Meia Lua
15 Aqueles que se reencontram
Marina voltou, ainda um pouco abalada. Tantas e tantas caixas. Mônica, Cebola, Magali... eles tinham sobrevivido a tanta coisa. Acabaram ali, dentro de caixas de papelão, num canto perdido do mundo. Se ela não estivesse com o presente do pai quando aquelas coisas invadiram, ela também estaria numa delas. E se Franja estivesse sozinho? Ele estaria numa caixa também, ou uma múmia esquecida nos corredores que estava atravessando agora.
Cássio e Luca tinham razão: Às vezes o “depois” nunca chega. Ela sabia quem queria, e graças a algum milagre, ele a amava também. Graças a um milagre ainda maior, ela podia ficar ao lado dele. Ao contrário do Cássio, do Mauro ou do Luca, cujas pessoas que amaram estavam inalcançáveis de algum jeito. Parou um momento. Dali podia ouvir as vozes dos homens duros e protetores que eram sua nova família.
Fechou os olhos. Podia imaginar suas amigas ao redor, a apoiando em silêncio. Podia ver a leoa, a ursa e o pequeno pássaro que lhe fizeram companhia naquela jaula, em que todos os dias eram iguais e sem esperança. À frente, podia ver as mulheres fortes das histórias que admirava. A rapier e o sobretudo branco da espadachim de cabelos de avelã.
Não, melhor: Depois de tanta coisa, ela podia ser quem escolhesse. Não precisava ficar à margem, dando apoio discretamente. Ela seria a espadachim, e iria comandar o próprio destino. Sem deixar o medo acuá-la novamente, e mantê-la numa jaula nunca mais. Desenhou o sobretudo e a rapier prateada, com a serpente que criou pra se salvar enrolada no brasão da cruz. O short e as botas, e agora se sentia capaz de enfrentar o mundo inteiro.
E vencer.
— O que é esse barulho? Esse toc-toc-toc?
— Vem do lado que a Marina estava. Será que tá tudo ok?
— Eu vou lá veri...Puta. Que. Pariu. Marina, é você? Deus do céu, você está... Está...
Ele estava ali, com um terno com cheiro de guardado, enquanto ela... Deus do céu, precisava inventar uma palavra que descrevesse a beleza ou a confiança que emanavam dela. Algo nela... Alguma coisa nos olhos, na postura, o fazia sentir-se quente, com uma urgência que não explicava, nem se fazia entender, apenas ordenava que fosse até ela, e ele não desobedeceu. Nos três passos em que se aproximou da mulher de toda sua vida, algo mais antigo lhe sussurrou a palavra: Sensual. Marina estava irremediavelmente sensual naquela atitude.
E quando ela selou os lábios nos dele, ele ficou... desconfortável? De novo? Porque o desconforto, se aquilo era tudo que queria? Quando ela o puxava pra tão perto, ou até quando sentia seu hálito no pescoço, seu primeiro instinto era afastar-se, hábito de tantos anos. A sentiu tensa por um momento. Ela também lembrava.
Mas havia muito anseio nos lábios dela, e o controle dele já não era tão bom. Forçou-se a relaxar, e voltou ao beijo.
Ela imediatamente percebeu a diferença. Ele estava mais lento, mais seguro de si. Sentiu um dos braços em torno da sua cintura, e sua língua se movia de um jeito que ele nunca tinha tentado antes. Fosse qual fosse a trava que impedia Franja, estava se desfazendo. Pôs uma das mãos na sua nuca, enquanto a outra se espalhava nas costas largas.
Quando ela se afastou um segundo pra respirar, Fred passou um dos braços por trás das suas pernas e a levantou no colo. Olharam-se pelo que pareceu uma eternidade. Fred inclinou-se um pouco pra sussurrar no ouvido dela. Ela assentiu com um gesto e tocou de leve no rosto dele. Ele a desceu com gentileza.
Os três homens que assistiam congelaram em algum ponto entre a inveja e a surpresa. Passou-se algum tempo até que alguém reencontrasse a voz.
— Eu acabei de lembrar de uma coisa urgentíssima que eu tenho que fazer em algum outro lugar. Luca, deixa que eu te ajudo. Cas, você vem?
— Deixa que eu vou sozinho, Mauro. Pega o bolo.
— Relaxem, pessoal. Podem ficar. A gente só se... entusiasmou um pouco. E eu queria vocês aqui pro que eu vou fazer agora. — Sacou a caixa de jóias do bolso.
Mauro bateu a mão na testa, exasperado. Fred não sabia o que era ir devagar, sabia? Meu Pai, ele vai estragar tudo. Ele vai-
— Marina, eu estou aqui, com nossa família, pra lhe dizer que você é o amor da minha vida inteira. É a mulher mais fantástica que já conheci, e eu gostaria de ser seu parceiro daqui em diante. Mas precisamos de tempo pra construir algo duradouro. Eu espero nesse tempo demonstrar o que eu estou te dizendo hoje. Você quer voltar a namorar comigo?
Ufa. Pelo menos ele não a pediu em casamento. Isso deveria contar como avanço.
Ela guiou de leve a mão dele com o anel prateado até sua mão direita. — Franja, eu também te amo. Amo sua gentileza, sua força de vontade, sua curiosidade científica. E mesmo quando vierem os dias ruins, quero passá-los ao seu lado. Quero namorar com você.
Ela tomou o outro anel na caixinha e encaixou na mão de Fred devagar. Cássio olhou discreto pra Luca. Este tinha um olhar afetuoso e conformado de um avô que vê os netos casarem. Apoiou a mão no ombro dele. Luca só tocou de leve na mão do amigo, agradecendo o apoio.
— Enfim. Vocês estão namorando, o Luca tá fazendo aniversário, estamos todos vivos. Vamos comer!
— Nem lembrava mais dessa garrafa. Por que foi que eu a deixei aqui fora mesmo?
— Não importa, Fred. Trouxemos mais algumas nas últimas viagens. Você terminou a inspeção de segurança? Hoje eu não quero me preocupar com nada.
— Ele e eu checamos tudo, Mauro. Hoje eu também vou beber.
— E pode misturar remédio com bebida, seu doido? Afinal, pra que você usa aquilo?
— Eita, é mesmo, Luca. Ou fica feliz ou bêbado, os dois não dá.
— Não foram só vocês que leram a bula. Depois da mistura Cássio e morfina dar um pouquinho errado, eu chequei cada efeito colateral daquela droga. Posso beber e vou, só não vou exagerar. Cássio, tudo ok com o perímetro?
— Tudo certo. Olhei cada pedaço duas vezes. Hoje eu fico com o controle, e a arma. Eu não bebo, Ma.
— Sério?
— Álcool pra mim tem gosto de pedaço faltando. Eu sempre fico um porre, de ressaca e mais curto. Então só se o mundo estiver acabando de novo. Vou deixar a vodca pra próxima cirurgia. Enche a cara por mim, Mau.
— Pode deixar. Só não deixa o Luca pegar pesado, porque eu pretendo acabar essa noite um bobo alegre. Me acompanham, Fred, Marina?
— Claro. Hoje a gente comemora. E você, Fred? Pode misturar esse teu remédio com álcool?
— Só um pouco. Tô feliz demais pra deixar as vozes estragarem isso.
Mauro serviu um pouco no copo de cada um, o sorriso refletido nos amigos. Então o sorriso sumiu, e baixou a cabeça. Como em todas as refeições, todos o acompanharam, guardando silêncio por uns segundos, às vezes de olhos fechados.
— Por eles, e por nós. — Então Mauro levantou o copo. — Ao primeiro de nós que fez dezoito depois do fim do mundo, o Chefe que conseguiu o impossível: Manter todos nós vivos e bem mais de um ano depois que tudo foi pelo ralo. Ao cara que é vigia, cozinheiro, lutador e deus nórdico nas horas vagas. Ao melhor líder que essa família poderia ter. Ao Luca!
Todos brindaram sentados, ajustando a altura para o aniversariante. Cássio participou, usando um copo com água mesmo. Então caiu na gargalhada quando viu as caretas dos outros quatro. Fred e Luca engoliram a custo, Marina interrompeu o gole no meio, Mauro correu pro banheiro.
— Que merda é essa, Fred? Esse vinho é de querosene? — Mauro gritou lá de longe.
— Joga isso fora, tá horrível!
— Deve ter sido por isso. Meu chefe costumava me dar umas bebidas estranhas e eu aceitava por educação. Será que estragou? Desculpem, pessoal.
Cássio ria tanto que tremia. Ainda rindo sem parar, levou os copos embora, lavou e trouxe de novo. Enxugava as lágrimas enquanto servia um vinho diferente. Marina também chorava de rir.
— Não tem problema, amor. Cássio, de onde vocês tiraram esses? Não foi daqui, né?
— Esses não dão problema. Ainda tinha umas garrafas no mercado que a gente saqueou uns meses atrás. Deitadas, na sombra, tudo certinho.
Os goles foram mais cautelosos dessa vez.
— Hmm, esse é bom!
— Rapazes, antes da gente continuar, quero agradecer a vocês. Vocês me salvaram, me acolheram, me deram tempo pra me recuperar. Se estou viva, total e assustadoramente feliz nesse momento, é graças a vocês. — Palmas e assovios da plateia ecoaram nos corredores.
Partiram o bolo, sob as luzes das telas de segurança, e até Cássio comia satisfeito enquanto vigiava as telas e a escuridão além deles. Por aquela noite apenas, eles seriam jovens, e talvez um pouco bêbados e tudo que um jovem se permite ser. Não importava que o mundo inteiro tinha acabado, que estivessem rodeados de tanta morte. Estavam felizes, tinham saúde e uns aos outros. Fred pôs o celular pra tocar, e eles ouviam extasiados. Cássio permaneceria vigiando, mas por aquelas horas, ele também era feliz.
***
Shkreli ouvia os ecos das risadas, e das músicas. Por muito tempo — Tempo demais — lutara contra a raiva e a impotência, além da frustração de se saber o causador da quase extinção completa da raça humana. O jornal, já muito amarelo, permanecia a esfinge que o devorava vez após vez. Nas madrugadas infinitas, visualizou todos os planos de fuga daquela sua casa de vidro, e nenhum funcionaria. Parou de comer para clarear as ideias, e finalmente seu objetivo se tornava claro: Era necessário que fizesse o possível pra deter o mal.
Que o provocara sem intenção era menor agora; o que importava era que o inimigo com quem lutara a vida inteira tinha assumido proporções globais, e naquele momento ele era talvez o único com chances reais de combatê-lo. Tinha o essencial de suas pesquisas na memória, poderia recriá-las e a partir delas, criar uma cura ou imunização eficaz para a população restante.
Agora que decidiu o que fazer, sentia o entusiasmo do início, quando pensara que na manipulação daquela estranha espécie intermediária estaria a solução para as superbactérias. Foi um completo idiota ao pensar que, com mais tempo e dinheiro, conseguiria reverter os resultados péssimos dos primeiros testes, e que poderia fraudar os resultados se o fim valesse a pena. Que estrada para o inferno: ele construíra a própria autobahn, e o mundo inteiro caiu com ele.
O tempo passava apenas quando os longos corredores traziam ecos da vozes dos seus captores. Sabia-os jovens, e que o odiavam em diversos graus. E porque não o odiariam? Sua presunção levou irmãos, pais e filhos de tantos, que nem ele pôde evitar o ódio a si mesmo ao ver a extensão das consequências. Mas o vazio do estômago lhe mostrara: Mesmo o ódio teria que ser deixado de lado. Talvez não uma absolvição, mas um acordo — como um condenado que trabalha para diminuir a pena.
O jejum e os dias de solidão arrancaram-lhe mesmo a autopiedade. Esperaria essa noite — Até dali podia ouvir que era uma noite de festa.— e quando acordasse, recomeçaria a trabalhar.
Luca. Era esse o nome do rapaz, Luca.
***
Um Fred meio tonto tirava Luca da cadeira onde tinha dormido, resmungando algo que Cássio não podia ouvir. Tinha certeza de que o mau humor de Fred era porque todos sabiam que Luca não deveria dormir na cadeira. Ou talvez porque Marina tinha dormido no seu colo, e Fred teve que tirá-la pra cuidar de Luca. Ela não se importou, e continuou dormindo a sono solto.
Cássio mascava café enquanto observava o sono pacífico dos amigos. Marina era mesmo linda, estupidamente linda, mas não o atraía. Algo nele realmente tinha se perdido, junto com seus outros amigos e sua namorada. Não podia realmente culpar o Luca pelo que sentia, afinal.
Sentiu Mauro encostar a cabeça em sua perna. Cabeceava e ria sozinho, mas se recusava a dormir. Afagou-lhe os cabelos distraído, enquanto vigiava as imagens. Não havia sinais de humanos normais, só as habituais sombras de obsessivos. Sentia falta de sair e combatê-los (era quase ofensivo tê-los tão perto de casa) mas precisava curar a perna. Convenceu os outros que precisaria de uma revisão do braço assim que não usasse mais as muletas, mas o apavorava deitar de novo naquela mesa metálica. Pensaria nisso depois.
Opa, um animalzinho branco. Prestou um pouco mais de atenção. Talvez um gato, ou um cachorro pequeno. Sentia um pouco de pena, mas como obsessivos não se interessavam por eles, e não havia outros animais por ali, se o bichinho fosse esperto ficaria bem. Aumentou um pouco a imagem. Sim, era um gato branco. Aquela coleira, aquele pelo longo... Mingau?
A impotência o sufocou como uma cobra. Se ainda tivesse a outra perna, acordaria todo mundo, pegaria as sai e iria resgatá-lo. Olhar aquele gatinho e não poder ajudá-lo o fazia sentir como se perdesse Magali de novo. Ela e Cebola tinham morrido pra salvá-lo. Cebola confiou na sua imortalidade e os protegeu o quanto pôde, mas ele caiu. Aos pedaços. Magali caiu por cima dele, e Cássio podia ouvir de novo o barulho dos obsessivos atacando. Os gritos. Não sabia como, mas ela conseguiu protegê-lo das mordidas e o impediu de se levantar.
Quando acordou, dias depois, não enxergava nada do lado direito, estava coberto de formigas e sangue velho. Não encontrou a Magá, mas viu seu melhor amigo no chão. A marca de Ior ardia como brasa no braço arrancado, mas o que o aterrorizou foram os olhos. Fixos nele. Ainda se convencia que era coisa da sua cabeça, que ninguém tão mutilado podia estar vivo, até que ele piscou.
Saiu como pôde, foi parar perto da antiga casa do Fred e o deixaram entrar. Ali, caiu de joelhos e gritou pelo Ângelo até ele aparecer. “Toma meu braço, minha perna, minha vida, qualquer coisa, mas ajuda o Cebola, Ângelo! Tira aquela marca dele! Deixa ele morrer!” Ninguém merecia ficar naquele estado e permanecer vivo. Fred só conseguiu tirá-lo do lugar quando Ângelo tocou no seu ombro e confirmou que tinha terminado. Ele não levantou os olhos, mas ouvia a compaixão na voz do anjo.
Fazia tempo que as lembranças não eram tão fortes. Que não sentia o pânico e a náusea entalados na garganta sem conseguir gritar. Mauro não percebeu. Sentiu-o tremer, ajeitou-se e murmurou:
— Vamo’ dormir, Cas...
Cássio olhou a tela até o gato sumir da imagem. Olhou de novo para as outras telas, e confirmou que tudo estava normal. Segurou-se na cadeira e no corrimão do painel e desceu devagar até o lado de Mauro.
— É tarde... Vamos dormir...— Jogou o braço por cima de Cássio, que abraçou sua cintura com força, e começou a controlar a respiração, como Mauro tinha lhe ensinado nas dezenas de sessões de meditação das últimas semanas. Mauro estava confuso, mas o abraçou de volta. — Você vai ficar bem. Vai, vai sim...
O celular ainda tocava. Outra música que não conhecia, mas a voz acalmava, lhe ajudava no controle. Mauro ainda o abraçava, repetindo que tudo ficaria bem, com a voz empastada dos bêbados.
“Você vai ficar bem, Cássio. Nós vamos ficar bem.”
A voz era muito clara, dentro da sua cabeça, e a lembrança da Magali olhando para ele e Cebola com tanto afeto eclipsou as outras. O pânico e a náusea se foram, e ficou um gosto estranho e adocicado na boca. Podia sentir, tão intenso quanto antes, o cheiro do parque, e até um pouco do perfume que Cebola usava quando o abraçou, naquele passado que não era o seu.
Cássio sempre sentia um gosto parecido nos tempos mais sombrios, quando tudo que impedia sua loucura era a magia de Mauro, mas não era igual. Era como se... Ah, Magá. Você realmente fez magia naquela manhã, não é? De algum jeito, ela sabia que as memórias tentariam destruí-lo, e deixou uma boia salva-vidas na sua mente, pronta pra inflar e resgatá-lo quando as coisas ficassem ruins de verdade.
Devagar, soltou-se de Mauro e sentou-se no chão. Desligou o celular, e o silêncio, longe de opressor, era pacífico. Curvou-se até que a testa encostasse no chão, as mãos abertas.
— Muito obrigado, Magá, Cebola. Eu estou bem agora. Vocês merecem descansar. Ângelo, muito obrigado. Nina, não sei se você pode me ouvir, mas se puder, proteja o Mingau por mim, por favor. Só mais uns meses, e eu poderei ir ajudá-lo. Por favor.
Luca, dormindo ali perto, remexeu mas não acordou. Marina e Fred também não acordaram.
— Caaaas... vem logo, porr...— Cássio sentou-se de novo e tirou a pistola da cintura e a deixou no painel. Eram apenas dois metros, mas nem ferrando ele iria deixar uma arma ao alcance de Mauro naquele estado. Sentou-se novamente, e Mauro apoiou-se na perna dele mais uma vez.
— Ficar bêbado é sóoo isso? Legaaal. Ainda dá pra beber mais?
— Não, não dá. Vai dormir, Mauro.
— Vocêeee não veio... vem dormiiir...Caral...
Ai, saco.
— E eu ainda me pergunto porque todo mundo acha que eu sou gay, bi, sei lá. Encosta aí mesmo, Mau. Eu não vou dormir hoje.
— Você não éee... gay...biseilaa....
— Eu sei, você sabe, todo mundo sabe. — Estava com sono, precisava de mais café.
— ...Senão eeeu te pegava...fáaaa...ciiil...
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