Notas iniciais
Se eu fosse apenas um espectador, um mero pedestre que, ao passar sem pretensões, depara-se com uma cena dessas, eu teria parado. Se eu fosse um homem forte e engravatado, seguro de si mesmo e capaz de combater as injustiças do mundo, eu teria parado.
Se eu fosse tudo isso, teria confrontado o homem que encarava a garota paralisada de medo com malícia e ferocidade, parecendo um animal prestes a devorar sua presa indefesa. Teria dito que dizer a uma garota que “a foderia fácil” era de baixo calão e certamente não digno de um cavalheiro.
Mas, veja só, eu não era um homem forte, nem tinha coragem, e tampouco era espectador. Eu era a garota de quatorze anos que decidira passear sozinha pelo seu bairro perfeitamente seguro numa tarde fria de sexta-feira. Eu era a garota que escutou um homem com idade para ser seu avô assediá-la sob as risadas de seus companheiros de bar. A garota que o viu se aproximar e quis chorar porque a rua estava deserta e ela ia ser estuprada.
Eu era a garota que, apesar de ser totalmente adepta à ideia de que mulheres e homens são igualmente fortes e independentes, mais do que nunca quis ser um homem, porque então aquilo não estaria acontecendo. A garota que, ainda assim, sabia que aquilo não era sua culpa. Ela poderia estar de tênis e moletom às duas da tarde ou de vestido e salto alto às duas da manhã, nunca seria sua culpa. A culpa era da sociedade estupidamente machista, ela sabia, mas mesmo assim não conseguia parar de chorar.
E foi chorando que ela conseguiu correr e se esconder num banheiro qualquer de um estabelecimento qualquer enquanto deixava suas lágrimas se misturarem com as de todas as outras garotas de quatorze anos que tiveram a infelicidade de tentarem ser livres no Brasil.
Fale com o autor