Meia Lua
7 Aqueles que planejam
—...e isso é o que ele faz durante o dia. Ai, more, se o Iútube e o Instagrama (ah, e o mundo, é claro) não estivessem em risco, nem morta eu vigiaria o doutor Rato pra você. Cruzes! Que homem sem sal!
Cebola, Denise, Carmem e Ramona estavam reunidos numa lanchonete nas Pitangueiras. Cebola não conhecia o local, mas Denise insistia que não havia lugar melhor pra discutir planos secretos e comer quiche de queijo. Afinal, o dono era um armênio que quase não falava português. E fazia uma quiche di-vi-na. Ramona, com seu casaco leve e seus óculos grossos, parecia triste ao lado de Carmem, com o cabelo perfeito e brilhante e sua blusa acetinada.
— Porque você precisa de mim aqui, Cebola?
— Ramona, tem esse ...Nimbus do futuro, que é um mago, mas talvez não seja bom o suficiente. Vamos precisar confundir muita gente. O quanto você puder nos ajudar, seria muito bom.
— Posso invocar alguns feitiços... mas não muita coisa. Se minha mãe souber que eu estou impedindo o futuro de trevas e calamidade que ela viu nas cartas... Vai ficar furiosa comigo.
— Eu sei que você vai conseguir. Só uma sugestão geral. Um jeito de fazer os adultos acreditarem mais fácil na história, e lembrarem menos de quando o doutor rato saiu do prédio, ou mesmo se saiu.
—Tá bom, então. Vou começar. Se precisar, me liga. Mamãe não se importa com celulares. — Ela levantou e saiu pro banheiro.
— Espera, Ramona! Essa porta não leva...— Assim que a porta se fechou, ele parou de falar. Esqueceu com quem estava conversando, ou por que.
— Uau. A garota é boa mesmo. — Um Cebola um pouco confuso voltou pra mesa, sem saber de quem Denise falava.
— Onde eu estava?
— Explicando por que eu me interessaria em ajudar vocês a destruir uma pesquisa cara do laboratório do meu próprio pai.
— Porque ela foi um fracasso, Carmem. Os resultados registrados são falsos, Bloguinho já checou por mim. Se quiser mostro os verdadeiros. Se ela e o cientista sumirem completamente, seu pai não terá que explicar aos acionistas porque gastou tanto dinheiro numa coisa que não vai funcionar, que nunca funcionou. Poderá transformar o desaparecido num herói, o crime num ato de espionagem empresarial e vocês não perdem dinheiro. Nunca vão ligar seu pai ao que vai acontecer. — Cebola conhecia Carmem, e ela não conseguiu esconder o medo. Perder dinheiro era tão proibido para os Frufrus quanto feiura e falta de classe. Tinha fisgado-a completamente.
— A polícia não vai descobrir o embuste?
— Os culpados vão desaparecer. Se procurarem no mundo inteiro, não encontram.
— A louca, gato! Não é que dessa vez o plano infalível é mesmo infalível? Tô morrendo por não poder postar isso agora!
— Você terá o que pediu. Vamos, Denise — O medo se misturava com frieza nos olhos profundamente azuis da loira. — Essa conversa nunca aconteceu, Cebolácio.
— Qual conversa? Denise nos chamou pra comer quiche. — Cebola sorria, cínico.
— Vamos, diva! Cebola, foférrimo e dono de esquema maligno, não esquece que a conta é sua, ok?
***
— Finalmente acabei. — Franja levantou os óculos de soldagem e checou o celular — Os testes com a máquina estão indo bem. Tente andar pouco entre hoje e amanhã. Vão viajar com mais algum material além do que vocês trouxeram?
— Talvez um genocida de uns noventa quilos. — O cientista o olhou reprovador. Mauro interferiu, apaziguador, também olhando feio pra Cássio.
— Mais um passageiro, mas sem mais equipamentos. Obrigado, Franja.
— Boa noite pra vocês. Até amanhã. — Olharam a porta por alguns segundos, pensando em outro laboratório talvez, e nos dois homens que aguardavam por eles.
Não trocaram uma palavra enquanto andavam para o hotel. No caminho, ouviram uma risada de deboche bem conhecida.
— Olha lá os maricas! Olha, deram as mãos! Que bonitinho! Bichonas!
“Eu estou pronto pra matá-los. Me acompanha?” Cássio transmitiu em código.
“Você está fraco. Vamos ignorar”
Cássio começou a andar mais devagar, o outro punho cerrado. Toni percebeu o estresse e passou a segui-los, acompanhado de dois amigos, gritando grosserias piores. Pareciam Nimbus e Cascão, embora esse último andasse de um jeito estranho.
— Nimbus, mermão! É pra esse cara que você anda dando, é? Olha que o Cebola vai ficar com ciúmes!
Cássio voltava-se para os três, mas parou ao sentir a mão no ombro. O lobo sorria através dos olhos amarelos do amigo. Murmurou uma extensão da magia que mantinha Cássio estável e o ciborgue continuou a caminhar. O lobo permaneceu mais um momento de costas, pra esconder o sorriso.
Voltou para os três patifes, andando relaxado em sua direção. Olhava diretamente pra Toni. Se ele não estivesse completamente bêbado, teria reconhecido o perigo, mas aquela noite a cerveja tinha lavado qualquer prudência. Os outros dois, sentindo a confiança de Toni, se prepararam pra dar uma surra no rapaz que vinha sozinho contra os três. Faziam isso desde sempre com garotos fracos, e ele não era maior que nenhum deles.
— Qualé, Nimbus? Acha que dá conta de nós três? Ou tá vindo provar de um macho de verdade? — disse, projetando o quadril pra frente, num movimento obsceno. O homem da esquerda, um moreno de sorriso cruel, correu na direção dele com o punho cerrado.
O riso virou um guincho agudo quando a bota de Mauro acertou sua virilha a toda velocidade. Ele continuou caindo pra frente, as mãos agora segurando o genital machucado. O segundo não chegou a reagir, pois Mauro já estava perto demais, esmagando seu nariz com a lateral do punho num movimento circular, e chutando o joelho em seguida.
Toni ainda tentou. Deu um soco com toda a força. Mauro desviou com facilidade, e não deu chance pra um segundo golpe. A sequência de socos e cotoveladas o derrubou.
Nunca tinha levado uma surra daquelas, bêbado ou sóbrio, e muito menos de um rapaz cuja testa batia no seu queixo. O mundo girava quando abriu de novo os olhos... O olho direito, pelo menos. O esquerdo já inchava.
—... você tirar essa faca da bainha, vai se arrepender. Muito. Fique quieto enquanto falamos com esse aqui. — Os olhos estavam muito amarelos, quase incandescentes. — Pra você, Toni, nós temos uma coisa especial.
Era só alucinação, ou os dentes de Nimbus estavam mais pontudos? — Vá atrás de vingança, em qualquer um deles, e você vai permanecer no inferno.
— I-inferno?
— Você saberá pela manhã. Nos entendeu?
Toni acenava que sim. Diria qualquer coisa que o maluco quisesse. Nunca tinha sentido esse medo de ninguém antes. O lobo levantou-se, satisfeito, e afastou-se tão calmamente quanto tinha chegado. Chegando no quarto, lavou o sangue das mãos e camisa, enquanto Cássio quebrava com os dentes um osso de galinha, determinado a não deixar nada no prato.
— E aí, Mauro?
— São apenas valentões aqui, mas iriam ficar perigosos mais tarde. Tive uma conversa educativa com eles. Sorte dele que estamos em outro passado, matá-lo agora seria fácil demais. Um deles até me ofereceu uma faca. — dizia, enquanto saía do banho. — Eu até barganhei uma noite de sono tranquila pra nós dois.
— Como?
— Convenci um velho amigo nosso de que valia mais a pena brincar com o Toni essa noite.
— Você está falando do Coríntio?
— Isso mesmo. Infelizmente, não vai durar. Amanhã provavelmente, voltaremos ao ciclo de pesadelos. Mas essa noite iremos dormir em paz, depois de um banho de chuveiro quente.
— Ah, o paraíso deve ser assim. O que foi, Mau? Por que essa cara?
— Se esse Fred daqui estiver certo e não for possível mudar nosso mundo mudando esse passado...Que merda nós fizemos, cara? Se ao invés de salvar nosso mundo, nós estivermos apagando tudo da porra do tecido da realidade? Será que esse monte de coisa que Luca pediu foi só pra gente achar que tinha chance?
— Não sei, Mauro. Mas isso é a cara daquele sacana. — A voz ficou mais sombria. — Mau, você já se perguntou quanto tempo nós podemos sobreviver a toda aquela merda?
Mauro sentou na cama, os ombros caídos. — Vou agradecer pra cacete se estivermos todos vivos daqui a três meses. Droga, vou ficar feliz se nós quatro existirmos depois de amanhã. Não sei, cara. Já gastamos cada pedaço de sorte que tínhamos.
— Acho que se não estivéssemos completamente fodidos no nosso tempo, Luca nunca aceitaria essa viagem, pra onde quer que a gente tenha vindo. De qualquer jeito, tudo acaba amanhã. Pelo menos Shkreli não vai esculhambar esse...canto em que a gente tá.
— Já falei o quanto odeio quando você está certo?
— Vamos dormir, cara. Quero estar descansado pra ferrar com a realidade amanhã.
— Ah, cala a boca e dorme.
***
— ...e o Franja manda uma mensagem pra todos nós alertando de um novo tipo de vírus de computador. Isso sinaliza que nossos convidados e o alvo foram em segurança pro lado deles. Alguma dúvida?
— Só uma: esse plano é mesmo seu, Cebola? — Aquilo quebrou a tensão, e toda a turma começou a rir.
— Cara, você assistiu muito Onze homens e um monte de segredos.
— Só quero deixar registrado que vou seguir o plano, mas sob protesto!
— Ah, para, DC.
Cássio observava em silêncio. Como sentia saudade dessa época. Depois de um banho com água à vontade e uma noite sem sonhar ou gritar, se sentia humano como não sentia há muito, muito tempo. Mauro ria com eles, genuinamente feliz. Enfim, não iria questionar as bênçãos. Mal percebeu quando a Mônica se aproximou.
— Cas..sio, eu quero te pedir desculpas pelo soco de antes.
Ah. Aquele calor no peito não era familiar. O sorriso dessa vez não era forçado.
— Tá tudo bem, Mônica. Tudo bem mesmo. Pode ficar tranquila.
Como admitir que até dos socos sentiria falta? Talvez toda aquela felicidade o destruísse depois, mas daquela vez, só daquela vez, ele aproveitaria.
— Posso te dar um abraço?
— Po-pode. — Foi um abraço desajeitado, esquisito, rápido.
— Sinto tanta falta de vocês. Queria que vocês estivessem lá.
Mônica parecia ainda mais sem jeito. — Eu sei. — Ela se afastou.
Eles não veriam mais aquelas pessoas depois daquela manhã. A última vez em que Cássio se veria jovem, feliz e despreocupado seria ali, tinha certeza. Foi até Magali e Cebola, cuja conversa morreu ao ver aquela versão distorcida do Cascão se aproximar.
— Estou vivo hoje porque vocês me protegeram até o fim. Eu precisava agradecer. Muito obrigado.
Cebola sentia um pouco de medo daquela figura assustadora, mas por um momento viu só o Cascão, numa fantasia esquisita. Puxou-o com firmeza prum abraço.
— Você é meu melhor amigo, Cascão.
— Eu te amo, irmão.
Ficaram ali uns segundos, até que Cássio o soltou, tentando não chorar. Viu que Cebola parecia feliz. Magali tinha os olhos marejados, mas sorria.
— Você vai ficar bem, Cássio. Nós vamos ficar bem. — Havia afeto nos olhos dela. Ela também via o Cascão, seu amigo de vida inteira.
Do jeito como ela falava, parecia uma benção. A voz dela, mais que as palavras, era uma promessa de abrigo, de paz. Cássio agradeceu mais uma vez, em silêncio.
***
Cebola recebia as atualizações de todos os seus agentes através do celular. A única coisa estranha do dia foi o Toni, que pareceu atropelado por um trem e saiu imediatamente do corredor ao vê-los passar. Depois que as atitudes de Toni se tornaram cada vez mais agressivas, ele encontrar um predador maior era só uma questão de tempo. Só não sabia porque ele tinha medo dele. A reação costumeira de Toni era bater e perseguir rapazes mais fracos quando chateado. Logo esqueceu do colega e digitava novas instruções para Mauro, quando percebeu o silêncio. Levantou os olhos, quando a sombra do professor cobriu o celular.
— Cenourinha! — Ah, meu pai — Qual a importância da suspensão McPherson e do câmbio CVT na economia de combustível dos carros modernos?
Parecia uma outra língua. Ele olhou em pânico para os colegas, tentando imaginar qual poderia ser a resposta que ele queria. Constrangido, ele murmurou um “Eu não sei, professor”
Licurgo ficou pensativo. — Hmm...Eu também não, por isso perguntei. Que pena, o amarelo era tão bonitinho...Enfim, largue o celular enquanto eu estou falando.
Estou tentando salvar o mundo aqui, professor! Dá pra facilitar? Tinha vontade de gritar, mas não podia. Sentou frustrado e esperou o intervalo.
— Glaças a Deus! — Voltou a procurar notícias de todo mundo. Podia ouvir, em outro canto do pátio, Nimbus anunciando o show de mágica que faria à tarde. Cascão o ajudava, entregando panfletos.
Graças à intervenção de Carmem, um novo faxineiro foi admitido e agora limpava o andar do Dr. Rato. As meninas ficariam a postos quando Mauro saísse (demitido depois de um pequeno acidente de trabalho), e armariam uma cena pra evitar uma revista completa do faxineiro. Cássio estaria recolhendo as amostras que Mauro jogou no lixo mais cedo. Todos estariam fora quando o vírus atacasse o computador do laboratório e sumisse com tudo que se referia à pesquisa.
DC tinha instalado um controle remoto no carro que o cientista usava (quem trabalha num laboratório de segurança máxima e deixa o carro na rua?) e quando chegasse a hora, o carro enguiçaria num ponto ao alcance de Cássio. Ele recolheria o dr. Rato, devolveria o carro ao lugar de sempre e sumiria com o controle. Tentou ao máximo manter todas as pessoas da turma longe do plano (ok, talvez nem tanto o DC). Que tinham enfrentado mais desafios que muitos adultos não importava; eles não sumiriam, e a polícia poderia fazer perguntas. Franja era quem corria maior risco, mas insistira em fazer parte. O fato de que, em algum futuro, Marina estava em risco e só poderia ser salva por aqueles dois o arrastava de forma quase obsessiva.
A tarde passava. Mônica e Magali foram comer na padaria em frente ao laboratório após a aula. O show de mágica era um sucesso. Mauro continuava a limpar o andar, e Franja aguardava com o controle o sinal pra parar o carro.
Entre pessoas que desapareciam e bolas que surgiam de lugar nenhum no palco, anoitecia. Cebola aplaudia, um sorriso satisfeito. A essa hora, aconteciam uma limpeza atrapalhada, um acidente, uma discussão e — Ah, a doce música de uma mensagem anunciando uma pane num motor. Era útil ter um ninja à disposição; ele talvez voltasse a fazer aulas. Olha, uma pomba!
E quando Nimbus e seu assistente Cascão eram aplaudidos e curvavam-se em agradecimentos, Denise e DC estavam ao lado de Cebola. Denise aplaudia com uma admiração relutante.
— Tudo feito, gato. Carmem mandou mensagem dizendo que tudo desapareceu como o Cascão na chuva.
DC olhava em silêncio. — ele tinha que ser o único em silêncio no meio de uma plateia entusiasmada. O orgulho do irmão parecia irradiar dele, e ele sorria de um canto a outro do rosto. Acordou com uma cotovelada discreta de Cebola.
— E você, cabeção?
— Ahn? Ah, tudo errado, nada deu certo.
O telefone dos três tocou quando chegou uma mensagem do grupo:
“Atenção! Não abra o arquivo ‘Cadastro versão Gold’! Ele contém um vírus que hackeia todos os dados do seu celular em 10 segundos! Compartilhe!”. Vinha do Franja. Cebola apagou o grupo.
— A louca, Gatz! Não é que deu certo mesmo?
— Não esqueça: você tem que esperar o anúncio oficial.
— Esperar? Esperar é pra quem não tem milhares de fãs ma-ra que estão louquinhos pra ouvir essa história em primeira mão da sempre intrépida e pioneira Denise, John Constante de Taubaté!
— Tudo bem. Quem vai se entender com a loira é você mesmo...
— Mas é claro que a divulgação no meu canal vai esperar um pouquinho. Afinal, sem notícia a sempre conectada Denise não tem o que comentar. Beijos, não me liga! — Saiu como um furacão.
— Realmente foi impressionante, Cebola. — DC dizia, enquanto as pessoas dispersavam. — Bom, da próxima vez que forem salvar a raça humana, me chame. Foi divertido. Vou ajudar meu irmão com o equipamento. Ciao.
Cebola respirou fundo, controlando a vontade de sair correndo e gritando de alegria. Um caminhão parecia ter saído das suas costas.
Acabou. Venceram.
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