Quando se olha para trás, procurando as memórias mais antigas possíveis, as pessoas geralmente lembram de algo de sua infância, seja uma brincadeira de que gostava, uma pessoa especial ou mesmo um incidente infeliz. Mas no meu caso, a coisa mais antiga de que me lembro é de uma senhora baixinha e entroncada, apontando o dedo na minha cara, me xingando.

Não importava o quanto eu me desculpasse, ela continuava falando. Tudo porque o pote de maionese dela quebrou.

Ela dizia que eu era um incompetente e que merecia o emprego que tinha, depois xingava meus antepassados, intercalando com alguns palavrões.

Nunca fui muito forte e, ao tentar carregar as oito sacolas daquela senhora, acabei abaixando rápido demais quando as soltei no porta malas da caminhonete.

Não humilhado o suficiente, fui chamado pelo gerente, que decidiu que o melhor lugar para me chamar a atenção era na frente de todos os meus colegas e até mesmo de alguns clientes que passavam por perto.

Fiquei encarregado de coletar os carrinhos do supermercado espalhados pelo estacionamento, lugar onde, segundo o gerente, não teria como eu “fazer mais merda”.

Acho que existe um limite para o que pode ser dito à um funcionário, mas e o que eu sei? A faculdade que eu larguei era de segurança ocupacional e não de direito.

Empurrando aqueles carrinhos logo percebi que foi a escolha “certa” largar a faculdade.

No final do expediente, depois de ser ridicularizado mais um pouco pelo gerente, ter o estrago deduzido do meu salário miserável e ser ameaçado de demissão, resolvi tomar uma cerveja com meus colegas, só para ser humilhado mais um pouco por eles, pela merda que fiz.

Pendurei a conta como de costume. O Mãozinha olhou torto para mim, fazem três meses que eu não o pago, ainda sim ele me serviu.

Não, o apelido dele não era “Mãozinha” por ter uma mão minúscula, mas porque NÃO tinha uma delas e, em seis anos que frequentei aquele bar, nunca tive coragem de perguntar como foi que ele ficou assim. Uns dizem que é de nascença e outros que ele ficou devendo para os traficantes da região. Nunca saberei ao certo.

Pensei em ir falar com aquela garota de quem eu gostava e está sempre por aquele bar, mas achei que já tinha sido humilhado o suficiente naquele dia, então decidi ir para casa.

Como de costume, antes de passar pelo pequeno portão da frente, a dona Camélia, uma senhora idosa que mora sozinha e gosta de conversar… Ah, como gosta de conversar… Decidiu que deveria contar novamente do seu filho que serviu ao exército e foi para uma missão de paz no Haiti, então decidiu também que eu deveria ter esquecido da história do casamento dela, que ela me contou apenas umas quatorze mil vezes e achou que seria interessante contar desde que eles se conheceram, passando pelo casamento e chegando até o dia da morte do velho.

Claro que não estaria completa sem a “inédita” história de quando ela foi rainha da bateria, no carnaval de, sei lá, mil trezentos e noventa e cinco. Talvez antes de Cristo.

Enquanto ela tomava fôlego, consegui escapar e entrar em casa, antes que ela emendasse com a história do seu pastor alemão, que morreu ano passado.

Com fome, me dirigi para a cozinha, que também era a minha sala.

O pão estava mofado, então arranquei as partes esverdeadas. Fritei um ovo e coloquei dentro do pão, assim estava pronta a janta.

Liguei a televisão apenas para ver uma tela azul.

Botei a cabeça para fora da janela e vi o cabo coaxial, que estava cortado.

Maldito vizinho, o que custava dividir a tv à cabo?

Maldita vida de merda.

E era apenas segunda feira!

Acordei cedo.

Acabou a pasta de dentes… À três dias.

Fazer o que? Escovar só com água mesmo.

Pão mofado com ovo.

Uniforme amarrotado.

Cabelo todo torto, porque cortei na barbearia do Zacarias. Mas ele me cobrava baratinho, pelo menos.

Tirei a remela dos olhos e estava pronto.

Mais um dia de merda.

O ônibus já estava de saída então corri para alcançar. Quando faltavam poucos metros, fiz sinal para o motorista, que fingiu que não me viu e arrancou.

Acredito ter visto um sorriso se formar no rosto dele quando me deixou para trás. Pelo menos eu trouxe alegria ao dia de alguém.

Ainda estava escuro e fiquei sozinho no ponto de ônibus. Aquele local era famoso pelos assaltos e foram os trinta e cinco minutos mais longos da minha vida.

Não, o ônibus não chegou em trinca e cinco minutos, o que chegou foram outras pessoas para pegar ônibus também, o que me deixou um pouco mais tranquilo.

Quando fechou cinquenta minutos, aí sim o desgraçado apareceu. Atrasado como sempre.

Mal cheguei no serviço e o gerente veio pegar no meu pé, gritando no meu ouvido para que eu não esquecesse o quão merda eu era. Ele não precisava fazer isso, eu fazia questão de não me esquecer.

Ensacolei compras, carreguei caixas, recolhi carrinhos, não foi o pior dos dias afinal.

Passando pela peixaria, vi que alguns peixes iam ser descartados, por causa da validade.

Por um momento fiquei tentado a levar para casa, mas ficar doente era a última coisa de que eu precisava. Já me bastava o pão mofado.

Vontade de comer peixe, mas era final de mês e meu salário ainda estava por entrar.

Já era quase final do dia, parecia que estava tudo indo nos conformes, quando ela chegou.

A mesma mulher que me xingou no dia anterior, por causa do pote de maionese quebrado.

Tento achar outra coisa para fazer, mas não teve jeito.

O destino me colocou para ensacolar e ajudar a levar as compras daquela megera novamente. O universo deve me adorar.

Obviamente ela me reconheceu, mas não disse nada.

Enquanto eu carregava as sacolas pelo estacionamento ela me lançava olhares, como se eu fosse fazer alguma besteira o tempo todo. Fiquei nervoso e minhas mãos começaram a suar.

Ainda bem que as sacolas agora eram poucas, apesar de algumas ainda serem bem pesadas.

Ela abriu o porta malas da picape esportiva, que era modificada para trilhas, ergui as sacolas para acomodá-las no carro e o destino meu sorriu de novo.

A alça de uma das sacolas arrebentou, derrubando no chão o que tinha no interior.

O rosto daquela mulher ficou vermelho e os olhos pareciam que iam saltar das órbitas.

Lembra quando disse que o tempo em que esperei o ônibus foram os trinta e cinco minutos mais longos da minha vida? Pois bem, aqueles quinze em que a megera me insultava foram mais longos ainda, terminando com um tapa dela em meu rosto.

Ela entrou no carro dizendo que deveria me arrastar pela estrada por aquele guincho com cabo de aço da frente do carro, e foi embora levando tudo o que dava para recolher dos itens que caíram no chão, deixando apenas, veja só, um peixe.

Passei por meu gerente, que me seguiu até o vestiário dizendo desaforos. Lavei o peixe e o guardei em uma sacola dentro da minha mochila.

Me preparei para sair e o gerente ainda estava falando ao meu ouvido.

Saí caminhando e o deixei falando sozinho. Provavelmente eu não deveria voltar lá no dia seguinte.

Merda de dia.

Aquele tênis rasgado me criava bolhas no pé direito e a cada passo eu mancava um pouco.

Acabou por entrar água pelas frestas e minhas meias molharam. Não estava nem chovendo, mas consegui pisar na única poça em toda a rua.

A melhor parte de caminhar com os pés molhados é, em seguida, passar por uma rua de terra batida, transformando a água dentro do meu tênis em barro.

Eu caminhava em direção ao ponto de ônibus, como de costume, quando ouvi uma voz abafada, vinda de trás de mim.

— Liberte-me!

Imediatamente me virei, mas não havia ninguém.

Na certa o som veio da televisão de alguma casa ao redor.

E se fosse um pedido de socorro certamente eu não iria querer me envolver. Não me atraía a ideia de levar um tiro tentando ajudar um desconhecido.

Ignorei e continuei andando.

No caminho pensei na desgraça que aconteceu, aquilo pode ter me custado o emprego.

Se pagar as contas já estava difícil do jeito que estava, imagina se eu ficasse desempregado?

Aquele dia não tinha como ficar pior, então me enchi de coragem e decidi arriscar tudo. Entrei naquele bar e lá estava ela, com seu cabelo curtinho e encaracolado, aqueles olhos negros e amendoados, pouca maquiagem, um batom roxo e aquelas sardas que eu adorava.

Estava sozinha. As amigas provavelmente ainda não haviam chegado. Será que é isso o que chamam de “sorte”? Fazia tanto tempo que algo não dava certo em minha vida que já nem sabia o que era isso.

Ajeitei a roupa, respirei fundo, estufei o peito e fui até ela.

Interpretei aquela cena centenas de vezes na minha cabeça, eu estava pronto.

— Com licença, este lugar está vago? — perguntei à ela, apontando para o banco ao lado, em frente ao balcão.

Ela apenas sinalizou positivamente com a cabeça.

— Olha, eu sempre vejo você aqui no bar e queria te conhecer. Meu nome é Arthur. — estendi a mão para cumprimentá-la.

— Que formal! — ela respondeu, fazendo uma careta, mas apertando a minha mão. — O meu é Julia.

Pela careta, ela não gostava de formalidades, então tive de mudar a estratégia.

— Estou te dando a oportunidade de me conhecer melhor. Que tal?

Ela fechou a cara no mesmo instante. Eu havia passado do formal para o babaca em apenas um segundo.

Definitivamente eu não era bom nisso.

Ela me fulminou com um olhar de desgosto e então decidi que o melhor era colocar as cartas na mesa. Já estava colocando tudo à perder mesmo.

— Olha, desculpa, eu não sou bom nisso. Mas o fato é que eu gostei de você e quero te conhecer. Sempre que eu venho aqui faço um milhão de planos de como chegar em você mas nunca tive coragem de me apresentar.

Ela olhava fixo para mim e eu não conseguia ler o que ela estava sentindo, parecia que estava me analisando.

De repente todas aquelas centenas de situações hipotéticas que criei para aquele momento sumiram da minha cabeça como em um passe de mágicas. Eu estava lá sem ter assunto algum, paralisado.

Ela também não dizia nada e eu não sabia o que fazer, então usei a carta coringa.

— Posso te pagar uma bebida?

Só depois notei que ela já estava com um copo de suco nas mãos.

Mas funcionou, ela sorriu. Acho que notou meu nervosismo e se compadeceu… Ou me achou um idiota mesmo.

Talvez tenha sido melhor assim, não sei se o mãozinha iria me deixar colocar mais uma bebida na conta.

Quando olhei para a entrada, avistei as amigas dela chegando. Aí sim eu não iria conseguir fazer mais nada.

— Olha, suas amigas chegaram. Não quero incomodar. Mas será que você gostaria de sair comigo uma hora dessas?

Ela pensou um pouco e sorriu. Era meu passaporte para chegar até ela.

— Me deixa o seu número. — ela disse, entre um gole e outro. — Vou pensar no seu caso.

Era o suficiente para mim.

Ela escreveu o número nos contatos do celular e eu saí em seguida, dando espaço para as amigas que chegaram.

Enquanto ia embora, elas cochichavam e riam.

Isso nunca ficava claro para mim se era algo positivo ou negativo.

De qualquer forma estava feito.

O dia parece não ter sido totalmente perdido.

Como de costume o ônibus estava lotado, mas finalmente estava em casa… Ou quase. Por que mal toquei no portão e lá estava a dona Camélia e suas histórias.

Sempre as mesmas.

Também pudera, a velhota solitária não saía de casa.

Enquanto ela falava, meus pensamentos se perdiam no espaço infinito e eu olhava para todos os lados, apenas procurando uma distração, até que ela terminasse o discurso.

Foi quando lembrei do peixe na minha mochila.

— Dona Camélia, desculpe interromper, mas será que a senhora poderia me fazer um favor? — perguntei, já abrindo a mochila.

— Claro, meu filho, do que você precisa? Meu filho sempre me pedia favores, o tempo todo, mesmo depois de adulto. Tinha que ver. Até para comprar roupa ele pedia ajuda. Eu também costurava as roupas dele, quando rasgavam. E Toda hora elas rasgavam, nunca vi menino pra rasgar roupa como ele.

Tirei a sacola com o peixe e entreguei para Dona Camélia.

— A senhora poderia fritar esse peixe pra mim? Não sou muito bom na cozinha. Da última vez tive que comer carne queimada e sem gosto.

Enquanto ela olhava o peixe, entrei correndo em casa, acenando para ela em agradecimento, antes que ela lembrasse das pescarias do marido ou de quando o filho mergulhou com os tubarões e quisesse me contar sobre elas.

Tirei aquela roupa fedida, tomei um belo banho gelado, para não gastar luz, e me deitei na cama.

Liguei a televisão e só o que vi foi uma tela azul.

Maldito vizinho egoísta.

Estava quase pegando no sono quando um cheirinho delicioso entrou pela janela.

Poucos instantes depois ouvi baterem na porta, era a Dona Camélia com uma forma de peixe frito.

Agradeci e peguei a forma.

Ela ficou ali parada, em frente a minha porta.

Não tinha como eu simplesmente mandá-la embora, então a convidei para entrar.

Coloquei o peixe sobre a mesa e cedi o único banco que tinha para a idosa.

Para mim, improvisei um banco usando um engradado de cerveja, virado de lado.

Servi dois copos de suco, feito com limões da árvore do vizinho, que insistiam em cair do meu lado do pátio, para acompanhar o peixe. Era a melhor refeição que tive em semanas.

Requentei um pouco de arroz e servi como complemento.

Tirei o pano de prato que cobria a forma, revelando o peixe que foi cozinhado inteiro, com a cabeça e tudo mais, rodeado de fatias de batata.

Durante a janta, Dona Camélia falou como nunca e, como de costume, fiz questão de ignorá-la completamente.

Maldito vizinho, eu poderia pelo menos ter a televisão para me distrair das lorotas da idosa.

No meio da falação, me pareceu ter ouvido algo estranho novamente.

— Liberte-me!

Olhei para a senhora à minha frente e passei a prestar atenção no que dizia, mas não parecia que em algum momento ela tivesse dito aquela expressão. Não se encaixava na história que estava contando.

Além do mais, parecia uma voz masculina.

Olhei para a cabeça do peixe e a cutuquei com o garfo, como se existisse alguma possibilidade de ter sido ela que falou.

Comecei a ficar preocupado. Eu estaria ouvindo coisas?

Não seria estranho eu ficar maluco, já que o universo parecia me odiar mesmo.

— A senhora ouviu isso? — interrompi.

Ela levou a mão sobre a orelha.

— Ah, esqueci meu aparelho de surdez. Vou buscar lá em casa. — levantando-se para sair.

— Tudo bem, amanhã continuamos a conversa. — aproveitei. — Preciso acordar cedo, amanhã é arressem quarta-feira e tenho muito trabalho.

— O quê? — ela respondeu, claro, estava sem a porcaria do aparelho de surdez.

— AMANHÃ CONTINUAMOS! — gritei em seu ouvido. — PRECISO ACORDAR CEDO PRA TRABALHAR!

— Ah sim, amanhã continuamos então. Obrigada por me convidar para jantar na sua casa, você é um amor.

— Tá, tá bom! — sussurrei. — Velha dos infernos! — ela não estava ouvindo mesmo.

Finalmente me livrei daquela faladeira e ainda tive uma ótima refeição. Estava satisfeito.

Do peixe sobraram apenas a cabeça, sua espinha dorsal e a cauda.

Encarei por alguns instantes aquele olho esbugalhado, como se esperasse que o peixe falasse comigo.

Limpei a mesa e então peguei a bandeja com o que sobrou da comida, para jogar fora.

Droga, é certo que ela vai me encher de histórias quando eu for devolver a bandeja.

Ia raspar os restos do peixe, colocando-o no lixo, quando me bateu a curiosidade.

Por algum motivo fiquei encucado com aquela cabeça de peixe, então peguei a faca e a espetei, tentando atravessá-la.

Para minha surpresa não consegui.

A faca pareceu atingir algo rígido.

Segurei a cabeça do peixe com a mão esquerda e abri sua boca com a direita, colocando-o contra a luz.

Havia algo lá dentro.

Tentei remover com os dedos, mas não consegui, então ao invés de puxar decidi empurrar, e o objeto saiu pelo lado de trás da cabeça.

Um pequeno cubo preto que parecia ser de metal.

Lavei e então o sequei com um pano, era bem leve, apesar de resistente e era fosco, não refletia a luz.

— Que diabos é isso? Um dado? — não tinha numeração, mas pode ser que tivesse sido apagada por ter ficado tanto tempo no mar, dentro de um peixe.

A textura era lisa e metálica, mas pesava como plástico.

Enquanto passava os dedos sobre o pequeno cubo, sua cor escura foi mudando e ele parecia ficar mais e mais iluminado, em um tom roxo escuro. Foi quando ouvi pela terceira vez:

— Liberte-me!

Senti um frio subir pela minha espinha. A voz vinha daquele cubo? Era ainda mais bizarro do que se o peixe tivesse falado… Ou não… Sei lá!

Acometido por um receio imenso, mas uma curiosidade maior ainda, respondi:

— Como eu faço para te libertar? — me sentindo um idiota por falar com um objeto inanimado que tirei de dentro de um peixe. Eu devia estar alucinando.

Dez segundos se passaram e, quando pensei em desistir de ouvir uma resposta, ela veio.

— Aceite meu contrato!

Engoli seco e continuei.

— Que contrato é esse?

E a resposta que viria a seguir seria aquela que mudaria minha vida para sempre.

— O contrato da vida eterna!

Notas finais
Observações e críticas construtivas serão bem vindas!