Tudo estava sempre tão embaçado quando eu acordava, eu devia esticar minha mão até o criado mudo, mas algo estava me chamando atenção do lado de fora da janela, eu podia ouvir pessoas gritando e carros buzinando do outro lado do vidro, foi aí que me apressei tirando a coberta de cima de mim e dando um pequeno pulo do outro lado da cama pra pegar meus óculos, fui descalço e de pijama até a janela e então a abri. Era uma visão do completo caos, eu não estava entendo porque algumas pessoas estavam agindo de forma tão violenta e bruta essa manhã, me virei para o quarto e fui checando cada centímetro dele em busca do meu celular, corri até a cômoda quando notei sua presença ao lado da televisão, movimentando rapidamente meus dedos, disquei o número do Marcelo. Sem resposta.

Calcei o chinelo e vesti um casaco por cima do pijama velho, colocando o celular no bolso dele, sai do quarto e desci as escadas para a sala, gritei por ele, mas eu sabia que ele não estaria em casa, eu o vi saindo essa madrugada, respondendo algum chamado de emergência. Mas ele como policial seria bem útil para acalmar meus vizinhos. Recuei assustado quando eu ouvi alguém se batendo contra a porta de vidro dos fundos, era meu vizinho Nate ou Bate, na verdade nunca fui bom em guardar nomes, seus olhos estavam bem vermelhos, como se ele não dormisse há dias e sua boca abria e fechava murmurando algo que eu não conseguia entender, eu estava bem confuso se abria para oferecer ajuda ou não e quando decidi atravessar a sala até lá, meu celular tocou, era uma mensagem:

ME ENCONTRE NOS FUNDOS DO BAR DO ALEX, TOME CUIDADO, ELES NÃO SÃO QUEM VOCÊ PENSA QUE SÃO, NÃO DEIXE ELES TE PEGAREM, TE AMO — MH

Marcelo Herrera, como ele sempre assinava, ele tinha algum tipo de orgulho pelo sobrenome espanhol.

Ventura era uma cidade bem agitada, então quando eu e o Marcelo nos conhecêssemos, vivíamos no bar do nosso amigo Alex, ficava bem distante do centro, quinze minutos de onde eu estava, era sempre tão tranquilo lá, mas eu não podia dizer o mesmo sobre minha cabeça nesse momento. Peguei a chave do carro no chaveiro e me movi rapidamente até o carro. Apertei o botão do portão e então quando a garagem se abriu, eu pude ver quatro pessoas se virando para minha direção e mudando totalmente o foco para onde eu estava, não hesitei, liguei o carro e acelerei virando para uma direção onde eu não fosse atropelar todos eles.

Dirigi por uma estrada alternativa, sempre achei perigoso andar por aqui, era praticamente dentro de uma floresta, eu acelerava sem consciência, desesperado para chegar ao meu destino o mais rápido possível, mas esse foi o meu maior erro, foi quando dei de cara com uma SUV próxima a curva vindo bem na minha direção ainda mais veloz, foi quando tive a estúpida ideia de virar totalmente o volante para o lado contrário e fazer o carro tombar e começar a girar fugindo da estrada, eu sentia meu corpo batendo contra o painel, contra o teto solar e de volta ao banco, repetiu esse movimento pelo menos três vezes, eu estava tão tonto que nem consegui reparar no vidro se despedaçando e voando na minha direção. Quando ele parou, a porta do motorista estava bem em cima de mim e eu estava jogado no banco do passageiro, péssima hora para ter esquecido do cinto de segurança. Chutei a porta com toda a força que ainda me restava e então ela se abriu e quando eu me virei para levantar, percebi um pedaço enorme de vidro na minha coxa esquerda, não mexi, coloquei todo o peso na perna direita e saltei, agarrando a porta com os braços e usando o impulso para sair do carro, antes que tudo se resumisse a chamas.

Comecei a mancar por dentro daquela visão embaçada da floresta, ou era o óculos sujo demais, me escorava nas árvores quando sentia a dor pulsar mais forte na minha coxa, resistia muito para não começar a gritar bem ali, mas como uma luz no fim do túnel encontrei uma cabana aparentemente abandonada, me apressei para chegar lá, mas antes da metade do caminho, apareceu um homem, ao menos, devia ser, seu rosto estava todo desfigurado, como se metade da pele dele estivesse faltando, ele andava de pressa na minha direção, eu sabia que ele me alcançaria antes de chegar até a cabana, então procurei apressado por algo no chão que pudesse me defender e encontrei um pedaço de madeira com alguns pregos enferrujados, quando ele chegou perto demais, foi só uma pancada no maxilar e então o que já estava desfigurado ficou ainda pior, eu vi seu maxilar sair do rosto, como se a carne estivesse... Podre. Foi nessa brecha que eu me apressei e me arrastava até chegar na porta.

Empurrei a porta forçando a abrir e procurei sinal de vida ali dentro sem me mover, mas estava tudo silencioso, fechei a porta e arrastei alguns móveis como cadeiras, uma mesa e uma estante pequena que estavam ali perto para travar a passagem e então me joguei no sofá velho que não estava muito distante do que parecia uma sala. Rasguei um pedaço da calça do que restava do meu pijama e enfaixei minha coxa bem firme em volta do vidro que tinha me perfurado, era tanta dor ao mesmo tempo, eu não sabia se era minha cabeça latejando ou minha coxa ardendo. Então estiquei meu corpo para trás, me aconchegando no sofá.

Repetia para mim mesmo antes de pegar no sono “Você vai ficar bem Rick”, mas por hora, eu sabia o quanto eu estava ferrado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.