Meia Lua
18 Aqueles que tapam buracos
Notas iniciais
Fred seguia para a “sala de exercícios”, como a chamava. Esperava que Mauro não estivesse pegando muito leve com a quase-fisioterapia de Cássio. A porta estava entreaberta.
—... Seu cachorro sarnento... como você pode ser tão burro assim, porra... Eu não vou a lugar nenhum, estúpido de uma figa... Não faz isso de novo comigo, puto desgraçado...
Havia certamente algo muito íntimo acontecendo ali, e Fred não era o homem que iria interromper. Luca rodava na mesma direção, Fred gesticulou e ele entendeu. Eles arranjariam outro lugar para exercitar as pernas de Luca.
Seguiam para a piscina improvisada, quando finalmente Fred se sentiu à vontade pra falar:
— Luca, você não podia ter esperado um pouco mais pra conversar aquilo com a gente?
— Cara, até as rodas da minha cadeira sabem que você tá subindo pelas paredes. E ela tem tanto tesão por você quanto você por ela. Esperar pelo quê?
— Eu não vou fazer nada até o fim desse mês.
— Por que, Fred? Por que no fim do mês?
— É besteira, cara. Deixa pra lá.
— Ei... O aniversário dela? É isso que você tá esperando?
— Sério, não fala disso pra ninguém. Ninguém, Luca.
— Fred, o mundo acabou! Não tem ninguém contando. E ela quer você, seu cego. Por que esperar até o fim do mês, quando nenhum de nós sabe se estará vivo amanhã? E se o fim do mês nunca chegar?
A conversa não estava tomando o rumo que Fred esperava. Esperava que Luca visse porque ainda não podia ceder, não que o estimulasse a fazer o contrário.
— Você acha que não sei disso? Sei de tudo isso. Mas não vou me aproveitar de Marina. Nem porque ela bebeu, ou porque a sociedade inteira acabou. Nunca. Quando minha namorada for adulta, estiver sóbria e se ainda assim me quiser, aí eu sou inteiro dela. Até lá, Luca, quem não quer sou eu. Só não sei como fazê-la esperar.
— Você só deve satisfações pra ela e pra si mesmo agora. Você tá adiando tratá-la como uma namorada de verdade há tempo demais. Ninguém aqui tem idade pra aguentar namoro de pegar na mão, Fred. Marina te ama, mas não conta que a garota vai te esperar pra sempre.
— Não é pra sempre, é só até o fim do mês.
— Ela não sabe disso, não é?
— Eu tenho vinte anos, Luca! Ela tem dezessete! Dezessete, inferno! Eu nunca serei uma porra de um pedófilo! Eu não conseguiria me encarar no espelho se eu... Merda, dou um jeito de me matar se virar um adulto que fez sexo com uma adolescente!
Segurava nos braços da cadeira, a expressão atormentada. — Tem ideia de como é difícil vê-la magoada quando eu me seguro? Do esforço que faço pra me conter?
“Sim, eu tenho!” Luca teve vontade de gritar, mas cerrou os dentes e respirou fundo. Se o homem à sua frente sequer imaginasse o efeito que Marina causava nele... Mas o conhecia bem. Fred falava muito sério sobre suicidar-se caso fizesse sexo com sua namorada antes do fim do mês.
— Fala com Marina, Fred. Explica. Não a deixe imaginando porque diabos o namorado que ela escolheu não parece ter interesse nela.
Fred acalmou-se. Botar aquilo pra fora foi um alívio. Só externara aquele medo uma vez: Depois do aniversário de quinze anos dela, em que pedira oficialmente aos pais dela permissão pra continuar a namorá-la quando completasse seus dezoito anos, dali a quatro meses. Eles riram e aceitaram, e nunca mais ele teve coragem de falar naquilo de novo, com medo do que ela e seus amigos pensariam. Luca tinha razão, como sempre. Tinha que conversar com ela.
Mas como?
Chegaram, e ajudou Luca a entrar na piscina. — Espera. O que é isso?
— Acabei me machucando uns dias atrás. Eu já estou resolvendo. Ei, ei, me põe de volta na cadeira, Fred.
— Não, cara. Eu vou dar uma olhada nessa escara. E você está se mudando pro colchão hoje.
— Eu detesto quando você me trata assim.
— Se conforma, Odin. Você cuida de todo mundo e eu cuido de você. Marina!
— Fred, chama um dos rapazes! Você tá chamando a única mulher da casa pra me ver sem roupa? Faz isso comigo não, Fred!
— Depois sou eu o fresco. Você acabou de discutir minha vida sexual (que nem começou) e não se incomodou com isso. Que mal faz ela ver tua bunda magra?
— Você tá se ouvindo? Chama o Mauro, Fred. Por favor.
— Oi, Franja. Por que você tá carregando o Luca nos braços? Você tá bem, Luca?
— Ele vai precisar dormir no macio por algumas semanas. Podemos usar teu colchão?
— Claro. Espera, onde vocês estão dormindo?
— Depois a gente conversa disso. Vai lá na sala de conserto e pega uma caixa escrito “curativos”, por favor. Vê se o Mauro terminou com o Cássio e o chama pra me ajudar. Tem... Um passarinho amarelo no seu ombro, você viu?
— Passarinha. Magá, vai lá chamar o Mauro, por favor? Volto já, Fred, Luca.
— Ela tem uma passarinha chamada Magali e uma leoa chamada Denise? — Luca murmurou perplexo.
— Não pergunta, cara. Não pergunta. — Fred respondeu, igualmente estupefato.
***
Nenhum dos dois se mexia, até que escutaram trinados na sala. Cássio levantou os olhos.
— Entrou um passarinho aqui?
— E está na sua cabeça. Fica quieto um pouco. Sobe aqui, Magá.
Quando Cássio afastou-se, um passarinho de um amarelo brilhante parecia falar com Mauro.
— Entendo. Eu já chego lá. Obrigado. — A ave voou pela fresta da porta
— Você tá falando com os passarinhos também, Branco de Neve?
— Essa é Magá, um dos desenhos de Marina. Fred tá me chamando.
— Ela desenha uma leoa chamada Denise e uma passarinha chamada Magali? Quem ela chama de Mônica?
— Uma ursa-das-cavernas gigante. — Mauro respondeu, casual. Cássio não segurou a risada. — Estamos treinando mandar os desenhos pra mais longe. Ela é muito talentosa. Você vem, Cas?
— Vou. Minha vez de ajudar Luca com a comida. A Marina tá trabalhando naquilo, lembra? E Mau...
— Que é?
— Você sabe que eu queria corresponder, não é? Se eu pudesse...
Mauro o encarou emocionado um instante. — Eu sei, Cássio. Eu sei. Vamos, Cachorro Louco.
— Cala a boca, Mandrako de araque.
Mauro se sentia mais leve. Cássio entendia e não o rejeitara. Nem tinha ideia de como lidar com o que sentia, mas não estaria só.
Chegaram ao lado em que Marina dormia, guiados pelo eco da voz de Fred. Marina esperava depois da cortina.
— Ma, pode ir preparar a comida com Cássio? Eu e Mauro precisamos resolver um probleminha.
— Ok, foi outra escara, né? Puta merda, Luca! O que você fez? Sentou numa bomba?
— Deixa de exagero, Mauro. Foi só um esfolado, uns dias atrás.
— Uns dias atrás, era um esfolado. Agora tem um buraco aqui, e um menor do outro lado. Fred, eu te ajudo. Explica pra essa mula teimosa que ele tem que pedir ajuda logo. Sorte que essa foi depois da viagem, ou a gente teria que se virar com água e sabão. Vou me lavar. — Saiu até a cozinha.
— Tá ruim assim, Fred?
— Tá um pouco fundo, cara, com umas semanas você fica bom. Do outro lado só saiu um pouco de pele.
— Odeio essa parte de ser cadeirante. Já é ruim o suficiente todas as vezes em que você tem que bancar minha babá. Eu me descuido uma semana, e abre um buraco na minha bunda.
— Pelo menos você não precisa de fraldas, Luca. Aprende a pedir ajuda, cacete.
— Eu realmente odeio isso. E ainda vou tirar a cama da Marina.
— Você não anda, eu tenho que mandar as vozes calarem a boca três vezes por dia, Cássio pira sem o Mauro, e Mauro pira sem o Maurício. Cada um com seus problemas, cara.
— Quem é Maurício?
— Você achava mesmo que o Mauro tinha um lobo interior chamado Lobo? Hehe, isso sim seria engraçado.
— Cheguei. Faço o quê?
— Abre os curativos aí, enquanto eu tiro essa pele morta. Tem certeza que não quer tomar nada?
— A gente não tem nada sobrando. Vai em frente. O que você tá fazendo aqui, Cássio?
— Marina me pôs pra fora, disse que iria desenhar hoje. Eu vim te apoiar, cabeção. Você sempre me fez ficar vivo, lembra? Eu sei como é uma merda ficar nessa situação.
— Obrigado.
Demorou um pouco, mas Fred finalmente terminou. Encheu as escaras de pomada, o estômago roncando pelo cheiro que vinha da cozinha.
— Fica aí deitado, Luca. Já trago uma tigela pra você.
— Valeu. Obrigado mais uma vez, Fred.
— Foi nada, Odin. Aproveita e dorme um pouco.
***
— Marina, que cheiro bom é esse? Marina? Marina!
— O que houve, Fred? Muletas malditas! Corre lá, Mauro! — Cássio finalmente chegou e encontrou Fred apoiando Marina caída, enquanto Mauro a examinava de um jeito bem peculiar.
— Ela tá bem? (Você tá farejando ela?)
— Calem a boca. — Encostou o ouvido no peito, como um médico antigo — É, tá tudo bem, ela só usou magia demais. Tá dormindo. Pode relaxar, Fred. Fred?
— ... Semanalmente: Verifique a tensão e o estado das correias. Figuras dezesseis e dezessete, página dez. Mensalmente: lubrifique a cremalheira... — As mãos e os olhos se moviam em movimentos repetitivos, em pânico. — Calem a boca. CALEM A BOCA!
— Ajuda Fred a sair, Mauro. Eu fico com a Marina. Esse pirado vai acabar se machucando. — Mauro puxou Marina pro seu colo e Fred se atirou na pia, onde começou a lavar o mesmo prato repetidas vezes.
— Assume aqui, Cássio. Nessas horas eu sinto falta lá de fora.
— Eu também. Ficar aqui dentro tá transformando tudo num dramalhão mexicano. Olha, ela tava fazendo um colchão. Isso tá desmanchando, é normal?
— Acho que ela não terminou. Quando a gente não termina uma magia, ela desmancha. A energia volta pro ciclo. Ela deve ter descoberto que a gente dorme no papelão.
— Eu é que não iria arriscar o pescoço pra dormir na espuma. Olha, uma cadeirinha de escalada. Foi por isso que ela apagou, né? Fez muita coisa em pouco tempo. Fred vai correr, Mauro.
— Vai, sim. Eu tô pronto. Volto quando ele dormir.
— Eu me viro por aqui. — Quando os dois saíram, Cássio deitou Marina com suavidade e foi até o Luca.
— O que tá acontecendo lá fora, Cássio? Gritei aqui e ninguém me respondeu, cacete! A Marina tá bem? Por que Fred estava gritando?
— Tudo tranquilo. Marina apagou de tanto desenhar, o Fred pirou um pouco e o Mauro tá lá cuidando dele. Me empresta a cadeira um pouco, ok? Vou usar pra trazer a Marina pra cá.
— Pra cá?
— É um colchão de casal, cabem os dois. O único colchão da casa, aliás, fora o que demos pro Doutor. Ou prefere que eu a deixe no chão? — Sentou na cadeira e saiu. — Ei, isso até que é divertido!
Já estava difícil não pensar besteira deitado na cama dela, sem nada pra fazer. Com ela dormindo do lado... “Meu Deus, me ajuda”, murmurava baixinho.
— Ok, Cássio, finalmente ele dormiu. Que canseira ele me deu! O que a cadeira de Luca tá fazendo aqui?
— Trouxe pensando em carregá-la na cadeira, mas não consegui levantá-la até aí.
— Seu burro, me deixa te ajudar. Segura a cadeira.
Chegaram até o canto que Marina dormia. Luca continuava de bruços, em silêncio. Mauro a deitou do lado, e o cheiro de baunilha e laranja encheram o espaço pequeno.
Os dois saíram sem fazer barulho. A cadeira permanecia ao lado do colchão.
Luca não iria olhar. Ele não iria nem pensar a respeito. Iria só respirar, respirar e não pensar. Se o cheiro não fosse não bom, meu Deus.
Cássio e Mauro pegavam a comida na panela. Mauro enchia a tigela de Luca.
— Por que você tá estranho, Cas?
— Faz o quê? Três, quatro meses? Não consigo esquecer a expressão dele. Do Luca.
— ...
— Ele estava agradecido, Mauro. Nem piscou enquanto eu o xingava de tudo que sabia, tentando fazê-lo se sentir tão mal quanto eu. Ele estava triste por mim! E se a Marina não tivesse mandado a Denise, eu teria machucado ela também.
— Você não é mais daquele jeito, Cas.
— Tô me esforçando, mas e se acontecer? Se numa saída dessas, você morre? O que eu vou me tornar?
— Você vai ficar bem, cara. Mesmo se eu morrer, você vai ficar bem. Te garanto. Vou levar a comida do Luca, tá legal? Termina aí e fica de olho no Fred.
— Ok. — Podia ouvir Mauro cantando pelo corredor. Céus, precisava dele, mas não podia retribuir o afeto da pessoa mais importante da vida do jeito que ele merecia. Simplesmente faltava alguma coisa, que nenhum esforço poderia conseguir. Quando levantou, reconheceu a melodia. A voz ecoava pelos corredores e Cássio continuou de olhos arregalados ao começar a entender a letra:
...Now we're back to the beginning
It's just a feeling and no one knows yet
But just because they can't feel it too
Doesn't mean that you have to forget
Let your memories grow stronger and stronger
'Til they're before your eyes...
Podia quase ver o sorriso do canalha enquanto cantava. Ah, mas que filho da mãe!
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