Melodia no Entardecer

1 Capítulo 1 - Primeiro Encontro


Notas iniciais
Queridos, estou editando e melhorando a história. Espero que a nova versão agrade tanto quanto a anterior. Boa Leitura

Os verões na Irlanda são curtos e com temperaturas amenas. E esse estava acabando. Clarissa passara o dia terminando seu último trabalho. Metade das obras para próxima exposição estavam prontas. Esperava que Priscila, sua melhor amiga e gerente, tivesse conseguido fechar os contratos com as galerias, usando apenas as obras que já estavam prontas. Preocupava-se por ter se comprometido a atender na manhã seguinte um astro do mundo musical. Não entendera direito o que ele queria, mas esperava que fosse um trabalho rápido para poder concluir o que faltava para a sua próxima exposição. Temia não ter tempo suficiente para os dois trabalhos. Esses pensamentos lhe perturbavam o juízo enquanto caminhava pela estreita faixa de praia que havia ali na baía. A Irlanda possuía grandes paredões de pedras no seu litoral. Poucas eram as praias e assim mesmo a maioria era pedregosa e escura. Sentia falta das areias claras e águas quentes da Grécia.

Chegando quase no final da praia ouviu uma música suave de violino que vinha da casa de seu querido amigo. Sentia tanto a sua falta! Apesar da idade avançada era uma pessoa antenada com o mundo e mantinha-se atualizado com o que acontecia ao seu redor. Um AVC o havia deixado com dificuldades de locomoção. Passara os últimos meses se locomovendo de cadeira de rodas. Mesmo assim fazia questão de observar o pôr do sol sobre os rochedos que ficavam em frente a sua casa de pedras. Dizia que era tão resistente quanto as pedras que haviam sido usadas na construção dela. Naquela ocasião duvidara ao ver sua fragilidade, mas hoje tinha a certeza de ele tinha sido mais uma das muitas fortalezas da Irlanda. Vira e vivera muitas coisas. Ajudara a Europa a se levantar da II Guerra Mundial.

Subiu nas pedras e ficou ouvindo aquela música deliciosa. Devia ser alguém da família que viera ver a propriedade. Sabia que ele tinha um neto. Até lembrava de ter brincado com ele quando eram crianças, mas faziam muitos anos que não via ninguém por ali. Seu amigo lhe contara que a filha e o genro haviam morrido num acidente alguns anos antes. Ele inclusive já estava aposentado e precisara voltar a ativa para controlar os negócios da família. Ele tinha parentes distantes. Ela cria que nunca haviam aparecido por ali. Faziam parte de um período da sua vida do qual ele preferia não falar.

Os momentos no fim da tarde nos rochedos eram sempre especiais. Deliciava-se ouvindo as histórias que Rudolf lhe contava. Desde que ela ficara sozinha depois da morte dos avós ele era como a família que lhe restara. Além dos pores de sol, haviam existido muitos almoços e jantares. E até mesmo piqueniques durante os verões. Ele era um dos grandes incentivadores do seu trabalho artístico.

A música agora parecia parte da paisagem intensa do pôr do sol. Clarissa deixou-se envolver pela atmosfera que parecia mágica. O pôr do sol vermelho dourado enchia o ambiente e uma penumbra escura o perseguia anunciando a noite que chegava. O tempo nesses momentos perde seu curso e é possível extasiar-se com tamanha beleza e magia. Clarissa esvaziou a mente e tratou de relaxar.

Ficou observando o mar perdida em seus pensamentos. Não percebeu que o limite do horizonte já havia sido ultrapassado pela Lua. Um grande círculo prateado refletia-se no mar. E aquele instante mágico era preenchido pelo violino tocando Io Ti Penso Amore. Ela encantou-se com tão perfeita combinação. Tão elevada estava que se assustou, quando espirros de água a alcançaram tirando-a dos seus devaneios.

A maré subira rápido e já alcançava as pedras. Com certeza, não conseguiria voltar pela praia. No ponto em que a água se encontrava cobriria tudo em poucos minutos. Levantou-se e analisou a situação. Só havia um jeito de voltar. Invadir a propriedade da casa de pedra. Passar pelo seu quintal para chegar à estrada que passava na frente.

Invadiria a propriedade do senhor Bergen. Esperava passar despercebida. Seja quem quer que estivesse lá dentro tocando violino, não queria que a visse por ali. Conhecia o caminho. O havia utilizado muitas e muitas vezes, principalmente nos últimos anos. Ela ficava de papo com seu amigo e o tempo passava. Ele fazia questão de que voltasse pela estrada pois considerava sua volta pela praia muito perigosa, apesar de ser uma distância pequena. Ele costumava dizer que escondia mais perigos do que a estrada. No verão ela fazia o caminho da praia de bicicleta e ficava mais simples voltar pela estrada, onde o caminho se tornava um pouco mais longe.

Clarissa dirigiu-se para entrada que ficava na lateral direita da casa pra quem estava do lado de dentro. Quando passava pela porta que ficava na lateral da casa, a porta se abriu antes que ela alcançasse o portão. A luz que vinha de dentro da casa dera uma sensação de cegueira momentânea. Percebeu um vulto contra a luz, que avançou em sua direção. A silhueta contra a luz parecia imensa. Não podia ver-lhe o rosto. Mas estremeceu quando uma voz profunda lhe interpelou. Não era áspera. Ao contrário. Era macia, agradável e profunda. Se não estivesse numa situação tão constrangedora talvez apreciasse aquele encontro.

— Quem é você? Trabalha na casa?

— Boa noite! Sou Clarissa Vogelmann.

— Trabalha aqui na casa, senhorita Vogelmann?

— Não. Moro na outra ponta da praia.

— E se entendi bem você invadiu minha propriedade... por quê?

— Desculpe. Saí para andar na praia e acabei me distraindo com o mar, a música e... bom, perdi a noção do tempo e a maré subiu demais. Não pude voltar pela areia. Está toda tomada pelo mar.

— E então resolveu passar pelo meu quintal. Como sabia que era possível sair para estrada passando pelo meu quintal?

— Bem... não é a primeira vez que passo por esta passagem. Eu ficava muitas vezes conversando com o senhor que morava aqui em dias de lua cheia, como hoje. Às vezes, se torna impossível voltar pela faixa da praia, porque ela some e o mar fica muito violento. Fica muito perigoso voltar andando por cima das pedras no escuro.

— E meu quintal se tornou uma passagem segura. – Ele parecia se divertir em tortura-la insistindo na mesma questão.

— Peço perdão. Deveria ter pedido permissão de alguma forma, mas achei que não me ouviria por causa da música.

— Disse que se distraiu ouvindo a música. Gosta de música clássica? De violino?

— Gosto.

— Estou curioso. O que faria se não passasse por aqui para voltar para a sua casa? – Clarissa estremeceu e ele percebeu. – Não me diga que dormiria nas pedras!

— Essa seria uma boa solução, porque a alternativa para ela não é algo a ser considerado.

— Por quê?

— Eu teria que seguir pelas pedras e subir a montanha e depois descer contornando-a.

— E você achou que seria mais rápido passar por aqui?

— É mais rápido e seguro. Essa alternativa de passar pela montanha à noite e sem lanterna é praticamente... suicídio. Nem mesmo os mais experientes se arriscam nessa aventura à noite.

— Entendi. Espero que isso não se torne um hábito. Gosto de minha privacidade.

— Mais uma vez me desculpe e espero que me perdoe a invasão. Moro do outro lado da praia. Prometo que não se tornará um hábito.

— Fico feliz que tenhamos nos entendido. E se meu avô confiava em você a ponto de deixa-la passar pelo seu quintal, creio que posso fazê-lo também. – Ele estendeu a mão e se apresentou. – Sou David Fiedler. Sou neto de seu antigo amigo.

— Seja bem vindo a nossa cidade. – Ela estendeu a mão retribuindo o cumprimento. Nossa cidade não é metrópole, mas é agradável. E... seu avô não era apenas um amigo querido. Ele era especial. Tínhamos boas e longas conversas sobre muitos assuntos.

— Entendo.

— Preciso ir. A caminhada é longa. O caminho pela praia é menor do que pela estrada. – Ela encaminhou-se para o portãozinho e tentou destrancar a fechadura para sair, mas estava emperrada ao que tudo indicava. Com certeza esse era o dia dos micos, ou melhor, esse era um King Kong do tipo muito gigante.

— Parece que você precisa de ajuda. Prometo mandar lubrificar esse portão, para que seja mais fácil você usá-lo da próxima vez. Posso não estar por aqui ou estar ocupado e não para ajudá-la. – Ele passou por ela, roçando em seu braço e esse leve contato causou um frisson. O portão sob o efeito da força dele, depois de um pouco de resistência, rangeu e se abriu. Lá fora parecia mais claro. Tudo banhado pela luz da lua. A grande trapaceira. Se não fosse por ela, Clarissa tinha certeza de que não estaria naquela situação. Passou pelo homem que ocupava quase todo o vão de abertura fazendo um esforço para não esbarrar nele novamente.

— Obrigado. Até qualquer hora.

— Até a próxima maré alta.

Ela saiu sacudindo a cabeça. Estava com vontade de gritar e dizer que não costumava invadir a casa dos outros e nem perder o tempo, mas sentia-se esgotada. Queria chegar logo em casa, tomar um banho e dormir. O dia fora longo e exaustivo. Queria um banho, sossego e mais nada.

Andou rápido, quando entrou pela porta e se jogou na frente da lareira, tirou os tênis e as meias e deu-se uns minutinhos estatelada no tapete para respirar antes de seguir para o chuveiro.

Deixou que a água quente levasse embora todo o cansaço do dia. Levasse também as lembranças daquele encontro que ainda não sabia se era bom ou um desastre. Tinha curiosidade sobre o estranho da casa de pedra, mas sacudiu a cabeça para espantar os pensamentos. Soltou água fria para levar embora de vez o turbilhão de pensamentos que a perseguiam no momento.

Conseguiu dormir rapidamente. Porém, a noite foi povoada de muitos sonhos. Alguns calmos e outros de ondas agitadas. Acordou com uma sensação de que estava esquecendo de alguma coisa. Sentou-se na cama e procurou concentrar-se no que necessitava realizar naquele dia.

Tinha uma reunião na galeria às onze com o tal cliente novo. Ele vira alguns de seus quadros e desejava encomendar trabalhos com solicitações específicas de paisagem. Ela em geral não fazia esse tipo de pedido. Gostava de liberdade para criar, mas era um trabalho grande e o cliente estava disposto a fazer um adiantamento. Isso a ajudaria a produzir os catálogos da próxima exposição.

Lembrou-se do encontro da noite anterior. Estava curiosa em relação a esse quase estranho. O Senhor Bergen havia mencionado o neto de vez em quando em algum comentário, mas nunca dera muitos detalhes sobre onde e como vivia. Será que era ele quem estava tocando o violino? Não ouvira falar nada nos dias anteriores sobre a chegada desse homem.

Depois de vestir-se e comer algumas frutas, colocou na sacola algumas coisas que precisaria para o seu dia. Almoçaria no centro e ficaria até o meio da tarde na galeria. Precisaria encomendar tintas e mais algumas telas. Faria isso depois da reunião, porque assim já teria uma ideia do que iria precisar para o trabalho do novo cliente.

Precisou estacionar seu carro na rua, porque sua vaga no estacionamento privativo da galeria estava ocupada por um carro vistoso. Era um modelo europeu elegante e preto. Isso não a agradou e anotou mentalmente para chamar a atenção da recepcionista.

Entrou com passos largos e quase tropeçou em um homem grande que cruzou seu caminho. Ele a amparou para que não caísse. E abriu um grande sorriso, quando a olhou e reconheceu.

— Bom dia, senhorita Vogelmann.

Notas finais
Como será esse encontro? Deixe sua apreciação.