Mensagens para Inverno
4 Químicarreguem parte 2
Notas iniciais
Após o fim da ultima aula Sam guardou rapidamente seu material, pôs dentro da mochila e correu em disparada para o saída da ala C. Marcara de encontra Anna ali. Caminhou em passos largos e em alguns minutos estava lá. Demorou pouco para encontrar o cabelo amarrado em rabo de cavalo de Anna entre os estudantes que saíam rumo ao estacionamento.
— Então, como vai ser? — Sam perguntou com um sorriso largo. Naquele dia em especial estava se sentindo energético e bonito. Seus cabelos lisos e negros brilhavam, caía levemente sobre o rosto. Vestia um boné pra trás, uma T-shirt branca sem estampa, calça cargo masculina marrom e um tênis comum. Anna estava com um cropped rosa claro, quase branca e uma calça boca de sino, meio retrô, pensou Sam.
— Bom vamos analisar... — Ela puxou a fita do grande cabelo castanho, que caiu suavemente sobre os ombros.
— Você não faz realmente nada sem fazer análises matemáticas? — Sam riu e Anna fez uma careta.
— Se vamos curtir mesmo é bom ir com o Uber.
— Eu adiciono uma parada na sua casa e vamos — Sam deu uma suspirada e olhou ao redor. De relance percebeu que Anna o observava.
— Você ta bem animado pra essa festa né? Tem algum motivo?
— Hm... — Sam pensou em algumas coisas. Anna estava certa, Sam estava animado até demais para a festa. Se ela o conhecesse ainda mais diria que ele está doente, ele não é das pessoas mais decidida a ir a lugares com muita gente. — Eu não sei — ~Sam não estava mentindo~
— Tá — Anna balançou o ombro com indiferença, como se tentasse afastar algum pensamento.
Eles andaram até uma lanchonete ao ar livre que ficava próximo ao campus. Sentaram e pediram MilkShakes, ela de Baunilha e ele de Oreo. Conversaram sobre as matérias (Anna o ensinou sobre um calculo dificílimo sobre quantidade de Mol), sobre como o clima está indo de frio para ameno e finalmente voltaram a falar sobre a festa.
— Então... Você é daqueles que pega todo mundo em festa? — Anna falou sorrindo e observando Sam com malícia no olhar.
— Eu?
— Você mesmo.
— Sai fora.
Anna gargalhou alto. Voltou sua atenção para Sam e disse meio envergonhada — Eu meio que estou flertando com alguem...
— No waaay — a empolgação de Sam era visível nos olhos.
— Ele vai estar lá hoje a noite.
— Nossa se você me fizer ficar segurando vela pra você eu juro que vou no banheiro e tomo chumbinho. — Sam falou brincando. Ele se sentia bem a vontade de Anna, ela foi no caso a primeira real amiga que ele ja teve. Eles discutiam sobre tudo e ele sentia que podia falar qualquer coisa pra ela, desde as besteiras e piadas prontas que ele guardava até mesmo seus medos vergonhosos. Gostava de sentir essa proximidade com ela.
— Não vou bobão, ainda não estamos assim... — Ela olhou novamente com malícia — Mas você realmente não vai pegar ninguém?
— Por que você quer me ver beijando alguém? Isso é meio fetichista não acha? — Anna socou de leve o ombro de Sam.
Já era quase 21:00 horas quando Sammuel chegou a casa de Anna, era uma casa relativamente simples, não tinha decorações luminosas escandalosas ou cortes bregas de animais em arbustos. Era somente uma casa simples numa esquina simples.
Demorou pouco tempo até Anna descer e entrar no uber, ficando ao seu lado. Usava um conjunto em look preto. Sam estava de camiseta preta com uma jaqueta preta com as listras da Tommy em seu acabamento.
— Ta um gato. — Ela olhando de cima a baixo.
— Você também, nem parece uma maquina sobre-humana.
Foram longos 16 minutos até chegar ao local. Não era exatamente o que Sam esperava, pensou que era uma festa numa casa chique, mas ainda sendo uma casa de família, mas era bem o oposto disso. Era uma mansão com guardas na entrada, holofotes no céu, luzes saíam das janelas da mansão e as pessoas faziam fila com os carros para entrar (embora estivesse bem rápido).
Quando chegou a vez do uber, Sammuel e Anna mostraram o QR code do convite para os seguranças, o mesmo escanearam com os próprios celulares e permitiram a entrada. O carro os deixou próximo a casa, num local onde fizeram para desembarque.
— Sammuel? — Anna começou
— Sim?
— Diz que você não acha isso tudo normal...
— Eu consigo ver um heliponto daqui — Sam apontou para um canto distante ainda sobre as extremidades da mansão.
— Jesus.
Eles caminharam até a entrada principal. Conseguiram reconhecer alguns alunos pelo rosto, mas a grande maioria, tanto ele como ela, nunca tinham sequer trocado palavras com eles. Depois de adentrar a mansão perceberam que era ainda maior por dentro. Era um grande salão oval com escadas circulares nas laterais que levavam até o segundo andar, mas a festa inteira se concentrava naquele grande "O" em festa. Havia mesas com todos os tipos de bebidas e tira-gostos, quadros de metros de largura pendurados nas paredes. Um palco pequeno montado no final do salão erguia um paredão de caixa de som e jogos de luzes, atrás de tudo isso um DJ.
— CARALHO — Anna exclamou.
— Queria que Thiago e Lukas pudessem ver isso
Não demorou muito para pegarem suas primeiras (de muitas) bebidas. Anna logo trocou algumas mensagens com o cara que estava flertando, que logo chegou e se apresentou como Dylan. Era moreno e bem alto, se Sam pudesse nomear seu estilo diria que ele parecia um Badboy e que não fazia bem o estilo nerd porém sagaz de Anna. Pelo pouco tempo que ele a conhece (que deve ser por um mês e meio), Sam poderia dizer que Anna poderia ter qualquer cara que quisesse na mão, pela beleza que possuía. Porém ela faz pouco caso de alimentar reais crushes e se vê mais interessada em calcular pessoas do que de fato beija-las.
Passado algum tempo, Sam decidiu andar pela festa. Descobriu que o salão se extendia por algumas portas, havia uma cozinha gigantesca que estava lotada de pessoas conversando com copos de bebida na mão por todos os lados. Adentrando mais encontrou uma saída que dava para uma das áreas externas da mansão. Era uma área com cobertura de madeira rustica, decorada com luzes de pisca pisca e plantas trepadeiras. alguns sofás e cadeiras de balanços ocupadas por adolescentes que conversavam e riam freneticamente.
Sam passou por entre as pessoas, cumprimentou um dos colegas de uma matéria que ele assiste as quintas e continuou a vasculhar a festa. Passou descontraído por um grupo de pessoas e de repente sentiu uma mão em seu braço. Virou-se de repente e deu de cara com Lian.
— Lian? — Sammuel pareceu mais surpreso do que deveria.
— Oi — Seu cabelo longo e loiro caía sobre os olhos. Seus lábios carnudos e vermelhos se abriam em um sorriso branco e autêntico. Usava um moletom todo preto com uma calça jeans rasgadas e uma shoulder-bag também preta. Ele soltou o braço de Sam e pôs-se de lado para apresenta-lo ao amigo — Esse é Nicholas Albert, ele é do segundo ano de engenharia química. — Sam apertou a mão de Nicholas meio sem jeito. -Ta ajudando a desenvolver junto com os biotécnicos uma forma de injetar medicamentos no paciente por infusão, sem precisar furar...
Sam olhou com admiração para Nicholas — Genial. — De fato era demais, surpreendente alguém do segundo ano já estar num projeto tão grande.
— Ele também é o dono da festa. — Sam sorriu de orelha a orelha, fazendo seus olhos desaparecerem.
— Ah, claro. Eh... — Sam ficou tímido por um instante, por sequer conhecer o dono da festa em que foi — Você tem.... Ah... bela mansão... —
— Valeu — agora que ele falou, Sam teve a impressão que ele estava levemente alcoolizado. — Se é amigo do Lian é meu amigo também — Ele passou o braço entre os ombros de Lian e depois nos de Sam, que lançou um olhar meio "wtf" para Lian, o mesmo respondeu com um olhar de "só vai".
— Vamos jogar Fli (soluço) vamos jogar flip (soluço novamente) Flip Cup!- Nicholas parecia animadamente bêbado demais para esse tipo de brincadeira. Sam olhou novamente pra Lian que só balançou a cabeça negativamente enquanto ria. Ele estava se divertindo, tava na cara dele.
Nicholas falou mais algumas vezes e não demorou muito para os amigos que escutaram arrumarem umas mesas com vários copos. O jogo era 1x1 e consistia em: Cada mesa possuía duas fileiras de 10 copos, uma lateral a outra. Os jogadores que se enfrentarem devem começar bebendo todo o conteúdo do primeiro copo da fila e logo em seguida colocar ele na ponta da mesa. O objetivo é conseguir virar o copo vazio de ponta pra baixo batendo somente com o dedo. Após conseguir você bebe o segundo copo da fileira e tenta novamente. Aquele jogador que chegar no décimo copo primeiro vence o jogo.
— O ganhador leva o que? — Lian perguntou. Aquele tom de voz intrigava Sam, como se ele estivesse confiante demais que ia ganhar.
— O jogo é um contra outro né? Que tal o ganhador escolhe algo pro perdedor fazer, o perdedor não pode recusar. — Disse uma garota que estava ajudando a por bebidas nos copos da mesa.
— Fechou — Lian falou
— Pera qualquer coisa? — Sam falou meio assustado.
— Uhum, tipo postar no Instagram sua galeria de prints... — Ela olhou pra Sam com um sorriso cruel — Conheço pessoas que se comprometeriam com isso — e riu.
Sammuel olhou pra Lian e depois para as pessoas que estavam começando a se reunir para jogar também, eram ao todo umas 7 mesas com copos cheios de bebida.
— Acho que não vou jogar não — Sam cochichou pra Lian.
— Vai sim. — Ele tinha um sorriso insuportavelmente lindo demais para Sam. — Joga comigo, você sabe que não faria você passar alguma vergonha. — Sam tomou alguns segundos de indecisão, olhou nos olhos claros de Lian, pestanejou um pouco e depois disse.
— Tá, mas se eu ganhar você me paga. — Lian sorriu mais ainda.
Então os jogos começaram simultaneamente. As pessoas ao redor assistiam e algumas até torciam pra algum amigo em especifico. Lian e Sam ficaram frente a frente na mesa, como oponentes. Dado o sinal, os dois viraram o primeiro copo, o gosto forte de vodka com sprite invadiu a boca de Sam. E em questão de segundos Lian havia emborcado o primeiro copo, enquanto Sam ainda tentava. Lian bebeu o segundo copo e estava ainda na tentativa quando Sam o alcançou. Lian emborcou o segundo, logo o terceiro e Sammuel seguia por trás. Até que Sam se atrapalhou no quinto copo (enquanto Lian estava no sexto) e derrubou a bebida na mesa. A garota que estava de júri na mesa disse que Sammuel teria que encontrar algum copo pra beber já que ele havia derramado um. Sam olhou pra trás onde um rapaz magrelo e com óculos observava o jogo deles com o copo de bebida cheia na mão.
— Licença, daqui a pouco eu pego um novo pra você. — Sam tomou a bebida das mãos do rapaz e virou em dois goles. Logo tornou a mesa. O ato provocou animação em quem assistia, mas já era muito tarde, Lian estava virando o nono copo e foi questão de um minuto até ele ficar com a vitória. Todos vibraram e riram. Sam olhou ao redor e só então percebeu que bebeu oito copos drinks simultaneamente, ele se sentia enjoado mas ao mesmo tempo super animado, talvez pela adrenalina.
— Uau — a voz de Anna ressaltou a barulheira e Sam virou para o lado. Ela estava ainda acompanhada de Dylan. — Quem diria que você seria o bebum do rolê.
— Eu não sou o bebum — Anna e Dylan riram, Sam sorriu com a situação toda. Logo Lian chegou próximo e Sam se viu na necessidade de apresenta-lo.
— Então, esse é meu amigo Lian. Lian essa é a Anna e esse é o Dylan.
— É um prazer. — Todos se cumprimentaram. Então Anna comentou:
— Então, o que vai pedir de prenda pra Sam? Eu tenho umas ideias boas. — disse rindo, rodando o canudo da bebida em que estava bebendo.
— Anna eu vou vomitar em você eu juro — Sam ameaçou.
Lian só riu e disse que não fazia ideia ainda. Anna e Dylan voltaram para dentro.
— Você quer beber o que? Vou la pegar. — Lian falou com serenidade, ele parecia estar o tempo inteiro contente.
— Você virou dez copos inteiros de bebida e aguenta mais? — Sam comentou. Lian revirou os olhos e virou de costas para ir até o bar. Sam pensou melhor e disse — Lian... Er... Caipirinha? — Lian mostrou a língua e falou algo como "é disso que to falando porra".
Sam acompanhou Lian com os olhos. Tinha alguma coisa alí, Sam podia sentir. Era algo estranho, a boca amargava quando Lian estava por perto, não era o álcool. O estomago embrulhava e Sammuel não sentia tanta firmeza nas palavras. Era como se sua presença deixasse tudo muito avoado, se sentia nervoso perto de Lian. Tudo isso é muito confuso.
Lian voltou com dois grandes copos de bebida, o de Sammuel tinha uma rodela de limão, era caipirinha. Os dois pegaram suas bebidas e caminharam pela área externa, sem algum rumo aparente.
— Sabia que você tem cara de quem tem o "nariz empinado"? — Sammuel comentou enquanto os dois andavam.
— Mas eu sou — Lian fingiu um olhar sério.
— Eu não duvido — Sam tomou pôs o canudo da caipirinha na boca, tomou um gole voltou a falar — Primeiro dia de aula você me viu em sala e fingiu que não.
Liam olhou pra ele, os grandes olhos azuis, sorriu de lado — Você reparou nisso? -
— Que foi? — Sam ficou nervoso. Deixou as palavras saírem antes e filtrar e percebeu que deixou escapar que ele observava Lian.
— Nada... — Lian voltou o olhar pro campo. Estavam em grama agora, a alguns metros da área onde as pessoas da festa estavam. Olhou ao redor e sentou no chão — Eu não tava num dos meus melhores dias.
Sammuel o olha com empatia. Virou-se de lado e sentou.
— Já pensou como seria sua vida se ela fosse medíocre? — Lian olhou pro rosto de Sam. Não tinha sorriso em seu rosto, estava olhando em seus olhos. Estava comprimindo seu maxilar, realçando sua mandíbula, era um sinal de ansiedade clara.
— Medíocre?
— Sim, digo, já imaginou como seria sua vida se você tivesse nascido em uma família comum? Onde você precisasse trabalhar pra poder sair com amigos... Sei lá, ter vizinhos normais em casas de esquinas normais.
— Onde está querendo chegar Lian?
— É só que...- os olhos de Lian dançavam observando o rosto de Sammuel. Ia dos olhos a boca, pairava no cabelo e depois voltava aos olhos. Sam se sentia acuado. — É que... — Ele voltou a olhar pra frente ao campo — Qual o sentido de termos acesso tão fácil a tudo? Estamos na universidade mais almejada do país, e uma das mais importantes do mundo. Mas eu não sei o porquê de me sentir tão "sem norte".
— Você não está sem norte, você tem uma ótima pesquisa em mãos agora.
— Exatamente, temos quase tudo não é? O que vamos fazer quando não tivermos mais criatividade pra inventar o que perseguir? Você tem uma família que é podre de rica, Sam — Ele voltou a olha-lo nos olhos. — Você também não se sente como numa grande mansão vazia e oca?
Sammuel o fitou por alguns instantes. Não sabia que Lian tinha esses tipos de pensamento sobre sua condição social, muito menos imaginou que fosse um problema. A verdade era que Sam nunca de fato tinha pensado que realmente foi muito fácil pra ele estar onde estava agora. Que se olhasse para estudantes comuns (não muito menos inteligentes do que ele, por assim dizer) que tivessem o sonho de estudar em Aaxon, esses teriam que ralar por anos, e ainda sim para muitos seria apenas mais um sonho inalcançável.
Sam abriu a boca para falar, mas de repente as luzes de toda a vizinhaça, inclusive a da mansão se apagaram. O barulho da energia desligando as luzes junto as lamentações das pessoas que estavam na festa tomaram o ar por alguns segundos. Sam calmamente levou o copo de caipirinha até a boca.
— Você faz eu beber uns três litros de vodka e depois me faz ter uma crise existencial? — Sam falou baixinho. Lian riu. Aos poucos suas visões iam acostumando com o escuro. Eles estavam meio longe da mansão, mas via o movimento das pessoas com lanterna do celular. Algumas saíam da festa no bréu e seguiam até o estacionamento, outras iam rumo a alguma caixa de som que tinham ligado lá dentro.
— Então... Eu ainda tenho que te fazer pagar por perder o jogo não é?
O copo de Sam estava se esvaziando. Agora conseguia ver Lian, não com tanta nitidez, mas conseguia vê-lo bem próximo.
— Já tem ideia do que pedir? — Sammuel falou calmamente. Era estranho, mas quando as luzes se apagaram, sentiu como se perdesse a "ansiedade irracional" que o acompanhava quando ele pensava ou via Lian.
— Eu não sei na verdade.- Ele se aproximou um pouco mais de Lian, conseguia sentir o halito forte de álcool e Halls. — O que você faria hoje que provavelmente se arrependeria amanhã?
Sammuel finalmente conseguia ver cada detalhe de Lian no escuro, até mesmo seus olhos brilhantes. Ele estava bem próximo, como se estivesse escorregando para mais do lado dele. Sentiu seu coração bater mais forte, de forma dolorida até. Seu estomago revirou quando a pergunta de Lian ecoou dentro de sua cabeça.
"O que você faria hoje que provavelmente se arrependeria amanhã?"
A mão de Sam agiu como se tivesse vida própria. Soltou na grama o copo vazio de caipirinha, e com suavidade, quase em câmera lenta, pousou levemente na lateral do pescoço de Lian. O mesmo esboçou uma cara de surpresa, suas pupilas estavam meio dilatadas e sua respiração ficou ofegante. Naquele momento Sammuel sabia que já não tinha mais como voltar, se moveu pra frente de Lian e o selou com um beijo.
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