Memórias

1 Capítulo único


Ei, você.

Você mesmo, viajante, que por minhas raízes atravessa, que da minha sombra desfruta, e que contempla o ruído sombrio do vento que vem me agitar.

Já imaginou alguma vez como é ser uma árvore?

Suponho eu que não. Boa parte dos humanos imagina que nós, seres enraizados, não temos nenhuma consciência. É uma suposição bem tola, na verdade.

Como você acha que alguém poderia viver por aproximadamente 200 anos, renovar suas folhagens a cada mudança de estação, sentir o impacto de mil dias de sol, mil noites estreladas, mil chuvaradas e até alguns raios, e não ter consciência de nada?

É arrogância sua, mas eu perdoo, desde que você sente um pouco por aqui e tente me ouvir. Tenho algo a lhe contar… Como tenho.

Minha existência é pura angústia. Não porque não posso me mover de onde estou. Essa parte é até cômoda. Adoro os pássaros que fazem ninho em mim, os esquilos e miquinhos que em mim buscam abrigo, e até as trepadeiras chatas que de vez em quando aparecem para me fazer companhia. Tenho um vago medo de ser derrubada, mas já estou aqui há muito tempo e ainda não aconteceu.

Minha existência é angustiante por causa de vocês, seres humanos. Vocês, com suas próprias vidas passageiras. Da perspectiva de uma árvore, é algo sem muito propósito: mal nasceram e logo vão morrer. Mas aquilo que acontece no meio… Isso, sim, me desperta inegável fascínio.

Talvez seja porque ostento um tronco muito esbelto e bonito, mas as pessoas adoram talhar coisas em mim. Na hora acho um desrespeito, embora não machuque muito. Difícil mesmo é lidar com o fato de que fica ali para sempre.

“Para sempre.” Essa expressão talvez não faça muito sentido para criaturas efêmeras como você, mas para as árvores, certamente faz.

Veja bem: a primeira vez em que alguém passou por aqui e escreveu algo em mim foi em… 1850. Recordo até hoje os mínimos detalhes. Pergunte-me como era a cor do cabelo daquelas meninas: ainda lembro. Ainda lembro da canção que cantavam enquanto brincavam ao meu redor; do quão belos eram seus sorrisos infantis.

Onde estariam elas agora?

Mortas, não é? Mortas há muito tempo.

Ainda assim, poderia ter sido ontem. Voltaram aqui mais vezes, embora cada vez com menos frequência, estando grandinhas demais para brincar daquele jeito. Eu as vi crescer. Eram duas irmãs. Seus nomes estão gravados aqui, mesmo que o tempo tenha esmaecido e só eu consiga ler.

Na última vez em que a vi, Emília, a mais velha, já estava longe de ser aquela criança. Sua vida passageira havia avançado e seu olhar parecia triste… Muito triste. Quando apoiou as mãos enrugadas em mim, ela também recordava algo, certamente. Mas eu não tinha como saber dos detalhes.

Tudo o que sei é que é doloroso, e em geral profundamente desagradável, ter essa função imposta de guardar lembranças humanas. Como eterna árvore, não tenho muita escolha. Esperava apenas que não acontecesse de novo, mas é claro que aconteceu.

Lembro em seguida daquele adolescente, por volta de 1900; 1910. Mesmo de longe, era fácil supor o quanto se tratava de um menino solitário. Ele reclinava-se em meu tronco quase toda tarde para ler e estudar, enquanto certamente poderia estar fazendo coisas mais interessantes. Em um desses dias, num momento de distração, resolveu talhar seu nome em mim. Antônio. Antônio, eu me lembro de você.

O jovem manteve essa rotina por um bom tempo, até que se afastou por algumas semanas. Imaginei, já um pouco pesarosa, que não fosse mais voltar, mas ele reapareceu, sim, e com uma namorada. Logo fiquei sabendo também o nome dela, quando foi talhado abaixo ao dele: Aurora.

Aqui farei uma pausa para dizer o quanto não entendo esse hábito de vocês. Parece que têm consciência do quão em breve vão envelhecer e, desculpe mencionar, morrer. Querem eternizar ao menos seus nomes. Bem, talvez funcione em parte. Vocês são eternos para mim. Embora eu às vezes preferisse que não fossem.

Acompanhei a vida daquele casalzinho apaixonado, mesmo passando rápido, tão rápido… Assisti à uma boa quantidade de encontros; eventuais brigas; algumas lágrimas derramadas no chão que me cerca. Até que houve, num belo dia, um pedido de casamento. Devo admitir: aquela foi uma das cenas mais adoráveis que testemunhei em todos esses anos.

Então o tempo avançava mais depressa ainda. Sem dúvida já não eram mais adolescentes. Sumiam um pouco e reapareciam, cada vez com uma surpresa diferente. Vi Aurora com uma barriga enorme. Pouco depois chegou correndo um garotinho esperto que tentou me escalar, não conseguiu, caiu e machucou a testa. Vi seu pai o socorrendo. Vi a segunda filha nascer; uma menina que aparentemente herdou aquela personalidade mais pacata que eu já conhecia.

Vi essas crianças crescerem. Vi o casal envelhecer cada vez mais, cada vez mais. Quis fechar os olhos e ignorar, mas não tenho essa opção. Não com todos os nomes talhados em mim. Por qual razão, exatamente, eles fazem isso?

E as últimas vezes são sempre as que mais me marcam. Vi os irmãos ali, bem mais velhos. Mais velhos ainda do que seus pais quando os conheci. Acomodaram-se aos meus pés para conversar baixinho, embora logo não fizessem nada além de chorar em silêncio. Não precisei das roupas pretas para deduzir o que havia acontecido.

Ainda assim, a família de Antônio e Aurora rendeu uma bela quantidade de frutos. Acredito que construíram uma casa perto daqui. Conheci seus netos… Talvez alguns bisnetos. Vi algumas coisas que preferiria também não ter visto, dessa vez pelo pudor. Alguns filhos revoltados fugiram, passando apressados por mim, e não voltaram mais. Fiquei apavorada uma vez com uma tentativa de suicídio, aqui nesses mesmos galhos que cobrem a sua cabeça. Felizmente foi impedido a tempo.

E falando em tempo… O tempo voava sem piedade. Eu já não reconhecia aqueles que me visitavam. Vi novos casais, novas crianças, mas com meu olhar semicerrado de árvore, quase não reparava mais. Embora sentisse a cada vez que talhavam algum novo registro em mim. Cada maldita vez.

Agora me conte, viajante… Você faz parte daquela família? Ou não tem ideia do que eu estou falando? Afinal… Embora mal sinta as décadas e séculos passando, sei que eles passam. Acho que fui esquecida. Isso soa no mínimo irônico.

Mas por favor, antes de ir embora, queira talhar seu nome em mim. Não me importaria em me lembrar de mais esse. Você tem filhos, amigos, alguém a quem ama? Traga-os aqui, se puder. Quero que conversem aos meus pés. Quero que brinquem outra vez, que chorem, riam, envelheçam, desapareçam, e que tudo recomece de novo, de novo e de novo.

Pois se há algo que pareço ter aprendido nesses infinitos anos, é que uma eternidade de perdas pode doer bastante… Mas a solidão dói ainda mais.

Notas finais
Vocês ficariam impressionados com o quanto eu chorei escrevendo esse conto...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!