Memento Vivere - Lembre-se de Viver
14 Epílogo
Notas iniciais

Yabbat levantou o queixo e os olhos, mas em vez de encarar o céu, existiam litros e litros d’água acima de si. Dependendo do horário do dia, as tonalidades mudavam sutilmente, embora não adquirissem cores terríveis que a Cisne tanto estava acostumada a ver no alto, ao lado de luas e estrelas. Mas não havia nada lá e também não existia mais nada em seus olhos. Estava vazia.
Tinha que admitir em seu coração que a capital de Atlantis era um lugar belo, mesmo em ruínas abandonadas e invadidas por algas verdes e cracas. E ela podia observar movimento através da redoma de oxigênio onde estava. Daquele cômodo seco e cheirando sal, Yabbat via o povo atlante nadando pelas construções e interagindo com os animais marinhos que ali habitavam, ainda numa fase de reconhecimento do novo lar. Apesar do cômodo ser pequeno e improvisado, segundo as palavras de Namor, o padrão de conforto era invejável. Achava até mesmo improvável, considerando que estavam ali há pouco tempo e ela recebeu tal aposento e vestes. A Cisne compreendia a razão do príncipe se preocupar com isso. Não queria que ela se sentisse numa cela, como já tinha estado antes.
Há apenas dois dias, Victor Von Doom tinha aberto um imenso portal para seu castelo na Latvéria, onde famílias atlantes aguardavam por mais instruções de seu príncipe. Eles seguiram as orientações anteriores de Namor, portanto fecharam as portas que usaram para a atravessar Biblioteca de Mundos e deste modo evitaram que a destruição se alastrasse. Mas para garantir a segurança de todos, o latveriano pediu que a Cisne trancasse definitivamente a porta e levasse a chave consigo. Ele ainda parecia exausto na ocasião, confessou que tinha que descansar mais e meditar sobre os desdobramentos do que ocorrera. Não chegou a inquirir o porquê Yabbat não tinha recuperado seu dispositivo verde na outra Terra e desaparecido em uma dimensão qualquer, mas ele pôde imaginar que isso tinha relação com o fato dela ter pegado uma bomba. Ele apenas afirmou que teria que partir, pois sentia uma anomalia no ar. A Cisne e o príncipe respeitaram seu espaço, deixando-o a sós em seu país, e Von Doom prometeu manter o contato.
Curiosamente, era nele que Namor pensava quando aproximou-se de Yabbat naquele instante, enquanto ela brincava de maneira distraída com a chave do pingente nas pontas dos dedos. O príncipe tinha vindo por uma escadaria ao fundo, suas roupas molhadas e o cabelo também pingando. Não escapava da atenção dela que o atlante parecia à vontade num manto comprido e verde escuro sobre o torso, usando somente calças além disso. Ela poderia achar os trajes simplórios em outra pessoa, mas Namor sabia vestir aquilo com confiança digna de reis. E não havia motivos para ele não se sentir à vontade, afinal ele estava em casa. Em paz.
— Victor mandou cumprimentos, ave rara.
Ele imitou a forma que vez ou outra o latveriano se dirigiu à Cisne Negro, o que fez os lábios dela sorrirem de um jeito mudo.
— E o que ele conta?
— Não há mais indícios das Incursões, mas ele não conseguiu entrar em contato com outros Dooms ou entidades. Disse que pode ser só uma questão de tempo até falar com alguém e, de qualquer maneira, não há motivos para nos preocuparmos…
— Ainda.
— Sim, ainda. — Assentiu, achando graça de Yabbat sempre lembrá-lo de possibilidades horríveis. Tão verdadeira, tão crua. — Ele também pareceu ocupado com outras coisas. Usaram as Jóias do Infinito aqui.
— Oh. Ina abanayyartu. — Franziu a testa. — As pedras… e a anomalia que ele sentiu. Foi isso, então.
— A metade da vida no universo foi restaurada. Animais, plantas… e humanos.
— Você esqueceu-se de outras categorias de vida, mas acho que está mais tenso pelos humanos. — Yabbat se entendia o quanto a presença da humanidade poderia ser inconveniente para os atlantes, para dizer o mínimo. Maculavam oceanos e caçavam seus habitantes. Não demoraria muito para que o príncipe fosse obrigado a cogitar os futuros conflitos entre seu povo e as nações da superfície, e tais pensamentos levaram Yabbat a concluir um segundo ponto: — E nenhum atlante ressurgiu aqui. Significa que…
— Meu povo foi varrido da existência há muitos anos nesse planeta. — Ele suspirou e passou uma das mãos no cabelo escuro. Estava agora ao seu lado, também encarando o horizonte azul e as construções que o cortavam. — Serei honesto ao dizer que estou confuso e um pouco decepcionado. Não sei o que houve. Mas… talvez seja melhor assim.
A Cisne era capaz de imaginar os problemas. Dois reinos num lugar só. É claro que a solidariedade poderia tomar o coração dos atlantes que viviam ali antes, mas essa era uma atitude rara e que ela testemunhou poucas vezes na vida, a despeito do que tantos valores, filosofia e religiões pregavam. Apenas murmurou, desviando o foco de tais problemas para um deboche inócuo:
— Talvez você tivesse que lidar com outra versão sua. Outro Namor.
— Talvez você tivesse que lidar com dois príncipes.
Poderia ter feito apenas uma cara de nojo ou soltado um arquejo somado a um comentário desdenhoso, mas ela só sorriu.
— Não seria complicado. Sinto que eu daria conta de ambos...
Ele tirou sua atenção do horizonte e a encarou, uma expressão ardilosa em seu rosto. Yabbat notou algo a mais em sua face, uma coisa que não soube dizer se era apenas impressão por ser tão absurda: Aquilo era rubor em suas maçãs do rosto? Independente das dúvidas sobre a expressão do rosto dele, a Cisne podia sentir um devaneio sórdido de longe.
— Interessante.
A Cisne quebrou olhar e voltou-se mais vez a encarar os cardumes. Não precisava bisbilhotar a fundo sua cabeça através de seus poderes telepáticos para imaginar as coisas subversivas que ele pensava. E apesar de propositalmente desviar o assunto, seu ímpeto era rir.
— Victor também terá que se adaptar ao retorno das pessoas. Ele é um monarca, afinal.
— Sim. Será um longo período de adaptações, tanto na superfície quanto aqui.
Assentiu, colocou as mãos atrás do corpo.
— Grandes planos?
— Reconstruções, na maioria. — Namor se aproximou, mostrando pontos da capital através da barreira de oxigênio com o dedo indicador. — Limpeza das vias públicas e cracas. Alocação de famílias em casas decentes no centro. Foco na produção de alimentos. Quem sabe a construção de um memorial no futuro e reforma de templos. E... uma imensa celebração na próxima lua cheia.
— Uma agenda ocupada, príncipe.
— E você, onde vai?
— Até onde se sabe, a Biblioteca de Mundos foi perdida. Minha chave é inútil agora e não tenho muitas opções.
Silêncio, exceto o ondular do oceano. O semblante de Namor era estável, pensativo feito a serenidade da água salgada além do cômodo.
— Bom, se não quiser se vingar de Monica Rappaccini ou ver a barba de Steve Rogers, saiba que as marés são adoráveis nessa época do ano. A correnteza traz águas-vivas coloridas. — Em resposta, ela meneou a cabeça e soltou um indistinto “Hmm-hum”. Algo a mais tremulava nos devaneios do príncipe e ela não tinha certeza se havia entendido corretamente. Parecia deveras… Improvável. Alheio às considerações da Cisne, ele prosseguiu: — E o povo lhe aceitará nas próximas festividades. Os atlantes são gratos por sua ajuda, Cisne. Deixam oferendas e murmuram seu nome em orações no templo de Einalia.
— Parece que a deusa conseguiu novos devotos.
— Aqui na capital também existem outras áreas injetadas de oxigênio. — Continuou. — Não conferi com detalhes todos os quadrantes, mas sei que existem algumas ao leste e posso providenciar um aposento temporário ou até algo melhor. Eram áreas usadas para guardar tesouros e prisioneiros.
O olhar de ambos se cruzou. Então ela havia entendido certo, mesmo que mais uma vez o príncipe preferisse dizer o que pensava com outras palavras. Só custava Yabbat acreditar.
Ele queria que ela ficasse.
— E qual deles eu sou, príncipe? Prisioneira ou…?
— Qual deseja ser?
Ele se aproximou e pôs as mãos em seu ombros. Tirou um objeto do bolso lateral da calça, mostrando-o brevemente à Cisne, e depois se posicionou atrás dela, seus dedos relando de leve em suas clavículas, em seguida seu pescoço. Era um gesto de flerte, mas Namor também tinha outro objetivo mais inocente. Estava colocando uma gargantilha com uma pérola negra em seu centro no pescoço dela.
— Há uma bomba nessa gargantilha também?
— Não dessa vez. — Namor riu e Yabbat se detestou por gostar da sensação que a voz dele fazia em sua pele. A pergunta era uma referência ao colar “dado” pelos Illuminati na outra Terra, semanas e semanas atrás. Não passava de um artefato para mantê-la sob controle, embora tenha conseguido tirar quando se juntou a Cabal. — A pérola é presente do meu povo, ungida por anciãs sacerdotisas… E Victor teve a ideia de fazer um comunicador para nós três, veja: — Ele voltou a ficar na sua frente e lhe mostrou o pulso do braço esquerdo, onde repousava uma pulseira simples de metal com uma única pérola negra. — Agora Victor usa uma também, no braço direito. O melhor detalhe, no entanto, é que permite que seu usuário respire água como… um atlante. Considere uma honraria do meu povo.
Ele esperava alguma provocação ou desdém, mas não o fato dela se aproximar de súbito. Definitivamente, não esperava o beijo lento que se iniciou em seu pescoço e subiu até seus lábios. Retribuiu, vagaroso e dedicado, suas orelhas ficando quentes. Segurou-a firme com os dois braços.
— Sou grata pelo presente do povo. — Ela disse, sem alterar o tom casual de sua voz. Não se despreendera, porém, do abraço dele. — E o rei? Tem algo a me dar?
Namor usou o resto de sua dignidade para responder, sabendo que seu tom era falso, que piscava de forma lenta ao recuperar o fôlego — tentando fingir que não estava visivelmente afetado pelo beijo dela, sendo que seu rosto lhe entregava justamente o contrário:
— Agora sou um rei? — Riu fraco, um pouco ácido. — Definitivamente, você é minha prisioneira agora.
Ela riu da ironia e por fisgar pensamentos dele.
— Um rei não deveria mentir.
— Uma prisioneira não deveria reclamar. Não quando é tratada com tanto respeito e… — Os lábios dele buscaram seu pescoço. — Gentileza.
— Que tal uma hóspede?
Namor alcançou de novo sua boca, ávido e demorado em mais uma carícia. Depois, uma pausa.
— Eu posso... Considerar isso.
Yabbat o beijou novamente.
Ela não tinha ideia do que fazer da própria vida, não quando a morte já não era mais presente. Ou tão mais presente. Yabbat era uma Cisne Negro, arauto do fim e capaz de realizar duros sacrifícios em nome de uma destruição que já não mais existia. Uma devota de um deus de mentira, alguém que acreditava na absoluta aniquilação que simplesmente se encerrara.
Já não tinha mais razão de estar ali, a prova disso era o vazio branco em seus olhos e o inútil peso da chave em seu pescoço. Sem deus, sem destruição, sem término voraz de tudo o que existia. Seu único interesse pessoal, a chance de recuperar sua família… Tinha sido definitivamente enterrada na outra Terra, quando optou pela bomba em vez de seu dispositivo verde.
Rabum Alal, a roda era implacável.
E tinha sucumbido em si mesma.
Talvez Yabbat devesse se recordar das palavras de Doom. Recordar-se de viver, de fato.
Mas viver era incerto.
E aquilo, embora não admitisse, lhe provocava mais temor do que a noção do fim definitivo ou horror das cores no céu. Ao menos agora, ali onde estava, poderia adormecer com o som do oceano em seus ouvidos: ondas de sal que exorcizavam seus pesadelos. Ela abraçou Namor forte, conferindo se aquilo era real. Parecia e ele riu, a chamou docemente de tola e segurou seu queixo para desfrutar da visão de seu rosto. Por enquanto, tudo isso era suficiente.
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