Memórias do Verão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
“Ele era muito rápido. Meus olhos quase não podiam acompanhar. Tudo que eu consegui ver foi um borrão vermelho passando entre as árvores e sumindo de vista antes que eu pudesse identificar o que era. A gente só sabia que era incrível!”
A Johto da década de 60 não era tão atrasada em comparação à atual, mas naquela época a região já começava a ver sua vizinha Kanto avançar com mais força na industrialização e ser palco de uma explosão cultural, alavancada pela evolução de sua música, cinema e do surgimento das artes plásticas.
A população local pouco se importava com o que ocorria ao redor, parecendo se contentar apenas em continuar levando a vida de forma pacata, sem as importunações que a correria dos dias atuais poderia trazer. O máximo que sabiam das atualidades era algum burburinho sobre a possibilidade de se chegar à lua, mas enquanto alguns ficavam interessados em descobrir se realmente havia vida humana ou Pokémon lá, para a maioria aquilo ainda não passava de conversa fiada, muitas vezes tratada até como chacota.
Yōta era um menino de dez anos de idade. Magrelo, cabelo curto e preto, o mais baixinho da sua turma e os joelhos ralados típicos de um moleque vivendo o auge da sua infância na zona rural — era provável que os machucados fossem oriundos de mais uma tarde atiçando os Growlithes da fazenda vizinha para depois sair correndo e cair ao tropeçar em alguma coisa.
Dentre as várias brincadeiras que tomavam seu tempo naquela época, uma em especial era a que mais o instigava: caçar insetos. E assim era feito sempre que ele e seu irmão Shūichi saíam de sua casa no vilarejo de Kogane — que poucas décadas mais tarde se transformaria na internacionalizada cidade de Goldenrod — para visitar o sítio de seus avós, localizado um pouco mais ao norte.
A caça aos insetos os aguardava novamente. E lá estavam Yōta e Shūichi, sentados no porta-malas aberto do carro de seu pai, seguindo a estrada de terra cujos solavancos os faziam pular e cair na risada. Ao chegarem, já foram direto para o almoço. Ambos queriam comer rápido para ficarem livres o quanto antes para irem atrás dos insetos que habitavam o bosque.
— Eu quero tomar banho na bica! — disse Shūichi, já depois do almoço.
— Nem vem! — o irmão respondeu frustrado. — A gente combinou de ir caçar os insetos primeiro.
A contragosto de Shūichi, os meninos foram andando para o lago que contornava o sítio de seus avós. O local era bem arborizado no entorno, mas as margens ainda tinham espaços onde as pessoas podiam montar acampamentos e aproveitar a paisagem. Estava fazendo um sol forte naquele dia, mas a temporada de chuvas torrenciais havia terminado ainda na noite anterior, o que deixou os arredores com muitas áreas de poça.
Quente, úmido e repleto de sombra. Era essa a condição do ambiente entre aquelas árvores, perfeita para fazer com que vários insetos brotassem de todos os lados. Os irmãos caminhavam tentando a todo momento se desvencilhar dos arbustos que obstruíam a passagem, mantendo-se atentos a todos os detalhes. Ou quase todos.
— Ô, meleca! Pisei em uma poça! — Shūichi levantou um dos pés, do qual era possível ver bastante água pingando. — Meu chinelo agora tá todo molhado e cheio de lama.
— Você é burro mesmo hein! — Yōta reclamava do descuido do outro garoto. — Quando mamãe ver isso aí ela vai virar um Scyther! Vamos continuar andando pra ver se pelo menos com o tempo isso aí seca.
Com o passar das horas a energia dos meninos era gasta, o que fazia com que tivessem que parar para comer alguma coisa. Shūichi, ótimo observador, avistou um pé de oran berries maduras para que os dois pudessem matar a fome. Yōta, que por sua vez tinha mais habilidades físicas apesar do tamanho, era quem se encarregava de escalar a árvore para pegar as frutas.
E lá estavam os dois, sentados novamente, munidos apenas das frutas, duas garrafas d’água e as suas redes de captura.
— O dia tá meio fraco hoje — disse Shūichi, ainda mastigando. — Só peguei um Caterpie.
— Você hesita muito na hora de avançar com a rede. Eu consegui um Weedle e um Venonat.
— Ontem papai tava escutando o rádio e disseram que essa área aqui vai virar um parque gigante. Faz parte de um tal de “projeto de desenvolvimento de Kogane”.
— É, agora que Kanto tá trazendo essas coisas novas eles provavelmente tão com medo de que as pessoas daqui acabem indo morar lá. Eu não gosto muito dessas coisas futuristas de Kanto, eu prefiro a tranquilidade daqui.
— As coisas chegam lá bem antes do que aqui, né?
— É. O tio Teru trouxe de Saffron aquele disco pro papai. Agora ele fica ouvindo direto aquela banda que veio daquele lugar chamado Galar e só fala nela. Como é mesmo o nome? Os Orbeetles, alguma coisa assim.
— Ei irmão, o que é um Orbeetle?
— E eu sei lá, Shūichi! Você acha que eu vou entender essas coisas de estrangeiro?
Os dois continuaram comendo. Yōta parecia desligado de qualquer coisa à sua volta, como se apenas ele e aquelas berries existissem no mundo. Shūichi continuava reflexivo.
— Yōta.
— Oi.
— Você acha que tudo isso aqui um dia vai mudar muito? Digo, acabar virando um lugar diferente?
Yōta estava para dar mais uma mordida na berry, mas parou surpreso com a pergunta do irmão. Olhou diretamente para ele e percebeu uma expressão de dúvida, bem como uma angústia que Shūichi insistia em tentar esconder.
O mais velho deu um sorriso de canto e voltou a comer a berry, não se preocupando em falar enquanto mastigava. Afinal, sua mãe não estava ali para repreendê-lo pela falta de modos.
— É assim que funciona né? Tudo tem que mudar um dia. Faz parte. O que importa é que quando chegar a hora de tudo ficar diferente a gente não deixe de ser quem a gente é. Entendeu?
Shūichi a princípio pareceu confuso, mas logo em seguida sorriu, pois confiava no seu irmão como alguém que garantiria a todo custo que ia ficar tudo bem.
— Acho que não entendi muito bem, mas do jeito que você falou acho que não tem com o que a gente se preocupar né?
— Claro que não — Yōta então percebeu que havia só mais uma berry. Seu olho grande falou mais alto. — Manda essa aí pra cá.
No momento em que Shūichi jogou a fruta para seu irmão, uma criatura passou logo na frente em um vôo rasante. Os garotos estavam acostumados com a vida selvagem sempre a surpreendê-los, mas dessa vez o fruto arremessado sequer chegara à mão de Yōta.
— Ué, cadê ela?
O irmão mais velho então percebeu que Shūichi olhava quase hipnotizado para a floresta densa, onde o vulto deixara de rastro apenas o farfalhar das folhas.
Yōta não precisou raciocinar muito para perceber que havia sido roubado. Se alguma coisa o irritava profundamente era não conseguir comer o que queria, por mais que já não tivesse fome. O garoto se levantou, agarrou com força o cabo de sua rede de insetos e correu para onde a criatura havia ido, sem ao menos avisar ao caçula que teve que se apressar para não perdê-lo de vista.
As passadas largas da dupla ainda não eram suficientes para dar a eles uma oportunidade de alcançar a criatura. O fato de serem crianças limitava muito seus movimentos naquela área de bosques e mata fechada. Na pressa para tentar ver que tipo de Pokémon passou por eles, os dois acabaram se arranhando em galhos soltos de árvores e tropeçando entre as raízes retorcidas.
Foram quinze minutos à procura do ladrão de berry até que os dois concordaram que o perderam de vista. Sem nenhuma pista de onde ele poderia ter ido, os irmãos voltaram para casa, certos de que precisavam de um bom descanso para que pudessem voltar algum dia e tentar de novo.
Quando retornaram para o sítio Yōta foi direto até seu avô contar sobre o que havia visto — ou quase. O homem caminhou até uma estante próxima à lareira, de onde tirou um livro e começou a folhear as páginas. Quando encontrou a figura que queria mostrar ao neto, o velho apenas a tocou com seu dedo indicador.
— Yanma. Provavelmente foi ele que vocês viram lá. São raros, mas começam a aparecer com mais freqüência nessa época do ano.
O avô dos meninos riu ao ver os olhos de Yōta brilhando. O garoto ficou impressionado com aquela criatura, pois nunca havia ouvido falar em algo parecido. O Pokémon inseto era tão grande e ágil quanto um Arcanine. Suas cores vívidas pareciam se misturar aos tons da floresta em um contraste de vermelho intenso.
Ele pegou o livro e levou até seu irmão, mantendo a página aberta sobre o beliche onde dormiam.
— Eu quero um desses.
— É sério? Bom, se quiser podemos voltar lá amanhã e tentar, mas não vai ser nada fácil.
— Somos caçadores de insetos, Shūichi! Se pudéssemos capturar seríamos coroados como os maiorais da classe. Aposto que nem o pessoal da turma do ginasial viu um desses.
— Nem a gente não conseguiu ver ele tão bem, né? Passou muito rápido — disse o caçula.
Shūichi não parecia desanimado, embora sua feição de cansaço mostrasse que ele não agüentaria mais correr naquela tarde. Yōta, por sua vez, tinha sua frustração estampada em seu rosto, sem conseguir tirar aquele vulto da cabeça mesmo quando acordou no dia seguinte.
Sem cessar as buscas pelo Yanma, os irmãos continuaram a procurar por bastante tempo após aquele dia, mesmo nas estações onde não fosse tão comum encontrá-lo.
Os dias se transformaram em meses. Os meses em anos. Shūichi aos poucos perdeu o interesse, até que entrou para a equipe de atletismo na sua escola e decidiu se dedicar às competições para tentar uma bolsa de atleta na faculdade. Mas Yōta permanecia firme na sua caçada pelo inseto. Mesmo com os protestos de sua namorada, que tentava convencê-lo de que seria mais proveitoso um passeio no parque naquele fim de semana, o rapaz ainda tinha seu objetivo muito claro.
Quando mais uma vez voltou para casa de mãos vazias, a frustração começava a tomar conta. Já não sabia mais se todo aquele tempo dedicado à caçada valia a pena, mas lá no fundo sentia que ainda se divertia fazendo aquilo.
Aos poucos sua vida foi mudando. A escola deu lugar ao emprego, os presentes de dia dos namorados deram lugar à aliança de casamento, e a leitura antes dedicada aos livros da estante do seu avô agora eram voltadas a decifrar os cifrões presentes nas contas da casa.
As saídas para caçar foram ficando menos frequentes, até que não havia mais tantas florestas e bosques para explorar.
Por muito tempo Yōta ficou sem ir ao local onde avistara o Yanma pela primeira vez. Certo dia precisou voltar ao antigo sítio de seu avô quando recebeu uma proposta de compra de uma família que procurava por uma casa de campo. Como Yōta era o responsável pelo imóvel, precisou ir verificar o estado da casa e poder listar quaisquer reformas que fossem necessárias antes de fechar a venda.
Caminhando pela sala empoeirada Yōta se lembrava dos momentos que havia passado lá durante sua infância. Ao olhar para a lareira viu a estante de livros ao lado, como sempre esteve, dessa vez apenas protegida por um lençol velho para não pegar a poeira trazida pelo tempo. Ao remover a proteção do móvel, o rapaz encontrou o livro onde seu avô havia lhe mostrado o Yanma naquela tarde de verão que já fazia tanto tempo que o homem agora só tinha alguns lampejos de lembranças.
Ao ver a figura do inseto que por tanto tempo habitara seu imaginário, Yōta deu um sorriso discreto. Um misto de nostalgia e tristeza por ver que tanta coisa havia mudado. Logo ele, que dava sermão no seu irmão mais novo dizendo que era assim que o mundo funcionava, agora se via preso ao passado. Mas também sabia que o tempo era absoluto, uma força ingrata que jamais lhe permitiria voltar atrás.
Pelo menos era assim que pensava até fechar o livro e guardá-lo de volta na estante. Yōta caminhou até a janela da sala e puxou a cortina para ver o lado de fora mais uma vez antes de ir embora. Seus olhos então se fixaram no distante lago em uma expressão de espanto. Sobrevoando a superfície, lá estava a criatura, dando toques rápidos na água para poder saciar sua sede.
O homem esfregou os olhos para ver se não era uma ilusão. Lá estava O Yanma, ainda fazendo seu vôo acelerado pelo lago. Yōta nem percebeu que estava sorrindo pela primeira vez em muito tempo. Sentia seu corpo leve como se tivesse novamente metade do peso e quase meio metro a menos. Seus batimentos cardíacos aceleraram, mas era diferente das crises de ansiedade que o obrigavam a tomar remédios para poder dormir.
Sentira muita saudade de tudo aquilo — apanhar berries frescas no pomar, escalar árvores, o cheirinho de chuva que infestava as montanhas e voltar para casa sabendo que sua saudosa avó o estaria esperando com um bolo de fubá quentinho recém-saído do forno a lenha.
Quando se deu conta, saiu pisando nas poças sem nem ter uma rede de insetos nas mãos, correndo atrás do Pokémon sem se importar se sujaria seu terno de lama.
— E então? — um garoto perguntou. — Pegou ele?
O menino estava ajoelhado em um tapete, junto de outras cinco crianças. Todas de frente para um senhor de idade que estava sentado em uma poltrona. Nem mesmo as marcas do tempo tiravam daquele rosto a mesma expressão viva de sessenta anos atrás.
— Não peguei — respondeu o velho, dando uma risada. — O monstrinho era muito safo. Saiu voando e sumiu!
— Como sempre o vô Yōta conta uma história longa e no final não acontece nada — disse uma menina que também estava ali presente, aparentando estar emburrada.
Yōta riu com a frustração dos seus netos. Os jovens dessa geração pareciam ter uma obsessão em tudo dar certo ou terminar da maneira que eles queriam. O velho se preocupava com os problemas que poderiam acontecer a pessoas que nunca aprenderam a extrair lições das suas falhas, mas ao mesmo tempo achava engraçado o quanto aquelas crianças eram impacientes e imediatistas.
— Não seja por isso, a gente vai dar um jeito nisso agora.
Ele se levantou de sua poltrona e deu uma batidinha nas costas doloridas, arrastando os passos até o canto da lareira repousava uma rede de caçar insetos. Ele a pegou, analisou o estado de conservação da madeira e se não havia algum buraco na rede. Após averiguar o estado do objeto, o velho sorriu e se virou novamente para as crianças.
— Vamos sair pra caçar. Ah, e claro — Yōta fez uma última recomendação antes de saírem. — Deixem seus celulares aqui. Se um de vocês cair na lagoa com algum aparelho eletrônico no bolso já era.
Os netos de Yōta ficaram confusos em um primeiro momento, mas pouco a pouco foram cedendo à oportunidade de ter uma experiência diferente. Alguns já estavam convencidos de que sairiam daquela caçada entediados e sem nada, mas resolveram dar uma chance.
— Estamos na temporada de Yanmas agora. Hoje esse safado não me escapa!
Se Yōta acreditava que ele conseguiria pegar o Yanma daquela vez? Tal como seus netos ele tinha quase certeza de que voltaria para casa de mãos vazias novamente. Mas para ele estava de bom tamanho. Com o tempo ele percebeu que a jornada valia mais que o destino final. Aprendeu a apreciar cada aventura para capturar o seu alvo ao invés de ficar se frustrando por cada tentativa mal sucedida.
E se pudesse passar aquela lição para aquelas crianças, ou pelo menos para apenas uma delas, então ele já se daria por satisfeito. Pois aproveitar a trajetória é sempre importante para que se dê valor aos objetivos conquistados. Mesmo que demore décadas para se chegar lá.
Notas finais
Agradeço aos parceiros Dento pelo desafio e ao CanasOminous por ter me ajudado com as ideias e com as revisões.
Desde já agradeço também a quem puder tirar um tempo pra ler a história e dar seu feedback õ/
OBS: a história também se encontra disponível no meu perfil do Spirit, cujo link se encontra na descrição do meu perfil aqui no site.
Fale com o autor