Melancolia
1 Fazendo menção do inimigo
Dias que começam nas noites que não terminam. Assim se passa a minha história. É assim que eu narro o meu conto. Pois é nas horas que vivo, no vazio do tempo. Por isso tudo é relativo, nada se torna constante. Muito menos eu.
A cada ciclo eu estou no meu normal. Fora do normal. Distraído, intenso, correto, falso, forte, mas sempre fraco. O efeito do tempo em mim é indescritível. Aliás, o tempo não passa igual para mim. Um dia é como um ano. Eu acordo e me apaixono dezenas de vezes, me decepciono outra dezena. Trabalho até atingir exaustão. Eu brinco, eu sorrio, eu pulo e quase chego a voar. E quando o dia em fim termina tenho a sensação de que já não há mais nada que se possa fazer para me salvar disso tudo. E enquanto pisco um novo dia chegou. E tudo recomeça outra vez.
Nasço e renasço, superando todas as minhas expectativas. E mesmo respirando já não sinto um pulsar. Onde deveria estar mesmo? O que deveria bater dentro de mim? O que me mantem vivo? Para que me manter vivo?
Drogas e vícios que alteram o meu estado de humor e acabam comigo me inspiram a não parar. Impulsionam-me a não deixar tudo de lado.
Mas não se assuste. Eu não quero deixar você de lado. Não vou abandonar a ti e a sua história de vida. Não, não é isso. Eu apenas enlouqueci. Nada, além disso. Até porque eu ainda tenho motivos. Os meus motivos. Sintéticos ou não. Eu ainda tenho por que viver. Eu gosto disso, essa loucura dos dias, das outras pessoas e da minha própria.
Talvez seja culpa dessa intensidade que eu sou. Que eu vivo. Sempre sinto tudo um pouco demais, com muita força. E sempre sofro por um ou outro motivo banal. Coisas que a maioria das outras pessoas não sente, não veem, não sabem o que é. Agora imagine sofrer dez vezes mais só por que os dias não tem fim para você. Pensando bem, talvez eu seja mais forte do que eu pense ser.
E, sim, é verdade. Eu também tenho dez vezes mais alegrias, dez vezes mais motivos para me sentir satisfeito, dez vezes mais amores e dez vezes mais tempo. Mas isso é entediante. A beleza está na dor. Sim, na dor. Não, eu não sou masoquista. Pelo menos não no sentido exato da palavra. Estou mais para sádico. Mas, tente acompanhar o meu raciocínio. O sentimento de falta é a raiz de todo sentimento de criação. Se você estiver satisfeito ou pleno não terá motivos para criar, para fazer algo novo, para mudar o que já existe e, assim, ir mudando o que há à sua volta.
Por isso não pense que eu reclamo ou me queixo da minha tristeza ou do que me deixa infeliz. É por ela que eu ainda vivo. Numa luta de velhos grandes inimigos que não terá fim. Ela me desafia e eu me supero a cada desafio para mostrar que sou maior que ela.
Fale com o autor