Melk de Dior

1 Dior a cidade dos Meinorás


Melk de Dior



Quando o Deus criou o mundo, criou também os Meinorás. Os Meinorás são homens e mulheres agraciados com maior inteligência, força e beleza. Além de tudo isso possuem uma pré disposição para a magia fora do comum. Nem mesmo os melhores magos humanos tem o potencial que qualquer Meinorá teria ou terá.


Entre tantas dádivas que Deus deu a eles, uma delas foi a de criar seu dia com suas horas. Como todo ser deste mundo os Meinorás tem uma dia certo para morrer. Mas os dias deles só acabam quando eles dormem.


Enquanto o dia do resto da humanidade dura 24 horas, os dos Meinorás dura o tempo de ele acordar e dormir. Então quando um Meinorá passa dias sem dormir, seu corpo não envelhecia, Deus não diminuía seus dias até a morte e eles podiam viver mais tempo que qualquer outro ser na terra.


Quando os Meinorás já viviam a séculos na “terra”, Deus criou os humanos. E para que nenhuma das raças discriminasse a outra resolveu que iria interligar as duas. E assim o fez.


Os homens da antiguidade além de sua consciência possuíam uma consciência coletiva. Mesmo na sua individualidade haviam uma leve e sutil coletividade. E era possível saber todos os grandes temores dos homens.


Um grande período de paz e bonança reinou por muitos e muitos séculos na terra. Os homens trabalhavam e cultivavam a terra, enquanto os Meinorás estudavam e desenvolviam os primeiros cultos religiosos que se tem noticias.


E cada vez mais Deus amava os dois, e a cada século que passava desejava que fosse sempre assim. Que aquelas raças unidas por pensamentos se entrelacem cada vez mais, até se tornarem uma só.


E quando algum Meinorá morria, Deus ia buscar seu corpo para levar ao palácio das almas eternas. Ali eles dormiriam por dias incontáveis, até quando fosse permitido pelo Deus que retornassem a vida.


Deus amava tanto os Meinorás e seu lugar de descanso eterno que lançou uma maldição aos que profanassem o templo do sono sagrado. O homem que lá entrasse em vida não sairia mais e os Meinorás que retirassem qualquer coisa do palácio, condenariam para sempre toda a sua estirpe.


Quando os homens e Meinorás já se consideravam um só povo, nasceu o mais brilhante e belo Meinorá que o mundo já viu. Seu nome era Melk de Dior.


Os Meinorás, apesar da anatomia idêntica a humana, por mais que se relacionassem com mulheres não eram agraciados com filhos. E suas mulheres também eram impotentes na graça de conceber um filho. Sua reprodução era incerta e desconhecida.


Algumas vezes eles simplesmente apareciam da noite para o dia, caminhando sem rumo até encontrar seu iguais mais esclarecidos. Alguns dizem que nascem da terra outros que descem do céu, ninguém sabe ao certo. Mas todos que chegam a este mundo, chegam como crianças de sete anos. Nem maior nem menor que isso.


Melk foi muito bem recebido em Dior, o mais prospero vilarejo daquela época. Lá pode ter instrutores maravilhosamente sábios e bondosos. Descobriu sobre a duração dos dias para Humanos e para Meinorás. Aprendeu a historia antiga de seu povo, cultuou a Deus com orações e oferendas. Chorava todas as noites quando via a beleza alva da Lua se exibir no céu. Escreveu poemas épicos e gracejou todas as belas damas de sua raça. Chorou não poder tocar as estrelas e sorriu por poder agraciá-las.


Do alto de seu reino no que outrora chamariam de céu, Deus no silêncio de sua morada elegia Melk como o seu favorito. A partir daquele dia, sutilmente guiou muitos dos passos de Melk.


Em Dior os humanos ficavam bestificados com a facilidade que Melk tinha de se comunicar com a mãe natureza e conseqüentemente em usar magia. Com 20 já se equiparava aos Magos de nível intermediário-alto.


Sentia um prazer avassalador todas as vezes que podia ser útil para sua sociedade. Mais ainda quando via no rosto dos frágeis humanos uma pontada de admiração e gratidão.


Entre os seus Melk começava a despertar ciúmes, mas como naquela época éramos todos unidos por uma grande teia, não havia muito perigos a Melk. Os Meinorás de sabedoria menos elevada tinham medo de serem subjugados ao jovem prodígio. Acertadamente temeram que Deus elegesse-o como seu escolhido.


Melk pode sentir o medo no coração dos outros e temeu por todos. Pela primeira vez no mundo, alguém percebeu que o que traz as guerras é o medo. No futuro muitas guerras seriam travadas por conta do medo: medo da fome, medo do poder e até mesmo medo de Deus.


Melk na sua elevada consciência percebeu que despertava o medo e que isso era muito perigoso. Comunicou a seu mestre, um sábio Meinorá, que iria partir em peregrinação. Conheceria a obra de Deus, o mundo e se retiraria a grandes períodos de meditação e conversas com Deus.


Mesmo com a insistência de seu mestre em dissuadi-lo, Melk partiu.


Primeiro teve a oportunidade de conhecer as longas matas que cercavam o vilarejo. Viu tantas aves e de tantas cores que algumas já nem existem mais em meu tempo. Nem as aves nem as cores.


Chegou a um riacho de águas tão claras que se viam peixes dourados nadando tranqüilos no fundo. O som da água calmo e plácido envolvia seus ouvidos na primeira canção do mundo. Bebeu da água fresca sem nunca estocar nada e partiu na sua viagem. Alimentava-se de frutas silvestres que encontrava pelo caminho. Lá de cima no seu reino, o Deus amparava sua boa aventurada viagem e providenciava mesmo sem nada fazer o que Melk precisava.


Após a mata cheia de vida e cores Melk chegou ao mar. E ali ele se pós a chorar. Não conteve as lagrimas quando viu a imensidão azul e todas as vezes que arfava o ar e sentia o cheiro do mar, se perguntava se merecia tudo aquilo.


Ficou algum tempo ali, passou dias apenas observando e meditando sobre Deus. Chegou à conclusão que ele devia ser o ser mais bonito de tudo. Tentou imaginar o rosto de Deus e não concebeu beleza tão grande quanto a que seus sentimentos lhe instigavam. Tentou afastar tal decepção, mas o momento deixou profundas marcas no seu espírito.


Resolveu que era hora de continuar a viagem, após comer algumas raízes que encontrará não muito longe dali, procurou pedras e as quebrou de maneira que ficassem afiadas. Há tanto tempo que já não usara magia que nem passou por sua cabeça tal. Usou os braços para aos poucos ir “emoldurando” uma arvore caída. Procurava todas as manhãs pedras afiadas para passar a tarde no seu projeto de canoa a qual ele chamava de Minimba.


Quando a canoa estava pronta partiu pro mar. Não havia criado remos, portanto não podia guiar o barco. A correnteza levou o barco e Deus levou a correnteza.


Melk passou três dias no barco, todos os dias alguns peixes voluntariamente saltavam pra dentro de seu barco. Melk poderia ter os preparado usando magia, mas ele se negava a matar qualquer um ser vivo criado por Deus. No fim das tardes uma chuva providencial caia sobre o barco de Melk e assim ele tinha ao menos o que beber.


Com fome mais ainda muito feliz, Melk chegou ao que conhecemos hoje como “Praia de Sal”. Uma longa faixa de areia se estendia perante seu barquinho e lá no final daquela “branquidão” uma vegetação rasteira. Por alguns dias Melk só viu aquele tipo de vegetação e mesmo ali conseguiu ver beleza no lugar. Admirou aquele eco sistema forte, que sobrevive a adversidade. E pode ver pequenos animais que não virá nem mesmo nas grandes florestas. Eram os filhos do lugar. Alguns animais pareciam ratos do campo, outros não se pareciam com nada que tinha visto.


Quando dormia certa noite, achou ter visto algum tipo de onça. Porém sua pele era acinzentada e tinha uma aparência mais sinistra. Melk não se mexeu, apenas ouvia atentamente os passos se aproximando. A hiena chegou bem perto de Meinorá, fungou forte, cheirou o ar. Ficou alguns instantes olhando o rapaz no chão pra depois ir embora. Deus o salvará de novo.


Após mais dias de andança começou a notar que a vegetação começava a desaparecer, transformava-se em uma areia avermelhada. Quando mais andou, mais a vegetação ia perdendo lugar para a vermelhidão. Certo dia se deu conta que a sua volta só havia areia. Enquanto esteve perto da vegetação pode comer raízes, mas agora não fazia idéia do que faria.


Mesmo assim Melk caminhava sem pestanejar, seguia em frente com uma coisa no coração até então inominável. Fé. Foi descobrindo em certos pontos daquele deserto algumas plantas de aspecto duro. No começo evitou-as, mas depois se submeteu a fome e mastigou as duras folhas. Depois que aprendeu as esfolar as folhas e retirar seus espinhos não foi tão ruim assim. A planta tinha alguma água, que se não servia para matar a cede servia para não o deixar desidratar tão rápido.


Subiu algumas planícies e mais tardes muitas montanhas, Sentia o coração apertado, sentia que o final da sua viagem estava próximo. Tinha visto muitas maravilhas e muitas maravilhas mais desejava ver.


Por um desfiladeiro estreito alcançou no fim de uma tarde o alto da mais alta montanha vermelha. Sentia fome, cansaço e cede, mesmo assim estava radiante. Sentiu que tinha completado sua missão.


Já havia reparado no sol e como ele deitava-se sobre aquela terra vermelha, mas ali teve maior noção da beleza e da imensidão daquele lugar. Sentiu as forças da natureza fluírem pra dentro de si e saciarem suas necessidades.


Sentou-se para fazer sua ultima oração e reflexão naquela primeira parte de sua vida. E disse essas palavras:



Pai de todos os seres vivos deste mundo


Abençoa me com tua sabedoria


E sacia meus medos com a esperança divina


Me conceda a sabedoria e a paciência que necessitam os lideres


Para que eu possa guiar meu povo como tu me guias


Guarde minha alma imaculada e alva


Para que eu possa exemplificar minhas lições


E que meus defeitos sejam aos poucos suplantados por tuas virtudes


E que mesmos que não encontre sempre as respostas certas


Que eu faça as perguntas devidas


Oh pai... Pois de ti, eu vim!


E de ti herdei o amor!


E a ti voltarei um dia!



E naquele dia Melk teve a maior e mais maravilhosa surpresa de todos os tempos. Deus falou com ele. Mas não como se falavam normalmente. Falou diretamente e “carnalmente”. Uma voz indecifrável desceu do céu para saciar muitas das duvidas de Melk. Conversaram por dias a fio e Deus contou-lhe coisas maravilhosas. Disse a Melk que nunca havia necessitado nem de cultos nem de sacrifícios.


Disse também que os templos eram como que um lembrete aos esquecidos, que Deus estava sempre ali, mas que não era necessário um sacerdote ou um templo pra se entrar em contato com ele. Falou que aqueles que fazem Deus feliz não são os que impunham rituais a outros, mas sim aqueles que transmitem o que sabe a aqueles que querem aprender. Que os bons de coração nem sempre necessitam o nomear para saber que ele existe.


Contou a Melk que ele seria o líder de seu povo. E que dentre todos os lideres poderia ser o melhor, mas que para isso era necessário, paciência, reflexão, desapego, humildade e sabedoria. Contou-lhe que a riqueza deve ser conseqüência do equilíbrio dos que governam e não o objetivo.


Melk amou Deus com ainda mais força e admiração. Sentia-se não acuado mas engrandecido perante o pai. Ele era tão pequeno diante de Deus. E Deus tão sábio que Melk desejou voltar a Deus. Mas Deus o alertou de sua missão, deveria voltar a sua terra natal e governar seu povo.


Melk anuiu, mas uma pontada na sua alma o deixava-o inquieto. Não tinha esquecido o que aconteceu na primeira vez que viu o mar. Ficou tão estupefato e impressionado com a beleza que Deus criou que queria admirar a própria beleza de Deus.



Meu rosto ninguém deve jamais ver meu filho


Você se perderia em algo que não entende


Para tudo nesta vida é necessário equilíbrio


E está será sua grande batalha meu filho


Deve lutar contra este desejo que vai tomar aos poucos você


Talvez está seja sua mais difícil prova


A de domar suas próprias feras.



Melk sentiu por um instante desespero, pela primeira vez durante toda a viagem sentiu medo. Sentiu esvair suas forças. Mas Deus com mãos invisíveis o tocou no rosto e enxugou suas lagrimas. Lembrou-lhe que um dia a ele retornaria.


A viagem de volta foi mais rápida e planejada. Melk coletou algumas raízes para levar na travessia de barco e juntou alguns galhos secos para fazer de remo. Quando chegou em casa foi recebido com festa. Seu mestre agora era o líder do vilarejo e deu uma grande festa em homenagem ao seu filho mais promissor. Os humanos ainda ofuscados por uma ignorância da raça nova nada perceberão, masaquele era um momento de reflexão para os Meinorás.


Desde a antiguidade os cargos eram transferidos aos mais velhos e assim os mais velhos gostariam que fossem. Os de bom senso queriam que Melk tivesse um tratamento especial, afinal era mais instruído e sabio que até mesmo o seu antigo mestre. Melk voltará com força e sabedorias renovadas. Mas havia aqueles em qual o medo já havia se alastrado, medo de perder sua importância perante a sociedade, medo que Melk destruísse tradições por conta da sua falta de experiência. Medo.


Todos os percebiam em suas consciências coletivas que o momento era de decisão. A diferença era que os humanos não ligavam.


Era talvez tarde demais, pensou Melk. A semente do medo já havia sido plantada ali, e quando isso acontece, ela tende a crescer rápido. E até mesmo ele Melk de Dior, o mais sábios dos Meinorás não descobrirá um jeito de acabar com aquela erva daninha. O medo já havia profanado seu povo.


Não poderia acabar com o medo, mas descobriu uma maneira de controlá-la. Se fosse sincero em suas intenções os outros de sua raça talvez se acalmassem. Seria um bom plano se Melk não tivesse contado sobre a conversa com Deus.


Muitos acharam uma blasfêmia as idéias de que Deus não necessitava de templos e sacrifícios. Diziam que Melk havia enlouquecido e sua sabedoria se esvaia como em uma tigela furada.


Melk se calou por anos afio. O vilarejo mergulhou em uma calma triste e melancólica. E por anos todos viveram sem serem realmente felizes. Melk fechou sua alma para tudo e todos e concentrou-se em refletir sobre o passado o presente e o futuro.


Quando o velho mestre de Melk chegou a uma idade avançada a agitação se fez mais uma vez. Todos sabiam o que o velho tencionava fazer, mas havia alguma esperança para os mais conservadores.


Em uma manhã resplandecente o velho falou a cidade.


Desceu as escadarias do grande templo em homenagem a Deus (que Melk discordava), e passou pelos conselheiros que o seguiram. Quando chegou ao meio da praça os corações tremeram. Homens e Meinorás olhavam atentos na expectativa de saber quem seria seu próximo líder.



- Melk de Dior, o eleito de Deus é agora o Eleito de todos nós.



Por um segundo ninguém se mexeu, os músculos retesados, tensos não captaram a mensagem. Até que aos poucos todos compreenderam e puxados pelos humanos um grito de exaltação ecoou forte e pulsante pela praça.


Melk que pressentiu o momento caminhou sereno e feliz até seu velho mestre que o abraçou. Ficaria por longos anos agora aprendendo os deveres de líder, mas com seu velho mestre seria mais fácil. O povo entoava cantos de louvor a Deus e a Melk.


No auge da alegria um velho ancião gritou e sua voz trovejou sobre os gritos alegres: — Você destruirá Dior.


O povo calou-se de supetão e o clima ficou tenso mais uma vez. Melk fitou o velho Meinorá e com um sorriso um tanto debochado respondeu: — Eu farei de Dior, grande e esplendorosa, não é mesmo velho? – perguntou ao mestre – Uma coisa não exclui a outra – respondeu o Mestre.


Antes que Melk pudesse se recuperar da resposta e indagar o porquê daquilo o velho se retirou e o povo novamente em festa ergueu Melk o glorificando.



O velho viveu por muitos anos ainda e pelo tempo que estava vivo ensinou tudo sobre liderança e administração ao jovem pupilo. Melk aprendia tudo com humildade, apesar de ter idéias de como aperfeiçoar cada tópico que o mestre lhe apresentava. Quando seu mestre morreu, decretou uma semana de luto e chorou cada hora desses dias.


Quando de fato Melk assumiu o poder, a cidade entrou em vertiginoso crescimento. Decidiu usar os recursos e mão de obra que usavam pra construir templos na construção de moinhos no riacho e na plantação em áreas maiores e mais afastadas.


Não destruiu templos, mas também não comparecia em tradicionais rituais religiosos (o que desagradava muitos os antigos). Falava a todos os que queriam ouvir e sugeriam que não apenas aceitassem suas palavras, mas também refletissem e tirassem suas próprias conclusões.


Mais pessoas chegavam ao vilarejo que com o tempo virou uma pequena cidade. As construções de casas aumentavam, as plantações eram agora aradas por animais o que acelerava e melhorava as terras. As mulheres humanas reuniam-se na praça a fim de ensinar as crianças a lerem. Até os velhos olhavam com mais admiração para os humanos.


Vinte anos de reinado de Melk transformou a pequena Dior na gigante Dior. Do seu palácio (o qual se recusou por anos a construir), Melk podia ver seu reino se estendendo por muitos e muitos quilômetros.


Construirá rios artificiais que cortavam a cidade no meio para facilitar o acesso. Escolas de verdade foram construídas com Humanos e Meinorás estudando juntos. Com a morte dos antigos opositores muitos templos deram lugar a bibliotecas com janelas enormes. De alguns reinos vizinhos mestres construtores vinham criar prédios cada vez mais altos e com janelas maiores.


A cidade tinha vida própria. E tendo ela meios de caminhar com as próprias pernas, deram a Melk tempo para re-visitar antigas faltas. Começou a sonhar com o dia em que falou com Deus e quando lhe foi negado ver a face do criador.


Nos primeiros anos que isto lhe ocorreu tentou dizer que nada demais acontecerá e que já havia superado o fato. Mas cada noite que acordava com lagrimas nos olhos era mais difícil mentir para si mesmo.


Melk deixou aos poucos de pensar com a razão. Foi cedendo pouco a pouco aos seus sentimentos que por mais que sejam puros eram destrutivos. Negligenciou suas obrigações com Dior, mas a cidade nem sentiu, não precisava mais dele. Já tinha sua vida própria, era quase um ser pensante.


Lembrou da magia que usava quando criança. Costumava evocar o fogo em suas mãos sem se queimar. Aos poucos foi relembrando que era mais talentoso que muito Meinorá experiente. Uma pontada de vaidade foi assumindo uma forma cada vez mais consistente no coração de Melk.


Começou a visitar a biblioteca a tarde. Depois ia as manhãs também, às vezes estendia até a noite suas pesquisas. Depois de algum tempo já não voltava pra casa, dormia em cima de livros e mal se alimentava. Por ultimo mandou que fechassem a biblioteca ao povo. Trancado lá dentro leu historias sobre a criação divina, sobre o palácio das almas eternas, sobre magias agudas e os mistérios da natureza.


Começou a praticar uma magia mais agressiva. Experimentou poções que agrediam a natureza de forma violenta. Criou algumas das que seriam as magias mais perigosas do mundo. E também um encantamento perdido. Melk conseguiu criar o mais perfeito encantamento de todos os tempos, mas também o mais terrível para a historia do mundo.


Melk tinha cada vez mais a loucura nos olhos, começou a andar armado. Usava uma espada prateada que emanava uma tênue luz avermelhada. Alguns diziam que era um encantamento de morte, outros que era apenas enfeite. Melk nada confirmava ou negava, estava muito ocupado se preparando para encontrar Deus.


Após anos de reinado próspero e benevolente Melk morreu e de forma triste e trágica. Devido a sua obsessão pelas magias (que ainda não tinha o nome de hoje: negras), enlouquecerá e se matou. Ou assim se imaginou.


O reino chorou a morte de seu rei, mas se recuperou após alguns anos. Nossa historia agora toma outro rumo. A morte.



Deus vendo tudo de seu reinado eterno chorou a morte de Melk. Sofreu cada vez que Melk se desvia mais e mais de seu caminho. E quando ele começou a usar de suas magias, Deus fechou os olhos para nada mais ver de seu querido Melk e quando reabriu os olhos ele estava morto.


Deus buscou a alma e o corpo de Melk e levou-os para o Palácio das almas eternas. Lá chegando o colocou em uma tumba incrustada na parede. E ali durante sete dias e sete noites Deus velou por Melk.


Melk tinha o rosto tranqüilo e sereno, estava deitando de costas com as mãos sobre o peito, empunhando sua espada que ainda emanava o vermelho.


Aos poucos a espada foi perdendo a cor. A luz vermelha foi perdendo intensidade e ficando cada vez mais pálida, cada vez mais fraca. Até se extinguir por inteiro.


Quando a luz finalmente desapareceu, Melk abriu os olhos. Seus olhos se encheram de lagrimas ao fitar o rosto perfeito de Deus. Relembrou de tudo que havia passado na vida. De todas as alegrias, das tristezas, as dificuldades, lembrou do mar e da terra vermelha. Chorou como uma criança e agradeceu e pediu desculpas a Deus.


Deus era muito mais maravilhoso que poderia ter imaginado Melk em toda sua vida. Sua face era a bondade do mundo. E para ter esse privilégio, Melk criou o terrível encantamento perdido da ressurreição.


Deus quando percebeu o que Melk tinha feito primeiro o fitou furioso, mas depois se apiedou e sentiu pena do pobre Meinorá. Como poderia exigir de uma criatura tão simples que fosse perfeita?



- Você sabe a gravidade do que fez meu filho!


- Sei pai, não fui forte o suficiente.


- E sabe também que toda ação recebe uma reação


- Tenho consciência Pai e peço perdão a ti que vai ficar, pois pra mim que não existirei nenhuma dor irei sentir.


- Melk de Dior


- Adeus pai...


- Adeus meu filho.



Deus sorriu pra Melk e o beijou a face. No momento que Deus tocou Melk ele desapareceu para sempre. Não apenas sumiu, mas sua essência foi exterminada. Deixou de existir como espírito. Não partiu para lugar nenhum, apenas acabou. Esse foi o castigo que Deus deu a seu tão amado Melk de Dior.


Deus e Melk sabem que não foi um castigo. Todo homem deve responder por seus atos e foi exatamente o que aconteceu. Não poderia ser de outro modo e Melk aceitou pagar o preço.


Mas se engana quem acha que Melk nesse ponto foi corajoso. Ao contrário, foi o único momento em sua vida que Melk foi covarde. Sabia que se isso acontece-se nada sentiria mas Deus... Este até hoje chora o fim de Melk.


Mas o ato covarde de Melk não teve efeitos colaterais só para ele. Quando Melk desapareceu, ele destruiu a consciência coletiva dos homens. Como em um quebra cabeça que não tem uma peça, nunca estará completo.


Sem saber o que esperar um do outro, Humanos e Meinorás começaram a se temer. Em todo o mundo sentiu-se a falta do antigo elo de ligação que está para sempre perdido.


Dior depois deste acontecimento se tornou uma cidade muito tensa. A todo instante havia acusações das duas partes. Homens comentavam que os Meinorás queriam os expulsar, os Meinorás por sua vez diziam que os Homens iriam saquear a cidade fugir para a floresta.


Durante muitos anos apenas ameaças os dois lados se propuseram a fazer. Mas de alguns anos para cá a primeira guerra que se tem conhecimento no nosso mundo começou. Tudo por causa do medo, semeado a muitos anos atrás na época do valoroso Melk.


Hoje os humanos vivem muito longe daqui. Dior já não existe mais, deu lugar a um campo devastado pelo fogo das batalhas. Já os Meinorás tornaram-se sedentos por poder. Clãs brigam por posições na corte real e secretamente planejam derrubar o rei. Coisa está que vocês logo entenderão, não me agrada nada.


Creio que precisaremos de muitos anos para aprender a conviver de novo. Mas dentro de cada um de nós sempre sentiremos o vazio que Melk faz. Todo dia iremos pagar pelo erro de Melk e nunca seremos completos uma outra vez. Pois ninguém, ninguém é substituível.


Meu nome é Malak de Dior. O Sucessor de Melk, rei de uma cidade que não existe mais. E está é a historia de meu predecessor, Melk de Dior.


E foi assim que Melk de Dior, o melhor rei dos Meinorás e dos Humanos destruí seu reino.


E foi assim que o maior desejo de Melk, de voltar a deus não foi realizado.



Malak de Dior Rei regente de Dior.



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