Memoirs
3 Capítulo 3
A porta da sala de aula não abria fazia semanas, mas, naquela manhã, ela o fez.
Provavelmente, era a primeira vez que Maria pisava por lá ou, pelo menos, uma das poucas vezes. O resultado das últimas avaliações tinha saído, e ela conseguiu evoluir, apesar de sua evidente dificuldade.
“Que bom que eles estão fazendo algo por alguém” Luísa não pôde evitar pensar, amarga.
Seria tão mais simples se pudessem dar-lhes remédios ou começar outros tipos de tratamento, em vez daquela terapia inútil. Eles tinham capacidade para tal, afinal de contas.
Contudo, não era o que eles queriam. Eles queriam era desenvolver um método de tornar as pessoas mais receptivas às memórias guardadas no subconsciente, como ela era, e testar isso em pessoas como Maria. Poderia ser qualquer pessoa, mas ela era a mais prejudicada de todas, então poderiam verificar como seria isso em uma pessoa normal.
Ela só gostaria de saber se fariam o método contrário para ela, ou se a deixariam sair de mãos abanando. Afinal, quem iria querer ter uma memória consideravelmente menor que a que tem? Só se alguém tivesse o mesmo problema que o dela. Ou mesmo como um antídoto para o outro remédio.
Ela nunca entenderia os cientistas. Preferia exatas às biológicas.
Decorar não era uma dificuldade para ela, mas o raciocínio era algo que somente ela poderia ter.
Se fosse uma sala de aula como as de antigamente, a professora notaria a mudança de Maria, mas é claro que não era assim. Duvidava que, sequer, a mulher pudesse enxergar a face de seus alunos. Talvez, nem o nome soubesse.
A impessoalidade no meio da informalidade que os doutores mostravam em suas pesquisas. Talvez isso atrapalhasse os resultados, ela nunca poderia dizer com certeza.
Sentada atrás de Maria, ela pôde perceber que a maior dificuldade da garota nem eram as contas, mas as fórmulas. É claro, ela tinha problema de memória, não de raciocínio.
Durante uma aula maçante de fixação de aritmética (para quê fixar algo que ela já sabia?), Luísa começou a divagar como seria uma pessoa com problemas de raciocínio. Ela costumava fazer muito isso, divagar sobre coisas e pessoas tão absurdas quanto ela. Ser normal devia ser muito entediante, e ela não escolheria esse fim, se não precisasse mesmo tomar essa decisão.
Quando a porta abriu-se, ela pôde sentir a tensão da colega da frente, que logo tranquilizou-se, assim que outro aluno foi retirado.
Devia ser horrível precisar esforçar-se para chegar a um nível que deveria ser considerado o normal entre todos. Luísa precisava esforçar-se para manter-se acordada, muitas vezes, já que era bem capaz de ser levada para o outro lado do vidro, o que seria uma sacanagem, já que a sala A era mais silenciosa. Mil vezes mais silenciosa.
Deveria ter uma sala C. A sala A já era o dos nerds, a sala B era dos que não estavam nem aí, mas tinha uma divisão. Os que estavam nem aí que dormiam, escutavam música, calados em seu canto. E os que gritavam, pulavam, jogavam aviões de papel, conversavam com os amigos.
Poderiam, simplesmente, aumentar o volume do silêncio. O silêncio entrecortado apenas pelo som de vento, do lado de um penhasco. Era o som mais tranquilizante que poderia ser capturado, e que os carinhas de jaleco mais tentavam.
A escuridão era a ausência de luz, e o silêncio era a ausência de som.
Como duas coisas tão diferentes poderiam unir-se numa só?
Fale com o autor