Menina Veneno

1 Capítulo 1 - A Carta


Notas iniciais
OEEEEI *---*

Olhei tediosamente para a construção grande, velha, e em bom estado.

Tá era lindo. Parecia um daqueles castelos de contos de fada misterioso.

Merda de pais morando longe.

Merda de familiares esdrúxulos que me mandaram para essa merda.

Merda de dia em que eu recebi A Carta.

Você deve estar se perguntando, “que porra você é?”

Prazer, Bianca Tavares, 16 anos, baixinha, cabelos ruivos cor de fogo, olhos verdes brilhantes, totalmente branquinha, quase albina, uma caçadora.

Agora é a parte onde você se pergunta “o que é uma caçadora?”

Bem, eu posso te garantir, se você receber uma carta com as letras floreadas em dourado, sem assinatura nem nada, falando alguma coisa com o destino, as sombras da noite e coisas do tipo, por favor, ignore, não se dê o trabalho de pensar sobre o que é tudo aquilo, muito menos tente notar o que são as “sombras da noite”, você vai ficar supresso ao descobrir que as sombras da noite na verdade é a Escuridão, ou como falávamos dentro dessa escola, o Darkness com D maiúsculo, qualificávamos sendo os demônios.

Que se alimentavam de dor e de medo, que causavam o caos a quem os via.

Quando você começar a perceber as sombras da noite, você começa a vê-los, e eu te digo, eles não são nem bonitos, nem legais.

Lembro perfeitamente do que A Carta dizia:

“O destino abre teus olhos, e a realidade toma teu corpo ágil, a verdade é cruel, porem tu nascestes para combatê-la.

As sombras da noite te esperam, espreitando tua vida, prontas para a guerra.

Salva teu corpo, salva teu povo.

Defenda teu corpo, defenda teu povo.

O mundo real lá fora espera cruelmente pronto, tua morte pode estar próxima, só tu podes mudá-la.

As sombras da noite são cruéis, se escondem em todos os lugares, deves notar cada detalhe, tua ignorância te protege até hoje, se você deixá-la... você se torna vulnerável, e eles começaram a sentir teu cheiro, a vir para você.

Lute ou morra.

A escolha é sua.”

E ainda, se algumas semanas depois, sua mãe receber uma carta de um internato perto do começo da serra paulista, bem, ai você vai ser obrigada a ir aquele lugar, um lugar que parece ter cem anos pelo menos.

O lugar onde você aprenderá a matar e se proteger desses demônios. Suspirei, cantarolando o refrão de By Your Side que tocava alto nos foninhos de ouvido.

Segurei firme o puxador da mala preta e grande.

- Vamos logo Biaa! – Fernanda quase me fez cair com o puxão repentino.

Mesmo com segurando duas grandes malas ela conseguia ser rápida e me arrastar para dentro dos portões chiques.

- Esperem porra! – Vicky gritou mais atrás, arrastando as duas malas que pertenciam a ela, e mais uma que me pertencia.

Paramos esperando o ser irritado que era a Vicky.

Fernanda me empurrou para o lado, e começamos a fazer aquela brincadeira de “Nos andamos iguais”, sabe?

Era idiota, e fazia Vicky revirar os olhos.

Mas desde sempre eu fazia essa brincadeira. Desde sempre eu conhecia ela, mesmo, nossas mães eram daquelas amigas que ficaram grávidas no mesmo período e tudo mais, também eram daquelas ricas esnobes que deixavam as filhas com babas e iam para o clube tomarem seus Martins secos.

Mas a minha era realmente a pior, ela parecia me odiar com toda sua pose e frescuras.

A mãe de Fernanda ainda era doce, meiga e gostava de estar presente na vida da filha durante as férias, quando nos duas voltávamos para nossas casas no interior.

Tá, para a casa da Fernanda, não para minha.

De qualquer jeito, conseguimos seguir até o interior da escola.

Fernanda era uma de minhas melhores amigas, era morena, assim como Vicky, com os olhos também castanhos, lembrando olhos de ursinhos de pelúcia, e a cara salpicada em sardas.

Vicky, como eu já disse, tinha os cabelos castanhos perto de um preto, a pele cor de capuccino (daqueles capuccinos deliciosos da Starbucks, tinham a mesma aparência que a pele dela.) os olhos verdes.

Bem, a mais ou menos dois anos, eu fui chutada para esse colégio junto de Fernanda.

Chutada talvez seja uma palavra errada para descrever o fato, obrigadas talvez fosse melhor.

Foi realmente estranho quando na noite que eu e Fernanda combinávamos de nos encontrar em sua casa para conversar e se divertir, sair do tédio assassino, e ela começou a me contar sobre a carta que ela havia recebido quando voltava da aula de circo que ela fazia.

A carta era igual a minha, as letras floreadas em douradas, a falta de assinatura, as mesmas palavras.

Nos assustamos, mas ao mesmo tempo deixamos nossa ignorância aos poucos, e começamos a ver o que eles chamavam de Sombras da Noite.

A primeira vez que vi um deles, fingi que não o via, meus instintos me mandavam fazer isso.

E foi assim até eu me mudar para esse internato, onde eu aprendi a realmente me defender.

Vicky, tinha vindo um ano antes, o ano em que ela estava mofando (palavras dela) nesse colégio.

E até onde eu sabia, Vicky afogava o tédio pegando garotinhos inocentes (ahaha) pela escola.

Parece coisa de bêbada, é, eu disse isso para ela, mas o Maximo que eu consegui foi levar um soco na barriga, e eu te digo, doeu para cassete, não brigue com a Vicky se você tem sã consciência de seus atos.

(...)

Já havíamos deixado nossas malas no nosso velho quarto.

E andamos pelos corredores indo em direção a ala dos Professores.

Ela parecia mais rústica, mas ao mesmo tempo chique, e extremamente antiga.

Bati na porta com uma pequena placa com letras floreadas “Prof. Zark”,talvez eu nunca entenda de onde veio o sobrenome do meu professor de esgrima.

- Olá Bianca. – Ele era o único professor que eu me sentia realmente próxima, ou que eu tinha uma mínima confiança.

Talvez fosse por ele ser um tipo de mentor para mim.

Os cabelos loiros bagunçados, e os olhos escuros misteriosos, certamente ele não parecia ter a idade que realmente tinha.

A voz roca, e a cicatriz na sobrancelha.

Ele era bonito, de verdade, MUITO bonito.

Apenas ele e o Prof. Luca (ele não nos deixava chamá-lo pelo sobrenome, alguma historia engraçada e estranha.) tinha um mínimo de confiança minha.

Prof. Luca nos dava aula de literatura e defesa, duas coisas que realmente não tinham muito haver uma com a outra.

- Olá Prof. Zark. – Ele revirou os olhos lembrando que havia me pedido para lhe chamar só pelo sobrenome. – Desculpe, Zark. – eu ri.

- Tudo bem. – Ele olhou para as garotas que escutavam nossa conversa pacientemente. – Bem, acho que vieram pegar seus horários certo? – Ele abriu espaço para entrarmos na sala bem decorada dele.

Assentimos juntas.

- Ótimo, entrem. – Ele deixou a porta aberta para entrarmos, e andou elegantemente até a escrivaninha antiga que ficava perto da janela.

Entramos na sala e Vicky fechou a porta, se apoiando na parede, pouco à-vontade.

Normalmente era assim que as pessoas se sentiam perto dos professores daquela escola, mas eu não, eu me sentia totalmente normal.

- Aqui estão. – Ele entregou os papeis com os horários das aulas impressos, agradecemos e nos voltamos a porta. – Bianca? – Eu parei e olhei para ele, arqueando a sobrancelha. – Podemos conversar? – Ele sorriu, mostrando uma covinha fofa.

- Claro. – Eu sorri, dando um olhar para as garotas, como se pedisse para ficar ali, elas assentiram saindo da sala e fechando a porta.

- Bianca você sabe que tanto você quanto suas amigas estão passando pelo ultimo ano neste lugar certo?

Eu acendi, e ele prosseguiu.

- E nesse ultimo ano vocês vão para casas de caçadores formados? Passar algum tempo, e aprender alguma coisa sobre seus futuros? – Zark se sentava na cama acolchoada, ele olhou para o lugar ao seu lado, como se pedisse para me sentar ali.

E eu caminhei até ele, me sentando aonde ele havia pedido.

- Sim, eu sei. – Concordei brincando com uma mecha de cabelo.

- Ótimo, tanto sua saída da escola quando a de suas amigas acontecerão daqui a dois meses.

Eu sorri, obviamente feliz por saber que passaria cerca de cinco meses (tempo que os alunos iam passar fora da escola para aprender a conviver novamente com o mundo real e seus perigos) fora da escola.

- Legal. – Comentei, me remexendo na cama, eu sempre me sentia a vontade perto de Zark, mas lembrar do que acontece nunca havia me sido fácil.

Talvez um dia eu consiga falar daquilo tudo abertamente.

Ele sorriu de volta.

- Então, esta certa? Quer mesmo fazer tudo isso? Quer mesmo passar pelos últimos testes? – Ele arqueou as sobrancelhas para mim, os olhos preocupados.

- Sim, eu tenho certeza. – Ele sabia de minha teimosia, por isso se preocupava tanto.

- Tudo bem então... Mas me diga, como foi sua semana livre do internato? – Ele parecia meio inconfortável.

- Ah.. normal, aquela cidade é tão monótona que nem demônios agüentam ficar lá.

- Pare com isso! – Ele bateu com o ombro no meu, e involuntariamente eu me arrepiei.

Era sempre assim quando eu ele nos tocávamos por acaso, talvez eu ainda gostasse dele.

Talvez eu não gostasse, mas precisa-se dele, era algo que eu nunca soube explicar, obviamente eu sabia viver sem ele, eu sabia passar meses longe, dias e horas sem ficar agoniada, alias, esse foi um sentimento que eu nunca senti por ninguém.

- E como foi a sua?

- Tudo bem... Bia – Ele costumava me chamar assim. – eu andei pensando muito nessa semana em tudo, não só na semana passada, mas desde o mês passado.

Eu tinha uma idéia do que ele poderia me falar.

- Eu queria saber... – Ele continuou — você tentaria de novo? – Bem, vamos explicar melhor, eu, ano passado, era (ainda sou) afim de Zark, e ele igualmente afim por mim, só que desisti, com medo.

Medo por namorar um professor, coisa proibida em qualquer lugar, inclusive aqui.

Então obviamente mantemos nosso “caso” escondido.

- Acho que... – Eu pensei mais um pouco, eu realmente não tinha nada a perder, e havia ficado com mais vontade de tentar de novo quando ele falou no assunto.

Porque não?

Eu não tinha nada a perder certo?

- Eu acho que tentaria de novo. – Comentei sorrindo para ele.

Ele sorriu de volta, como uma criança que fez algo muito errado, e apesar de falar que se arrepende, acha tudo engraçado, e principalmente, fica feliz.

Aproximou-se com agilidade, selando nossos lábios.

Era sempre bom sentir os lábios quentes e macios dele, e eu quase não lembrava essa sensação.

Passamos horas conversando, abraçados, e nos beijando volta e meia (N/A: Volta, na meia (?)).

- Acho melhor você voltar ao seu dormitório. – Ele beijou o topo da minha cabeça, e eu preguiçosamente comecei a me soltar e levantar da cama onde estávamos sentados, estranhamente apenas conversando, e nunca passando de beijos.

Por que sim, aquela cama já havia sido usada para mais que isso.

- Okay. – Eu andei até a porta, pegando meu horário no caminho.

- Boa noite. – E quase sem notar ele já estava ao meu lado me dando um beijo de despedida.

Lembra da parte da Carta que dizia bla bla bla corpo ágil?

Éramos realmente agíeis, o que era muito útil para escapar de um demônio filho da puta querendo arrancar sua pele com os dentes.

Me separei dele com dificuldade, ele era realmente forte.

- Boa noite. – Sorri minimamente e abri a porta, saindo do quarto, e andando pela alameda meio vazia dos professores.

Eu via as luzes acessas no campus através das janelas altas, a luz noturna era através de lampiões, que davam um ar muito mais... misterioso.

E bonito também.

Eu sempre me sentia mudando de tempo, voltando ao passado, e andando naquele mesmo castelo a mais de cem anos atrás.

Mesmo com a iluminação “precária” do colégio, nos ainda tínhamos laptop’s, água quente e tudo mais.

Era uma perfeita mistura do passado e presente.

E quase sem notar eu já estava na frente das portas do Salão de Refeições, vulgo Refeitório.

Notas finais
Reeeviews?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.