Melhor tipo de imperfeição
1 Capítulo único
Após intermináveis anos de olhares sorrateiros, bochechas avermelhadas e desculpas esfarrapadas gaguejadas, os dois haviam finalmente admitido que se gostavam. Pouco era o tempo — e a coragem — para que eles pudessem pensar em amor, mas havia um sentimento. Um sentimento que fazia o coração de Zuko bater forte no peito e as pernas da sempre estoica Mai transformarem-se em gelatina.
Um sentimento assustador, que deixava ambos com a sensação de estarem na beira do abismo, com os pés deslizando, o coração na boca.
Um sentimento ruim, que fazia com que o garoto tivesse vontade de correr sempre que a via, e que fazia Mai cortar as pétalas das incontáveis flores dos vasos de sua mãe.
Um sentimento bom, que instigava Zuko a ser sempre melhor, a sempre tentar mais. A levantar quando o grandalhão do time o empurrava no chão e a estudar quando era reprovado. Um sentimento bom, que levava Mai à ser mais compreensível, a engolir o próprio orgulho e perceber que talvez — talvez — considerar os sentimentos das outras pessoas não era algo tão fútil assim.
Sete anos depois, Azula o dera uma carona em sua caríssima motocicleta de última geração até a melhor loja de joias da cidade, onde Zuko gastara todas as economias dele dos três últimos meses de trabalho na loja de chá do tio — e as de Azula. E Aang. E Sokka, e... bem, ele pararia por ali. A bem da verdade, Zuko talvez nem fosse o mais nervoso deles quanto ao noivado. Ele sentia-se bem, incrível, honestamente. Como nunca se sentira ates. Havia sido Katara quem estivera andando de um lado para o outro do apartamento que ele dividia com a irmã, ajeitando cada móvel milimetricamente e certificando-se de que nenhum cupcake estivesse assado demais e nenhum brigadeiro doce de menos. Foram Aang e Ty Lee quem fizeram questão de que tudo fosse a mais absoluta surpresa, e arrastaram Mai para o prédio sob algum pretexto — no qual a outra garota provavelmente não acreditou nem por um minuto.
E havia sido Azula, em uma noite fria e silenciosa, que o encontrara na sacada encarando uma foto da namorada na tela do celular, e dissera:
— Você devia casar com ela.
Zuko nunca havia pensado no assunto antes. Haviam estado juntos por tanto tempo, que tudo parecia natural. Mas a ideia fez bater as asas de borboleta em seu estômago, e, embora seus joelhos tremessem, ele soube que era a resposta.
Para o quê, exatamente, ele não sabia.
Ele tinha o que parecia ser uma habilidade natural para machucar a si próprio.
Ela não era a melhor das conselheiras — ou ouvintes — mas, de algum modo, eles funcionavam.
Funcionavam como amigos, e então como amantes. Funcionavam como duas pessoas que se amavam (ele podia dizer aquilo agora), e como duas pessoas que queriam, acima de tudo, o bem um do outro.
Porque era amor. Era amor que levava Zuko nos momentos mais aleatórios, a entrar na floricultura do outro lado da rua e comprar um buquê de flores das quais ele não fazia ideia do significado e entrega-las à recepcionista com um sorriso bobo no rosto.
E era amor que levava Mai a ignorar a completa vergonha alheia, aceita-las, e beijar o namorado bobão nos lábios na frente dos outros clientes.
E mais tarde, enquanto Zuko corria as pontas dos dedos delicadamente pelos fios de cabelo fino e sedosos de Mai, observando o rosto da namorada iluminado apenas parcialmente pela luz da lua que transpassava o vidro da janela, era amor que fazia Zuko perder a respiração e encará-la como a mais bela obra de arte já feita na história.
Era amor que fazia o peito dela tremer quando ele a olhava assim, e era amor que a levava a beijá-lo para esconder a timidez. E era amor que a levava a sussurrar, baixinho, sem sequer a sombra da agressividade e frieza que lhe eram tão característicos no tom de voz:
— Azélias significam “eu espero que você tenha sucesso financeiro”, não alguma coisa romântica, seu idiota.
E ele a beijava de novo, porque Zuko a amava e Mai gostava de ser beijada entre conversas.
Na faculdade, as pessoas tinham dificuldades em acreditar que eles eram realmente um casal. Ninguém duvidava do amor de Aang e Katara. Ninguém questionava os beijos trocados entre Sokka e Suki quando eles achavam que ninguém estava vendo. Ninguém sequer desconfiava do relacionamento entre Azula e Ty Lee — embora suas personalidades fossem tão opostas.
Mas duvidavam deles. Zuko era emocional demais, Mai não era o suficiente. Ele era amigável e popular, Mai era fechada e reclusa. Zuko era o melhor amigo de Aang — o garoto mais sociável e querido da faculdade. Mai era a melhor amiga de Azula — que embora tão popular quanto, não era nem de longe tão querida (e não fazia questão de ser).
Eles só estão juntos por comodidade, alguém escreveu em uma rede social.
Aposto que o Zuko já deve ter traído a Mai com metade das garotas dessa faculdade, outra pessoa completou, em uma pichação na parede de um banheiro.
Algumas delas iam tão longe a ponto de questionar pessoalmente. Azula quase chutara os dentes de um garoto que pressionara Mai em um bar sobre o relacionamento dela com Zuko, mas a mais velha havia se livrado dele sozinha.
E quando Zuko retornou com um prato de comida e uma garrafa de cerveja cara, ele fez questão de beijá-la.
Com exceção de seu excêntrico grupinho de amigos, todos insistiam que Zuko e Mai não eram feitos um para o outro. Eles concordavam.
Não eram. Não existia algo como almas gêmeas ou amor premeditado. Amor leva tempo, e esforço. Eles poderiam ter terminado na primeira briga. Ou na segunda, terceira... mas estavam juntos. E se amavam.
Zuko e Mai haviam encontrado um ao outro em um oceano de pessoas, e não pretendiam se afogar de novo.
Quando ele estacionou o carro na vaga de sempre, Mai, como de costume, checou a maquiagem no espelho. Ele resolveu ser corajoso, e esticou o pescoço para beijá-la na têmpora. A esposa não ficou vermelha e envergonhada, como fazia, tantos anos atrás. Ela apenas rolou os olhos e selou seus lábios no dele brevemente.
O beijo terminou poucos segundos antes da porta de trás ser aberta. Izumi pulou para dentro do quarto, roupas amassadas e óculos sujos como sempre. Ela havia ficado com a personalidade do pai, definitivamente — e com a habilidade para tropeçar em nada e levantar como se nada houvesse acontecido. Bumi, o filho mais velho de Aang, estava sempre dizendo que Izumi ia acabar se machucando para valer um dia.
Mas ela também havia ficado com o temperamento da mãe. E como Mai, Izumi não desistia facilmente.
— Como foi a aula, meu amor? — Zuko perguntou.
Eles fizeram o trajeto de volta para casa, com Izumi recontando cada detalhe de seu dia, enquanto Mai o observa com doçura — e fingia muito habilmente que não.
O amor não era perfeito, mas Zuko gostava daquela imperfeição.
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