Meia Lua
11 Paz e Guerra
Marina não imaginava que pudesse se sentir tão tranquila ali em tão pouco tempo. Estava rodeada de homens, e o cientista que causou a praga permanecia guardado lá atrás como um carro velho na garagem. Tinha visto a fria eficiência de Nimbus e Cascão (ainda não se acostumara a chamá-los pelo nome); sabia que poderiam ser assassinos, se quisessem. Tinha visto Luca treinando disparos com um brinquedo de criança, e mesmo Franja (que tinha aversão a armas) treinando combate com Nimbus em meio a risadas dos outros. Por que se sentia tão bem ao lado deles?
Além disso, ainda chorava tantas mortes que eles viram acontecer. A Mônica, meu Deus. Acostumou-se, como todos os outros, a vê-la como invencível. Pensara que ela estaria por aí, comandando a resistência e salvando o mundo. Que viria salvá-la. No fim, tinha sido uma das primeiras a ser mordida, defendendo os amigos.
Desenhara um espaço pessoal e aos poucos aumentava o conforto do laboratório. Era muito cansativo desenhar coisas permanentes, mas aos poucos criava talheres, pufes, um banheiro mais adequado (seguindo as instruções de Luca). Mas o divertido era ver a reação deles quando desenhava comida. Ficavam alegres como crianças, e ela se sentia como Wendy na Terra do Nunca.
Mesmo agora, quando olhava pra Nimbus e Cascão ouvindo música no celular de Franja, tinha vontade de se juntar a eles. Ouviu a voz familiar atrás de si:
— Eu posso?
— Claro. Senta aqui, Franja. — Ela pegou na mão dele, e alguma coisa parecia descongelar no peito.
— É bom assistir aqueles dois, não é?
— Sinto falta de outros seres humanos. — Desenhou um bonequinho simples, que andou inseguro até ela. — Mas acho que esqueci como é não ter medo. Triste, né? — Estendeu a mão, e o bonequinho escalava. Sentou na palma, olhando pra eles. Franja tocou com cuidado no bonequinho azul, que segurou em seu dedo. Franja sorriu pra ele.
— Eu penso que você é a mais forte de todos nós. Não enlouquecer sozinha por tanto tempo! Eu teria me jogado pros obsessivos em um mês.
Marina o olhou agradecida. O bonequinho se desfez. Olharam de novo, e Cássio apoiava a cabeça na perna de Mauro, enquanto ele encostava na parede e parecia tirar um cochilo, as mãos atrás da cabeça.
— Nimbus e Cas... eles são um casal? Vivem de mãos dadas, não se desgrudam... — A pergunta divertiu Fred.
— Somos bichos sociais, Marina. As primeiras semanas... Mauro e Cássio tiveram que sair, eu quase não tinha comida no laboratório, e quando eu saía sozinho, era um desastre. O que tiveram de fazer despedaçou eles. Com o tempo, eles passaram a dormir muito mal, a adoecer com frequência, principalmente o Cássio. Mauro parecia um viciado em abstinência. Tremia, olhava pra todo lado como se nós fôssemos as assombrações. Cássio não falou uma palavra depois do primeiro dia. Não queria contato, mostrava os dentes se chegávamos perto. Mas ainda acordava a gente gritando no meio da noite. Dormir do lado dele era impossível.
Fez uma careta com as memórias. — Aí teve aquela noite. Eles chegaram sujos, olhando pro vazio, como se tivessem presenciado uma explosão nuclear. Nunca me disseram o que aconteceu. Cas saiu discutindo com todo mundo e foi dormir no canto mais distante que achou.
Acordei com uma das câmeras transmitindo o áudio da gritaria do Cas, ela só capta ruídos altos. Cássio queria ficar sozinho e Mauro o achou. Cas xingou e o ameaçou de morte. Era assim que ele afastava a gente.
— Sério?
— Igualzinho a um cachorro com medo, hoje eu entendo. Mas naquela noite não funcionou. Mauro o desafiou com mais raiva ainda, e pareciam prestes a brigar pela segunda vez no dia.
“Tinha começado um equilíbrio frágil entre nós quatro. Eles não cuidam direito de si, então Luca faz isso. Ninguém sabia mexer no laboratório, essa é minha função. Eles pegam comida e água. Se eles se matassem, nós dois não iríamos durar. Mas não nos mexemos. Eles acabaram se entendendo e Mauro ficou. Os encontrei encostados na manhã seguinte.”
Sorriu pra ela, conformado. — A partir dali, descobrimos que o contato era o meio de se manter sadio. Cássio melhorou, e dorme quase em paz. Ficar próximo, tocar noutra pessoa impede que a gente pire. Principalmente aqueles dois. Passar muito tempo caçando lá fora não faz bem pra cabeça.
— É, eu sei. — Ele a olhou arrependido.
— Desculpe, eu não quis dizer que...
— Calma, Fran, eu sei. Ficar lá fora realmente não faz bem pra cabeça. Tá tudo bem.
— Bom, o que eu quero dizer é que amor tem ali, mas acho que não de um jeito romântico. Mas espero que os três achem um jeito de serem felizes como eu.
— Eu também.
Fred sentiu corar. — Q-Quer dizer... Você está feliz? Ou também quer que eles sejam felizes? Digo, eu sei que quer que sejam felizes, todos nós queremos... Mas você... — Ela pôs os dedos em seus lábios. Sorria como quem sabe um segredo.
— Relaxa, bobo. Também estou feliz.
Era isso. Era essa a resposta. Era ver, naqueles rapazes brutos, os meninos que conhecera a vida inteira. Como uma história, que quando é lida de novo mostra detalhes que você não viu da primeira vez. Era ver naquele barbudo com olhos insanos, o namorado gentil da adolescência. O homem que ainda ficava fascinado quando tocava em sua mão. Ele reconheceu o brilho dos olhos dela.
— Achei que nunca mais ia conseguir estar assim com você. Eu sei que estou diferente, mas ainda sou eu. Você sabe disso, não é?
Marina tentou não chorar, emocionada. Ele lembrava de cada palavra da noite da sua festa de quinze anos, que parecia ter acontecido vidas atrás. Ela fechou os olhos, sorrindo.
— Sim. Eu sei que é você.
Meu Deus, ela lembra. Quase podia vê-la naquele vestido, que era toda uma noite estrelada.
— Sua voz...Eu devia ter prestado atenção. Ela continua a mesma. — Ela sentiu os dedos dele tocarem seu cabelo. Levou meses, mas as patas nojentas de Toni nela agora eram apenas um sonho ruim. Embalados pela memória de uma noite brilhante, se beijaram.
Mauro olhava de forma discreta pro casal que se tocava e olhava como se tivessem nas mãos algo delicado e único, como uma estrela. Alheios aos dois, aproximaram-se mais e logo ela estava aninhada nos braços dele, um sorriso de paz. Fred parecia ter alcançado o nirvana.
Cássio abriu o olho e olhou pra Mauro, com um sorriso maroto nos lábios.
— Tem dedo seu ali, não é? — sussurrou, uma ponta de admiração na voz — Nem ferrando a Marina iria relaxar tanto em cinco semanas aqui, depois daquele canalha. E Fred tá mais estável do que nunca. Mais de um mês sem surtar é um novo recorde.
— Eles merecem. Quem sabe quanto tempo temos de vida? Eu só dei uma ajudinha. Ninguém deveria ter um espinho como aquele calhorda impedindo de aproveitar a companhia de uma pessoa amada. A felicidade deles vai ferrar com a minha saudade. Mas fazer o quê?
— Já eu fico feliz que Cascuda não teve que passar por todo esse perrengue. Sofreu pouco tempo e não viu o que eu virei. Nós fomos felizes um tempão. E um dia, com sorte, eu vou revê-la. E tu, marshmallow? Quando vai virar homem e ir atrás da Ramona?
— Eu não sei como chegar nela, panaca reciclado. Ela mora em outra dimensão.
— Nunca vão acabar esses trocadilhos com meu automail?
— E eu ainda nem comecei a usar os pokemãos. E duvido que eu chegue lá com meu poder atual. Além disso, largar vocês de repente seria o mesmo que matá-los de fome.
— Se tu continuar assim, vai morrer antes disso. Tá planejando virar servo carniçal da sogrinha ou coisa assim?
— Eu te fiz uma promessa, lembra? Não vou te deixar sozinho. — Não estava brincando mais.
— Essa é a parte em que você me beija? — Cássio desviou do tapa de Mauro com facilidade, ainda rindo. Mas não esperava que o amigo segurasse seu rosto com as mãos e lhe desse um selinho. Levantou-se de um pulo, fuzilando Mauro com os olhos.
— QUE BRINCADEIRA FOI ESSA, POR... — A perna direita cedeu num estalo e o palavrão virou um grunhido rosnado. Caiu com um estrondo.
— Ei, Cas, foi uma brincadeira estúpida, mas se você acha que eu vou cair nessa... — Cássio rangia os dentes, segurando a perna direita. Uma mancha escura se espalhava pouco abaixo do joelho. Correu até ele. — Pelo amor de Deus, olha pra mim. Tá me ouvindo, Cas?
Ele acenou com a cabeça, os dentes cerrados.
— Minha perna. — gemeu. — Ela quebrou.
— Aguenta só mais um pouco. Eu vou chamar o Luca.
Fred e Marina viram a queda e corriam até Cássio no chão. Mauro correu na direção oposta e encontrou Luca na quadra de basquete improvisada.
— Luca, tem alguma coisa muito errada com a perna do Cas. Ele tá perdendo a cabeça. Precisamos de você lá.
Luca atirou com raiva a bola a um canto. — Droga, que merda ele tava fazendo pra se quebrar aqui dentro? De onde ele caiu?
— Eu não sei o que aconteceu. Ele ficou em pé e caiu todo torto. Tá sangrando. Trouxemos todos aqueles remédios, com certeza algum deles...
A voz sumiu. Nunca viu Luca sério daquele jeito.
— Você me falou de um plano de substituição mágica. Lembra dele?
— Claro. Estudei tudo o que achei. Tenho energia suficiente. Eu consigo. Por quê?
— Você tem certeza de que ele vai funcionar?
— Absoluta. Espera...você quer que eu faça isso agora?
Ouviram um rugido ecoar pelos corredores. Mauro quis correr de volta, Luca o segurou com uma mão que parecia aço. — Sim. É nossa opção menos pior. Os remédios levam uma hora ou mais pra fazer efeito. Então é a magia ou a vodca. Merda, três vezes num ano. Quais as chances? — xingava baixinho, até Mauro abaixar pra olha-lo nos olhos.
— Luca, como posso te ajudar? — Luca era ótimo mascarando as emoções, e transmitia certeza e segurança de um jeito que acalmava todos ao redor. Devia estar morrendo de medo pra parecer nervoso daquela forma.
Em resposta, Luca mostrou as mãos tremendo. — Eu não sei o que estou fazendo, nenhum de nós sabe. Não sou médico, nem mesmo sei o que tá escrito em metade daqueles livros que vocês trouxeram. Tivemos uma sorte louca até agora, mas quem sabe o quanto ela vai durar?
Mauro segurou as mãos de Luca nas dele. — Relaxa. Você vai ficar calmo. Fará o melhor que puder, e vai resolver a perna de Cássio. Você estudou bastante, decorou aqueles livros de anatomia. Vai dar certo. Repita comigo: Vou conseguir.
— Vou conseguir. — Repetiu com o olhar desfocado um instante. Voltou a si, olhando pra Mauro um tanto surpreso. — Ok, Mauro. Finalmente você me assustou. Mas agradeço.
— Vai funcionar. Ele não vai passar por aquilo de novo. Luca, quando você terminar, chega perto de mim e diz “Aniversário de Buda”. Isso encerra a magia.
***
Meu Deus, tudo de novo não. Deitado de novo naquela maldita mesa, amarrado como um animal e sentindo Fred soltar sua prótese da perna, mordia um cinto pra não gritar de dor. Quando Fred terminou, fez um radiografia naquela maquininha moderna conectada ao computador e foi olhar a imagem nas telas lá fora.
— Marina. — Ela apareceu no campo de visão. — Se eu morrer, cuida do Mauro por mim?
— Fica tranquilo, Cas. Você não vai morrer.
— Só diga que sim. Por favor. — Algo lhe dizia que dessa vez a sorte tinha acabado, nunca se levantaria dali. Precisava deixar as coisas em ordem. — Por favor. Não o deixa ficar sozinho.
— Tudo bem. Prometo. Agora relaxa, Luca tá chegando.
— Cássio, eu tô aqui. Fica tranquilo, vamos ajeitar sua perna. Toma, engole isso aí.
Cássio sentiu os comprimidos na boca e começou a suar. Tudo que teria pra aguentar Luca abrindo sua perna era um punhado de comprimidos? Puta que pariu, era melhor ficar bêbado como da última vez. Olhou pra Luca sem entender, assim como Fred. Aos poucos relaxou. Sempre era doloroso, mas Odin sabia o que estava fazendo. Fechou os olhos, entregue.
— Eu confio em vocês. Façam o que tiverem de fazer. O cinto, Fred. — Mordeu de novo o cinto oferecido e segurou nas bordas da mesa.
Marina viu Mauro passar em silêncio. Sentou-se a um canto da sala e parecia meditar. Não se movera um centímetro com a agitação. Cascão permanecia de olhos fechados, respirando compassado e parecia bem. Luca começou a abrir e a afastar as coisas, até que Cássio cuspiu o pedaço de couro na boca.
— Luca, não tô sentindo nada. Que foi isso que você me deu? Obrigado, cara!
— Cássio, vamos ter que cortar mais um pedaço do osso, e tirar o pedaço que quebrou. Isso tá horrível.
— Que merda. Mas vai em frente, cara. Eu não tô com sono, mas não sinto nada! Eu...
Parou quando sentiu aquele gosto meio enjoado na boca. Não era o remédio. Era o Mandrako picareta do Mauro.
Magia não surgia do nada. Como a alquimia, algo tinha que ser dado em troca. Ele sabia que coisas mais sutis podiam ser feitas gastando apenas a energia mágica do invocador. A dor de uma perna quebrada não era algo sutil. Mauro não era assim tão poderoso para anular a dor. Então aquele panaca estava mandando a dor pra algum lugar. Ou pra alguém.
— Eu não tô sentindo dor. — repetiu estupefato. — O retardado do Mauro está! Me apaga! Dá uma porrada na minha cabeça! Ele vai entrar em choque!
— Cássio — Luca o encarava, mandando-o continuar calmo — Nós sabemos o que estamos fazendo. O Mauro também. Fica quieto, preciso me concentrar.
Aos poucos, os remédios foram fazendo efeito, e os protestos cada vez mais débeis, até que ele finalmente apagou.
— Fred, antibiótico. Faça. Marina, vai ficar?
— Vou. Estou com o telefone.
— Certo. Abre um arquivo chamado “Protocolo Cireneu”. Mostra pra mim.
Mauro continuava com a magia. A dor era infernal. Não sabia que existia dor naquele nível. Melhorou depois de Cássio dormir, mas ainda parecia que tinha enfiado a perna numa fogueira. Não se moveria, continuaria com a invocação até a cirurgia terminar. Pensar que Cássio passou por aquilo duas vezes...Não. Concentra, Mauro. Concentra.
Algumas horas depois, um Luca muito suado dava os pontos finais. O coto tinha um aspecto muito melhor. Nem que ele tivesse de virar agricultor, Cássio iria ficar quieto até aquilo sarar. Depois dariam um jeito pra examinar o braço, nem sabia como.
— Acabei. Marina, me ajuda aqui. — Graças a Deus acabou. Marina o acompanhou até a frente de Mauro, com Luca pedindo por gestos que o apoiasse quando ele desse o sinal.
— Feito, Odin. — Fred falou lá de trás.
Inclinou-se até o ouvido de Mauro: “Aniversário de Buda”, sussurrou. Mauro desmontou nos braços de Marina. Fred e Luca terminavam o curativo.
— Luca, Nimbus vai ficar bem? Ele tá respirando pouco, nunca o vi ficar assim.
— Vai ficar, Marina. — Espero, pensou. Tinha assumido um risco enorme, mas todos tinham sobrevivido de novo. Se houvesse uma próxima vez...
(A quem queria enganar? Sempre tinha uma próxima vez)
Não deixaria Mauro sequer cogitar um plano tão arriscado de novo, por mais que ele insistisse. Lhe angustiava vê-lo caído, os olhos revirados, só um fiapo de respiração indicando que permanecia vivo. Tinha que prestar atenção pra achar, e isso o preocupava. Era pra ser normal?
Fred pegou Cássio inconsciente nos braços sem a menor cerimônia, e o levou até um canto pra dormir um pouco. Quando acordou, Fred permanecia sentado ao lado de um Mauro desmaiado no chão.
— Fred? Mau? Quanto tempo eu apaguei? Mauro? O que aconteceu com ele? Por que ele tá tão parado? — Lutava contra o sono, mas tinha algo incomodando que não o deixava relaxar. Lembrou aos poucos do beijo. Da queda. Não sentir dor, e não ver Mauro em lugar nenhum. Ele não dormia sem falar. Sem se mexer.
— Tá apagado, cara, mas tá respirando. Mais uns dias e ele fica bem.
Não conseguiu disfarçar a insegurança na voz. Nunca o viu tão esgotado depois de qualquer magia. Branco como um papel, mole nos seus braços. Ele iria ficar bem, não é? Quer dizer, tinha quase certeza que estava respirando. É, estava. Tão pouco era normal?
Magia demais não deixava estragos permanentes...ou deixava?
Era frustrante demais não saber. Parte da dedicação a aprender cirurgia era que ele precisava ter a solução pros problemas. Ter um problema importante como a perna do Cássio, e não saber como resolver o transtornava. Saber que tinham feito uma porcaria e que se tivessem algum médico no grupo Cássio ainda teria a perna ainda o fazia se sentir culpado.
Magia...Ah, de magia entendia os conceitos gerais, mas Mauro nunca foi bom professor. Não podia ser testada, não podia ser comprovada, podia funcionar ou não, dependendo de um milhão de variáveis...Era anticientífico demais. Saiu das distrações e das vozes quando ouviu seu nome.
— Oi?
— Te perguntei porque o Luca fez isso, Fred. Porque fez o Mauro se queimar desse jeito. Por que ele fez tudo isso nas minhas costas?
Cássio tinha entendido tudo tão errado que Fred ficou mudo, estupefato. O outro tomou o silêncio como concordância. — Mauro tá aí, mal ou — a voz quebrou. Não conseguiria dizer aquilo. — Você sabia? Sabia que Luca planejava usá-lo e jogá-lo num canto feito uma pilha usada?
— Espera, Cássio. Não é assim.
— Você sabia.
Havia tanta acusação, tanta raiva transbordando daquelas duas palavras que o controle de Fred sumiu, e as palavras começavam a se amontoar na língua. Estava furioso também, mas não conseguia achar as palavras pra explicar, parecia que as tinha perdido e tentava se expressar numa língua estranha. Além disso, quanto mais angustiado ficava, menos conseguia ignorar as vozes. Encarava o olhar furioso e magoado do amigo, e as vozes tornaram-se mais malévolas. Com o resto de controle que tinha, levantou-se e fugiu.
— Fred! Volta aqui, Fred! Volta aqui, pirado duma figa! — Tentou levantar, estava tonto. Iria se arrastando, se preciso fosse. Olhou pro lado, viu Mauro mortalmente pálido. Imóvel. Não. Não.
Caiu ao lado dele, pressionando o ouvido no peito de Mauro. Que porcaria tinham dado a ele? Não conseguia perceber nenhum ruído.
Estava fazendo algo errado, era isso; Se Mauro estivesse tão mal, não deixariam só o desorientado do Fred ali. Luca era um projeto de tirano, mas não tinha o coração de pedra. A mão perto do nariz tremia enquanto tentava sentir alguma coisa.
Um minuto. Depois outro. E outro.
Nada. Estava sozinho.
As lembranças o atacavam como uma britadeira. Lembrou do dia em que matou a Mônica, da determinação nos olhos dela enquanto se segurava pra protegê-lo enquanto a matava. Do sangue empapando sua calça. Não fosse Mauro, teria ficado ali com ela até todos os obsessivos do mundo o comerem, afundado como estava em pesar.
Escondeu-se no canto mais fundo que achou após entrarem naquela tarde, tentando lidar com o que fez. A culpa o esmagava, e ser ele mesmo doía como não pensava ser possível. Tinha que parar aquilo de qualquer jeito, mesmo que a única solução restante fosse a faca no bolso.
Mauro o impediu. De algum jeito, o lobo teimoso o achara, e ficou ao seu lado, insistindo até ele aceitar ajuda. Mesmo lembrar do idiota rindo e lhe dizendo que nunca dormiria com uma mordaça o arrebentava. E vez após vez naquele maldito ano, ele o ajudava a dominar e direcionar melhor o desejo de destruir e rasgar tudo à sua volta. Agora ele era só o mais recente dos cadáveres que se multiplicavam ao seu redor.
A dor e a culpa sempre retornavam maiores do que esperava, mas dessa vez o despedaçaram, uma explosão em looping sumindo com tudo que o lembrava de ser humano. Urrou tão alto quanto a garganta aguentou, reverberando a agonia no espaço vazio. Aos saltos ou rastejando, encontraria aquele bastardo da cadeira de rodas e o faria pagar.
***
— Luca...
O dia começou tão bem. A semana toda foi tão tranquila. Ele tinha que saber que não duraria, né? Conseguiram escutar quase tudo, e agora ouvia a fúria de Cássio atrás dele. Fred àquela altura já estaria completamente descontrolado. Que bom que terminara seu plano naquela noite.
— Marina, tem uma outra pasta aí no telefone com o nome: Planos infalíveis. Quando puder, abra e leia todos. Mas agora, eu preciso que você vá tentar acalmar o Fred. Todas as máquinas que ele não pode desmontar têm um selo vermelho.
— Eu não vou te deixar sozinho com o Cascão agora! Não vou deixá-lo fazer essa besteira!
— Por favor, Marina. Fred lembra de todas as senhas desse lugar. Se ele bagunçar o sistema de segurança, todos nós vamos morrer. Depois vai direto no Mauro por mim. Veja como ele tá, o ajude se puder. Não se preocupe comigo.
— Por favor, Luca. Não desista. Eu volto assim que der. — E correu. Enquanto se afastava, podia ouvir baixinho, como o canto de uma memória:
Then world behind and home ahead
We wander back and home to bed.
Mist and twilight, cloud and shade,
Away shall fade! Away... shall... fade.
— Achei você.
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