Mentalizada
6 Capítulo 5
Eu estava à caminho da macieira. A tarde estava por acabar e noite se aproximava. Leves brisas batiam pelas folhas secas fazendo-as cair das árvores. Como já estava anoitecendo, o frio chegava em meus braços arrepiados e os fazia tremer. Sorte a minha ter pegado a jaqueta do Leo emprestada antes de vir, caso contrário teria virado uma pedra de gelo.
Leo havia me cobrado as maçãs durante um bom tempo. Ele me ajudou, me acolheu, me apoiou e depois acabou por me magoar. Ainda não sei se ele é realmente meu amigo. Mas algo dentro de mim, que eu não sei de onde vem, me diz que eu posso confiar nele. Talvez seja minha consciência. Mas não sei sei se devo acreditar nessa voz. E se eu o fizer e acabar por me magoar de novo? Não quero que isso aconteça. Prefiro agir normalmente com ele, quem sabe, assim, ele não me magoe.
De onde estou consigo avistar as maçãs à, mais ou menos, uns cem metros. Cruzei os braços e coloquei a toca da jaqueta para me esquentar mais. Comecei a correr lentamente em direção à macieira. Conforme apertava os passos, meus calcanhares congelados começavam a doer. Então parei e voltei a andar. Quanto mais caminhava mais longe parecia estar a árvore. De repende senti algo duro contra as pontas de meus dedos do pé direito.
— Argh! — gritei de dor.
Havia caído com os joelhos e as mãos no chão — o que fez com que as minhas palmas estivessem raladas. Olhei para ver e acabara de tropeçar em uma pedra. Meus dedos doíam, então decidi me sentar e massagea-los ali mesmo. Péssima ideia. Ao tirar minhas botas vi-me com os dedos duros de tão frio. O dedão estava dolorido demais para eu conseguir voltar à caminhar. Mas se continuasse ali, acabaria por morrer congelada.
Levantei-me — contorcendo de dor — e comecei a mancar. A árvore estava à uns dez metros, mas para quem estava com o pé machucado parecia uns trinta.
O Leo me paga!, pensei. Literalmente não sei o que sinto por àquele garoto. Mas eu me vejo na obrigação de estar presente ao seu lado. Como se ele precisasse de um ombro amigo para lhe apoiar, para ter com quem contar. E essa pessoa sou eu. Tenho uma leve impressão de que ele está me escondendo uma informação importante sobre seu passado. E provavelmente deve ter a ver com sua família. Não quero lhe perguntar muito sobre seus parentes, pois acredito que seja um assunto delicado para ele e que deve ser cuidado com cautela. Mas como não tenho certeza é melhor esquecer disso por enquanto.
Finalmente consegui chegar à árvore.
Nunca havia pensado que colher maçãs seria tão complicado, mas acabei de descobrir. Me lembrei da última vez que as peguei, um pouco antes de conhecer o Leo, e não foi tão difícil como agora. Olhei para o alto, para checar o tamanho da macieira, e quase morri de susto. Sim, eu não me lembrava de como era grande, ainda mais para quem tem um pé machucado.
Fiquei alguns segundos à encarar o tronco até observar certas partes que eu podia me segurar e subir. Encaixei as mãos e um dos pés — o que não estava dolorido — e comecei a escalar.
O frio não ajudava, apenas fazia com que me causasse arrepios enquanto eu estremecia. Meus dentes começaram à bater constantemente e meus lábios já deviam estar roxos. Fixei minha visão ao chão, na expectativa de estar pelo menos na metade do tronco. Sem sucesso. Eu ainda estava à uns cinquenta centímetros de altura. Pulei para o chão e sentei encolhida ao lado da árvore. Não havia maçãs pertos o suficiente para eu conseguir pular e alcançá-las.
Algo caiu em meu nariz. Uma coisa gelada e pequena, com um formato bem bonitinho. Depois outra e mais outra. Olhei ao céu e centenas dessas coisinhas estavam caindo. Neve. Flocos de neve.
— Oh não! — disse com a voz rouca. O frio estava afetando minha garganta.
Se eu continuasse aqui morreria, literalmente, dentro de um cubo de gelo. Mas se eu voltar sem as maçãs ficarei sem informações e é bem provável que o Leo não queira falar comigo. Eu preciso de um abrigo que me proteja da neve e, ao mesmo tempo, me disponha de alimentos pertos. Mas se eu fizesse isso poderia deixar o Leo preocupado comigo e teria a chance de ele querer sair da caverna à minha procura.
O que eu faço? Pensa Bella, pensa... Eu não sei o que eu posso fazer. Mas ficar parada aqui não irá ajudar.
Decidi que iria voltar à minha caverna e explicar a situação ao Leo. Afinal, quem descobriu aquele lugar fui eu, e tenho todo o direito de permanecer nele. Ou talvez não. Não passei pelo RG e por esse motivo não possuo direitos. Nenhum direito. Não vejo a hora de chegar lá, em minha quentinha e espaçosa caverna, e descobrir tudo que eu não sei a respeito do governo. Assim poderei partir para a próxima etapa: encontrar o ponto fraco deles.
Tentei andar o mais rápido que pude, mas eu devia estar à uns quinze passos por minuto e meu pé não estava querendo colaborar. A neve apertou e eu podia sentir meu rosto totalmente branco e gelado. Minhas mãos perderam o movimento dos dedos, de tão duros. Meus cabelos pretos, lisos e compridos estavam parecendo de uma senhora de tanta neve que continha.
Não iria conseguir. Eu preciso de ajuda. E rápido.
Minha caminhada acabou diminuindo para dez passos por minuto. Isso só fez com que eu perdesse quase todo o controle. Para piorar, ventos gelados batiam contra meu rosto ao longo do caminho. Apertei minha jaqueta — que não era minha, e sim do Leo — com mais força e virei o rosto para o lado fechando os olhos. Com uma das mãos, que estava uma pedra de gelo, coloquei a frente de meu rosto e voltei a andar.
Cada passo doía mais. Meus dedos dos pés estavam na mesma situação dos das mãos. Minha toca voou para trás e não consegui pegá-la. Minhas orelhas estavam desprotegidas e duras de frio. Isso fez com que eu não conseguisse escutar tão bem.
Cinco passos por minuto. Minha situação não era das melhores. Meu ritmo lento me fez perder o controle completo do que se passava à minha volta. Minha cabeça dava voltas e voltas, impedindo-me de pensar em algo. Olhar à minha volta não ajudou, pois só havia árvores cobertas de neve e folhas caindo.
Minhas pernas estavam apenas com uma jeans fina preta, que agora ficou branca como minhas botas. Meus pés cobertos de neve. O chão não havia como se enxergar mais nenhuma parte com terra. Não demorou muito para que eu percebesse que minhas pernas estavam imóveis e não conseguia andar. Entrei em desepero.
— Socorro! Cof! Cof! — Tentei gritar, mas acabei tossindo. Minha voz saiu completamente baixa. A não ser que eu não estivesse escutando bem, por culpa de meus ouvidos. — Socorro! Alguém, por favor! Socorro!
Era inútil. Ninguém me ouviria nessa tempestade. Eu tinha de aceitar que aqueles eram os últimos minutos de minha vida. Depois eu... eu... morreria. Acabei por despencar no chão. Minha bochecha esquerda entrou em contato com a neve e na mesma hora parecia ter queimado. Meus olhos ficaram com a vista embaçada.
Talvez o destino quisesse que eu ficasse ali, para não me revoltar contra o governo e causar uma guerra novamente. Pode ser que estejam querendo retirar-me a vida aqui mesmo, a própria natureza deve estar se revoltando comigo. Depois disso encontraria minha mãe novamente, mas não da maneira como queria.
Meu corpo estava imóvel. Era como se já estivesse perdido todos os sentidos. Minhas palmas raladas entraram em contato com a neve. A sensação era de queimadura, mas depois de alguns segundos ficou relaxante, aliviando a dor. Se continuar assim, essa será uma das últimas dores que sentirei em minha vida. Depois disso eu... não quero imaginar.
Tentei apreciar as últimas cenas que me passariam pela cabeça. A tempestade, os flocos de neve, a visão de tudo branco, as folhas caindo dos galhos congelados. Também havia meus braços, que estavam incapacitados de se moverem, à minha frente quase cobertos completamente de neve. Se pudesse movê-los, cavaria um buraco no chão até encontrar terra. A única superfície que eu realmente confio.
Uma das últimas coisas que me lembro de ter visto foi um vulto correndo em minha direção. Ele gritava meu nome e vinha bem depressa. Seria um anjo que me levaria para o céu?
Depois disso eu não me lembro de mais nada.
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