Meia Lua

29 Aqueles que se despedem


— Odin, o que tá fazendo aí no escuro?

— Pensando, Cas. Bebendo. Me despedindo. Tentando lembrar como eu era antes disso… tudo.

— Sei como é. Tem pra mais um?

— Chega aí. Não posso ficar bêbado mesmo. — Estendeu o copo de plástico com vodca. — Sei que você não gosta, mas é o que tem aberto.

— Então deixa pra lá. Mas vou ficar por aqui.

Os dois homens ficaram em silêncio, olhando a Lua pelo alçapão. Parecia que estava tudo completo e em paz. Ouviram os passos de longe.

— Pode vir, Fred.

— Como vocês sempre sabem?

— Parece um cavalo num salão. Tenho um pé de metal e não faço essa barulheira.

— Ah, cala a boca. Me dá um gole disso aí. — Pegou o copo oferecido e virou inteiro.

— Ei, pega leve! Você não vai casar de ressaca, isso aqui não é Vegas. Terminou de pensar no que vai dizer amanhã?

— Como alguém como ela quer casar com alguém como eu, Odin?

— Porque você é uma mistura de sacerdote da Deusa Marina, viciado e homem. E as outras opções somos nós três.

— Essa é a pior descrição que eu já ouvi. Vai pro inferno, Cas.

— Só nos finais de semana. Fred, não pira. Ela já esteve dentro da sua cabeça virada, e ainda assim te escolheu. Só não faz merda e vai dar tudo certo.

— Eu tô nervoso. Nervoso pra cacete. Queria que meu pai estivesse aqui. Como é que se faz isso? Como as pessoas conseguiam prometer a vida inteira a alguém?

— Fred, escuta: Lembra como era cuidar do Bidu? — Cássio deixou escapar uma gargalhada.

— Puta que pariu, Odin! É você quem vai falar amanhã? Eu vou morrer de rir, essa vai ser a cerimônia de casamento mais tosca do século!

— Deixem de frescura vocês dois. Fred, responde. Lembra?

— Mas como isso... — Parou com o olhar severo do amigo. — Lembro.

— Você cuidava dele todo dia, mesmo se ele estragava alguma coisa. Dava atenção e gastava tempo pra ele saber que era querido. Quando o cãozinho estava diferente, procurava saber se tinha algo errado. Mas o deixava passear e voltar quando queria. Quanto tempo você cuidou dele assim?

— Catorze anos.

— Foi difícil?

— Às vezes era. Mas normalmente era fácil, eu gostava muito dele.

— Já pensou em não deixá-lo voltar alguma vez?

— Claro que não! Ele era meu cachorro. Minha… Ah.

— Então você já sabe o que precisa fazer. Não pira muito quando você errar. E quando errar, usa essa mente (que você deixou enferrujando desde que toda essa esculhambação começou) pra olhar as coisas direito. Todos nós fazemos besteira quando não olhamos pras coisas como são. Né, Fred? Cássio?

Os dois baixaram a cabeça, sentindo a indireta.

— Cara, desculpa. De novo.

— Fui um babaca, sei disso. Já aprendi a lição.

— É pra ver se vocês se lembram de me ouvir. Até o final, Cássio. Eu sei o que tô fazendo. Respira e tenta dormir, Fred. Ninguém vai tirar foto, mas é bom parecer mais com um vivo que com um obsessivo quando vai casar.

— Ei, a gente não deveria fazer uma despedida de solteiro?

— Pra quê? Eu quero casar com ela desde antes de ter idade pra isso. Não tô triste por deixar de ser solteiro.

— Cássio Araújo e Frederico Médici, se vocês inventarem mais alguma coisa pra eu organizar...

— Não tá mais aqui quem falou. Boa noite, caras. — Cássio levantou-se rápido e Fred o acompanhou.

— Você tem razão, vou dormir.

— Vão embora vocês dois. Vou aproveitar a vista mais um pouco. Boa noite.

***

— Cas, posso te perguntar uma coisa?

— Claro. Fala.

— Porque você não fica com o Mauro de vez?

— Tá doido, Fred? Droga, desculpe. Você entendeu.

— Entendi, sim. Quem você quer enganar? A única diferença entre mim e a Ma e vocês dois é que vocês não fazem sexo. Você me chama de viciado na Marina, mas já prestou atenção no jeito que Mauro olha pra você? Ou no porre que você fica longe dele?

— Fred, não confunde as coisas, merda. Essa situação já tá zoada o bastante sem vocês se meterem. Só deixa essa... coisa quieta.

Fred o olhava terno, com um meio sorriso. — Ok, não me meto mais. Todos nós já sabemos o que você planeja. Só pensa antes como seria nunca mais saber se ele está vivo ou bem. Se precisa de ajuda. Como será forçá-lo a te deixar, porque de outro jeito ele não vai embora e você sabe.

“Pra mim, ficar sem Marina foi o inferno. Me destruiu de jeitos que nem entendo e quase me matou. Não desejo aquilo pra você. Porra, não desejo pra ninguém. Pensa, tá bom? Boa noite.”

***

— Mauro? Você acordado a essa hora?

— Na falta de amigas pra te acalmar antes do casório, serve um primo? Parece meio solitário ser a única mulher no hospício.

— Às vezes, sinto mesmo falta de outra menina por aqui. Como assim vou casar e nem um melhor amigo gay ao lado pra dizer que tudo vai dar certo? Mingau não aguenta mais me ouvir falar, e eu não posso ligar pra Ramona de novo a essa hora da noite!

— Fique à vontade. Queixas na Comissão de Clichês Românticos, como você diria. Final do quintal à direita, ao lado da lança. Pode ir, o recepcionista é o meu irmão.

A imagem de um Do Contra fantasma atrás de uma mesa numa Comissão de Clichês a fez rir, apesar do nervosismo. — Ele me abraçaria e diria como está orgulhoso de eu não casar igual a todo mundo. Só estou nervosa, Mau. Eu o amo, mas o jeito que ele me ama às vezes assusta. Sem mim, ele enlouqueceu completamente. Quase deixou de existir. O que pode acontecer se um dia a gente briga? Se acontece um acidente e eu morro antes dele?

— É, eu deveria ter chegado mais cedo. Essa conversa vai ser longa. Mas não acho que Ramona se importe de você ligar pra ela, mesmo tarde da noite.

— Ela talvez não, mas a mãe dela sim. Ela vem pro casamento, pode querer me transformar num sapo ou pior, num cachorro. Além disso, não podemos virar a noite aqui. Não tenho maquiagem pra disfarçar as olheiras.

— Não se preocupe, eu sou o melhor ilusionista da região.

— O único ilusionista da região.

— Por isso mesmo o melhor. Olha, eu conheço Fred. Ele tentou mergulhar no trabalho quando o mundo acabou, mas não tinha com o que trabalhar. Só nós quatro desmontando suas máquinas, queimando suas pesquisas pra cozinhar e pirando num lugar fechado. Quem não ficaria mal?

— Verdade.

— Suspeito que ele não era muito bom da cabeça antes. Quero dizer, qual é o negócio dele com máquinas do tempo? Ele é o dono desse lugar e o mais velho de todos nós. Sentia que deveria cuidar da gente. Mas eu e Cas adoecemos, Quim e Maria morreram, você desapareceu e ele não pôde evitar nada. Muita coisa deu errado. Se você estivesse aqui, mas não alguém como o Luca… acho que ele ficaria ruim da cabeça do mesmo jeito.

— Será?

— Você não é o motivo dele pirar. Você foi a tábua de salvação dele. Nós temos as nossas, e Deus sabe que ainda usamos às vezes. Ele vai levantar e andar com as próprias pernas no tempo certo.

— Ele parece um homem diferente. É bem sutil, mas ele está... Tem razão. De algum jeito, ele está melhor. Não importa o quanto nos conhecemos, é sempre um salto no escuro no final, não é?

Eles sorriram, e um novo entendimento surgiu entre eles.

— Dizem que quem não salta fica só no escuro. Ele é alguém que vale a pena, Ma.

— Sim, ele vale. Eu sempre soube. Eu… estou com medo. E eu prometi nunca mais deixar o medo me impedir de fazer alguma coisa. Mas às vezes é tão difícil. Tipo o Cas com você.

Mauro fez uma careta. Como a conversa chegou nesse ponto? — Nem de longe é igual, Ma. Cássio é hétero. Eu… nem tanto.

— Eu não tava falando disso. Estava falando dele ter tanto medo de te ferir que vai acabar com o mundo todo. — Diante da cara interrogativa, ela continuou. — Conheço vocês desde criança. Cássio tem medo de um bocado de coisas. Até os treze anos ele tinha medo de água!

— Hehe, é mesmo.

— Só que hoje ele compensa com raiva. Só você o enfrenta quando ele passa do limite. E agora, quando ele terá poder de verdade, ele vai depender do autocontrole que aprendeu há o que, sete meses? Ele é viciado na adrenalina que a ira dá. Quando ele ficar frustrado, irritado ou com medo, e ele vai, ele irá matar até se embriagar. Depois vai se sentir culpado e autodestrutivo, e começar tudo de novo. Ele precisa de você, mas tem medo do quanto.

— Puta. Merda.

— Não tinha pensado nisso, né? Parece que todos nós acabamos saltando, afinal. Ajuda Cas a ter menos medo também, Mestre dos Mágicos.

***

— Tá quase na hora, vocês estão prontos? — Pelos resmungos que ouvia, ou estavam dando banho no Mingau ou Fred estava fechando o terno.

— A gravata… Mauro, você ainda sabe dar nó em gravata?

— Acho que lembro. Me dá aqui, só aprendi no meu pescoço. — Enquanto Mauro ajeitava o nó, Luca inspecionava Fred.

— É, pra hoje vai servir. Meio apertado nos ombros, mas serve.

— Luca, Cas, o que vocês querem vestir?

— Um casaco de terno escuro, Mau. E coturnos. Não vai te cansar muito?

— É só ilusionismo, Cas. Quase fácil demais. Mas esse moicano novo, barba, coturnos... uma sunga vermelha e tá pronto pra sair e lutar pela Mãe Rússia.

— Nos teus sonhos, Mandrako duma figa. Pareço alguém que veste sunga vermelha?

Mauro tinha um sorriso bem malicioso quando olhou de volta. Cássio fugiu correndo do campo de visão dele. Gritou atrás de alguma máquina:

Nem pense nisso, babaca! Ah! Cadê minha roupa normal?

Mauro riu deliciado ouvindo os xingamentos. — Não posso nem fazer uma brincadeira inocente... Pronto, casaco e coturnos, Cas. E você, Odin?

— Sem sunga de nenhuma cor pra mim, só um terno está bom… sério, Mauro? Colarinho? Você me fantasiou de padre?

A risada foi coletiva. — Pelo menos a parte da castidade você tem, Odin. — falou Cássio do outro lado do metal.

— Vão se ferrar, todos vocês.

— Ei, já está até evitando palavrão! E aí, Jéssi Custer do Limoeiro, que horas vai começar o casório?

— Daqui a uma hora, Cássio. Mauro, pega logo esse cara, a seca está fazendo mal pra cabeça de lata dele. Ramona, Bóris e Lady Viviane estão chegando?

Mauro riu alto. — Estarão aqui a qualquer minuto.

— Você convidou a Viviane pro meu casamento com a Marina, Odin?

— Da última vez que não a convidaram, virei uma xícara, você um cachorro e a festa uma zona, esqueceu? Quando ela não está te enfeitiçando, ela é uma pessoa admirável.

Admirável? Estamos falando da mesma Viviane? Bruxa da Lua, dando trabalho desde que éramos crianças...

— Já fiz muito pior que ela, lembra? Essas últimas semanas de negociação foram divertidas.

Fred olhou pra Luca intrigado, quando ouviram aquele barulhinho singular que sempre antecedia a chegada de Bóris. Dessa vez ele estava acompanhado de Ramona, que olhava pro lugar um tanto insegura.

— E aê, meus mundanos favoritos? Ainda tem bolo?

— Boa noite, pessoal.

— Ramona! Sensei! Bem-vindos. Você está sensacional, Ramona.

— Obrigada, mas estou meio simples. Vocês estão tão elegantes… Ah, feitiço de glamour.

— É mesmo, só ilusão. Você quer vestir alguma coisa diferente?

— Talvez algo mais longo? Nossa! Fiquei linda!

Sempre ficava sem graça quando se produzia um pouco mais. Quando se olhou na parede de uma das máquinas e viu aquela mulher elegante, num vestido ligeiramente parecido com o que vestia, se sentiu uma princesa de histórias. Mauro sorriu pra ela.

— Você é linda, não importa o que está vestindo. Vem, vou te levar até a Marina.

Estavam num dos corredores distantes, procurando pela noiva, quando Ramona diminuiu o passo até parar.

— O que foi, Ramona?

— Nimbus, quero te perguntar uma coisa.

— Pode falar.

— Você tá me evitando? — Viu o mago soltar sua mão e olhar pra ela. Não, por favor. Qualquer coisa menos pena.

— Acho que sim. É complicado.

— Por que?

— Desculpe, não queria te magoar.

— Você não quer mais ser meu amigo? O que é complicado?

Ela não tinha muitos amigos. Na verdade, só dois. Não podia perder um dos únicos que tinha, ainda mais sem saber o motivo. Ele sempre tão confiante, estava constrangido. Não olhava pra ela.

Mauro queria abraçá-la. Aliviar a decepção que via em seus olhos. Mas não sabia como explicar o que sentia por ela e por Cássio sem fazê-la se sentir rejeitada. Ramona já se sentia tão pequena.

— Quero continuar seu amigo. — Céus, quando essa palavra ganhou um gosto tão azedo? — Pra sempre. Mas talvez nunca vá morar com vocês. Cássio precisa de mim aqui. Mas não vou deixar de ser seu amigo.

Nem podia apelar pro lobo, ela perceberia. Ela tocou de leve no seu ombro.

— Se somos amigos, porque você não consegue me contar o problema? O que pode ser tão complicado?

— É mais simples mostrar. Entra aqui. — Inclinou a cabeça e apontou pra si mesmo. — Tentei esconder muita coisa de você, e de mim. Mas você merece saber a verdade. Toda ela.

— Sério? É mais difícil falar que me deixar entrar na sua mente? Vocês rapazes são todos incompreensíveis assim?

Ele riu baixinho. — Espero sinceramente que não. Para o bem deles. Olha, por favor.

— Se você tem tanta certeza, me dá as mãos.

Mauro demorou um pouco mais pra abrir os olhos. Encontrou Ramona o encarando de queixo caído. Ela o olhava como se esperasse um gato selvagem e encontrasse um tigre.

— É agora que você sai correndo? — perguntou baixinho. Ela o abraçou devagar.

— Eu nunca vou fugir de você. Mas complicado é mesmo uma palavra pra isso. Obrigada por confiar em mim.

Ele afastou-se um pouco a cabeça para olhar pra ela. — Precisamos ir. O casamento.

O beijo ainda o pegou de surpresa. Após um instante, ele relaxou e retribuiu. Começou bem suave, mas havia algo instigante no sabor dos lábios dela, ou no jeito que o segurava pela cintura, e deixou seu instinto guiar seu corpo. Não era ruim, mas... Droga. Só isso, razoável. Segurou o rosto dela entre as mãos, e podia ver o afeto brilhando nos olhos dela. Sorriu.

Ela sorriu de volta, satisfeita. — Há muito tempo eu queria fazer isso. Se eu nunca mais te ver, posso lembrar. E se eu te ver... a gente recomeça daqui, certo? Nimbus? Acorda. O casamento, lembra?

Ele assentiu com a cabeça. Ainda sorria enquanto a levava pela mão até Marina.

Notas finais
* E foi com essa conversa, amigos e amigas, que Marina salvou o mundo, rs. Como exatamente, um dia eu explico. * Sim, parte do problema de Mauro é que ele já gostava de Ramona quando essa paixão por Cássio o derrubou no chão. Em outro mundo, acredito mesmo que ele teria ficado com ela. E a garota merecia um encerramento. * Para quem nunca jogou/ leu/ assistiu Street Fighter, Mauro está se referindo a Zanguief. * Jesse Custer, o protagonista de Preacher, da Vertigo. A seguir: Aqueles que casam.