Mensagens para Inverno
2 Em Denver eles não fazem esfirras como essa
Sam agora estava organizando os materiais em seu escritório particular, que ficava dentro do próprio quarto. Havia recebido dias depois uma lista com o quadro disciplinar, ou seja, as matérias do seu primeiro período. Entre elas citologia, embriologia, zoologia aplicada... Ele não entendeu de imediato o porquê de precisar estudar zoologia (ramo que estuda os animais) se estava fazendo enfermagem, mas deu uma pesquisada no Google e viu que as melhores universidades incluíam a matéria porque faria sentido entender o comportamento de diferentes organismos que não sejam os humanos e a forma como eles conseguem se interagir.
Logo recebeu um Email com a escala de horários de cada aula. Tinha dias que as aulas duravam só pela manhã e tinha dias que duravam o dia inteiro. Após esse Email recebeu mais um. Dessa vez um relatório dos estudantes que supostamente iriam passar o resto do ano estudando as mesmas matérias que ele. Eram vários, calouros que cursavam biologia, medicina, química, enfermagem... Todos tinham diversas aulas da mesma matéria, mesmo que com alunos de graduações diferentes. Achou interessante.
Após abrir o relatório, Sam descobriu algo bizarro sobre a universidade. Eles sabiam exatamente quem era cada aluno. O relatório tinha uma imagem de cada aluno (incluindo o de Sam. Tinha sido obrigado a tirar a foto na matricula. Estava com cara de sono e cabelo meio despenteado) e era possível clicar na imagem e abrir uma série de informações de cada um. Tinha nome completo, idade, nacionalidade, certificados de cursos (como de línguas. Sam descobriu que a maioria da turma de Ética sabiam pelo menos três línguas), medalhas de honra... Era apavorante.
Ao abrir o próprio perfil viu-se meio neutro comparado aos outros. Mostrava as suas excelentes notas, que era bilíngue, que veio do brasil etc. Sam pegou o celular e ligou para Thiago e Lukas em uma chamada de voz em grupo.
— Haaalo — Lukas estava alegre
— Oi — Thiago estava ofegante, Sam sabia que nesse horário costumava malhar.
— Vocês receberam o Email sinistro de Axoon? Eles tem nossos perfis na plataforma.
— O que? — Lukas e Thiago disseram em uníssono.
Demorou poucos minutos até abrirem os Emails e encontrarem o perfil deles.
— A cara, eles escreveram que levei suspensão na setima série. Isso é muito irrelevante hoje! — Exclamou Lukas indignado.
— Eu lembro desse dia, você estourou uma bomba de fedor na mochila do Michael — comentou Thiago.
— Aquele otário — Thiago retrucou.
— Como que deixaram você comprar isso com 14 anos? — Sam perguntou.
— Era uma lojinha de brinquedos e pegadinhas... Mas vão me chamar de terrorista agora? — Todos riram. Depois de um silêncio de quase 20 segundos inteiros, Lukas disse:
— Estão nervosos?
— Apavorado — Sam comentou
— Eu não consigo parar de malhar, to usando isso pra aliviar a ansiedade — Disse Thiago.
Conversaram mais um pouco sobre onde iriam se encontrar depois das aulas. Com exceção de Sam, os dois teriam aulas iguais por muito tempo e Sam só poderia vê-los em intervalos. O campus era enorme e as aulas de línguas humanas ficavam do outro lado da universidade.
Sammuel bateu a porta do carro levemente. Ainda fazia frio. Ele vestia um moletom branco e liso com a gravura escrita FIRE em seu peito, em detalhes de preto e vermelho. Uma calça meio apertada e aveludada e um coturno preto e estiloso. Seus cabelos negros caiam em sua testa suavemente.
— Mamãe tem orgulho de você.
— Mãe... — Ele olhou ao redor. Sorriu e se esticou para envolve-la num abraço. — Te amo tá?
O carro saiu pela avenida fazendo fumaça. Alguns outros estudantes chegavam também. Ele caminhou até a área interna da universidade. Agora com o ar bem mais séria, a instituição lhe parecia com um ar de shopping milionário. Podia ver as escadarias que levavam para diversos lugares. Havia maquinas de refrigerantes super modernas, com bebidas diferentes de diversos países. Andou até achar o setor 2A, onde teria que procurar pelo laboratório de Citologia I.
Adentrou o laboratório. Era gigante, deveria ter no mínimo 30 mesas brancas espalhadas pela sala com 3 assentos cada, que apontavam em direção de uma lousa gigante no fundo da sala. As mesas tinham microscópios, laminas para observação, pipetas entre varias outros instrumentos que mais pra frente saberia para o que servia. Alguns alunos já estavam sentados mas a maioria estava em pé observando um quadro digital que ficava poucos metros antes da grande lousa.
Sam se aproximou e viu que se tratava de um quadro de avisos e um sistema de mapa para os alunos, indicando onde eles deveriam sentar naquela sala. Procurou por uns cinco minutos e achou seu nome em um lugar no centro da sala de aula. Mesa E6, assento 1. Olhou para o assento 2 da mesma mesa e viu que tinha uma menina chamada Anna Portland. Essa garota estaria do seu lado até o fim dessa matéria.
Virou-se e foi andando entre as mesas procurando pelas identificações. Achou e sentou. Pôs a mochila debaixo do assento, puxou o notebook, um caderno de matéria, post-it, canetas e alguns marca-textos. Ele não costumava ser tão organizado assim, geralmente se dava bem só com o notebook mas estava nervoso demais para não ficar tateando em algo.
Pouco tempo depois a sala encheu de alunos. Sam olhou para o relógio e faltava poucos minutos para a aula começar. As mesas ao seu redor se preencheram e logo chegou a vez da sua mesa. Uma garota com um suéter cinza por cima de uma camisa fina surgiu e sentou ao seu lado. Anna, provavelmente. Seus cabelos castanhos estavam amarrados com uma fita preta em um rabo de cavalo. Seu tom de pele pardo e olhos extremamente castanhos claros brilhavam por trás de um óculos redondo.
Ela puxou seu notebook cor de vinho e um bloco de anotações junto a algumas canetas. Cruzou uma perna em cima da outra e de uma forma quase que inconsciente girou o dedo entre o rabo de cavalo, arrumando os fios e pondo no lugar, jogando-o para trás em seguida e pondo-se a ligar o notebook. Ela olhou para o Notebook de Sam e como se tentasse lembrar algo virou o rosto para ele:
— Você deve ser Sammuel?
— Sim, Sam. Prazer — Ele estendeu a mão para um aperto — Você deve ser Anna, não é?
Ela sorriu fechando um pouco os olhos — Sou sim. Estava em dúvida se parecia ou não meio psicótico decorar o nome de quem iria sentar ao meu lado. Aliviada em não ser a única.
— Li que em algum momento todo aluno de biofísica ou citologia avançada fica meio perturbado ou psicótico — Sam comentou e Anna riu baixinho.
— Eu sou apaixonada por biofísica. Ganhei medalha de ouro nos torneios de matemática voltada para ciências da natureza ano passado, em Denver.
— Que? Não sabia que existia esse tipo de torneio. — Sam estava entretido na conversa e só percebeu que o professor havia chegado quando as luzes do laboratório se apagaram. A sala era meio inclinada pra frente, de modo que os alunos que estivessem bem atrás ainda tivessem visão clara do que acontecia lá nos quadros.
O professor estava com uma camisa lisa de botão branca por baixo de um casaco traje bege fino. A luz do projetor espelhava no gigantesco quadro o nome: Dr Steve T. Molly. Ele começou a aula se apresentando, depois fez algumas perguntas (o que fez grande parte dos alunos erguer as mãos para responder. O que dava a entender que todos queriam participar da aula e serem ao menos recordados na primeira aula. Sam não via essa necessidade).
— Aqui não vemos tanta necessidades dos livros — Pausa dramática — Os livros demoram a ser escritos, passarão pelas mãos dos institutos que avaliarão se vale ou não a publicação da obra. Depois de publicado, ainda demora ter o reconhecimento necessário para que o livro chegue até as mãos de cada um de vocês. Anos... Anos para que isso chegue a ser estudado aqui.
Uma mão se ergue entre os estudantes. Ele aponta para a estudante que pergunta com delicadeza — E qual ferramenta nos é proposta para os estudos?-
— Qual o seu nome senhorita?
— Carla Montez.
— Carla. Usaremos o meio de informação mais rápido já inventado desde de 1969. As informações são jogadas todos os dias para vocês, jovens, nas redes em que vocês tem acesso em casa — Pausa dramática — Vocês irão aprender como pesquisar direto da raiz, escreverão emails e entrarão em videoconferências com os cientistas mestres que estão a todo momento criando história, reescrevendo nosso futuro.
O professor começou a andar entre as mesas, olhando no olho de cada um dos estudantes.
— Vocês não estão aqui para aprender tradicionalmente — ele comentou ainda andando entre as mesas, observando um por um — Tenho convicção que pelo menos metade de todos vocês se formarão, meu amigos, a outra metade irá desistir pois não conseguirão sair da comodidade e conforto onde vocês se encontram agora.
Um arrepio correu a espinha de Sam, ele olhou para Anna. Ela também estava em choque.
— Mas também tenho minhas convicções que 1/5 de vocês trarão não só orgulho a Axoon's College, mas também trarão o sobrenome de vocês nos complexos livros de pesquisa das universidades mais renomadas do mundo. Seja vocês da Biologia, Medicina, Enfermagem... — O coração de Sam palpitou nessa hora. O professor parou no meio da sala. O seu olhar percorreu de ponta a ponta e encontrou o de Sam. — Peço que se esforcem para que Axoon continue com suas estatísticas.
Enfim, voltou para o palanque onde ficava o grande quadro branco digital e deu início a real aula. Sam ainda estava extasiado com aquele discurso motivador. Na verdade ele só estava informando as reais estatísticas da universidade. Ela era conhecida por criar inventores de berço, era referência em pesquisas de todas as áreas. Verbas altíssimas para intercâmbios, pesquisas de medicamentos e estudos diversos. Sammuel ainda tinha aquele folheto que mostrava o quanto de físicos da NASA já passaram por Axoon, para pós-graduar ou mestrar.
A aula acabou e a próxima começaria em uma hora e meia, era Introdução a Embriologia. Os alunos pegavam seus notebooks, colocavam na mochila, trocavam um papo e saiam. Alguns escreviam anotações extensas ainda sobre a aula que acabara, e outros iam até ao professor para apresentar-se e retirar suas dúvidas.
Anna terminou de guardar suas coisas e olhou para Sammuel.
— Minha próxima aula é em 90 minutos — Ela comentou
— A minha é em uma hora e meia — respondeu
Anna fez uma careta e sorriu. Logo depois Sam percebeu que havia falado a mesma coisa em horas e ela em minutos. Ele sorriu também e falou — Biofísica né? — Ele riu. Sabia que as matérias dessa aula envolviam matemática e física que iam além do que Sam poderia imaginar quando se adequavam a ciência biológica. Mas apesar de tudo Física o entediava e matemática avançada lhe davam doses de enxaqueca.
— Qual a probabilidade de eu te convidar pra comer esfirras no shopping aqui do lado? — Sam estava desejando aquelas esfirras na nova loja Saeada, havia visto uma propaganda no site ainda pela manhã.
— 80%. 98% de não ser uma pergunta hipotética.
— E de você aceitar?
—76% se ainda estiver muito frio e 96.5% se estiver um clima que não me congele a alma. To bem faminta.
Os dois riram, se levantaram e atravessaram a sala. Antes de chegarem a saída, Sam viu uma figura conhecida em uma das carteiras da frente, ao lado da saída. Estava com um MacBook branco, fones de ouvido e cabelos despenteados (que por sinal ficavam muito bom nesse estilo). Parecia meio rebelde, vestia dessa vez uma camisa bege e um casaco preto de couro, calças jeans rasgadas e um sapato de gola alta preto com detalhes de metal. Em cima da mesa havia o gorro, um par de luvas e um fichário. Era Lian.
Sam parou por um momento, estava pensando em ir cumprimenta-lo. Não havia percebido sua presença na sala e nem tinha visto toda a lista de alunos que estaria com ele naquele dia, mas era bom ter um rosto conhecido por ali. Antes de Sam agir, Lian encontrou seu olhar pela saída. Aqueles olhos claros e brilhantes encontraram o de Sam, quase de maneira hipnótica. Ele balançou a cabeça de leve e voltou a escrever algo no MacBook, ignorando Sam.
Sam voltou seu olhar pra saída e decidiu que não iria atrás. Seguiu com Anna até a saída principal de Axoon e atravessou a avenida até o shopping, que ficava em frente ao campus. Subiram alguns lances de escada rolante e logo estavam na praça de alimentação. Não tinha fila na Saeada. Fizeram seus pedidos e sentaram conversando sobre alguns assuntos meio complexos.
Sam de cara já sabia muito sobre Anna. Analisou bem seu perfil e concluiu que era alguém que preservava estar sozinha, a menos quando você falava algo que lhe interessasse demais. Então ela começava a falar rápido demais, com uma empolgação sem fim mas ainda sim sem perder a coerência. Era uma pessoa direta e sincera. Tinha algumas opiniões fortes sobre o sistema de educação da Axoon mas em geral estava muito animada pra começar com suas pesquisas.
A comida já havia chegado quando Sam sentiu o celular vibrar no bolso. Tinha algumas mensagens de sua mãe perguntando como estava indo o primeiro dia, umas fotos de Thiago e Lukas fazendo careta na primeira aula de Introdução ao Direito e por fim algumas notificações no Instagram. Abriu o aplicativo e viu o simbolo de um seguidor novo.
Não sabe o porque mas ficou meio nervoso. Era Lian, ele o havia seguido a 3 minutos atrás e curtido a ultima foto de Sam. O que aquilo significava exatamente? Que ele tinha visto Sam e lembrado dele? Se sim, por que o ignorou? Decidiu parar de pensar nisso e só seguiu de volta. Voltou a atenção a Ana e comentou:
— Eai, em Denver eles não fazem esfirras como essa aqui não é? — Ele pegou uma grande esfirra de lombo com cheddar e deu uma grande mordida.
Anna riu e disse — Tem cheddar no seu nariz.
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