Mensagem a Bureal Sky
1 Capítulo 1
Uma nave esférica e prateada de 5 metros de circunferência pousa suavemente sobre a neve fofa, onde fracos raios solares tocavam a escassa relva ainda a mostra. Seu sistema de pouso era ativado com um pulso gravitacional que a fazia descer levemente. Dois anéis de metal nobre, que circundavam a nave em velocidade aproximada a da luz, começam a cessar sua rotação, que se assemelhava ao movimento dos elétrons dos átomos. Os anéis cessam os movimentos e se acoplam a nave, ocupando as brechas verticais em sua volta.
Um ruído pneumático é liberado por ela. Expelia o gás que deixou a pesquisadora Sibil Tenamaid em estado de “coma vígil” e o contra gás é emanado no interior da nave, recobrando a consciência da pesquisadora.
Ela se espreguiça, estalando o corpo e deixando o sangue circular melhor nas pernas e nos braços. O “gás comático”, como era chamado popularmente, era horrível. Deixava o corpo todo formigando. Era agoniante.
Sibil Tenamaid sai de sua nave esférica, modelo Hydrargirum RC57-B. Poder respirar novamente um ar fresco era ótimo. O ar climatizado da estação espacial Bureal Sky – de onde viveu por quase toda uma vida – era muito artificial. Nada comparado com o que as árvores de folhas vívidas da Terra podiam oferecer.
Mesmo havendo tanta abundância na fauna da Terra – sendo irracional devido as severas condições climáticas -, era impossível viver nela. Depois da queda do cometa conhecido como “Doom”, o planeta sofreu com várias alterações climáticas, que resultaram numa nova era glacial.
A temperatura de hoje fazia uma exceção a regra, atingindo apenas os -10ºC. Em dias normais a temperatura está em -50ºC. Por isso que a pesquisadora Tenamaid aproveitava o solstício de verão para que pudesse buscar a resposta que tanto queria. Solstício que só acontecia uma vez ao ano, já que o cometa afetou drasticamente o eixo da Terra. Era um modo de retornar ao planeta com a pequena colônia de duzentos humanos da Bureal Sky.
Estava certa de que o Templo Azhuran, da antiga civilização malkin pudesse ter a resposta. Civilização que anteriormente trouxe uma luz para os humanos de certa forma, um tanto quanto singular.
Trajada com sua roupa termo-estabilizadora, para preservar o calor de seu corpo, a pesquisadora segue até o templo à frente, com seu “palm translator” em mãos.
As grandes colunas que sustentavam Azhuran pareciam bem firmes com seus 4000 anos de estrutura. Era impressionante como algo tão colossal pudesse existir. A arquitetura era fascinante, com os ídolos antigos do tamanho de foguetes, parecendo reverenciar quem adentrasse no lugar.
Cessa os passos num grande portão de metal, coberto em neve. Tenamaid usa seu termo-propulsor em seu pulso e derrete o gelo que a impedia de ler os hieróglifos malkins. Obtendo sucesso em seu intento, ela usa seu palm translator – objeto que mais parecia uma finíssima camada de vidro retangular -, manuseando como uma antiga câmera fotográfica dos arquivos do século 20 e 21, vistos no banco de dados da Bureal Sky.
Logo as informações apareciam na tela alaranjada do aparelho, traduzindo a arcaica escrita malkin para a contemporânea.
Todavia as informações pareciam irrelevantes, pois apenas citavam a origem do povo malkin de modo bem superficial, sem dar muitos detalhes. Isso era frustrante para a pesquisadora Sibil, que colocou todos os seus esforços e quase um ano de pesquisas nessa ideia. Não podia voltar sem nada em mãos para seu comandante e seus companheiros, que com a escassez de alimentos em Bureal Sky, precisavam mais do que nunca de um milagre.
Em meio a sua frustração e uma tempestade de neve que surge subitamente, Sibil percebe algo estranho em uma das pilastras cobertas por uma grossa camada de gelo. Se seus olhos não estavam lhe enganando, parecia que mais hieróglifos estavam marcados nesta pilastra especial.
Não poupa esforços em descongelar essa camada de gelo persistente com seu termo-propulsor, mesmo que isso diminuísse a expectativa de duração do traje termo-estabilizador. Não podia arriscar por mais um solstício acontecer. Os colonos precisavam de uma salvação urgente.
Ela consegue o que queria e rapidamente usa o palm translator para decodificar a linguagem antiga. No visor do aparato, embaçado pela intensa nevasca que iniciou-se subitamente, aparece a seguinte frase:
“O augúrio da morte, entre os luzeiros de Elkain (Ursa Maior), evoca o coração de Ulbher (entidade do sol malkin) contra o holocausto de Forfheith (entidade do gelo malkin) em perjúrio a Racost (entidade da Terra malkin). Com o coração entregue em holocausto por Ulbher, evitará a praga de Forfheith sobre Racost.”
Bem abaixo desse texto, havia um trecho de uma antiga canção malkin. Demonstrada como a lamentação da entidade Ulbher:
“Quando tinha um coração, eu o perdi, e agora não sei onde encontrá-lo.”
Sibil comemora a incrível descoberta. O coração de Ulbher era a chave para acabar com essa era glacial, que já foi vencida pelo povo de malkin milênios atrás. As coordenadas estavam bem claras. Seguindo pela constelação da ursa maior, até chegar ao augúrio da morte, existe um pequeno satélite. É a óbvia localização do bendito coração. Também conhecido como a lendária “gema do sol” pelos colonos.
Todavia a euforia de Tenamaid não esquentava seu sangue, que perdia mais e mais de seu calor. Usou toda a caloria que seu traje carregava e faltava agora para a sua própria sobrevivência. O tempo castigou a pesquisadora, caindo abruptamente a temperatura.
Com determinação, ela segue aos passos curtos, enquanto que batalhava com ventos congelantes de mais de 50km/h e o frio que já atingia seus ossos.
Estava próxima do conforto de sua nave, porém sua energia se esvai das pernas e cai de encontro ao gelo. Estava tão próxima de alcançar seu objetivo. Seu grande sonho de salvar seu povo. Não podia se deixar vencer por este obstáculo.
Incentivada por seus pensamentos, a pesquisadora da estação espacial Bureal Sky, Sibil Tenamaid, resolve fazer um holocausto, em homenagem a Ulbher, que entregara seu coração para salvar Racost. Com a pouca energia que tinha, ela atira o seu palm traslator no interior de sua nave e pelo seu pulso coordena o piloto automático da Hydrargyrum RC57-B.
Assim, a nave parte do planeta Terra, deixando sua integrante para trás. Soterrada sem vida pela cruel nevasca que acometeu a Terra. Nave que agora era a única esperança de um povo desesperançado.
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