Memories

1 Memories Capítulo Único


Notas iniciais
Esta fic foi escrita há algum tempo, porque se fosse depender da minha cabeça neste exato momento, acredite, não sairia absolutamente nada... Um beijo para a aleatoriedade, que sempre me inspira a escrever estas notas da história. Boa leitura!

O quartel general estava em escombros, mas nem mesmo isso abalava o companheirismo presente naquele local. Exorcistas, cientistas, cozinheiros, todos esvaziavam cada canto daquele castelo que servira como base de operações por um século e agora seria desocupado.

E em meio à bagunça, houve alguns pequenos acidentes envolvendo os bizarros experimentos da divisão de ciências: Allen com cabelos compridos; Lavi e Kanda com aparência de crianças; Bookman com orelhas de coelho; Lenalee miando; e, por fim, um vírus que se espalhou por toda a Ordem Negra em um curto espaço de tempo.

No dia seguinte após a bagunça, Bak ainda repreendia o supervisor:

— O que faria se a Central descobrisse o que se passou aqui? — o loiro repetia com indignação.

Preso em sua sala ouvindo o sermão, Komui não percebeu a súbita mudança no semblante de sua irmã, que saía silenciosamente do local após ter recobrado a sua fala. Os três exorcistas vítimas dos experimentos na noite anterior ainda esperavam por um antídoto. Na mesma situação, Bookman ainda aguardava para ter seu cabelo de volta.

— Ainda vai demorar? — perguntava o mais velho, em meio a lágrimas.

— Já estou acabando... — falava Reever, enquanto mexia com vários líquidos e anotações.

Kanda e Allen brigavam como de costume, porém desta vez de forma silenciosa. Sentados num sofá, pequenas descargas elétricas eram trocadas entre aqueles olhares raivosos. Ocupados, cada um com as suas próprias preocupações, nenhum dos que estavam presentes notou a saída de Lavi também; nem mesmo o Bookman, que permanecia encolhido num canto, como se estivesse entrando em estado de depressão.

O ruivo caminhou rapidamente atrás da chinesa. Sentia-se estranho, afinal cada passo dado pela outra parecia corresponder a três dos seus. Aquele corpo começava a irritá-lo, mas sua curiosidade falava mais alto e não o deixava parar de seguir a exorcista. Uma curiosidade que parecia maior do que o normal, mas que ele não fazia questão de compreender profundamente — talvez por medo de descobrir a verdade.

De repente ela parou. Estavam em frente ao refeitório, um local que agora parecia completamente diferente: estava sem vida. Lenalee passava pelas mesas com passos vagarosos e, aparentemente, com os pensamentos tão distantes quanto o olhar. Entretanto, os passos que ecoavam solitários naquele ambiente subitamente ganharam uma companhia. Ela virou-se e, ao ver Lavi, aquela expressão perdida foi mascarada por um sorriso melancólico.

— Lavi! Me desculpe, não havia percebido que estava aqui.

Ela falava tentando fingir a voz usual, mas ele logo percebeu.

— O que foi? — o ruivo perguntou se aproximando aos poucos.

— Nada...

A voz dela parecia estar sumindo.

— Está tudo bem? — ele insistiu, agora bem à frente da garota, olhando-a nos olhos.

Aquele olhar que tentava emanar curiosidade para conter a preocupação, que o rapaz negava sentir, foi decifrado pela chinesa. Esta, porém, não fazia idéia do motivo que o levava a misturar de forma tão confusa todos aqueles sentimentos. Mas, ainda assim, sentia-se feliz por ele estar ali. Ela suspirou admitindo derrota.

— Me desculpe. Na verdade estou um pouco... Triste. — confessou.

Lenalee deixou aquela máscara cair, revelando uma fisionomia abatida. Com uma das mãos, ela tocou a superfície gelada de uma das mesas em que costumavam se reunir e conversar enquanto esperavam pelas refeições.

— Este lugar que eu chamei de “lar” por tantos anos de repente parece estar se tornando apenas parte do passado. Uma simples memória, que como outra qualquer provavelmente será esquecida...

Lavi segurou a mão dela inconscientemente. No fundo, aquele era um gesto que ele muitas vezes sentia falta. E, apesar da consciência de que aquelas eram palavras que traduziam a dor da exorcista, uma parte dele entendia aquilo de uma forma irônica — aquelas palavras refletiam a sua própria dor.

— Mas se for uma memória marcante não será esquecida, não é?

Ele falava como se estivesse conversando consigo mesmo — com "Lavi, que sempre tentara ignorar o medo que sentia em relação àquilo.

Aquelas palavras que vinham de um rapaz de dezoito anos contrastavam com uma voz infantil e com as pequenas mãos de criança que agora seguravam a dela. Era um gesto que a fazia ter que se esforçar para não se esquecer da real idade da pessoa que a tocava.

— Obrigada. — ela agradeceu se agachando até ficar do tamanho em que o outro se encontrava. — Você está uma gracinha assim... — comentou entre risos.

— Você também ficou uma gracinha miando. — Ele brincou com um sorriso malicioso.

Ela corou um pouco, mas disfarçou rapidamente aumentando seu sorriso e tentando convencer sua mente a acreditar naquilo que seus olhos viam: era apenas um pequeno garotinho à sua frente, aproveitando-se de sua aparência para dizer aquilo. A idade real dele não importava mais — ou, ao menos, não poderia importar para que ela conseguisse manter-se aparentemente inabalada.

— Então você era assim quando era pequeno... — ela continuou rindo. — Eu gostaria de ter te conhecido nessa época... Pequeno e fofinho...

Lavi se recordou naquele instante de que, apesar de ter conhecido Lenalee há mais de dois anos, a garota jamais havia sido mais alta do que ele. Houvera apenas um curto espaço de tempo em que talvez tivessem ficado com a mesma altura, mas não passou disso. Diferente de Kanda, esta era a primeira vez que a garota o via assim, como uma pequena criança.

Antes que ele pudesse dizer algo, no entanto, ouviu seu nome sendo chamado ao longe.

— Ei, Lavi! Se não quiser ficar assim para sempre venha logo tomar o antídoto! — Gritou alguém.

— Acho melhor ir logo... — Disse ela, rindo.

Antes de sumir pela porta daquele local, o ruivo escutou seu nome sendo chamado pela última vez, fazendo-o parar e mais tarde sorrir.

— Obrigada por ter vindo até aqui, Lavi.

X

Lenalee olhou pela última vez para o seu quarto, sentada numa cama que abafou inúmeras vezes o seu choro de infância; de uma criança que um dia tentou desesperadamente fugir do fardo de se tornar uma exorcista.

Ela se levantou e foi até a janela, agora já sem as cortinas. Seria provavelmente a última vez que ela veria aquela paisagem — uma vista que não possuía beleza, mas guardava certo significado para ela. Quando menor, poder ver algo que ultrapassava as paredes da Ordem parecia trazer para perto uma pequena ponta da liberdade que ela não possuía.

— Ainda está triste?

O corpo da garota se arrepiou. Escorado na porta logo atrás dela, Lavi a observava de braços cruzados — braços estes muito maiores do que aqueles que ela vira há pouco tempo atrás; e uma voz muito mais grave do que aquela que a confortou. O rapaz havia recuperado a sua real aparência.

— Não. Estou melhor... Eu só... — E de repente a voz falhou.

— Ainda não está bem? — Ele perguntou indo em direção a ela.

— Não. Está tudo b-...

Mas esta não foi como da primeira vez. O pequeno garotinho que levou um tempo considerável para chegar até ela agora estava muito mais alto e possuía passos muito mais largos, que a alcançaram num piscar de olhos.

— ... Só queria ver este quarto uma última vez... Estava procurando uma boa lembrança que não me deixasse esquecer este lugar... — ela terminou dando um passo para trás e sentindo a parede da janela contra suas costas.

— Uma lembrança?

— Sim. Vim atrás de apenas uma. — ela revelou. — Uma lembrança “feliz”.

Durante todos aqueles anos, poucos foram os momentos que ela pôde vivenciar com alegria. Eles existiram, porém fora daquele cômodo. Aquele era o local onde ela se sentiu presa durante a infância e que, nos últimos anos, usara como esconderijo de mágoas e lágrimas. Queria lembrar-se daquele quarto com uma recordação feliz e poder dessa forma enterrar as demais que a feriam.

— E conseguiu?

Desta vez, foi ele quem abaixou o olhar para poder enxergá-la nos olhos.

— Eu... Acho que a vista dessa janela me traz, de certa forma, boas lembranças...

Apenas um leve movimento e seus olhares se cruzaram. Lenalee tentou dar outro passo para trás, mas a parede a impediu. Perguntou-se desde quando seu amigo era tão alto, seu olhar tão penetrante e seus movimentos tão rápidos. Tudo aquilo que sempre esteve à frente dela e que só agora a garota percebia parecia intimidá-la a ponto de fazê-la perder a voz.

Lenalee se encolheu, enquanto desligava-se das suas memórias de um garoto magro e da sua altura e passava a enxergá-lo da forma como ele realmente era no presente. O olhar profundo, as mechas ruivas, aquele perfume desnorteante; até mesmo a presença do rapaz, por si só, já fazia a garota sentir sua mente completamente tomada por ele. E isso fazia seu rosto tornar-se rubro de forma quase automática.

Lavi logo percebeu o estranho comportamento da outra. Desconfiava do motivo e, como uma resposta à sua natureza travessa e um tanto maliciosa, resolveu brincar com a chinesa para se divertir com a reação dela e animá-la.

— Ei.— ele se aproximou mais ainda dela apoiando uma das mãos na parede. — Se quiser posso te ajudar a formar uma “boa lembrança” desse lugar. — ele brincou.

A garota ficou com o rosto mais corado ainda — uma reação que ele esperava para poder aproveitar mais ainda da situação. Com o corpo inclinado sobre o da exorcista, ele foi se aproximando lentamente do rosto dela, esperando que fosse empurrado ou acertado com o famoso “punho de ferro” da mais nova. Esperava ser chamado de bobo como sempre.

Mas, para a surpresa dele, nada disso aconteceu. Ela permaneceu estática, não importava o quão próximo ele estivesse chagando. Ela simplesmente não se mexia. Aquele movimento, de repente, dependia dele para ser contido — mas não foi. O que ele pensou ser apenas uma brincadeira acabou tornando-se fato: seus lábios se encontraram com os dela. E desse toque tornou-se cada vez mais evidente o desejo e os sentimentos retidos por ele e descobertos por ela.

Os braços que antes se apoiavam na parede agora apertavam o corpo de Lenalee contra o dele. As pequenas mãos da garota, que num primeiro momento pousaram sobre o peito do ruivo, agora se entrelaçavam atrás da nuca dele, aproximando o rosto do rapaz do dela e intensificando aquele beijo que começara de forma tímida.

Era apenas um toque, mas resultou numa lembrança; uma memória que a garota com certeza jamais se esqueceria, e Lavi também não: porque aquele acontecimento não dependia de sua mente para ser lembrado, e sim de seu coração — algo que o Bookman não havia ensinado o aprendiz a controlar.

Notas finais
Digam que eu não fui a única a quase desmaiar ao ver o Kanda e o Lavi pequenininhos... *--* hsioahsoaish’
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!