Memento Vivere - Lembre-se de Viver
5 Sacerdotes Sombrios

Quando Namor acordou e saiu do quarto, Yabbat já havia sido levada para o laboratório. Tentou não pensar muito nas consequências disto, portanto ocupou sua manhã com coisas mais úteis para resolver toda aquela situação, por exemplo quais caminhos deveria seguir para fora da base e qual era o nível de armamento da IMA. Enquanto isso, trabalhava também em uma versão crível a se contar sobre seu povo para a agente.
Nada lhe deu perspectivas boas e não havia como entrar em contato com os Vingadores. E era difícil fazer algo sem levantar suspeitas.
Sentia-se observado pelos agentes. Suas roupas amarelas com detalhes em preto escondiam bem sua identidade, de modo que pareciam todos iguais, todos clones. Ou ao menos quase. Entre os uniformes, ele notou que existiam diferenças pontuais. As roupas mais reforçadas e equipadas eram da segurança, muitos usavam armas pesadas e a maioria saiu para conter os Cartógrafos durante a Incursão azul. Outros tinham trajes mais leves e seguravam pranchetas, sempre perto dos painéis e do jardim. Cientistas. Não usavam armas, nem mesmo no terceiro andar subterrâneo.
Um plano de fuga começou a se formar em sua cabeça enquanto estava ali no jardim central, encarando o céu através do vidro. Terceiro andar subterrâneo, lugar onde estava o Cubo e onde eram feitas as experiências. Abóbada de vidro, o mar. Tantas variáveis, tanto a perder. Seria mais fácil se ele apenas voasse para fora da base. Poderia fazer isso, deixar toda aquela loucura para trás. No entanto…
Não resolveria nada. As Incursões viriam e estaria sem Yabbat, a única com mais conhecimento no assunto. Não sabia onde exatamente encontrar Steve Rogers para pedir ajuda, considerando ainda que ele estivesse disposto a isso. E Atlantis… Atlantis estava há milhas de distância e Namor temia o que iria encontrar lá, ou melhor, do que talvez não encontrasse. Então ele aguardava, dividido entre se sentir impotente e cauteloso. Em seu íntimo, sua hesitação soava igual ao mar recuando na praia, apenas para retornar com a força de um maremoto.
O que ele precisava mesmo era de uma distração… Ao invés disso, Monica veio ao seu lado. Ela cruzou os braços, seu corpo relaxado. Enquanto viera andando, o cinto em seu quadril tilintava com a carga de munição tranquilizante; chocando-se levemente com a arma no coldre.
— Quando vai me dizer de que reino você é príncipe, Namor?
— Ora… Não é nenhum lugar importante aqui. — Ele respondeu, um tanto cauteloso pela conversa e simultaneamente pesaroso pela conclusão seguinte: — E nem parece que existe uma versão de meu reino nesta Terra.
A cientista cruzou os braços e encarou o céu, assim como ele.
— Chegará uma hora que vai precisar parar de dar respostas evasivas. Não somos inimigos, aliás… Somos bem parecidos. Fazemos tudo pelo bem comum. Então decida-se logo onde sua confiança está. Isso lhe poupará tempo e cabeça.
— Eu decidi onde depositar minha confiança. E já sei de que lado estou. — Namor afinal se dignou a encará-la. — E sei também quando minhas palavras não importam. Meu reino foi submerso pelo mar há anos e o resto de meu povo sofreu um ataque recente de Wakanda. Existem poucos de nós. Por enquanto, sou um príncipe de nada e de quase ninguém. Por isso meu desespero em salvá-los, Senhorita Rappaccini.
Ela assentiu em silêncio. O resumo que Namor lhe ofereceu era verdadeiro em cada suspiro, mas ele aprendera o que falar e quanto falar. A impulsividade não adiantaria naquele instante, não com tantas coisas em jogo.
— Wakanda em guerra? Seu mundo parece um tanto caótico.
— Não faz ideia. Agora me diga… Yabbat não está no laboratório? Pensei que tivesse pressa em resolver tudo.
— Ah, ela está. Mas não preciso estar lá para a divisão de cientistas prosseguir com os testes. — Olhou para o bracelete. — Inclusive, devem ter terminado a sessão a essa altura. Não é bom exaurir cobaias de uma vez só. Usar o Cubo sempre custa caro, sem falar que ainda temos que selar o universo e trazer as pessoas de volta. Me pergunto o que vai acontecer com a Cisne…
— O que quer dizer com isso?
— Geralmente as cobaias mutantes viram cascas vazias na segunda etapa, sendo que são processos mais simples. — A cientista explicou, como se conversasse sobre algo banal. Namor inconscientemente fechou os punhos. Agora fazia sentido o porquê Genosha estava marcada no mapa. A IMA fazia experimentos com mutantes e Magneto jamais permitiria tal atrocidade. E agora, por não ter defendido Yabbat e ter revelado uma guerra com Wakanda em seu planeta, Monica Rappaccini assumira que Namor também não teria escrúpulos em relação a mutantes. — Estou testando aos poucos as dimensões do poder do Cubo. Yabbat está aguentando bem, mas talvez o Cubo em si realize apenas uma única grande alteração na realidade. Isso me faz questionar se de fato sobrará algo dela. Talvez não reste nem mesmo uma casca vazia.
O príncipe estava prestes a jogar seu plano e sua discrição pelos ares, tentado a enfiar um belo soco em Monica Rappaccini, mas antes que sua ira consumisse seu corpo, o céu se abriu. Não era azul como as breves fendas anteriores, as Sidera Maris. Era vermelho, pulsante, sangrento. Rabum Alal, a roda continuava a girar.
O alarme da base tocou estridente, os agentes pegaram as armas. Pela primeira vez, Namor enxergou figuras descerem de lá. Não eram Cartógrafos, não. Eram figuras que Yabbat evitava desde sempre: Sacerdotes Sombrios.
— Você disse que a sessão havia terminado.
— E terminou. — Monica parecia verdadeiramente assustada. — Isso não é efeito colateral dos experimentos. É uma Incursão de verdade.
Ela fez sinal para que o acompanhasse até o terceiro andar subterrâneo. Era um lugar seguro para se proteger dos inimigos e poderiam permanecer ali até que a situação estivesse minimamente controlada. Namor duvidava que fossem resolver tudo tão rápido, aliás, duvidava que fossem resolver qualquer coisa. Incursões normais duravam oito horas até que os dois planetas alinhados colidissem, caso um dos mundos não fosse detonado primeiro. Sacerdotes, por sua vez, eram pragas que jamais se extinguiam e tinham fome aguda por destruição.
Todas as chances estavam contra ele. Ainda assim… Era a oportunidade perfeita para escapar.
Entraram no cômodo, a luz azul do Cubo Cósmico se misturando com o vermelho das lâmpadas de emergência da base. A corrida para tal abrigo fizera o cinto de Rappaccini tilintar e tilintar, despertando ideias vis em Namor. Primeiro, voltou a reparar no cômodo e onde estava sua verdadeira aliada:
Ao centro, havia o artefato brilhando com lampejos ocasionais, e ao seu lado havia uma estrutura metálica com inúmeras injeções e tubos que Namor jamais saberia nomear à primeira vista. Nessa estrutura, existia um suporte, quase uma maca para apoiar um corpo, com fivelas para prender punhos, tornozelos, tronco e pescoço. E Yabbat estava nela.
Os cientistas de amarelo ainda tiravam as amarras, transferindo-a para outra maca. Ela estava fraca, quase inconsciente, e já não demonstrava resistência. Seus olhos abriam pesadamente, como se ela ao menos tentasse permanecer desperta, de modo que Namor pôde enxergar a cor vermelha e cintilante de sua íris — que sempre se coloria assim numa Incursão. Ele viu também sangue escorrer do nariz dela, roxo e escuro.
O príncipe rangeu os dentes, mas evitou demonstrar a cólera que se espalhava por suas veias. Aproximou-se de Monica Rappaccini enquanto ela dava ordens aos seus subordinados e perguntou:
— Você sabe que tem oito horas para evitar a destruição do seu planeta. Tem uma bomba para acionar no outro mundo?
— Os drones já foram acionados, Namor, e minha equipe está cuidando dos Sacerdotes. Está tudo sob controle. A detonação vai acontecer em dez minutos.
— Ótimo.
Namor lhe aplicou um golpe com os braços, focando nas articulações dela. Foi uma sequência rápida e forte, justamente para desestabilizar a mulher e afinal pegar sua arma junto com a munição tranquilizante, que tanto havia tilintado em seu quadril. Em menos de dez segundos, Monica estava no chão e o rosto torcido em ódio e choque. O atlante não a permitiu reclamar sobre a traição repentina que sofrera. Apenas engatilhou a pistola e disparou em seu ombro, obrigando-a cair na inconsciência assim como ela fez com Yabbat.
Os cientistas pararam. Não tinham armas e a equipe de segurança do lado de fora estava ocupada em sobreviver às agressões dos Sacerdotes Sombrios. Ninguém ousou partir para cima dele, numa tentativa de impedir qualquer que fosse seu plano. Não, é claro que não. Todos da IMA eram minimamente inteligentes e não entrariam numa briga que não pudessem vencer. O príncipe, por sua vez, não deixaria a oportunidade escapar pelas suas mãos. Não poderia perder tempo. Logo, a detonação ocorreria — portanto, logo os agentes com equipamentos enormes, potentes e letais voltariam para lidar com dois prisioneiros em fuga.
Namor largou a pistola tranquilizante no chão de metal. Não iria mais precisar daquilo, mas precisaria de outra coisa da cientista desacordada. Abaixou-se ao lado dela, pegou o bracelete de Monica e o colocou no próprio antebraço, vendo rapidamente como funcionava. Deveria lhe dar acesso ao elevador e outros comandos que facilitassem a partida. A primeira coisa que fez foi desativar a coleira elétrica de sua aliada, de modo que o objeto caiu com um baque no piso.
Avançou em direção ao grupo que ainda segurava Yabbat e, para o bem dos cientistas, houve pouca resistência em deixá-la partir. Namor tinha intenção de pegá-la no colo para ser mais rápido, mas a Cisne ergueu o pescoço e murmurou:
— O Cubo. Não podemos… Não podemos deixar o Cubo.
— Maldição, Cisne! Eu não consigo levar os dois!
— Você nem deveria me levar! — O pouco de energia que sobrara dela se tornou aquele grito confuso. — Então me ajude a andar, seu tolo. Eu pego o Cubo com o outro braço.
Namor queria mandar aquele maldito objeto para inferno das zonas abissais, mas obedeceu o pedido dela. Passou o braço esquerdo de Yabbat por seu pescoço, enquanto ela pegava o artefato com a mão livre. Os dois caminharam naquele ritmo dolorosamente lento até o elevador, contando os minutos para que os outros agentes voltassem.
Quando saíram, já em direção ao jardim central, o vermelho do céu desvanecia — eclipsado pela explosão na atmosfera do outro planeta. Não era mais possível enxergar os Sacerdotes no céu laranja, embora houvesse o som da batalha ao longe. Não havia mais tempo e eles ainda estavam lá.
Namor se surpreendia por Yabbat conseguir andar, na verdade. Ela parecia abatida e seus olhos fraquejavam ocasionalmente. No fundo, sabia que o mais sábio era pegar o Cubo e partir. Era até mesmo o seu plano original, mas… Ele não era sua prioridade no momento. Não quando tinha que optar entre ele e sua aliada.
Ouviu tiros mais próximos, gritos abafados pela sirene que ainda não havia deixado de ecoar. Já abaixo da abóbada de vidro e entre as folhagens, o príncipe obrigou a Cisne Negro prestar atenção em suas palavras urgentes:
— Já que você não vai soltar a desgraça desse Cubo, eu quero que você se segure bem forte em mim. — Yabbat franziu os cenhos, encarando-o sem saber como obedecer tal pedido. — Pelos deuses, Cisne, só se segura!
Ele pegou os pulsos dela e os entrelaçou em torno de seu próprio pescoço, permitindo ainda que ela transportasse o Cubo. Esperava que estivesse em condições de segurar firme nele enquanto levava o artefato, mas não confiou muito na sorte. Abraçou a cintura dela com a mão direita, só para garantir, e ergueu o punho esquerdo ao pegar impulso no chão e voar.
Na superfície, o mais próximo da sensação de nadar que Namor chegava era quando voava, mas… Voar era sempre mais violento. Havia sempre a gravidade e o inevitável risco da queda. E não foi diferente daquela vez. Seu punho erguido chocou-se contra o vidro da abóbada e a partiu numa miríade de pedaços.
Houve um estalo agudo e craquelado.
A Cisne notou o risco da situação e o abraçou de volta mais forte, olhando para baixo para escapar da chuva de cacos de vidro, já Namor soltou um arquejo, pois seu punho sangrava. Mesmo com sua habilidade de regeneração, ferimentos eram bem incômodos, tanto pela dor quanto pelo coágulo de sangue. Ele parou um momento no alto, segurando Yabbat ao encarar o horizonte numa tentativa de traçar a rota que havia planejado. Oeste. Era só seguir o ritmo decadente do pôr do Sol.
Seguiu naquela direção, esperando que fosse apenas um ponto indistinto ao atravessar o céu laranja. No entanto, os drones da IMA retornavam à base e alguns Sacerdotes ainda vagavam entre as nuvens. Estavam no meio do fogo cruzado e logo vieram os disparos das duas partes: projéteis grossos de artilharia antiaérea das máquinas as rajadas de luz verde das criaturas que a Cisne tanto murmurava.
Ele sentiu o corpo dela tremer de maneira instintiva e fez o seu melhor para desviar dos disparos. Estavam tão perto do mar. Tão perto de seu objetivo final. E então, um tiro acertou sua perna.
O príncipe gritou mais de fúria do que de dor. Começou a perder altitude rápido. Não conseguia mais estabilizar a rota do voo para desviar de mais tiros. E Yabbat… Yabbat estava cansada, dopada e, por mais que jamais fosse admitir, sentindo algo parecido com medo.
O impacto contra o oceano aconteceria em breve e seria brutal. Estavam caindo muito rápido. Ele não iria morrer por causa disso, mas definitivamente iria desmaiar. Não sabia dizer se o mesmo aconteceria com ela. Os dois ficariam vulneráveis ao seus inimigos. Não era o pouso seguro que planejara, mas era o único que teria naquele momento. Tinha que pensar mais rápido do que sua queda.
— Eu preciso que faça o escudo, Yabbat. Faça. Faça agora!
Os olhos dela, porém, piscaram lentamente e seus lábios tentaram falar algo que no fim não conseguiu. Estava tão fraca. Não era capaz de projetar seus escudos psionicos, não naquele estado. Namor então girou seu corpo, fazendo com que a Cisne ficasse por cima de si, e a abraçou forte com os dois braços. Esperava que pudesse absorver todo o impacto por ambos. Aguardou o instante que seria envolvido pela água, pela dor e pela inconsciência. Fechou os olhos.
Mas aquele instante jamais veio.
Seu corpo tremeu e logo veio silêncio e escuridão. Devido a velocidade da queda, perfuraram muitos metros abaixo do oceano, o suficiente para que nem os drones, nem os Sacerdotes ousassem procurá-los. Namor abriu as pálpebras com cautela, surpreso por não sentir o duro impacto de sua pele contra a água… E notou que em torno dele e da Cisne Negro, havia uma esfera de energia psiônica, uma barreira translúcida que os protegera no exato segundo em que atingiram o mar — exatamente a barreira que os salvou da explosão há dias no espaço. Notou também que ainda abraçava Yabbat forte, deitado acima da barreira com ela sobre si. Soltou-a delicadamente, de modo que a Cisne virou-se devagar e deitou-se ao seu lado. Ela ergueu a mão esquerda trêmula e depositou o Cubo Cósmico no peitoral do atlante.
— Aqui está. — A voz oscilou, sua respiração entrecortada. — Falta…
Namor deu um riso breve.
— Falta sumir. Viu, Cisne? Um plano perfeito: “Pegar o Cubo e sumir.”
Ele inclinou o rosto para vê-la e notou sua sobrancelha erguida, desconfiada. Mas logo ela fechou os olhos docemente, exausta e sem se importar com o narcisismo do príncipe atlante. Apenas questionou:
— E agora?
— Agora, — Namor inspirou fundo. — Espero que consiga manter a sua barreira por mais tempo. Nós vamos para Atlantis, Yabbat.
— Atlantis? Por que não vamos atrás… Não sei, das versões de seus aliados nesta Terra? Rogers, por exemplo, já que Reed está fora de cogitação. Rogers aceitará trabalhar pelo bem maior… Embora tudo seja ilusão.
Foi a vez de Namor erguer uma sobrancelha.
— Que obsessão por Steve.
— Por favor, príncipe. — Yabbat segurou as próprias têmporas. — Estou cansada.
Ele lhe ofereceu um sorriso de lado e continuou a explicar:
— Bom, o fato é que eu duvido que os Vingadores tenham uma das portas para a Biblioteca de Mundos.
Ela abriu as pálpebras.
— E por acaso você tem?
— Atlantis tem. Ou suponho que sim. Há um templo quase esquecido… Com imensos portões selados na parte antiga da capital. A descrição bate com o que disse.
— Ou pode ser apenas uma porta bem grande.
— Acredite, não tem nada de simples naquela porta. Poderemos transitar entre os mundos, já que… Bem, você é uma das Grandes Damas. Poderei salvar meu povo.
Para o bem daquela conversa, Yabbat não debochou da última frase, um quase elogio. Somente inspirou fundo e disse:
— Então você conseguiu quase tudo, huh? Uma guia, uma porta. Seria essa — Ela apontou para o Cubo Cósmico. — A sua chave?
Numa paráfrase de uma sentença há muito tempo dita pela Cisne Negro, Namor carregou toda a petulância e mistério que tinha em uma única palavra:
— Talvez.
Yabbat sorriu naquele seu humor ácido e silencioso, fechando os olhos mais uma vez.Seu tórax descia e subia num ritmo mais calmo ao finalmente controlar a respiração. Namor pôde notar também que a mão direita dela subiu em direção ao próprio pescoço, tateando onde jazia antes uma coleira elétrica. Ele jamais pensou que um dia estaria dentro de uma bolha no fundo do mar junto à Yabbat, sentindo pena por ela ser uma ave inúmeras vezes engaiolada. Ela crocitava horrores? Sim, e também murmurava palavras em sua língua materna que sempre pareciam maldições. Mas… Havia franqueza em suas meias-palavras e ele sabia respeitar isso.
Lá estavam os dois após a fuga da IMA, apenas respirando.
— Verdade seja dita, Cisne, achei que você não daria conta de erguer seu escudo. Pensei que os experimentos tivessem lhe esgotado por completo.
— E é por isso que me abraçou tão forte, príncipe? — O seu riso foi ácido. — Eu estou esgotada, mas só vou parar quando o absoluto fim vier. Então descansarei meus braços, fecharei os olhos e talvez… E talvez eu durma bem. Para sempre. — Suspirou. — Até lá, os mundos terão que lidar com as vilanias em minha cabeça e o caos em minhas mãos.
Namor meneou a cabeça, apreciando o fato dela também parafrasear algo que ele havia dito dias atrás. Porém, sentira-se exposto demais por Yabbat ter mencionado o forte abraço que lhe deu ao tentar proteger seu corpo durante a queda, portanto não se permitiu ser deveras amigável com sua aliada.
— Bom, esse é um momento oportuno para a sua vilania te manter acordada, passarinho. Será uma longa viagem até Atlantis, então terá que segurar bem esse seu escudo para respirar. Ah, e também para não deixar que a pressão das profundezas esmague seu corpo.
— Eu não sou estúpida, príncipe. Atlantis é um reino submerso. Por mais que mantenha meu escudo por mais tempo, não posso mantê-lo para sempre. Não há como sobreviver deste modo.
— Existem bolsões de ar lá, nas estruturas antigas da capital. Ficará segura, confie em mim. — Mesmo que ela permanecesse com as pálpebras fechadas e não pudesse vê-lo, ele sorriu de escárnio. — Ou então estou tentando apenas afogá-la, quem sabe?
Yabbat riu.
— Ah, Namor. A roda de Rabum Alal o deixou afiado e lhe despiu da própria dignidade, mas não o transformou num homem tão diferente assim. Você pensa em seu povo e em seu planeta acima de tudo, no entanto... — Disse ela, muito sucinta. — Se fosse realmente se livrar de mim, nós dois ainda estaríamos no laboratório da IMA, eu entubada e você ao lado de Monica Rappaccini. Não é um homem tão mau quanto pensa ser, príncipe.
— E isso é a minha fraqueza?
— É?
Ele não respondeu. Apenas ordenou que ela o deixasse sair da esfera de energia psiônica, para que empurrasse-a na direção e no ritmo certo. Quando ela argumentou que poderia mover a esfera sozinha, Namor a lembrou que deveria conservar seu fôlego e a chamou de tola. Na realidade, desejava ficar um tanto sozinho com o som do oceano. Saiu da barreira e começou a nadar, ainda assombrado pela ideia de Yabbat dizer que era um homem bom.
E que talvez isso não fosse ruim.
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