Meia Lua
2 Aqueles que perguntam
— CUMEQUIÉ? Ai! Pra que o tapa, Careca?
— Fala baixo, bocó! Vamos pra minha casa. Não dá pra discutir isso na rua. Vão na frente.
— Mas ele sou eu! Como foi que eu vou ficar assim, só o bagaço? Eita, é a Cascuda e as meninas. Se eu não falar com ela, vai dar o maior rolo. Encontro vocês num minuto.
Mauro pagou a conta e ajudou a recolher as várias sacolas de compras. Cássio mancava muito, e olhava pro chão.
— Cara, você vai ficar bem? Me desculpa, eu tive que fazer aquilo.
— Eu sei. Não vou ficar bem, mas precisamos convence-los. Você estava certo. Sem ajuda, não vamos conseguir. E temos que conseguir.
— Nós vamos. Já estamos com os remédios, com as vitaminas, só falta tirar Doutor Shkreli de circulação. Sua perna está boa?
— Tá machucando. Mas vejo à noite.
Mais atrás, Mônica e Cebola conversavam aos sussurros.
— Cê, também acho que eles estão falando a verdade, mas algo neles me deixa preocupada. Eles parecem muito mais velhos, por que vieram agora?
— Vamos ouvir toda a história em casa. Meus pais não estão, saíram com a Maria Cebolinha depois da aula pra escolher um presente, sei lá.
O que o preocupava de verdade, mas ele não diria em voz alta até ter certeza, era a reação deles, principalmente do Cássio, ao olhar pra turma reunida. Quanto mais pensava nisso, menos gostava do que via. Olhava pra Mônica, pra Magali. Precisava salva-las.
***
— Meus pais não estão em casa. Podem falar. Contem tudo.
— Doutor Shkreli é um microbiologista renomado, que atualmente está em intercâmbio num laboratório aqui perto. A pesquisa dele sobre mutações de vírus deu errado, mas ele não admitiu em público. Daqui a dez dias nesse tempo, ele vai se infectar, mas com medo da prisão e dos processos, vai manter segredo. Uma semana e várias palestras internacionais depois ele já infectou pessoas em metade do mundo e aqui, nem me pergunte como ele fez isso. Quando todo mundo finalmente adoece, tudo sai do controle e o que sobra da humanidade são algumas pequenas comunidades, pessoas isoladas e a Hoshi. No nosso tempo, aconteceu há um ano.
— Um ano? Por que vocês não vieram antes?
— Leva muito tempo pra carregar energia pra uma máquina do tempo, e muitos preparativos. Só nós dois pudemos sair.
— E nós? — Mauro não olhava pra eles quando respondeu.
— Não existe um jeito indolor de dizer isso. Eu, Cássio, Fred (que vocês conhecem como Franja) e Luca somos tudo que sobrou. Nunca consegui falar com Ramona, mas sei que ela está bem.
Cássio levantou com dificuldade, e tirou o casaco. Começou a desmanchar o curativo. Uma lente vermelha ocupava o lugar do olho direito, dentro de um implante metálico que afundava na pele. Um braço metálico saía da manga esquerda da camisa. Também levantou a barra da calça e mostrou uma ponta metálica parecida com as próteses de atletas.
— Cássio... — Mauro quis impedi-lo, mas parou no caminho.
Cascão olhava apavorado pro ciborgue à sua frente. O olho esquerdo era o que o assustava: Rancor e culpa turbilhonavam ali, mas ele o encarava, como se o desafiasse a não acreditar.
Mônica e Magali olhavam chocadas para os dois estranhos, mas Cebola olhava pra Mônica. — O que vocês vão fazer com o doutor?
— Ele vai desaparecer completamente. Se necessário, vamos matá-lo. A pesquisa, as amostras... viemos destruir tudo.
— Ele ainda não foi infectado! Vocês vão matar um inocente? — Mônica replicou, assustada. Eles pareciam já ter feito isso antes. Olhou com medo pro sobretudo de Mauro.
— Por isso estamos aqui. Não gosto de matar pessoas, e se vocês pensarem num meio, talvez a gente não precise.
— Então vocês não precisam matá-lo. Dá pra levá-lo com vocês quando voltarem pro futuro?
— Acho que sim. Talvez dê certo, Cássio! — O rosto de Mauro iluminou-se. — Se a gente dopá-lo e pedir ao Fred pra aumentar a carga de energia da máquina do tempo...
— Mau, levar alguém do passado junto com a gente, e logo aquele por...caria? Luca vai nos odiar por levar menos encomendas pra arrastar aquele lixo humano conosco. — Olhou pra Mauro, e revirou o olho numa desistência. — Mas pode dar certo.
— Se o Fred dessa época ajudar, talvez exija menos energia. Talvez nós dois e a carga passemos inteiros. — Um telefone celular tocou. — Mauro. Oi, Fred. Pode vir aqui na casa do Cebolácio? Precisamos coordenar uma carga maior. Talvez seja viável levar o doutor.
Cebola subiu pra pegar sua prancheta de projetos e caneta. Ouviu baterem na porta.
— Cê?
— Entra, Mô. — Tentou disfarçar o nervosismo, procurando uma caneta inexistente.
— O que você acha disso tudo? Aqueles dois já mataram pessoas, não sei se o Cascão do futuro vai deixar o cientista vivo. Vamos mesmo ajudar os dois?
— Mônica, liga pro Franja. — Ela ligou, e parecia cada vez mais assustada, enquanto ouvia Franja tirar suas dúvidas. Desligou em silêncio — E aí? O que ele disse?
— Ele vai ajudar os dois.
— Eu suspeitava. Vamos fazer o que for necessário.
— Credo, Cê, que sinistro!
— Você acha que Mauro está mentindo? Ou que Cássio não viu acontecer?
Detestava assustar a Mônica. Não queria vê-la com medo. Mas conhecia seu melhor amigo. Se houvesse qualquer esperança, ele não assistiria em silêncio Nimbus dizer tudo aquilo. Viu Mônica pôr a mão na boca, finalmente entendendo.
— Mesmo que nós três sobrevivêssemos, a espécie toda tá em risco. Franja é um cara esperto. Ele saberia se ele tivesse enviado alguém do futuro pra impedir uma catástrofe. Se ele acreditou, também acredito. Vocês são meus amigos.
— Vamos dar um jeito. Ninguém vai morrer hoje! Vamos despachar o doutor e vai dar tudo certo! — Levantou-se, mais uma vez confiante.
No térreo, Magali encarava Mauro — Ainda sinto magia aqui. Você está fazendo alguma coisa pra concordarmos com você? Pra acreditarmos em vocês?
Uma sombra de sorriso passou pelo rosto de Mauro. Ele apertou o ombro do outro com mais força. — Estou aplicando a magia em mim e no Cássio, Magali. Se eu estivesse aqui totalmente limpo, estaríamos os dois chorando encolhidos nesse sofá.
Mesmo já esperando por isso, você não faz ideia do quanto é...doloroso estar aqui, conversar com vocês. Saber que estou no mesmo mundo que meus pais. Meu irmão. Estou invocando o Outro há dias, só pra continuar fazendo frases completas.
— Outro? Me mostre.
— Posso tirar a camisa? Está nas minhas costas. — Quando tirou a camisa, Magali viu os curativos e a extensa tatuagem mágica de um lobo brilhando em azul. Ele vestiu-se — Eu separei e moldei parte de mim, pra ter força e me proteger das coisas que faço pra me manter vivo. Como o Dr. Jekill da história. Eu— parou de falar quando viu Cascão levantar-se do sofá e ir direto para seu eu futuro. Mauro e Magali congelaram quando o viram abraçar Cássio com firmeza. Cássio não se moveu, o encarando como se seu passado fosse uma granada sem pino.
— Sinto muito, cara. Deve ter sido horrível, nem consigo imaginar. Sinto muito mesmo.
Cebola e Mônica desciam quando ouviram o choro da escada. Correram, e viram Cássio abraçado ao Cascão com firmeza, soluçando e chorando desconsolado. Cascão de joelhos, repetia baixinho “Sinto muito, cara, sinto muito”. Aos poucos, Cascão consegue entender uma palavra cortada entre os soluços e o choro. “Des...cul..pa..”
— Por favor, Magá, Mauro, deem um minuto pra gente. — Em silêncio, seguiam pra cozinha quando ouviram as batidas na porta, e a campainha. Cebola foi atender. Antes mesmo de abrir, Mauro virou-se em expectativa.
DC estava na porta, ainda com a roupa do colégio. — Cebola, a Mônica está aí? Ela saiu tão rápido da escola...Oi, Mô! Mano? Tá fazendo cosplay de Doutor Esquisito? Peraí, você tá mais... — Cebola fechou a porta na cara dele.
— Cê, abre essa porta!
Cebola apontou enfaticamente pro Mauro e pro Cássio lá trás, como quem diz “quer outra crise aqui?” e Mônica calou, sem graça. Podiam ouvir DC do outro lado:
— Ei! Me deixa entrar, Cebola! — Cebola e Mônica afastaram-se quando Mauro veio do corredor como uma bala e abriu a porta de uma vez.
— Mano? Tá tudo bem? — DC foi levantado pelo abraço, e Mauro o girou, rindo como uma criança na noite de Natal.
— Obrigado, Deus! Obrigado, Damas da Luz e das Trevas! Obrigado, muito obrigado!
— Nim, deixa os cumprimentos originais comigo, cara! Nos vimos hoje de manhã! Quando você ficou tão alto? E forte?
— Me deixa olhar pra você, DC!
— Você esqueceu o final, mano. — DC também sorria.
— É verdade! — e Mauro falou alto, em deleite: Obrigado, Damas do Tanto Faz!!
— É, ele está louco — Cebola concluiu, aturdido.
— Totalmente. — concordou Magali.
— “Damas do Tanto Faz”? Isso existe?
Via-se o braço do DC, soterrado na avalanche de afeto:
— Piada interna! Oi, Mô! Oi, Magá! Nim, me deixa entrar?
Mauro pareceu acalmar-se, segurou numa das mãos do irmão, olhando-o tão emocionado que DC não sabia o que fazer.
— DC, eu te amo. Exatamente como você é. Você já é um herói e um homem de verdade, e espero ser um dia metade do homem que você se tornou. Te amo, irmãozinho, te amo muito!
— Eu também te amo, cara. Mas você sabe disso. Tá tudo bem? — Mauro pareceu encolher um pouco.
— Entra. É uma história comprida.
O visitante olhou todas as pessoas: Cascão consolando alguém que chorava na sala; Mônica, Magali e Cebola com as caretas mais engraçadas; Nimbus parecendo mais velho, olhando pra ele como se... não o visse há muito tempo.
***
— Então, vocês dois vieram do futuro evitar uma praga apocalíptica. Você tá aí, todo emocionado. Cássio não aguenta olhar na minha cara sem chorar. Então uma das pessoas que não sobreviveu fui eu?
— Não. Foi complicado.
— Eu morri bem? — Magali e Mônica olharam pro DC escandalizadas. — Sério, todos nós morremos no futuro deles e nenhum de vocês perguntou como?
— Você foi um herói, mano. Todos vocês foram. Vocês nos salvaram diversas vezes. Mas não me peça pra falar disso agora.
Mauro tinha certeza de que DC tinha entendido mais do que ele queria contar. O que ele tinha feito... O que o Cássio fez...Não, não podia pensar naquilo agora. Tinha uma missão a cumprir. Pediu mais uma vez força ao Lobo pra aproveitar aqueles minutos com o irmão. Eles não durariam.
— Você continua vivo. Já tá bom pra mim. Como eu posso ajudar vocês?
Discutiram diversos planos, até chegar num mais viável. DC se divertia apontando problemas ou situações possíveis (exceto as lesmas carnívoras mutantes: Isso não iria acontecer) e pensavam em alternativas. Tudo corria bem, até que Cebola, que acompanhava a localização dos pais pelo celular, pediu a todos que se reunissem no dia seguinte, pois seus pais chegariam em casa em poucos minutos.
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