Memórias
1 Único
Notas iniciais
O cabelo. Sempre o cabelo. Era o que ela mais mudava. Com certeza.
Azul, vermelho, laranja, verde... Todas essas cores estúpidas, com nomes estúpidos... Eu gostava de todas elas.
Algumas pessoas dizem que não se pode perder todas as lembranças. Por isso são lembranças, porque você as tem. De alguma forma, as tem para sempre.
Hoje peguei um trem para Montauk. Tenho feito muito isso.
Bati com o carro. Cheguei mais uma vez atrasado para o emprego. Fui despedido. Estou procurando por um novo emprego. Na verdade, acho que não quero nenhum agora. Recusei todos os que achei... Só sinto uma estranha vontade de ir para Montauk todos os dias. Eu não sei, às vezes acho que tenho perdido algo por lá. Ou deixado. É difícil saber. Ou vai ver o café de lá é melhor do que o daqui.
Tenho tido o mesmo sonho há várias semanas. Nele havia um elefante. Não, um não. Era um desfile. Um desfile e havia vários elefantes. Não entendo porque logo elefantes.
Há várias pessoas. Eu sei que estou lá. Consigo me ver, e há uma outra pessoa ao meu lado, mas eu não consigo enxergar com clareza, o rosto está sempre borrado. Mas eu sei que estamos sorrindo. Nesse mesmo sonho eu ainda vejo gelo. E há um casal deitado sob ele. Vejo uma biblioteca, e nela eu estou só. Vejo parte da minha infância, crianças, minha antiga casa... Vejo uma praia –e por algum motivo há sempre alguém lá. Ela está sempre de costas– Vejo alguém me sufocando com um travesseiro, quando o tiro, não há mais ninguém. É como se eu mesmo estivesse me sufocando... Por que diabos eu faria isso? Também vejo uma casa sendo destruída, e vejo o cabelo. As várias cores estupidas.
Não sei como me sinto em relação ao cabelo.
Eu gosto.
Dias atrás eu estava comendo naquele restaurante japonês. Sempre como lá, mas, ultimamente eu não tenho tido tempo. E todas as vezes é o mesmo garçom. Sempre o mesmo garçom. E nesse dia, ele de repente veio até a mim:
“Ei cara.” –Ele disse. “Onde está Tangerine?”
“Tangerine?” –Perguntei.
Ele balançou a cabeça dizendo sim.
Tangerine. Pensei.
“Faz tempo que não passam por aqui” –Ele disse.
Tangerine. Continuei pensando.
“Estamos bem ocupados ultimamente”. –Respondi.
“Entendo... Eu a vi esses dias. Estava sozinha. Vocês brigaram?”
Então eu me lembrei do cabelo laranja. Por algum motivo.
Me levantei e vim pra casa. Não sei por que. Apenas me levantei e comecei a caminhar. Não me senti bem. No caminho eu tentei me lembrar da última vez em que estive naquele lugar. Acho que realmente estava com alguém.
Tenho ido para essa praia nos fins de semana. Essa que às vezes aparece nos meus sonhos. Fica em Montauk. –Um dos motivos de eu gostar de lá.- Meus amigos dizem que essa praia me faz bem. É sempre frio lá. Não me lembro de gostar do frio. Mas sei que gosto de estar lá.
Lá tem uma casa. Ou tinha. Era grande. Agora está aos pedaços. Parece ter sido destruída.
Eu tenho essa sensação de ter estado lá.
Na verdade acho que tenho a sensação de ter feito várias coisas que eu não faria, de ter ido a lugares aonde não iria...
Mas, nessa sensação, de ter estado na casa, tenho uma outra sensação: alguém cochicha algo para mim. Então, eu sinto o calor de lábios em meu ouvido. E eu sei gostaria de ter ficado. Gostaria de ter ficado lá. Mas é só outra sensação... Na verdade, acho que o termo correto seja déjà vu.
Aliás, sinto saudades da minha rotina.
Sempre da casa para o trabalho. Do trabalho pra casa.
E eu ainda escrevo em um diário. Não tem nada nele. Tento colocar essas memórias que tenho, mas... São todas meio loucas. Borrados, elefantes, gelo... Apenas queria poder apaga-las. Ou talvez vê-las com nitidez.
Uma vez escrevi sobre uma xícara quebrada. Quando cheguei em casa e havia essa xícara no chão da cozinha. Não me lembro de ter comprado uma xícara nova. Muito menos uma com a foto de uma mulher com o cabelo vermelho... Acho que esse cabelo me persegue.
Algumas dessas memórias me perturbam. Na verdade eu mal as tenho. Mas sei que possuo muitas partes delas.
Sei que em todas elas há alguém. A mesma pessoa...
É ela. Eu tenho certeza.
Sempre foi o cabelo.
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