Melancolia
2 Dias atuais
— Hora de acordar. — Ouço a batida em minha porta e me levanto rapidamente.
Coloquei o uniforme branco da psiquiatria e meu cachecol amarelo, me dirigi ao refeitório e sentei numa mesa com Jerry.
— Olá Lucinda, como dormiu nesta noite minha querida? — Diz Jerry empolgado.
Jerry tem 36 anos, o dobro de minha idade. Na maior parte do tempo ele é apenas um cara normal e animado, especialmente com a enfermeira Alisson.
— Bem Jerry, muito bem. — Falo casualmente.
— Ali esta ela. — Diz Jerry empolgado.
— Bom dia Luci. Bom dia Jerry. — Diz Alisson com um sorriso.
Ela certamente é a enfermeira mais jovem que se pode encontrar em um lugar desses. Tem os cabelos loiros e rebeldes que insistem em se soltar do seu coque desajeitado. Ela é carismática e sempre da uma atenção especial para Jerry.
— Toma Luci, seus remédios. — Diz me entregando um copinho branco com duas pílulas.
— Aumentaram a dose? — Falo inconformada.
— Sinto muito, mas sim. Acharam que só um não estava te ajudando o suficiente.
Coloco as pílulas goela abaixo e abro minha boca para Alisson ter certeza que as pílulas já devem estar indo para um lugar quentinho.
Ela sorri.
Sem muito caso ela entrega para Jerry. Ele só sabe sorrir para ela.
— Muito bem Jerry. Se continuar tão comportado como nos últimos dias posso pegar uma sobremesa a mais para você.
Ele se empolga.
— Por mim tudo bem. — Diz Jerry tentando parecer casual.
Alisson então se vira e começa a andar, mas em alguns instantes ela volta.
— Não queria falar sobre isso, mas parece que vocês ainda não sabem. — Diz Alisson com o tom de voz mais agitado que o normal. — Vai chegar mais um paciente hoje.
— Quais são os problemas dele ou dela? — Pergunto.
— Nada muito grave. É um homem, vi a ficha dele, e pode ser um bom partido Luci. — Ela sorri.
Jerry revira os olhos.
— Luci não pode se prender a alguém daqui, afinal queremos que ela fique boa para sair daqui logo, não é mesmo?
Alisson assenti com a cabeça.
— Obrigada Jerry. — Digo feliz por ele demonstrar sua preocupação comigo.
Levanto-me da mesa e deixo os dois sozinhos, é o mínimo que o Jerry merece depois de ter sido legal comigo. E tenho certeza que ele irá prender a Alisson ali por bastante tempo.
Pego um café e algumas bolachas, e me dirijo ao assento da janela.
Esse é meu lugar preferido daqui. Essa janela tem a vista para um parque que se encontra enfrente a Psiquiatria.
Fico pensando como meu pai esta, ele não me liga ou vem me visitar já faz algumas semanas, já pedi algumas vezes para a secretária tentar ligar para ele, mas ela sempre diz que não é autorizada. Mas para que uma secretaria serve se não para telefonar para os entes dos pacientes? Fico com essa duvida.
Vejo um caminhão parando enfrente a psiquiatria, ele é todo branco escrito apenas “Penitenciaria Federal”. Talvez seja o nosso novo convidado.
Dois seguranças descem do veículo e abre a porta de trás. Logo em seguida sai um homem que não me parece estranho.
Ele tem o cabelo liso e preto, seu tom de pele consegue ser mais branco que o meu, ele é alto, por volta de 1,80 e mesmo com o uniforme laranja, ainda é possível ver que seus músculos do braço tentam pular para fora daquele uniforme.
— Seja bem vindo. — Surro com certa malicia em minha voz.
Volto para meu quarto, e dou uma olhada breve no pequeno espelho, faz tempo que não me via. Liberaram o espelho para mim fazia algumas semanas, disseram que eu já podia distinguir a realidade da ficção. Mas eu ainda duvido.
Meu cabelo esta com leves cachos tentando se formar em sua pontas escuras, meus olhos grandes ainda me incomoda quando me vejo no espelho, então tento evitar ao máximo.
— Vamos Lucinda, para fora do quarto, você sabe que de dia não é permitido. Diz Cristina, a secretária calorosa.
— Só estou escovando os dentes.
Então ela para na porta e me espera terminar.
Dirijo-me para fora de meu próprio quarto e vejo o cara que tinha acabado de chegar, ele estava no corredor, junto com o instrutor mostrando onde era seu quarto, e por coincidência eles estavam entrando no meu.
— Luci. — Diz ele sussurrando.
— Eu te conheço? — Digo sendo grosseira.
Ele não diz nada, mas muda sua expressão.
— Te confundi com uma ex amiga. — Diz ele sendo sarcástico.
— Não dê ouvidos a ele Lucinda, ele apenas ouviu eu te chamando. — Diz Cristina revirando os olhos.
— Vou ganhar um novo colega de quarto? Devo ficar preocupada? — Pergunto ao instrutor Josef.
— Claro que não Lucinda, não colocaria ele com outras pessoas se não soubesse que ele é seguro. — Diz Josef calmamente. — Aproveita e apresenta o lugar para ele, tenho certeza de que ele irá gostar de sua companhia. Vejo vocês em breve. — Diz Josef saindo do corredor sem ao menos me dar uma chance de falar.
— Vamos logo. — Falo parecendo apressada para meu novo colega.
Ele começa a andar um pouco mais rápido, e logo se posiciona ao meu lado.
— Me chamo Oliver. — Diz ele.
— Você já sabe meu nome. — Falo sem muito caso.
Ele não diz nada.
— Aqui é o refeitório, aquele corredor do lado direito vai nos levar a sala de estar, e no final do corredor fica os banheiros. No corredor esquerdo fica a sala de manutenção, e os quartos dos enfermeiros, lá é zona proibida.
Ele assentiu com a cabeça e logo depois sai de perto de mim.
“Que tour rápido” penso comigo mesma e volta para o assento da janela.
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