Meia Lua: One-shots
5 Vendetta
Ainda estou sem fôlego. Lutar com essa roupa de couro no meio da tarde é fazer exercício na sua própria filial do inferno. Todo mundo ficou surpreso ao encontrar outra dupla de vivos, mas enquanto Mauro só queria ir embora, o maluco de preto voou na gente com sangue nos olhos.
O idiota pensou que tinha uma chance porque sacou um revólver. Não a essa distância, seu puto. O outro tentou correr, mas eu não daria a chance do cara nos emboscar outro dia ou chamar os amigos: O derrubei também, e sinalizei pro Mau que estava acabado. Caramba, como isso cansa. Olho pros dois cadáveres no chão. Mal aí, caras, outra hora enterro vocês.
Murmurei pro Odin que estamos vivos e bem. Temos comida, aquele macarrão instantâneo que o Mau adora por alguma razão, estou fedendo como um morto depois de suar tanto. Mauro segue um pouco na frente, afinal, ele é o cara com dois olhos bons.
Parece que sobrevivemos mais essa. Mais uns dois ou três quilômetros e estamos em casa. Só consigo pensar em tomar um banho. Então Mauro para, rosnando baixo pra alguém. Puxo as sai, até que vejo. Oito, nove... dez filhos da puta ao nosso redor.
Estamos muito ferrados.
***
— Vamos salvar vocês, aguentem um pouco mais. — Cubro o microfone com a mão. — Fred, nada ainda? Precisamos achar os dois.
— Esse drone tem mais dez horas de bateria, Luca. Vamos encontrá-los.
— Nenhum dos dois têm dez horas de vida se o animal continuar a surrá-los daquele jeito. Apressa, Fred.
Estou há horas ouvindo o maldito bater e insultar os meus amigos, enquanto os procuro com o drone. Fred ligou todos os computadores, e digita comandos tão rápido que mal consigo acompanhar as linhas. Não sei o que ele está fazendo, mas espero que funcione, porque a procura visual não está adiantando nada. Estou rezando pra que o sacana não tenha um veículo, que aqueles dois continuem vivos, que o fone não caia.
Um dia esse desgraçado vai pagar, e esse pensamento me tranquiliza. Reze pra nenhum dos dois morrer hoje, Toni, porque senão você vai torcer pra qualquer coisa te encontrar antes de mim.
“Pronto, acho que já cansei dos dois. Vou guardar isso aqui de lembrança, Cascão. E esses capacetes e roupas de couro serão muito úteis, obrigado.”
“Atiro neles agora, chefe?”
Não atira não atira não atira não atira não atira não atira não atira
“Claro que não, Bruno. Ao contrário deles, nós não matamos ninguém, não é?”
— Consegui! Alguns segundos, e teremos localização GPS.
— GPS? O comunicador tem GPS?
— Óbvio. Tudo que faço tem GPS. Perco muita coisa nesse lugar.
Escuto risadas. Parte de mim se pergunta quantos mais caíram nas mãos dessa horda. Nenhum dos dois responde, e já não sei se eles estão desmaiados ou pior.
“Como eu sou um cara razoável, vou deixar os dois amarrados pra pensarem sobre o que fizeram. Titi, os pendure lá fora.”
Timóteo está com eles? Assistindo essa infâmia? Mais um pra minha lista.
Consigo ouvir os ruídos dos dois sendo arrastados e pendurados como carne no açougue. Numa tela paralela, aparecem coordenadas de GPS, e Fred toma o controle das minhas mãos.
— Pronto, agora é só ajustar o drone e voilá! — Para de se exibir, Fred, estamos sem tempo! — Em sete minutos teremos o visual.
“De cabeça pra baixo vai ser mais divertido, Toni!”
“Não, Bruno. Deixe as amarras bem confortáveis, Timóteo. Não quero que eles percam as mãos logo no primeiro dia. Agora vamos entrar, jogar um pouco e comer o que esses bondosos cavalheiros nos trouxeram. Saímos de novo pra caçar quando a comida acabar.”
Conto até dez depois que não escuto a voz da gangue, parte como margem de segurança, parte pra acalmar o coração que está prestes a galopar pra fora do peito.
Tem que dar tempo. Tem que dar tempo.
***
Abro o olho que posso devagar, acordado com a gritaria de Luca e Fred no comunicador, e num segundo meu lobo me acorda. Puta merda, o que aconteceu? Meus pés balançam a um metro do chão, e Cássio está largado, pendurado pelos braços. Tem sangue na minha boca, respirar dói e o Cas parece atropelado por um trator.
Olho pra cima, um dos drones do Fred está cortando as cordas. Estamos sem a roupa de proteção, sem os capacetes e desarmados. Temos que correr, se algum daqueles infectados aparecer, estaremos muito mortos. Começo a chutar o Cas, a gente precisa vazar daqui depressa.
Cacete, acorda, Cássio! Você é caolho E surdo, porra? O drone me solta, caio e corro pra segurar o idiota desmaiado. O solavanco acorda o Belo Adormecido, mas ele ainda parece meio bêbado. Olho ao redor, acho que sei onde... Esquece. Não faço ideia de onde a gente tá. O drone fica flutuando na nossa frente, e me arrisco a murmurar.
— Luca, estou perdido. Não sei voltar pro laboratório. Vamos Cas, se mexe...
“Eu vou guiar vocês. Fred, usa o drone. Dá uma olhada ao redor, vou checar o mapa.”
“Infectados a uns quinhentos metros, na rua Jabuticaba. Nenhum recente.”
“Mauro, duzentos metros à esquerda. Fred, vira essa coisa pras nove horas. Ok. Tem uma casa aberta, nenhum obsessivo vagando dentro. Entrem aí.”
Entro, corro pela casa como um maníaco, não sei bem o que vou fazer se tiver algum infectado aqui dentro. Ufa, dois esqueletos. Fecho todas as janelas, tranco o que posso, encontro o Cas empurrando um sofá como uma lesma com reumatismo. Só depois de barricar a porta vou até a cozinha.
Nenhuma comida, mas tem água na torneira e facas de mesa. Estou matando a sede quando escuto o Cássio atrás de mim.
— Desculpa... Mônica...— Deve ser algum reflexo, ele não parece bem acordado. Afinal, uns meses atrás se alguém estropiasse o cara desse jeito, seria a Mônica e era uma boa ideia pedir desculpas. O sangue volta a correr pelo rosto dele, vindo de algum lugar na cabeça. Isso e a metade da cara descoberta, e o homem dá um ótimo dublê de obsessivo.
Limpo nós dois, xingando todo mundo. Devo ter umas costelas quebradas, meu peito tá doendo pra caralho e minha cabeça parece que vai explodir, mas fora isso estou bem. Cássio tá com um braço bem inchado e um corte fundo na cabeça. Como se ele precisasse de mais dano cerebral.
“Descansem. Tem uma porção de obsessivos aí fora, atraídos pelo sangue. Fred está ganhando tempo pra vocês.”
— Como?
“Toni estava esperando gritos. O celular de Fred deu isso a ele, e agora os obsessivos estão brigando tanto na porta dele que o canalha vai pensar que vocês dois foram devorados. À noite, se vocês puderem andar, vou guiá-los de volta.”
Enchi uma garrafa com água e fui até o quarto. Uma cama! Uma de verdade, com colchão e travesseiros! Empurrei um Cássio sonolento até lá. Todos os filmes diziam que ele precisava ficar acordado, mas se ele piorasse, o que é que eu poderia fazer? Se ele morresse (ou se eu morresse; estava tonto pra burro, isso nunca era bom sinal), morrer dormindo numa cama depois de passar todas aquelas noites como um vira-lata de rua não era uma má ideia. Porta trancada: ok. Um condicionador de ar e aqui seria o Paraíso.
E eu não vou morrer agora. Tenho umas contas a acertar com o Toni e a corja dele.
— Isso, Cas, deita aí.
— Chovinista... sai do sofá, garoto...
Dormi como um morto.
***
Luca foi dormir umas horas enquanto eu atiço os zumbis, quero dizer, infectados. A menos que tenha coragem de fazer a mesma coisa que eles, Antônio não vai conseguir sair por diversos dias. E coragem não é o forte dele.
Claro que haveriam pessoas cruéis lá fora, mas ver Cássio e Mauro pendurados num cadafalso por diversão era além de revoltante. Mais uma hora e eles seriam devorados vivos. Antônio e sua gangue precisam ser impedidos de causar mais mal.
E Timóteo... Droga Titi, você enlouqueceu? Se aliar a esse tipo de bárbaros?
Quantas outras pessoas boas viraram bestas lá fora? Pensar na Marina sozinha lá fora, rodeada de tanta perversidade me embrulha o estômago. Preciso encontrá-la. Tenho que respirar fundo, enquanto essas vozes demoníacas sussurram sem parar ao meu ouvido.
E se Antônio tivesse encontrado a Marina?
Isso decide a questão. Enquanto busco ameaças e traço um trajeto, abro um programa de projetos numa tela lateral. Lembro do olhar de Luca, e pela primeira vez sinto que concordamos completamente com um plano.
Titânia me pergunta o nome do arquivo e um tanto decepcionado comigo, digito:
“ARMAS”
Parabéns, Antônio. Parece que vai levar todos nós com você ao Abismo.
***
Acordo, estou andando. Levo um tempo pra perceber que não sinto calor. Apalpo minha cintura e não encontro as sai. Mauro tá me apoiando e nem posso me afastar, o mundo tá girando como um carrossel. O que foi que eu bebi?
“...minho limpo. Andem depressa, tem um grupo a um quilômetro, mas vejo uns quatro recentes com eles.”
— Tem uma casa aberta à direita. Vale a pena procurar por comida.”
“Fred pega com o drone. Venham pra cá.”
— Precisamos de comida. Toni limpou a gente.
Mauro tem razão. Precisamos de comida, tô morrendo de fome. Mas o que Toni tem com isso? Se nós...Ugh...O mundo escurece e volta, apaga de novo... Cara, espero que essa porcaria que eu tomei tenha valido a pena, porque essa ressaca tá foda.
— Você vomita, você limpa, ouviu?
Escuto a porta abrir com um chiado de nave espacial... Igual às cabines de Estar Treko... Dois pra descer, Scóti...
— ...osso apagar ago...?
— Cássio? Cas? Fred, me ajuda aqui!
Que legal... Tô voando...
***
— Vai dormir, Odin. Você já fez o que podia. Agora é esperar.
Estou exausto. Mas quero manter minha mente e minhas mãos ocupadas até despencar, porque sei que se me aproximar dos controles agora vou fazer uma loucura.
Depois que os rapazes chegaram, assumi o drone e procurei alimento até na China. Droga, comida de cachorro, em pó, latas de qualquer coisa, algumas que nem sei ler. Então entupi Mauro e Cássio de remédios, rezando pra acertar dessa vez. Mauro precisou de uns remendos e seria costurado aqui e ali, mas esparadrapo e cola terão que resolver. Cássio tem um corte feio na cabeça, e tudo que posso fazer é colocar gelo enquanto ele ri e continua a falar coisas sem sentido.
Saber que Toni ainda respira me tira do sério. Que ele caminha por aí, feliz e bem-alimentado, enquanto pessoas como a Dorinha e o Joaquim estão mortos faz meu sangue ferver.
— Você tá com aquele olhar estranho de novo, Luca.
— Não é nada.
— E o “nada” se chama Toni, por acaso?
— Não te dei permissão pra entrar na minha cabeça, Mauro.
— E eu não entrei. Tá escrito na sua cara. Se consumir de ódio do puto não vai ajudar. Dorme, esfria a cabeça e faz um plano. Você é um planejador bom pra cacete, o maldito nem vai saber o que o atingiu.
— Tem razão. Vou falar com o Fred e deitar. — Ele está certo. Preciso me controlar e dormir. Amanhã começo a estudar esses animais.
***
Um caminhão me atropelou. Ou isso, ou tomei outra surra da Mônica. Abro o olho, estou no laboratório, mas nem faço ideia do que aconteceu, ou que dia é hoje. No que me meti dessa vez? Será que o cabeça de bagre do Mauro está vivo?
— Luca? — Mauro aparece tão rápido que me assusta. Cacete, se minha cara está tão ruim quanto a dele...— O que você fez? Brigou com o Rocky?
— Você também não está nenhum príncipe. — Ele parece aliviado. Eu estava tão mal assim? — Consegue levantar?
— Acho que sim, mas não sei o que rolou.
— Toni mastigou e cuspiu a gente. Odin e Fred nos salvaram. Quatro dias atrás — acrescentou bem mais baixo. — Mas vê se segura essa boca grande, porque os dois estão com tanto ódio que só ouvir o nome do canalha faz o Luca espumar.
— Beleza. — Olhei direito, o maluco quase sorria. — Tá alegrinho com o quê, seu fresco?
Alguma coisa mudou no Mau. Ele parece mais relaxado, nem me xingou de nada ainda. — Tô feliz que você não morreu. Isso aqui seria um saco só nós três.
— Pensei que já tinha enjoado de salvar meu couro.
— E quem eu iria irritar? Odin? Não quero levar um tiro.
— Também tô feliz de você estar vivo. Você é um amigo bom pra cacete.
Ele parece surpreso, mas é difícil dizer com essa cara toda amassada que ele está. Ele passa o braço por cima dos meus ombros, e agora está mesmo sorrindo.
— Se eu soubesse que umas porradas na cabeça te deixariam tão legal, teria te socado com força há muito tempo.
— Você também é meu idiota favorito no mundo todo, mas chega de romance. Vamos até o Luca antes que o sujeito tenha um derrame.
***
— Recapitulando: Quando vocês receberem o sinal, significa que Fred hackeou a transmissão do drone deles e vocês dois partem pra execução. Sem frases de efeito, sem demora, sem ‘briga justa’: matem e sigam adiante. Eles não têm prisioneiros ou reféns. Todo e qualquer humano lá é um inimigo.
— Até mesmo o Timóteo? Eu sei que ele não é mau como o To... — Cássio hesita quando eu o encaro. Aquilo não é humano o suficiente pra ter nome. — ...o líder deles. Ele poderia ajudar pra caramba aqui.
— Não era, Cássio. Ele amarrou vocês desmaiados e sangrando pra serem devorados vivos. Todos eles, principalmente o Timóteo.
— Mas... — o interrompi. Com ou sem ódio a verdade é que eles são perigosos demais para viver. Se descobrirem esse lugar, ou que ninguém morreu naquele joguinho doentio… É um risco que não posso e não irei correr.
— Vou colocar de outra forma: Se vocês encontrarem a minha mãe naquela porra de gangue, eu vou insistir que a matem. Duas vezes, só pra garantir. Todos. Eles. Mortos. Fui claro?
— Entendido, Odin.
Estou tão habituado a tentar convencer Fred a essa altura que é estranho ele concordar em silêncio. Ele abre a caixa ao seu lado e entrega armas aos meninos, com a tristeza de um funeral.
Frequento esse laboratório há tantos anos quanto moro no Limoeiro, e nunca vi Fred fabricar armas, de nenhuma espécie. Na verdade, já o vi dizer não a tantos emissários do governo e empresas em geral que perdi as contas. Um sim, insistiam, apenas um projeto faria dele um homem rico. E tudo que recebiam era um pedido para irem embora.
Vê-lo entregar essas armas — Simples, primitivas e tão eficazes quanto qualquer coisa que sai da oficina de Fred — me parte o coração.
Ao mesmo tempo, lembro de uma conversa que ouvi enquanto espionava Antônio e seu grupinho de bandidos. Toni se queixava da dor no olho direito, causado pela “cadela com aquele maldito lápis”, e resmungou que àquela altura “os zumbis já deram cabo dela.”
Só conheço uma garota que leva um lápis pra onde vai. Se Fred sequer imaginar que Marina morreu, é capaz de recriar a porra da Little Boy pra jogar no Toni, destruindo a si mesmo e a toda a cidade no processo. Ele precisa da esperança, nós precisamos dele e ninguém aguenta outro apocalipse.
Algum dia ele vai descobrir, ele é uma droga de gênio e minha sorte nunca dura. Só posso torcer pra que ele não perceba que eu sabia o tempo inteiro. Se isso acontecer sou um homem morto.
Respiro fundo. Como diria o Cas, sempre é melhor morrer hoje que ter morrido ontem. Até lá, tenho trabalho a fazer.
— Eu também terminei uma coisa. — Cássio completa, um tanto encabulado. Puxa de um saco um capacete com o formato de cabeça de lobo. — Esse é o seu, e esse daqui é o meu.
Veste um capacete de javali, as presas de osso encaixadas no metal. — Legal, né? Já notei que os obsessivos não atacam animais. Se nós parecermos menos com pessoas, talvez fique mais fácil se misturar.
Animais… Puxa, como eu nunca pensei nisso?
— Caramba, eu sabia que você era bom com sucata, mas esse elmo está bom pra cacete — Mauro sacudia a cabeça pra os lados, parecia um cachorro depois de um banho. — Fez os dois sozinho?
— Eu ajudei um pouco — comentou Fred — Mas quase tudo foi o Cas.
— Ah, fazia meus brinquedos quando criança, não demorou pra pegar o jeito. E as ferramentas do Fred são mais fáceis que as do meu pai.
Deixo os três conversando, o clima um pouco mais leve e vou checar os arredores através das câmeras. O sol logo vai se pôr, e minhas semanas de espera vão acabar.
***
Luca mantém o drone muito à frente, procurando obsessivos e outros predadores. Cássio está com a mão no meu ombro, enquanto uso os sentidos ampliados do Lobo pra encontrar um caminho.
Ele está mudado. Desde a morte da Mônica, passa muito mais tempo conosco. Ainda é mal-humorado como o diabo, e tem algo nos olhos que parece um incêndio florestal engarrafado.
Mas confia em mim. Aqui fora está tão escuro que é como estar cego, mas ele não hesita ou desacelera, crente que vou nos manter seguros e não vou deixá-lo se machucar. Fico honrado e assustado pra cacete quando Cássio faz essas coisas.
Como quando o Toni nos capturou. Cas foi um idiota de propósito, mantendo a raiva e a atenção daquele canalha longe de mim, e quase morreu de tanta pancada. Pensar nisso me enraivece, e sinto que dessa vez não precisarei do Lobo pra matar. Chegamos ao ponto combinado, esperando pelo sinal.
Um pouco mais, Toni, e descobriremos se você continua tão valente quando está sozinho… Esquece. Não vou te dar tempo pra isso.
***
Acordo grogue. Que barulho foi esse? Aqueles idiotas estão bêbados de novo, só pode. Puxo o relógio da cabeceira, três da manhã. Puta que pariu.
— Se eu tiver que levantar daqui pra acabar com essa viadagem, vocês vão se arrepender, estou falando sério!
Finalmente, um pouco de paz. Estou quase dormindo...Ei, espera. Esse barulho é a maçaneta do meu quarto. Que merda eles querem a essa hora da madrugada? Pego o taco e mal levantei quando dois chutes abrem a porta à força. Merda, merda, merda! Me viro procurando a pistola, porra onde está a pistola?
Alguma coisa silenciosa me acerta o peito, e a dor invade tudo como fogo, tomando o ar e me derrubando de volta no colchão. Eu ainda posso… Sei que a pistola está aqui… Dois vultos chegam perto, um deles avança e então minha pistola está na mão dele. O outro aponta o que parece uma besta pra minha cara, e eu quero xingar, chamar ajuda, mas tudo que consigo é tossir como uma porra de tuberculoso.
Vieram me matar. Preciso reagir, fazer alguma coisa, cadê minha força, caralho?
Estou vendo coisas… os vagabundos têm cabeça de bicho, que droga é essa?
Não desmaia, Toni… reage, porra! Se você apagar, esses caras vão…
O cabeça de porco joga minha arma longe e arranca o taco da minha mão.
Preciso fugir. Mal consigo respirar, mas preciso sair daqui. Eles vão me matar. Eles vão me matar! Socorro! Alguém! Onde estão aqueles bostas, que não vem me ajudar?
Tento escapar, mas os dois estão em cima de mim agora. O porco é forte demais. O lobisomem puxa uma faca comprida como meu braço. Não! NÃO! Alguém me ajude!
Espera! Desse jeito não, Deus!
A lâmina suja desce com força na minha direção. A dor é instantânea, roubando o mundo de mim.
Não tô...Pronto...
Ainda…
Não...
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