Melodias da noite
1 Álcool & Cigarros
Chin’zao não era o mais brilhante dos homens, porém tudo o que lhe faltava no campo científico ele compensava com ações. Sua eficácia como piloto só não era mais impressionante que seu poder de combate, ambos apreciados no seu tempo como membro ativo dos corvos. A tatuagem no seu peito ardia mais do que o álcool em sua garganta, e seu corpo ansiava por um saquê badhatiano. Sua mente vagou pelo tempo que passou na casa de Kasandra – ou Violet, ele não sabia e não se importava agora- e da bebida que dividiu com a irmã da inventora. A bebida trouxe também mais memórias daquela semana, a perseguição, o estado de Alain, as balas disparadas por Andrei...
Andrei. Zao sorriu para ninguém em particular ao pensar no companheiro de equipe. Se é que ele pode chamar esse bando de desajustados de equipe. Pelo menos eles eram competentes o suficiente para ninguém ter morrido. Ainda. Andrei e Zao se conheciam a mais tempo, mas Zao não conhecia o policial tão bem quanto alguns pensariam. Poderia se considerar amigo dele, mas nada além das ocasionais bebidas e o fato de ser uma fonte do submundo.
Ele era um homem sarcástico e estranhamente educado. Por mais que Zao não se desse tão bem com o lado certo da lei, atestaria até a morte o quão bom policial Andrei era. Era não, é. Zao balançou a cabeça como um gesto físico para tirar esses pensamentos idiotas.
Ninguém ia morrer. As imagens de seus amigos mortos deram lugar aos olhos de Andrei, que nos olhos do perigo não hesitava. Com a mente nublada pelo álcool, Zao cambaleou até o quarto que o policial dormia.
Girou a maçaneta, olhando frustrado para o pedaço de metal que se recusava a abrir para ele. Malditas trancas e homens paranoicos. Custava deixar a porta de seu quarto no meio de uma guerra fria entre duas forças terroristas prestes a estourar aberta? O som de metal ecoou pelo corredor vazio e com o abrir da porta, Zao avistou a figura solitária do tenebriano. Não parecia sonolento, muito pelo contrário. Uma das mãos estava atrás de seu corpo e quando Andrei suspirou aliviado, Zao percebeu que estava escondendo uma arma. Zao se escorou na porta, um sorriso bobo em seu lábios.
Andrei enrugou um pouco o nariz, percebendo o cheiro que emanava de Zao. O mesmo deixou de se apoiar na porta e, ainda sorrindo, resolveu se escorar no corpo perto dele. O passo de Andrei vacilou com o peso do amigo, a pele quente de Zao contra a camiseta de Andrei. Enquanto o policial vestia uma regata semelhante ao seu contraposto na vida real (um rapaz de ótimas reações que joga rpg aos sábados na Twitch.tv/a_tavola), Zao resolveu aparecer com o torso totalmente nu. A tatuagem que adornava o peito do homem era negra contra a pele bronzeada, e Andrei passou tempo demais olhando para ela. Era justificável, os corvos de aço eram uma força tão considerável quanto os próprios tecnocratas, que estavam lhe apoiando nessa guerra interna.
Andrei pensou que já tinha visto Zao beber muito, mas nunca nesse estado. O que ele tinha tomado agora, gasolina? Praguejou quando quase caiu com o peso do outro homem, começando a arrastá-lo para a cadeira perto da escrivaninha. Zao murmurava algo que em seu quase coma alcoólico deveria fazer sentido, mas para Andrei era só um lembrete do quão perto o hálito quente de seu amigo estava de sua pele. Ele contou até três para recobrar a força, tendo parado em uma espécie de degrau antes da cama e da cadeira que pretendia despejar Zao.
Nesse momento de descanso, Zao aproveitou a oportunidade e empurrou Andrei contra parede. O corpo do policial, antes frio com o terror da noite estava se tornando quente, uma mimica de Zao. O Badhatiano aparentemente sabia exatamente o motivo da mudança de temperatura do companheiro. A respiração de Andrei estava errática com a proximidade e ele começou a focar em como seu tenente comia rosquinhas para não pensar em certas... Distrações.
Andrei sentiu um movimento no peito de Zao devido à proximidade e surpreso percebeu que o outro homem estava rindo. Não uma das gargalhadas comuns, mas sim um som rouco que parecia ter vindo da alma de Zao. Porque ele não tinha trancado todas o álcool bem longe desse bebum?
Mesmo com esse pensamento, o corpo de Andrei estava traindo sua lógica. O quarto estava muito abafado.
— Andrei... – o sussurro de Zao viajou pelo corpo de Andrei como um recarga elétrica, acordando partes e sentimentos que Andrei queria que sofressem de narcolepsia. Zao voltou a rir. – Porque resistir? Se você quer isso tanto quanto eu...
E o pior é que ele realmente queria. Era o tipo de coisa que ele confessava depois de uma rodada de bebidas entre os dois no bar, quando ninguém mais se importava e as verdades caíam de sua boca sem pensar. Era o tipo de coisa que ele teimava em esquecer e que rezava que Zao tivesse esquecido. Mas Ilummus não tinha atendido suas preces.
— Você está bêbado, Zao.
Zao colocou a mão acima da cabeça de Andrei para um melhor equilíbrio, se inclinando para ainda mais perto ainda. Andrei poderia provar o uísque na respiração do piloto.
— Eu não estou tão bêbado assim. – soltou olhando no fundo dos olhos de Andrei. O olhar nublado foi substituído pela sobriedade.
—Só desesperado? – perguntou Andrei, enquanto o nariz de Zao brincava de traçar as veias de seu pescoço.
Zao murmurou algo que soou como uma confirmação e Andrei fechou uns olhos quando Zao passou por um ponto sensível. Tentente comendo rosquinhas, mentalizou novamente. O pensamento lhe trouxe uma força inesperada e Andrei usou o pesou do Zao para jogá-lo na cama. O dito cujo levantou a sobrancelha.
— Impaciente, hum?
O rosto de Andrei se tornou em uma imitação de descaso. Indiferença era a única emoção que não estava sentindo agora, mas Andrei era um ótimo mentiroso.
— Cala a boca. Eu não sou alívio de ninguém.
— Faria tão bem para mim quanto para você. Eu não sou o único que precisa de um alívio antes de amanhã.
— Vai procurar outro então. A Clarisse, o Ganga, a Kassandra, porra, até o Sabini seria melhor.
Zao franziu a testa.
— A Clarisse é muito centrada, o Ganga muito velho, Kassandra é muito nova e eu não sou suicida de procurar o líder dos tecnocratas por prazer. Você que nenhum deles gosta tanto de mim quanto você.
E o maldito ainda estava certo. Frustrado, coçou a cabeça com o cano da arma. Ah é, ele quase esqueceu que estava com ela. Triunfante, aponto a pistola para a massa em cima de sua cama. Zao arregalou os olhos e lentamente colocou as mãos para o alto, se levantando sem movimentos bruscos.
— Sai daqui antes que o Ganga tenha que te tratar antes mesmo da luta.
Se Andrei não tivesse nessa situação de estresse, perceberia que os lábios de Zao estavam fazendo algo parecido com um biquinho. Ele teria rido muito. Mas não estava no lugar para a brincadeiras.
Desapontado, o piloto foi se arrastando até a porta, ainda na mira da pistola de Andrei. Já fora do quarto, o rosto de Zao fez algo se torcer no estomago de Andrei.
— Se nós sobrevivermos eu penso no seu caso. – disse sem pensar.
Zao sorriu, um daqueles sorrisos que é mais um alerta do que uma convenção social.
— Eu vou cobrar. – disse, se virando e saindo pelo corredor antes que Andrei pudesse processar sua resposta.
Fechando a porta, o policial lembrou do antigo ditado sobre os Corvos de aço. “Onde há corvos, há corpos”.
E realmente, Zao seria sua morte. De um jeito ou de outro.
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