Meio Sem Meia
1 Conselho de Casamento
Notas iniciais
Espero que tenha uma ótima leitura! Aprecie.

A cadeira estofada já se modelara ao seu enorme corpo, como o colo de uma mãe que se ajusta perfeitamente ao corpinho do filho. Desinteressado, Roberto Liar levantou os olhos para o casal que entrou. A incansável mente que contrastava aterradoramente com a cansável vitalidade física, presumiu o que viria a seguir. Mas um enorme obstáculo despontou na estrada da probabilidade; havia algo diferente, notório. Eles sorriam, joviais. Não, eles não iriam se separar. Talvez estivessem ali para convencê-lo a ser o novo advogado da dupla. Qualquer problema na relação, chama o Robertão! Era sua campanha nos rádios e canais de TV que tornou seu trabalho mais famoso e lhe rendeu muito mais dinheiro. Era certo que se transformara em um workaholic, mas o montante acumulado na poupança compensava; quanto mais dava duro, mais casos ganhava, mais conhecido ficava, e lucrava cada vez mais! Os sorrisos eram joviais demais. Não, melhor, receptivos; daqueles que brotam no rosto quando um filhote de cachorro de rua arranha a porta em um dia chuvoso. É, estavam querendo convencer Roberto de algo. Talvez fossem representantes de alguma nova premiação voltado para o jurídico. Então ele estaria concorrendo a qual dos prováveis prêmios? Melhor advogado? Puft! Mais famoso na categoria Separação? Hum... quase lá. Advogado envolvido em maior quantidade de separações efetivadas de seus clientes? Sim! Devia ser isso! Não imaginava que seu trabalho chegasse a tal prestigiação. Olhou para os dois e com uma sugestão de sorriso, indicou as duas cadeiras do outro lado de sua escrivaninha lotada de documentos sobre os casos de seus clientes. Cada caso valendo uma fortuna.
O homem e a mulher se acomodaram e se entreolharam. As bochechas rosadas, vívidas. A felicidade no olhar de ambos.
Liar analisou melhor o traje que levavam. Roupa comum. Do dia-a-dia. Hum. Espera. Estão de mãos vazias. Não, eles não vieram avisar que ele era forte concorrente ao prêmio de Advogado envolvido em maior quantidade de separações efetivadas de seus clientes. O porvir agora prometia não trazer nada grandioso. Roberto então desistiu de tentar adivinhar o motivo que trouxe aqueles dois ao seu escritório e decidiu que era melhor esperar para descobrir. Droga, sua genealogia cigana não o deixava em paz, tinha que ficar tentando desvendar tudo a todo momento?! Obrigado, mãe! Por me ensinar a ler mãos e predizer o futuro! Suspirou. Voltou ao seu estado inicial de desinteresse.
— Boa tarde, senhor Roberto Liar — começou a mulher.
— Apenas Roberto, por favor – resmungou.
— Oh, tudo bem. Bem, então... apenas Roberto, não é? Nós viemos aqui para pedir algumas sugestões, porque lemos seu livro...
— Ah, o livro! — interrompeu. Quase revirou os olhos. O livro, o bendito livro, Roberto! Que nem tinha sido escrito por ele, composto da mistura de escassas leis — pra não acusarem que o escrito não procedia de Liar — e encharcado de autoajuda sobre casamento. Que ele só tinha aceitado que levasse seu nome na capa porque a editora tinha garantido que seria um sucesso editorial — e realmente fora. Que ele só não se arrependia mais de ter concordado com a publicação em seu nome porque estava ganhando bom dinheiro das vendas.
— O que temos aqui? — Roberto estudou o casal em menos de um segundo. — Já sei, querem se casar com separação total de bens e que eu seja o advogado particular do casal.
— Mas... — era a primeira vez que o homem abria a boca, mas foi interrompido por Roberto.
— A boa notícia é que ter um advogado famoso como eu, tornam as coisas mais fáceis. Assinar o contrato do Pacto Pré-Nupcial é molezinha.
O casal se entreolhou novamente e riu.
— Seu Roberto... — tentou o homem novamente, mas desta vez foi interrompido pela mulher.
— Roberto, nós nos amamos. Não queremos a separação total de bens, vamos nos casar pela comunhão parcial de bens, mesmo — explicou a futura esposa, prestativa, com um brilho no olhar para com o futuro marido. — Tudo o que será meu, é dele e tudo que é dele, é meu. Esse é o verdadeiro sentido de um casal, não é?
Roberto Liar semicerrou os olhos para aqueles dois.
— O que vieram fazer aqui então?
— Já disse. Conselhos, sugestões — disse a futura esposa, com seu sorriso jovial, não, melhor, receptivo.
— Não é possível... — murmurou guturalmente Liar, a mão apoiando o rosto; a respiração entrecortada, o nariz dilatando pela raiva que entrava em estado de ebulição.
— É, viemos... – esforçou-se o futuro esposo. Sem sucesso, interrompido por Roberto.
— Vocês estão fazendo eu perder a porra do meu tempo! — rugiu, ao mesmo tempo que bateu as mãos espalmadas na escrivaninha e se levantou da cadeira que resmungou pelo seu dono ter se levantado só por causa daqueles dois baixos querendo conselhos; as veias saltitando das têmporas, gotículas escapando de sua boca e chuviscando em suas dezenas de papéis sobre a escrivaninha. O sedentarismo confirmado na hiperventilação causada por ter se levantado abruptamente da cadeira. — Isso aí eu não consigo vender! Caiam fora daqui! Isso eu não consigo vender!
O futuro marido levantou, indignado.
— O senhor é muito... — mas foi interrompido por sua futura esposa, soluçando.
Roberto Liar ouviu a mulher choramingar antes dos dois desaparecerem pela porta:
— Só queria um conselho, mesmo podendo não ser bom, seria gratuito.
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