Memórias Vagas De Lucy Graef
7 Capítulo 7
Chegando ao restaurante, que dessa vez era simples, as duas sentaram-se à mesa, escolheram o que iam comer e pediram ao garçom, após o pedido as duas ficaram caladas até que Lucy interrompeu o silêncio com uma única palavra...
– Fala!
– Falar o que?- Júlia estava distraída, com os pensamentos distantes.
– Bem, você disse que queria que eu viesse para conversarmos, ou você estava mentindo?
–Sim, quer dizer, não, eu não estava mentindo, e sim, eu quero conversar com você.
– Então, pode começar...
– É que...
– Suas bebidas, senhoritas! – O garçom chegou interrompendo o que Júlia ia falar, colocou as bebidas sobre a mesa e saiu, Lucy pegou um dos copos e enquanto bebia, Júlia prosseguiu.
– Eu queria saber por que você me beijou aquela noite!
Lucy engasgou-se de imediato com a bebida, cuspindo quase tudo em cima de Júlia, que, na mesma hora se levantou e foi na direção de Lucy, que tossia desesperadamente.
– Você está bem? Ai meu Deus! – Dizia Júlia, enquanto levantava os braços de Lucy e dava tapinhas nas costas dela, aquele típico ritual que geralmente fazem quando as pessoas estão engasgadas.
– Calma Júlia! Eu estou bem, se você não percebeu me engasguei com bebida, não estou entalada, não precisa ficar me estapeando!
– Oh, Senhorita educação, eu só estava tentando ajudar! E você me sujou de suco. – Júlia tentava se limpar com um guardanapo.
–Desculpa, não foi minha intenção! Mas e aí, como está a Mari ? Ou melhor, Mariana, já que ela diz que “ Não tenho intimidades com ela”.
– A Mari está ótima,mas eu queria saber se você vai responder minha pergunta.
– Que pergunta? – Lucy fez-se de desentendida
– A pergunta que eu te fiz antes de você quase ter tido um óbito por engasgamento!
– Nossa, também não precisa exagerar...
–Ta bom, agora fala!
– Ta bom, ta bom... Então, eu te beijei por curiosidade, só isso!
– Curiosidade? Só curiosidade? – Júlia parecia indignada com tal resposta.
–Sim Júlia, eu tenho 25 anos, sou uma mulher adulta e tenho um noivo, eu sei muito bem do que eu gosto. – As frias palavras de Lucy saíam de sua boca enquanto desviava seus olhos do olhar de Júlia, ela não conseguia olhar dentro deles.
– Ah, tem certeza? Bom, não foi o que eu senti no seu beijo, senti que era muito mais que isso!
– Muito mais o que, Júlia? Tá delirando?
– Sentimento, Lucy, você se faz de durona, mas eu sei que você não é nada daquilo que aparenta!
–Júlia, você está fora de si, como você pode ter certeza de alguma coisa sobre mim? Você nem me conhece direito!
–E esse seu noivo aí? Você quase não fala sobre ele, só sabe dizer que ele existe.
– O Pablo é geólogo e viaja muito, por isso não falo muito dele.
–A é? Viaja muito? E você não sente saudade?
– Claro que sinto!
– Não parece...
– Seu jantar senhoritas... – E novamente o garçom interrompeu a conversa, mas dessa vez nenhuma das duas prosseguiu, pegaram seus pratos, e comeram em silêncio, ninguém pronunciou uma só palavra durante todo o resto do jantar, Lucy, que sempre comeu muito rápido, terminou primeiro, levantou-se, retirou um dinheiro de seu bolso e colocou sobre a mesa.
– Toma, a minha parte no jantar. – E virou as costas quando Júlia gritou — Espera!
Lucy virou-se para Júlia e antes de ir embora definitivamente, disse:
– Esquece aquele beijo, aproveita e esquece que eu existo. – E assim, Lucy saiu do restaurante, pegou um taxi e foi para casa, não pôde evitar as lágrimas no caminho, ela estava certa de que jamais veria aquele rosto novamente, ahh, aquele rosto... Não vê-lo novamente não era o que ela queria, mas era a coisa certa a ser feita, aliás, Lucy mal sabia o que queria.
Uma semana se passou e nenhum sinal de Júlia, Lucy estava bem, sua relação com Pablo estava melhor, ela estava dando mais atenção a ele, mas sempre que ela deitava sua cabeça no travesseiro, mesmo que ao lado de Pablo, em sua mente vinha a imagem de Júlia, não tinha um dia sequer que Lucy não pensasse naquela mulher, mas ela tinha que esquecer, precisava esquecer.
*Na cozinha*
Lucy preparava o almoço de domingo,Pablo apareceu e abraçou por trás, dando um rápido beijo nela para não atrapalhar.
– Amor, a comida está com um cheirinho ótimo. – Disse Pablo, todo empolgado, mas Lucy não disse nada, a mente dela parecia estar em outro lugar e ali restava apenas um corpo se movimentando sozinho.
– O que está fazendo para o almoço, ein? – Pablo voltou a falar com Lucy e ela não respondia.
– Amor, eu estou falando com você! – Na mesma hora em que Pablo disse isso,Lucy se assustou e feriu levemente o dedo com a faca que estava usando para cortar os legumes.
– Me desculpa, eu estava concentrada aqui... O que você dizia? – Disse Lucy, enquanto chupava o dedo cortado.
– Eu que te peço desculpas, vim atrapalhar, vou para a sala deixar você cozinhar sossegada, quando estiver pronto me chama – Pablo foi para a sala assistir televisão,Lucy colocou um curativo no dedo e voltou a cozinhar, novamente sua mente se desprendeu dali e consequentemente Lucy deixou o arroz queimar. Júlia...Como podia um simples ser fazer tanto estrago na mente de uma mulher que se dizia tão bem resolvida? Talvez ela não fosse tão bem resolvida assim, mas de uma coisa ela sabia, Júlia era um interrogação na vida dela, uma interrogação que ela não sabia como transformar em ponto final.
Fale com o autor