O boneco de palha já tinha dezenas de furos, então houve um disparo e mais um buraco surgia em seu corpo.

— Agora é sua vez, Ben! — falei para Benjamin, agora com seus treze anos, enquanto entregava a espingarda para ele.

— Atirar não tem graça. Eu gosto é de usar a lança.

— Você fala isso porque não está conseguindo acertar o alvo, mas eu lhe garanto que é tudo questão de prática. Vem, eu vou te ajudar. — chamando-o para perto de mim.

Um pouco a contragosto ele se aproximou e pegou a espingarda.

— Dobre levemente os joelhos e segure firme. — ajudando-o a fazer mira.

Sem esperar muito, o ansioso garoto logo disparou, mas errou o alvo.

— Eu falei, essa arma é uma droga. — esbravejou, como uma criança mimada.

— A espingarda é ótima! Não coloque a culpa da sua falta de habilidade nela. Se você se focar mais e não for tão afobado, tenho certeza de que vai conseguir.

— Já disse que não quero atirar com essa coisa.

— Tudo bem! Você não precisa atirar com ela. Mas um dia terá de aprender.

— Quero que me leve com você pra caçar lobos.

— Sabe que não gostei nada do que você fez da última vez que te levei para caçar. Acho melhor esperar até que você amadureça um pouco mais.

Em nossa última caçada, encontramos um lobo preso à armadilha.

O procedimento é disparar e matar o lobo da forma mais indolor possível, mas Benjamin partiu para cima do animal e o perfurou diversas vezes com a lança, claramente sentindo prazer em torturar o animal.

Com a morte de Alonso, eu era a figura paterna de Benjamin agora, mas definitivamente estava falhando miseravelmente nessa missão.

Eu podia ver o ódio que ardia no interior daquele garoto e não sabia o que fazer para aplacar tanta fúria.

Ele me olhou fixo, com o cenho fechado, e então voltou para casa, pisando firme no chão.

O vento estava forte e aquele dia parecia especialmente frio, até mesmo para aquela cidade, então retornei para casa também.

Isidora me recepcionou com uma torta e comemos ao redor da lareira.

— Essas eram as últimas frutas. Tive de fazer essa torta antes que estragassem. — disse Isidora. — De agora em diante, só teremos carne e peixe, até o inverno acabar.

— Por falar nisso, esse inverno está mais frio do que nunca. — comentou Laura. — Parece que a cada ano esfria mais. Ano passado, mesmo no verão, houveram poucos dias com temperatura acima de zero.

— O mundo está mudando, minha filha. O homem está mudando o mundo e é para pior.

— Acha que essa mudança brusca do clima tem a ver com a guerra?

— Essas bombas explodindo em todos os lugares, não duvido que altere o clima do mundo.

— A torta está ótima, Isi! — comentei, tentando mudar de assunto.

— Que bom que gostou, coloquei as raspas de limão por cima, como você gosta.

Benjamin termina de comer, larga seu prato em cima da mesa, praticamente jogando-o, e sai porta afora.

— O que deu nesse garoto? — questionou Laura. — Ultimamente ele está impossível.

— Deixe ele, Laura. — reprime Isidora. — Essa idade é assim mesmo. Além do mais, ele ainda não superou a perda do pai.

— Eu também não superei e a senhora também não, mas nem por isso agimos como ele. — com um tom mais agressivo. — Acho que já é hora de ser um pouco mais enérgica com ele.

— Ben precisa é de um tempo sozinho pra digerir isso tudo.

— Ele já teve tempo suficiente, mãe! Se você não der um jeito nele agora, ele vai se tornar um monstrinho incontrolável.

— Não fale assim do seu irmão. — agora também aumentando seu tom de voz.

Toquei de leve o braço de Laura, que pareceu entender o recado. Ela já estava em pé, quase em cima da mesa, exaltada, então respirou fundo e sentou-se novamente.

— Tudo bem! Você é a mãe, eu não vou me intrometer nisso.

Laura largou o prato da torta e saiu da sala, irritada.

— Mas você é a irmã mais velha, tem que apoiá-lo. — continuou Isidora.

Laura seguiu para o quarto sem dizer mais nada, me deixando à sós com Isidora em um clima pesado.

Isidora abaixou a cabeça e balançou de leve de um lado para o outro.

— Está cada dia mais difícil criar esses dois. Se pelo menos Alonso ainda estivesse aqui.

— Eu jamais conseguiria me tornar uma figura paterna para o Benjamin como foi o Alonso, mas prometo que vou fazer o possível.

— Você não tem essa obrigação, mas obrigada!

Mais tarde, no quarto com Laura, tive de ouvir um longo desabafo de todas as coisas que ela gostaria de ter dito para sua mãe e não pôde.

Estávamos deitados na cama enquanto ela tagarelava sem parar. As atitudes de Benjamin, cada vez mais inconsequentes, a estavam incomodando muito.

Talvez se eu tivesse dado mais atenção aos instintos de Laura…

— Ela o protege como se ele fosse de vidro. Ninguém pode sequer repreender ele. — sussurrava Laura, mas em um tom exaltado. — O tempo de luto já passou. É sofrida a perda sim, eu sinto demais até hoje a falta do papai, mas ficar triste é uma coisa, agir como ele está agindo é outra. E a mamãe, ao invés de educá-lo, dá o aval pra ele fazer o que bem entende.

— Eu entendo. Mas tudo o que podemos fazer agora é tentar aconselhar seu irmão e também a sua mãe. Mas não podemos obrigá-los a aceitar o conselho.

— Eu sei. Se Benjamin fosse nosso filho seria bem diferente.

Ao tocar no assunto, Laura ficou cabisbaixa e seus olhar ficou perdido.

— Será que um dia teremos o nosso? — ela perguntou. — Já estamos tentando a tanto tempo e não conseguimos. Será que eu não posso ter filhos?

Aquelas palavras me tocaram, pois provavelmente a imortalidade é que era a culpada.

— Ou talvez eu é quem não possa ter filhos. — respondi, na esperança de reconfortá-la ou pelo menos eximí-la da culpa. — De qualquer forma vamos continuar tentando.

— Vamos sim! — ela respondeu, me abraçando. — E mesmo que nunca possamos ter um filho, pelo menos sempre vamos ter um ao outro. Promete que vai estar sempre aqui pra mim?

— É claro que eu sempre estarei aqui. Eu prometo!

Laura se aninhou em meus braços e assim ficou por alguns minutos, até que cochilou.

Afastei o cabelo da frente de seu rosto, com a ponta dos dedos, ficando apenas a admirar enquanto ela dormia.

Mesmo enquanto dormia, Laura mantinha um leve sorriso enigmático como o de Mona Lisa.

Apesar dos pequenos problemas, enquanto estava ali com ela, tudo parecia em paz.

Era a vida que eu desejava à séculos.

Eu nunca acreditei em destino, mas a vida às vezes parecia arranjar um jeito de me trazer problemas, tirando de mim a paz que eu tanto almejava.

Após algum tempo de sono, Laura começou a se debater e então acordou assustada.

— O que houve, meu amor? — perguntei. — Um pesadelo?

— Acho que sim. Foi mais como um pressentimento ruim.

— Nada de ruim vai acontecer, eu prometo.

Ela me abraçou e em seguida sentou-se na beirada da cama com uma expressão estranha.

— Ainda está preocupada com seu sonho?

— Não é isso. Só estou um pouco enjoada. Deve ter sido a torta.

Um instante de silêncio se passou e então uma gritaria na rua nos alertou.

— O que foi isso? — ela perguntou, assustada.

— Vou ver o que é. Você fica aqui.

— Cuidado, meu amor!

Coloquei a espingarda nas costas, o facão na cintura e segui para a sala, quando vi Isidora saindo de seu quarto, igualmente assustada.

— Nicolas! O Benjamin ainda está lá fora.

Foi o suficiente para que eu corresse em disparada para a rua, onde ainda continuavam os gritos.

Ao abrir a porta, vi as pessoas correndo em disparada, fugindo de algo.

Segui na direção oposta à que elas fugiam e em seguida encontrei o motivo do alvoroço.

Cinco lobos estraçalhando um homem no meio da praça.

Algumas pessoas atiravam pedras ao redor, muito de longe, com medo de aproximarem-se.

De dentro das casas alguns tentavam atirar água, mas nada detinha aqueles animais.

Saquei a espingarda, apontei para um lobo e disparei, na esperança de abater pelo menos um, antes que viessem para cima de mim.

Atirei no que estava mais longe do homem, pois na movimentação eu poderia acabar o atingindo, se tentasse atirar nos mais próximos.

O lobo foi abatido imediatamente e o som do tiro alertou os demais.

Dois deles soltaram o homem e vieram em minha direção.

Rapidamente disparei novamente, abatendo o segundo, mas o terceiro foi mais rápido e mordeu meu braço.

Larguei a espingarda e saquei o facão, rasgando a garganta do animal com ele.

Quando me soltou, peguei novamente a espingarda e fiz mira, enquanto os lobos claramente tentavam arrastar sua presa para longe dali.

Arrisquei um tiro e atingi outro lobo.

Finalmente os dois que sobraram acabaram fugindo.

Este último que fora atingido ainda agonizava no chão, mas tratei de acabar com seu sofrimento, perfurando seu pescoço com a lâmina.

O homem atacado estava extremamente ferido, mas estava vivo.

Da janelas as pessoas aplaudiram o salvamento e alguns se aproximaram.

— Você é um herói, Nicolas! — disse um deles.

— Obrigado! Algum de vocês viu o Benjamin?

Todos se entreolharam, procurando por alguém que soubesse a resposta, até que uma mão, mais ao fundo, se ergueu e a pessoa se aproximou em seguida.

— Eu vi o Ben. — disse um jovem rapaz. — Quando os lobos atacaram ele enfrentou um deles com uma lança. Haviam mais lobos, ele matou um correu atrás de outro.

— Correu para onde?

— O outro fugiu e o Ben subiu a montanha atrás dele. — apontando para a direção que Benjamin teria seguido. — Parecia ser um filhote de lobo.

— Subiu a montanha sozinho? — assustei-me. — Mas que moleque inconsequente.

Imediatamente corri na direção em que o rapaz havia apontado.

— Cuidado com os deslizamentos! — gritou um senhor de idade.

Em épocas de tempestades ocorriam muitos deslizamentos de neve na montanha e nem mesmo Alonso ousava caçar nessas situações. Mas Benjamin jamais foi de dar ouvidos ao que lhe diziam.

Subi o mais rápido que pude, enfrentando o frio terrível e vento gelado. Minhas pernas afundavam até quase a altura dos joelhos na neve, deixando um rastro para trás.

Da mesma forma procurei pelo rastro que Benjamin teria deixado e em seguida encontrei algo.

Já estava um pouco coberto por causa da neve que caía, mas foi o suficiente para identificar a direção em que ele foi.

Segui o rastro, que ia montanha acima, mas a neblina que se formava dificultava demais a visão.

No caminho, encontrei sangue na neve. Seria do lobo ou de Benjamin?

Já havia subido muito quando perdi o rastro. Olhava para os lados e mal conseguia identificar aonde eu estava. Ao meu lado, um paredão de pedra muito íngreme. Se não havia mais rastro tudo indicava que o garoto teria escalado.

Coloquei a espingarda no ombro e me preparei para subir.

Quando apoiei o pé na primeira pedra, senti uma mordida na perna e um puxão, que me derrubou no chão.

Três lobos partiram para cima de mim, me pegando de surpresa.

Um deles abocanhou meu pescoço e meu sangue escorreu por entre seus dentes.

Não havia como sacar a arma, mas consegui alcançar o facão, perfurando o tórax daquele que tentava me estrangular.

Achei que iriam me soltar quando o primeiro caísse, mas estavam famintos e não iriam recuar tão fácil.

Com um golpe rápido, atingi o pescoço do segundo e finalmente o terceiro também me soltou, afastando-se enquanto rosnava de longe.

Ergui os braços e urrei, assustando-o e ele correu.

Levei a mão ao pescoço, minha jugular sangrava muito.

Não era algo que iria parar tão cedo, mesmo para um imortal. Em outras palavras, agora eu tinha um tempo limite para encontrar Ben.

Senti um leve tremor no solo e ouvi um ruído que não pude identificar do que se tratava, quando fui pego por uma avalanche em pequena escala.

A neve descia em alta velocidade, varrendo tudo em seu caminho.

Junto com ela vieram pedaços pequenos de árvores, galhos e até algumas pedras.

Felizmente eu estava próximo ao paredão, que praticamente serviu como escudo para a neve que deslizava.

Não durou muito, mas teria sido um problema se eu estivesse desabrigado.

Quando parou, decidi escalar o paredão com seus cinco ou seis metros de altura.

As pedras protuberantes eram firmes o suficiente para sustentar meu peso, então subi, utilizando-as como degraus.

Quase no final, tentei me segurar em uma rocha grande, na beirada do paredão, mas ela quase veio abaixo, então desisti e me segurei em outra pedra mais firme, à minha direita.

Minha visão começava a ficar turva, certamente pela perda do sangue. Sentia minha força diminuindo aos poucos.

Ao subir, a corda que estava presa à minha mochila enganchou na rocha da beirada do paredão. Um de seus nós encaixou em um vinco e eu não estava conseguindo soltar.

Pensei em abandonar a mochila, mas mal tive tempo de pensar em algo e lá estava ele, um par de olhos famintos me encarando de perto. O pior oponente para aquela situação: um urso polar.

Preso à pedra, minha reação foi sacar a espingarda, mas o animal foi mais rápido e, com um único tapa, lançou minha arma barranco abaixo.

Como última instância, saquei o facão e o encarei, quando ele saltou em cima de mim.

A lâmina do facão teve de vencer a grande quantidade de pelos para só então perfurar a carne do urso, o que não foi o suficiente.

Enquanto meu corpo era dilacerado pelas enormes garras, me veio a mente quantas vezes eu já teria morrido, se não fosse por aquele cubo.

Depois de viver tanto, ainda não conseguia decidir se a imortalidade era uma bênção ou uma maldição.

Senti-me nostálgico por alguns instantes, mas a sensação provavelmente vinha pelo fato de que eu começava a alucinar pela perda de sangue.

Voltei a mim e estiquei a mão calmamente, acariciando a cabeça do urso, que me ignorou completamente, continuando a destruir meu corpo com as garras.

Então soltei o engate de minha mochila, prendendo-a com calma ao redor do pescoço do urso.

Sua cabeça agora estava presa à mochila, a mochila estava presa à corda e a corda estava presa na rocha da beirada do paredão.

Escorei minhas costas na rocha e então forcei com as pernas, empurrando-a.

A rocha estava solta e então rolou paredão abaixo, levando consigo, em um puxão, o urso, que desequilibrou e caiu junto com a rocha.

Deitado de costas, com a cabeça pendendo para trás no paredão, vi o urso levantar-se lá em baixo, mancando de uma das patas dianteiras e então indo embora em meio a tempestade de neve.

O paredão e a neve ao meu redor estavam pintados de vermelho e eu praticamente não podia mais me mover.

Minha luta agora era simplesmente para tentar me manter acordado.

Procurava por Benjamin, apenas com os olhos ao meu redor, esperando por um milagre.

Um milagre que nunca veio.

Senti um segundo tremor, este mais forte que o primeiro e então o ruído.

Em seguida veio a neve, varrendo tudo ao seu redor, levando meu corpo consigo.

Enquanto eu girava sem controle, tudo ia ficando cada vez mais escuro e eu ia sendo enterrado cada vez mais fundo.

Aos poucos fui parando de me mover, mas ainda ouvia a neve passando por cima de mim.

Quantas toneladas de neve estariam me cobrindo naquele momento?

Quais eram as chances daquele povo sem tecnologia alguma encontrar alguém que foi soterrado naquela enorme montanha?

O frio só tendia a aumentar e a neve ficava cada vez mais espessa.

Quanto tempo eu ficaria ali?

A neve gelada fazia queimar minhas feridas, mas não demorou muito para que eu ficasse dormente.

Era questão de tempo para a hipotermia chegar.

Mesmo imortal, não creio que fosse possível me recuperar mais rápido do que natureza conseguia me ferir.

Notas finais
Observações e críticas construtivas serão bem vindas!