Meia Lua
27 Ragnarok
Notas iniciais
— Então é assim que acaba? — murmurou pra si mesmo. O sangue brotava da mordida no braço direito, através do couro esfarrapado. Luca avisou, mas não a tempo de evitar. O outro vinha da ponta da sala, arfando.
— Caralho, como tinha tantos desses merdas aqui? Vamos embora, temos muito peso pra levar. Ficou surdo, homem? — O puxou pelo ombro, e o viu olhar o sangue no braço. — Pra que isso? Não é a primeira vez que ...
As palavras foram morrendo quando finalmente entendeu. Puxou uma flanela e limpou o sangue que brotava. Duas meias-luas rasgadas fundo no antebraço direito de Cássio anunciavam o fim do mundo que conhecia.
Cássio pareceu sair do torpor. Pôs um saco às costas e seguiu para a porta. Mauro o olhava atordoado.
— Mas o que você está fazendo?
— Preciso deixar você em casa. É muito peso pra um homem só.
— Acha que são umas sacas de arroz que importam agora?
— Vocês ainda têm que comer. Pegue uma. — Ouviram a voz sombria de Luca no comunicador:
“Deixem isso aí. Venham direto pra cá. Eu vou monitorando o caminho de longe. Tentem não fazer pausas, vou mandar outro drone pra apoio. Cássio, você vai direto pro Arquivo, entendido? Desliguem o microfone. Fred, me ajuda com o outro drone.”
— Ok. — Uns minutos depois, Mauro finalmente juntou coragem pra falar. — Vai ser meio hipócrita se eu te pedir pra não voltar comigo, não é?
— Muito. Não tô planejando viver como uma daquelas coisas. Deixa que eu mesmo resolvo. Nem sei como o doido do Luca vai me deixar entrar, mas vou garantir que você chegue bem.
— Acho que ele terá uma arma apontada pra você assim que abrir a porta externa. Vamos embora. — Nunca mais estaria, nem remotamente, bem.
Encontraram uma porção de obsessivos. Cássio lutou como um louco, girando e matando sem cuidado. Tão eficaz era que não havia ninguém pra persegui-los quando alcançaram a porta. Mauro passou pelo portão externo imerso em pensamentos. Céus, era o animal mais estúpido da Terra. Como ainda não tinha aprendido que nada era garantido?
“Entre, Cássio.”
Olhou pra trás. Cássio estava parado diante da porta, apenas a mochila na área segura.
— O que você está fazendo?
— Você chegou. Não vou obrigar você ou Odin a fazer isso. Adeus.
O segurou pelo braço sem pensar, a máscara escondendo o medo. Daquele jeito não, Deus.
“Cássio, tenho tudo sob controle. Entre.”
— Luca, não. Nenhum de vocês precisa disso.
— Por favor. Você não pode simplesmente sumir.
— Melhor que vocês assistirem essa casca apodrecer.
“Agradeço a preocupação, mas estou mandando você entrar. Mauro, traga-o pra dentro.” Deixou-se puxar sem resistência. Fred e Luca os esperavam do outro lado da porta. Cássio terminou de se limpar e parou diante de Odin. Este tinha a pistola pousada no colo.
— Como você se sente?
— Minha cabeça tá funcionando igual. A ferida está feia, mas acho que tenho algumas horas ainda.
— O que... Cássio? Luca? — Cássio levantou o antebraço direito, mostrou a mordida.
— Como isso aconteceu, Cas? — A voz de Fred tremia, e ele se controlava a custo.
— Excesso de confiança, Fred. Odin, me dá a arma. Eu faço.
Luca parecia muito velho quando respondeu.
— Não posso, Cas. Ninguém sabe quanto tempo vai durar teu controle.
— Só preciso de um minuto. Vou pro Arquivo. Mesmo que eu me perca, não vou machucar ninguém.
Luca apontou Mauro com um aceno de cabeça. Merda, ele tinha razão. Se não conseguisse se matar, vê-lo transformado e não poder fazer nada acabaria com o Mauro. Baixou a cabeça numa desistência.
— Ok então. Espero você lá.
— Fred, vá com ele, e tome cuidado. — Fred concordou grave, e seguiu um pouco atrás. O lobo deixou o controle quando Cássio se afastou, e Mauro despencou ao lado de Luca.
— O que aconteceu lá, Mauro?
— Sou o filho duma porca mais burro de todo o universo. Você deveria atirar em mim por eu ter permitido que isso acontecesse. Por todos os infernos, eu não podia ter me separado dele! E agora ele foi mordido, caralho! O que eu faço, Luca? O que eu faço?
— Você não disse nada a ele, não foi? — Olhou bem pro rosto atormentado de Mauro, enquanto ele negava com a cabeça, até a dor virar choque.
— Peraí, você sabe?
— Todo mundo sabe, menos o ciborgue tapado lá.
— Eu não... pude. Porra, eu nem conseguia falar frases compridas olhando pra ele. Aí eu fugi como o covarde de merda que sou, então ferrei tudo... Ele me odeia, Odin. Passei as últimas semanas afastando o Cas, e agora ele vai morrer com ódio de mim.
— Fala com ele. Vou dar tempo pra você consertar isso.
— Como?
— Eu não sei, mas você deveria tentar. Posso esperar um pouco. Takeda, respira. Todos nós teremos tempo pra surtar depois. Eu sinto muito, cara. Vai.
Correu até o Arquivo. Passou por uma Marina espantada, mas não tinha tempo pra explicar.
— Mas o que...
— Fala com o Luca! Preciso ir!
Encontrou Cássio sozinho, olhando pro braço esquerdo. Levantou o rosto ao ouvi-lo chegar. — Desculpe.
Ok, não esperava por isso. — Pelo que você está pedindo desculpas?
— Eu não sei. Mas essas semanas foram uma merda, eu fui uma mula e não deixei você falar, e agora... Droga, Mauro o que eu te fiz?
Não podia chorar. Não iria chorar. Deus do céu, quando virou essa torneira quebrada? Apertou o botão pra abrir a porta e encontrou Cássio segurando o botão do outro lado, impedindo a porta de funcionar.
— O que você está fazendo?
— Eu já era, Mauro. Não vou arriscar machucar você. Fala daí mesmo.
— Fiquei longe tempo demais, Cássio. Vou entrar e falar com você direito, nem que precise derrubar essa porta.
— Céus, você é burro assim mesmo ou se esforça? Estou tentando te manter vivo! Fica aí fora!
— Você aguenta olhar na minha cara sem uma parede no meio. Já volto.
— Pra onde você vai?
— Buscar um pé-de-cabra. Se não funcionar, pego um extintor. Ou arrasto o cortador laser até aqui. Mas eu. Vou. Entrar.
Cássio revirou o olho. Homem teimoso duma figa. — Desisto. Se faz tanta questão de se arriscar, pelo menos não estraga a porta do Fred.
A porta levantou num rangido. — Cara, qual é o seu problema? Passa semanas... uuuf! — Mauro o abraçou com força e tão rápido que pareceu um jogador de futebol americano interceptando alguém. — Ainda preciso respirar, sabia? — completou quase sem ar.
Afrouxou um pouquinho. Puxa, isso era tão bom. — Por favor, não me odeie. Eu tentei de verdade, mas fiz tudo errado. Me perdoe, por favor.
— Do que você está falando?
— Essas semanas infernais... Você não me fez nada. A culpa é minha.
Cássio afastou-se, tentando entender.
— Espera... O quê? Você me tratou como um cão sarnento de propósito? Porra, Mauro! Qual a merda do seu problema?
— Eu... Eu estou...
— Fala de uma vez, caralho! O Luca vai chegar a qualquer momento! — A paciência estava indo embora. O idiota supremo estava vermelho como um tomate e parecia engasgado. O que podia ser tão complicado, meu Deus? Respirou fundo. Acalma, Cássio. — Mauro, se você realmente precisa me dizer alguma coisa, diga logo. Só tenho alguns minutos.
— ... apaixonado. Estou apaixonado por você. De um jeito... Merda, não deve ser assim pra todo mundo. Não pode ser essa coisa que mal deixa você respirar e fode sua cabeça desse jeito. Eu não conseguia mais ficar tão perto e não pensar besteira. Não querer uma porra de chance.
Cássio ficou parado, imaginando se o amigo escondia bem demais ou ele que nunca quis ver.
— Não dá. Sempre soube que não dá. Fiquei o mais longe que conseguia, tentei voltar ao normal... Aí fodeu tudo. Eu estava morrendo de vergonha... Você ficou magoado, não tive mais a chance de explicar... Aí eu perdi meu amigo. E agora o Luca vem atirar em você. Merda, o que você tava pensando quando foi pra tão longe sozinho? — Ele o olhava desconsolado.
— Droga, Mau, eu sabia que você sentia alguma coisa, mas não assim. Cara, você tem... Eu não sei o que dizer. Pega teu envelope. Na minha caixa. — Num pulo, ele afastou-se e voltou rasgando o envelope com seu nome na frente.
— “Mauro, somos só eu e você nas ruínas desse mundo…” Mas que merda é essa?
— Continua.
Voltou a ler em silêncio. "O sentimento de confusão pode ser profundo. E eu sei que deveria estar aqui com você, mas estou me perdendo e acho que você também vai me perder. A magia me mantém vivo mas também me enlouquece. E eu tive que salvar você, mas quem é que me salva? Me perdoa pelo que eu possa fazer quando não lembrar de você.”
“Mauro, eu sei que eu vou desaparecer. Não vou lembrar o que eu vou dizer. Mas vou lembrar que te vi ferido. Eu juro, eu não quis, foi o vírus. A magia me mantém vivo mas também me enlouquece. E eu tenho que salvar você mas quem é que me salva?
Me perdoa pelo que possa fazer quando não lembrar mais de mim.”
Sei que fiz algo idiota. Me desculpa. Meu único arrependimento sempre será não poder retribuir o afeto do jeito que você merece.
Realmente não sei o que vem depois disso. Mas sei que quando você tiver terminado o que tem pra viver aí, vou te achar de novo. Então não preciso dizer adeus.
Cássio.”
Mauro cambaleou pra trás. Parecia atingido por um caminhão, o rosto parado entre o choque e a fúria, os olhos marejados. — Que porra foi essa, Cássio?
— Precisava me despedir direito. Desculpa, eu-
— Estou perdendo o cara que eu amo! Meu melhor amigo! O retardado do meu parceiro de luta! Já estou com a porra do coração partido de um jeito que nunca mais vai colar! E agora isso? — Sacudiu o papel amassado na mão como uma pedra. — Não consigo ficar mais fodido do que já estou, imbecil! Pra que me fazer ler essa porcaria agora? TÁ TENTANDO ME MATAR?
Cássio olhou cabisbaixo pro relógio. — Consegui fazer merda literalmente até o último minuto de vida. Xinga aí, eu mereço.
Mauro acompanhou o olhar até o relógio, e a raiva esfriou. Podia sentir o lobo o acalmando. Como disse Odin, poderia surtar depois.
— Talvez burrice seja contagiosa. Tenho um tempo de nada, e estou desperdiçando gritando com você. — Sentou e estendeu o braço sobre os ombros do outro. — Fui outro imbecil. Me perdoa.
— Claro.
— Se eu tivesse admitido antes... Mas não adianta pensar nisso agora. Melhora essa cara de cachorro que caiu da mudança, Cas. Você vai ficar livre dessa merda toda, reencontrar todo mundo que você ama. Odin vai superar.
— Quase.
— Quase o quê?
— Quase todo mundo. Mas pode demorar, eu espero.
Mauro o puxou pra si, lutando com o nó na garganta. — Ah, seu cachorro filho da puta…
— Um dia você vai ficar bem, prometo.
— Tá bom. — respondeu cético. Então ficaram os dois em silêncio, acompanhando os segundos passarem no relógio da parede. Ouviram o rangido suave da cadeira de rodas.
— Bom, acabou. Vai mesmo ficar?
— Claro que sim.
Luca escutou os dois conversando, não ouvia nada da agressividade de um infectado. Pareciam bem. Antes tarde do que nunca, afinal.
— É sério, Mau: Nenhum de vocês volta aqui nos próximos seis meses. Não inventa de me enfiar numa caixa agora, isso vai te ferrar.
— Eu tenho o lobo. Mais uma vez não vai matar ninguém.
— Você é o pior mentiroso do mundo.
— Está pronto, Cas?
— Estou. Cuida do lobinho emotivo aqui por mim, ok?
— Vou cuidar.
— Te fode, Cas.
— Daqui a pouco. Odin, me desculpe por... Sabe, te ofender, tentar te matar, todas as merdas em geral. Se despede da Ma por mim.
Luca estendeu a mão. — Ainda tá preocupado com isso? Já te perdoei faz tempo. — O sorriso mudou. — Eu falo com ela. Foi uma honra, Cássio.
— Pra mim também, cara. Agora termina isso.
— Estou manobrando. Ei, já rezou?
— Eu tô indo ver o Cara, pra que mandar mensagem? Anda logo, cacete!
— Deixa de frescura e faça como eu falei.
Cássio fechou o olho uns instantes. — Ok. Pode atirar.
— Foi rápido.
— Você leva muito tempo pra dizer “Desculpe. Tentei ser pouco babaca. Já tô chegando”?
Ainda de olho fechado, o ouviu puxar o ferrolho e sentiu a ponta na nuca. Ele tremia. Ou seria o Luca? Se concentrou em controlar a respiração e apertar forte a mão de Mauro.
— Odin, atira em outro lugar, aí não. Já vai ser uma merda ter que cortar o babaca, ainda vou raspar a cara dele do chão?
— Você não vai cortar porra nenhuma, eu já disse. Ele atira, todo mundo vai embora. Dispara de uma vez, caralho!
— Ok. — Deu a volta e a apertou contra o peito.
“Para!… Não mata… Odin! ODIN!”
A arma se afastou.
— Vocês estão ouvindo o Fred gritar?
Mauro ergueu a cabeça. — Parece mesmo a voz dele.
— Merda, termina logo isso, Odin. Essa tensão toda tá acabando comigo!
— Eu estou com a arma e vou esperar o Fred. Você aguenta viver mais cinco minutos.
Mal terminou a frase, ouviram os passos acelerados. Fred não conseguiu parar, e esbarrou na parede. Checou a cena: Luca parado com a arma no colo e os três olhando pra ele. Esmurrou o controle da entrada e entrou aos trambolhões.
— Odin… não mata o Cássio… Ele não... vai… virar... um Obsessivo… Deus... deu tempo... cheguei a tempo… Obrigado, Deus…
— Fred, repete. Você disse o quê?
Ele levantou a mão e apontou pra Cássio e Mauro — Esses dois… imunes. Larga... isso…
— Tá, do que você está falando?
Fred demorou uns instantes recuperando o fôlego até responder. — Conversei com o doutor quando saí daqui. Ele nunca tinha ouvido a história do quanto Cássio e Mauro adoeceram em contato com as vísceras de obsessivos, e como aos poucos eles não adoeceram mais. Ele acredita que eles estão imunes, e que dá pra sintetizar uma vacina com os anticorpos deles. Ele tá em contato com a Hoshi.
— Então eu não vou...
— Não, não vai. — Cássio olhou pra Mauro, ainda atordoado.
— E eu acabei de pedir que ele...
— Sim, acabou! Você é burro! Você não vai morrer, Cas! Puta que pariu!
Quando Cássio finalmente absorveu que não iria mesmo morrer, a calma desapareceu e deixou-se cair no chão, suando frio e hiperventilando. Mauro ria alucinado, enquanto Luca respirava fundo e tentava se controlar, escondendo o rosto entre as mãos.
— Obrigado, Fred. Muito, muito obrigado. — Naquele ritmo, aqueles idiotas iriam matá-lo do coração antes do fim do ano. Porém não conseguia parar de agradecer, poupado no último segundo de disparar aquela maldita pistola mais uma vez. Fred ficou ao seu lado em silêncio, só uma mão nas suas costas, enquanto Mauro pirava de alegria e Cássio parecia prestes a ter um colapso.
Levou muito tempo até que todos se acalmassem e alguém perguntar onde estava Marina. Fred apertou o ombro de Luca uma última vez e saiu. A encontrou no telhado, abraçada com Mingau e chorando desconsolada.
— Amor? Não precisa chorar. O Cássio... — Ela o interrompeu aos soluços.
— Como não, Franja? Luca matou o Cas e o Mauro… O Mauro vai ter que es... esquar… Coitado. — Franja tocou no rosto dela de leve.
— Cássio não tá morto, Ma. Ele não vai morrer.
— Não? Mas ele foi mordido.
— Shkreli acredita que eles são imunes à infecção. Deu tempo de impedir. Claro que só teremos certeza em algumas horas, mas é a única explicação lógica.
Marina o abraçou, radiante. — Isso é espetacular, lindo! — sussurrou. Não podiam gritar no telhado, nem mesmo falar alto, então ela deu um beijo rápido no namorado e desceu pela escada.
Ouviram o grito de onde estavam. Luca quase sorriu. — É, parece que Marina ouviu a boa notícia. — Viram Shkreli à porta. Cássio levantou-se e o esperou abrir a passagem.
— Passei muito tempo ameaçando o senhor e agora você salvou minha vida. Não tenho como agradecer. Ou como pedir desculpas. Julguei mal o senhor.
— Não, não julgou. Você e Mauro são a chave, nem sei como não vi antes. — E para Luca, levantando as seringas. — O comandante Astronauta disse que pode teleportar as amostras assim que voltarem pra órbita da Terra, provavelmente em algumas horas. E ele quer que eu vá junto.
***
— Eu já saio, Odin. Só um minuto.
Cássio esperou a cadeira se afastar até abraçá-lo de novo.
— Vê se agora aprende a conversar comigo antes de se comportar como uma garotinha que viu novela demais, beleza?
— Tranquilo. Senti sua falta que só a porra, Cachorro Louco.
— Culpa sua, seu fresco. — O silêncio agora era confortável. — Eu também. Não faça isso de novo. Sério, apaixonado?
— Total e completamente. As pessoas gostavam mesmo disso? Dessa sensação de estar ficando louco? — Cássio não respondeu, o olhar perdido. — O que foi? Que cara estranha é essa?
— Tava aqui pensando. Você é meu melhor amigo.
— E daí?
— Eu sou hétero. Pelo menos, é o que sei. Mas também... nunca pensei a respeito. Se pra você voltar a ficar bem só precisa de uma chance, por mim tudo bem. Me beija.
— COMO É? Beijar vmmhnf! — Cássio cobriu a boca de Mauro com a mão bem rápido.
— Fala mais alto, Mauro. Acho que não te ouviram da Hoshi! Foi isso que eu disse. Não te pedi em casamento, merda. E não prometo gostar nem nada.
Mauro se sentou na frente dele, o rosto pegando fogo, em choque.
— Mas... você não é... Espera, você é?
— Que eu saiba, não. Mas nunca tentei, e você também não sabia.
— Cássio, você ficou maluco?
— Você é meu melhor amigo — repetiu com simplicidade.
Mauro ficou encarando o outro, tentando processar a frase. Perto de todas as surras que Cássio levou por causa do Cebola, um beijo não parecia grande coisa.
Aquilo era um erro. Não devia tentar, o Cas não o queria de verdade, bagunçaria ainda mais sua cabeça. Mas e se desse certo?
A chance (a única que jamais teria) estava lá, entregue numa bandeja. E agora?
— E se você não gostar?
— Eu aviso, você para, continuamos amigos e nós dois esquecemos o assunto. Como todo mundo fazia. Nunca beijou ninguém não?
O silêncio foi resposta suficiente.
Cássio tentou não rir, e falhou miseravelmente. — Sério, Mau? Nem a Ramona?
Mauro negou com a cabeça. — Não acredito, porra. Você bonito desse jeito, a garota te dando aquele mole... Você ficaria com metade da escola se quisesse.
— A mãe da Ramona é um pouquinho superprotetora, sabe? Do tipo “Parta o coração da minha filhinha e vire um rato”, coisa assim. Acha que eu iria arriscar? E não sairia pegando por aí pra saber como é.
— O Careca foi apaixonado pela Mônica a vida inteira e era mais rodado que pneu de caminhão. Para de enrolar, Mau. Tá aí sua chance. Quer ou não?
Mauro transbordava ansiedade quando encostou os lábios nos dele. Mas controlou o nervosismo, e agora explorava seus lábios e boca com entusiasmo.
Cássio tentou corresponder. Com tudo que tinha, só queria o Mauro bem. Mas era só esquisito pra caramba. Levantou a mão, prestes a interromper aquilo, quando Mauro se afastou.
— Nada, não é? — Pediu ajuda ao lobo. Lidaria com os cacos de esperança mais tarde, ainda estavam afiados demais.
— Eu tentei. Não dá, cara. Desculpe.
— Se você me pedir desculpas de novo, vou te bater. Você já seria um amigo da porra só por considerar uma coisa estranha dessas. Tentar... Não tenho palavras. Muito obrigado. Continuamos amigos, não é?
— Claro que sim. Não vou me afastar por causa disso, ninguém vai te tratar diferente, se você continuar retardado ainda vou te bater. Vem aqui, cabeça de bagre.
Mauro foi puxado num abraço e não resistiu. Afundou o rosto no peito dele. Droga, estava chorando de novo? Estava feliz e também triste pra caramba.
— E isso, Mau, se chama pé na bunda. Às vezes dói pra caralho (e foi por isso que me desculpei, babaca), mas vai passar. Tentar já te fez mais corajoso que muita gente que conheci. Sério, não vou a lugar algum. Bola de vôlei, lembra?
— Você nunca assistiu ao filme todo, né?
— Não, por quê?
— Ele perde a bola... No final.
— Cara, não acredito que tá me dando spoiler. Como o babaca perdeu a bola?
— O mar levou embora.
— É tão ruim quanto deixar seu jabuti fugir. E aí, bezerrinho, tá melhor?
— Estou.
— Então solta aí, vou dormir um pouco. Quando sair, pega um cobertor pra mim? Esse frio dói no metal.
— Claro. Mas antes quero te dizer uma coisa.
— O que é?
— Eu te amo, Cas. De verdade. — Riu baixo de si mesmo. — Queria dizer isso em voz alta pelo menos uma vez. Te amo, Cássio Araújo. Mas essa porra de amor... é uma tempestade, e estou preso nela. Fascinado, apavorado e incapaz de fugir. Eu teria casado com você, estou falando sério.
Enxugou o rosto com as costas da mão, lutando pra não se afastar do olhar comovido do homem sentado à sua frente. — E sabe qual é a pior parte?
Cássio acenou a cabeça que não.
— Isso ainda dói e assusta pra cacete, mas não me importo mais. Tô fodido, amo um doido que nunca vai me querer e agora não tô nem aí. — O sorriso de Cássio foi crescendo, e se pegou sorrindo também.
Porque quando aquele idiota o olhava daquele jeito, com tanto afeto brilhando no olho... Puta que pariu, valia a pena. Toda aquela merda valia tanto a pena.
— Eu sei, tô soando como um idiota. Pior, sou o Fred.
— Não, esse dramalhão é cem por cento você, Mau. — Ficou pensativo, como se escolhesse as palavras. — Também amo você, Mauro. Você sabe, não é?
— Eu sei. Um dia isso passa... Espero. Ou vou acabar louco. Vou buscar um cobertor, já volto.
Pareceu uma eternidade até Mauro voltar arrastando o colchão.
— Toma, dorme aí.
— E esse travesseiro?
— Vou dormir do outro lado da parede. Você não se livra mais de mim, Cachorro Louco. Mas dormir com besouros... Bom, isso você vai fazer sozinho.
— Ah, cala a boca e vai dormir, seu lobo masoquista.
Mauro achou que nunca mais fosse sentir-se bem daquele jeito de novo. — Boa noite, Cas.
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