Memórias Vagas De Lucy Graef
3 Capítulo 3
Júlia... Parecia que cada letra daquele nome emanava da mente de Lucy sensações diferenciadas, hora a odiava, aquele senso de humor patético e a calmaria nitidamente irônica a tiravam do sério, porém, não conseguia esquecer aquele rosto, Júlia era tão linda, mesmo com as roupas simples que não esbanjavam feminilidade alguma, Júlia era brutalmente encantadora.
Uma buzina interrompia seus pensamentos, o sinal já havia aberto, Lucy desconcentrou-se no sinal vermelho e foi cair com os pensamentos em Júlia, ainda estava indecisa se o convite para jantar tinha sido sério, guardou os pensamentos para o silêncio de seu quarto, e seguiu o caminho de volta para casa, antes que algum daqueles impacientes motoristas destruísse a buzina.
Ao chegar em casa, já com as compras feitas, foi guardá-las com a ajuda de sua mãe.
- Demorou filha, tinha muita fila no caixa? – Perguntou a mãe.
- Na verdade não, mãe, é que ... – Lucy travou o que dizia, e por um momento pensou três vezes antes de contar à sua mãe o que havia acontecido, não tinha sido nada demais, mas dentro de Lucy aflorava um medo que até então ela desconhecia, medo que sua mãe soubesse da existência de Júlia.
- O que foi? “é que” o que? – Perguntou a mãe, puxando de leve o braço de Lucy como quem quer uma resposta de imediato.
-Um problema com o meu cartão, só isso. – Lucy respondeu, e fugiu dos olhos de sua mãe, que perseguiam os dela, Lucy virou-se de costas, pois não conseguia mentir, sempre era descoberta pelo olhar.
-Entendi... Pode ir, deixa que eu arrumo o restante das coisas!
Lucy subiu para o seu quarto e enquanto sua mãe terminava de guardar as compras, deitou-se na cama e acabou dormindo.
-Filha, acorda, o almoço está pronto- A mãe de Lucy a chamava e a sacudia preocupada, pois a filha não havia comido nada desde cedo.
Lucy passou a mão no rosto lentamente enquanto despertava, levantou-se e foi almoçar, na mesa , sua mãe não se conteve em perguntar sobre a situação atual de desemprego da filha.
- E aí, filha?
- E aí o que?
- Vai procurar emprego hoje?
-Acho que não deveríamos nos preocupar com isso na mesa, não acha? Como você mesma me ensinou, hora de comer é hora sagrada!
-Tudo bem,minha filha... – A mãe ficou em silêncio, e Lucy interrompeu-o com uma simples frase que ela usava com uma absurda frequência.
-Amanhã eu vejo isso.
Mais um dia se passou, amanheceu e Lucy correu para procurar emprego, antes que sua mãe surtasse de uma vez. Horas a fio, rodando o centro da cidade, até que o celular de Lucy começou a tocar, era Alice, sua melhor amiga.
- Alô? Alô? Alô? – Falava Alice repetidamente, aparentemente com pressa.
- Oi Alice, tenha calma!
- Desculpa, é que é urgente!
-Tudo bem, pode falar!
-Então, se o Flávio perguntar onde eu estava ontem à noite você pode dizer que eu estava na sua casa? – Flávio era o namorado de Alice, pobre coitado, sua cabeça pesava quase tonelada e aumentava a cada fim de semana de tanto ser traído.
- Claro, como sempre eu tendo que acobertar suas mentiras... – Disse Lucy decepcionada com a amiga.
-Me perdoa amiga, eu lhe prometo que é a última vez, só preciso que você me ajude, o Flávio não pode descobrir!
- Tudo bem, fica tranquila, agora tenho que desligar, estou procurando emprego.
- Ué, foi demitida? Nem sabia... Já conseguiu alguma coisa?
- Sim, fui demitida e não me admira você não estar sabendo, você não é a “corna”, mas é sempre a última a ficar sabendo de tudo – Riu Lucy, completando a resposta logo em seguida- E não consegui nada até agora.
- Nossa, amiga, você não perdoa... Eu conheço um “cara” que está querendo contratar uma secretária, vou te dar o endereço e você vai lá, é no centro da cidade!
- Ótimo, eu estou no centro mesmo!
Alice passou o endereço do tal “cara” e Lucy, sem demora, foi até ele, chegando lá fez uma entrevista, o homem, que já estava cansado de tanto procurar uma secretária, a contratou e Lucy começou a trabalhar no mesmo dia.
Pelos cantos daquele escritório que ela ainda desconhecia, tentando se familiarizar com aquele local, Lucy esbarrou em um vaso, tentou impedir que caísse, mas foi em vão, só restaram cacos a serem retirados do chão, seu chefe ouviu o barulho , foi ver o que havia acontecido e se deparou com a cena, um pequeno desastre no primeiro dia de trabalho, antes fosse um vaso qualquer que pudesse ser encontrado em qualquer loja de 1,99,mas não era, esse era caro e tinha sido um presente da esposa de seu chefe que ao contrario do antigo, não a demitiu, apenas pediu que ela ficasse algumas horas extras para cobrir o prejuízo.
- Terei que ficar até que horas? – Perguntou Lucy, lembrando-se imediatamente do jantar que havia combinado com Júlia.
- Até às 10 e meia, preciso resolver umas coisas e você terá que me ajudar.
Dez e meia, era isso mesmo que Lucy havia ouvido, uma hora e meia a mais do horário que Júlia havia proposto para jantarem, mas Lucy não poderia fazer nada, era seu primeiro dia ali e se ela cometesse algum erro novamente, iria perder esse emprego também.
As horas iam passando e Lucy não desgrudava os olhos do relógio, a ansiedade a tomava por inteira, o dedos batiam repetidas vezes na mesa, a perna tremia, não conseguia parar de mexer no cabelo, até que finalmente deu dez e meia, ela se levantou correndo e foi pra casa arrumar-se, pensou em ligar para Júlia para comunicar o atraso, mas se lembrou de que não havia anotado o número dela.
Lucy arrumou-se, estava belíssima, colocou seu vestido mais bonito, seu perfume mais caro e enquanto descia as escadas de casa deu de cara com sua mãe.
- Aonde você vai assim, onze e meia da noite?– Disse a mãe, curiosíssima.
- ONZE E MEIA? – Gritou Lucy, apavorada com tamanho atraso- Vou sair com uma pessoa!
- Homem? O Pablo sabe disso? – Pablo era o noivo de Lucy, sim, ela tinha um noivo, um tanto quanto ausente, mas tinha.
- Não mãe, é uma amiga!
- Tudo bem, juízo filha!
Lucy saiu por aquela porta, pegou seu carro e foi ao encontro de Júlia, ela não sabia o que iria dizer quando chegasse lá, mas tinha certeza que a veria naquele dia. Chegou, desceu do carro e olhou o restaurante inteiro, Júlia não estava lá, tornou a olhar e ela realmente não estava, a decepção tomou conta de Lucy que esperançosamente aguardou por um momento que sequer iria existir.
– Tola! – Pensou Lucy, auto adjetivando-se. – Estava na cara que ela estava brincando, fui uma tola de ter acreditado naquela mulher, aliás, porque eu estou me importando?Ela é só mais um ser indesejável e insignificante na minha vida!
Os pensamentos rancorosos de Lucy a possuíam, mas ela continuava ali, estagnada em frente aquele restaurante, como se Júlia pudesse aparecer a qualquer momento. As horas passaram e Lucy cansou de esperar, foi para casa aproveitar as últimas horas de sono que ainda a restavam antes de ir para o trabalho.
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