando, enquanto a outra, por mais estranho que possa parecer, continuava normal e quente. Foi aí que ele se lembrou de mim.
Rapidamente largou as amoras dentro do meu potinho que havia levado e começou a correr nevasca adentro. Seus braços estavam descobertos, pois havia me emprestado sua jaqueta. Os ventos congelantes lhe penetravam por dentro de sua camisa. Seus músculos gritavam por calor. E ele gritava por meu nome. Mas como não obteve resposta, continuou correndo até encontrar pegadas no chão. Logo reconheceu minhas botas. Começou à segui-las esquecendo-se do frio. Mas por mais que ele corresse, mais longe eu parecia estar. Até uma hora em que ele ouviu sussurros de alguém gritando por socorro. Era eu. Suas pernas correram mais ainda — numa velocidade que nem ele pensou que fosse possível -, avistando meu corpo caído na neve. Imóvel e gelado.
— Bella! Acorda! Acorda! — Ele gritava enquanto sacudia meu corpo.
Se ele estava a procura de uma reação minha, acabou sem sucesso. Não enxergando outra maneira de levar de volta, me carregou no colo, como uma noiva, até o nosso abrigo. Estava difícil de correr, então andou no passo mais rápido que conseguiu. Ao chegarmos ele me colocou dentro da caverna deitada e tentou me acordar. Eu não respirava. Estava sem pulso. O que não lhe deu outra escolha a não ser... fazer respiração boca a boca. Sim, isso mesmo. Ele me beijou.
— Depois disso você tossiu um pouco. Você já estava acordada, então sabe o que aconteceu depois.
— Você... — Levei as mãos a boca. — Encostou seus lábios nos meus...
— Ou eu fazia isso ou você estaria a caminho do cemitério. O que preferia?
Claro que se eu estivesse que escolher, já dá pra saber que eu iria preferir que ele me salvase. Mas a sensação de imaginar que seus lábios encostaram nos meus... Não é tão agradável. Mas o melhor, pelo que eu acho, é esquecer isso tudo. Pensar apenas que ele me trouxe da neve até a caverna normalmente e depois eu acordei. Eu estou preferindo acreditar em uma mentira, mas é o melhor para mim nesse momento. Caso contrário, não conseguiria conversar com o Leo de uma maneira normal.
O silêncio que tomava conta do espaço começou a me incomodar. Um simples contato entre nossas bocas já mudou a relação entre nós. Era isso que eu temia. Não conseguir ter um papo numa boa com o Leo sem que a lembrança de ele ter me salvado retornasse. Ele deve ter percebido que eu estava sem jeito. Prova disso foi o que ele falou a seguir.
— Bom... — Ele colocou sua mão direita em meu ombro e olhou profundamente em meus olhos. — Que tal eu te contar mais sobre o governo e o caçador? Ou sobre o que eles fariam se te achassem, ou sobre...
— Leo! — o interrompi. Não levei meus dedos aos seus lábios, como de costume. Dessa vez apenas falei. — A gente havia combinado que você só me contaria se eu lhe trouxesse as maçãs. E eu não consegui trazê-las.
— Isso significa que você não quer discutir sobre como vamos destruir o governo? Ou o RG?
— Não, não é isso. Eu só não quero lhe forçar a falar nada além do combinado. Eu quero saber, mas...
Voltamos ao silêncio. Pra falar a verdade, eu estava desesperada em busca de informações. Mas força-lo a me contar seria como se estivesse lhe obrigando a quebrar o nosso acordo. Não quero que ele se esforce em demasia por mim. Ele já me fez o suficiente. E eu? O que eu fiz para retribuir sua ajuda? A primeira coisa que fiz quando lhe conheci foi gritar com ele na floresta. Eu não merecia nada do que ele me fez. Se ele falasse que a partir daquele momento iria me ignorar, eu não poderia discordar. Ele tem todos os motivos do mundo para não me ajudar a destruir o RG. Ele podia muito bem me abandonar ali e seguir com a sua vida. Por que ele ainda me ajuda?
Sou eu a rebelde. A que quer ir contra o governo, a que quer destruir o RG, a que quer vingança, a que quer mudar o mundo, a que quer... justiça. É isso! O Leo deve estar me ajudando porque ele também quer justiça. Ele não concorda com a ideia que o governo criou sobre o Registramento Geral. Só pode ser isso. Qual outro motivo ele teria para estar do meu lado?
Mas, se eu estiver certa e o Leo quiser ir contra o governo porque também têm raiva do RG, significa que ele possui raiva do próprio pai. Não é possível. Eu devo estar errada, o Leo deve apenas estar querendo me ajudar porque é meu amigo, mas ele não quer vingança. Deve estar apenas me apoiando.
— Ei, por que você não continuou sua frase? — Perguntou Leo, retirando-me de meus pensamentos.
— Certo, já que você insiste em me contar sobre o RG e o governo, tudo bem. Vai em frente, conta!
— Mas eu não disse... — Lancei um olhar penetrante para ele. — Então vamos lá, por onde eu começo?
— Me conte a sua opinião sobre o governo, sobre o RG e sobre o antigo emprego de seu pai.
— Mas... Bella, eu...
— Por favor, Leo! Me conta! Eu preciso saber... — Imitei um olhar de cachorro chorão e ele segurou um riso.
— Você fica fofa com esse olhar! — Seu olhar era provocador, o que fazia meu rosto ferver. — Mais fofa ainda com essas bochechas! — Minhas bochechas deviam estar tão vermelhas que os tomates sentiriam inveja de minha cor. — Quem é que resiste à alguém assim? Vou te contar então.
Ele suspirou e então disse:
— Meu pai decidiu trabalhar no governo quando nossa família começou a enfrentar uma crise financeira. Desde esse dia eu passei a odiar ele e o povo da governação. Meu pai sempre foi super gente boa, mas quando começou a governar a Califórnia, tudo mudou. Nessa época não existia o RG, nem a data-limite, nem o livro do Registramento Geral. Mas passou a existir assim que meu pai pisou dentro daquele edifício. Daquele maldito edifício! Meu pai foi Roger Mojees. O criador do RG.
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