Meia Lua

32 Aqueles entre a poeira e as estrelas


“Ele não é lindo?”

Ah não. O mesmo pesadelo de novo.

Um homem alto, de bigode e um sorriso imenso mostrava pra ele uma coisinha minúscula e vermelha, que talvez fosse linda quando não gritava e chorava tão alto. Ouviu uma voz feminina de algum lugar:

“Antenor, porque o Cássio tá chorando tanto?”

“Não sei, amor, acabei de dar banho, ele tá limpinho”

Aos poucos o miudinho se acalmava, fungando.

“Quer segurá-lo? Vamos, te ajudo. Segura aqui, e apoia assim.”

O pequenino o encarava com grandes olhos castanhos, num tom igual aos do pai. Parecia tão espantado quanto ele.

Acordou suado. Aquele sonho o assombrava com mais frequência, e aqueles dois — o homem alto sorridente, e o bebezinho chorão — voltavam à sua mente nos momentos mais inoportunos. E ainda assim não fazia ideia de quem eram. O sorriso do homem reabria feridas todas as vezes, e aquele bebê o fazia sentir-se humano.

Ele odiava aquilo. Era como sentir sede pra sempre num mundo sem água. Frustrado, levantou-se e desintegrou os servos de lama ao seu redor. Alguns tentavam fugir, vagamente conscientes como eram, e esses ele destruiu também. Deixou-se cair naquele arremedo de trono, ouvindo os outros monstros naquele coral monótono: “Capitão... Mestre Feio...”

Não adiantava. Nunca adiantaria. Aqueles nomes permaneciam ardendo na memória.

Antenor. Cássio.

O que diabos significavam? Por que nunca o deixavam em paz?

***

Desistam! Não há escapatória!

Mauro observava preocupado. Tinham tudo preparado e encontraram um bom lugar pra começar a busca, e nem era tão longe. Mas Cássio estava cada vez mais tenso, instável. Não gritava daquele jeito desde a morte de Magali. E aquela última frase... não parecia a voz dele. Não havia nenhuma entidade ali, mas isso não o tranquilizava. Começou a sacudi-lo.

— Cássio, acorda! Acorda, droga!

Acha que pode me vencer...— Acordou com o olho arregalado, tentando afastar algo e recuar, até ver suas mãos na cara não muito feliz de Mauro.

— Ei, ei! Para com isso! Puta que pariu!

Cássio evitara falar o que incomodava desde o casamento de Fred e Marina, mas dessa vez parecia abalado demais pra se esconder.

— O que tá te perturbando tanto, Cas?

— A Torre Inversa. Foi a última vez que vi meu tio. Magali me ajudou a tomar os poderes dele, mas depois apareceu aquele octa-sei-lá-que, e eu perdi o controle. Bloqueei a magia da Magá, depois o Cumulus me atacou. A voz da Serpente estava na minha cabeça. Falando através de mim. Sonhei de novo com aquele... lugar. Foi muito real.

Nas noites de chuva, em que uma história de terror parecia apropriada, ninguém tinha melhores que Cássio. Ele, Cebola, Mônica e Magali viviam enfrentando distorções temporais, fantasmas, zumbis e alienígenas. Mas sobre a tal Torre Inversa ele nunca quis falar. Ou do que aconteceu na viagem deles a Sococó da Ema.

— Se você não estivesse com medo do que está prestes a fazer, nem ferrando eu estaria aqui. Você aprendeu com o Luca e o Cebola, Cas. Vamos conseguir.

— Você não entende. Quando a gente ‘destravava’ a magia da Magali, ela era muito poderosa. Sem querer ofender, mais forte que você. Casa de Hécate, disseram. Eu a tirei de combate em cinco minutos. Pra sempre.

Lutou por anos pra não pensar naquela noite, mas finalmente se dava conta das consequências. — A Madame Creuzodete me avisou. A Mônica me avisou! Se eu não tivesse bloqueado a magia da Magali, ela teria salvo todo mundo dos obsessivos. Com uma mão nas costas, caralho. Deus, será que eu só faço merda? Como é que eu vou não matar você, porra? Como é que eu vou não matar todo mundo dessa vez? Eu-

Dessa vez o tranco foi tão forte que Cássio bateu a nuca na parede. O desespero sumiu e ele voltou à raiva habitual, massageando a cabeça.

— Pra que isso, ô cavalo?

— Chega de surtar, seu fresco! Para de se torturar por coisas que não dá pra mudar!

— Quem aqui ficou dois meses parecendo um cachorro surrado depois que o DC virou porteiro zumbi? — Pelo queixo caído de Mauro, percebeu que tinha ido longe demais. Começou a pedir desculpas, mas aí o lobo apareceu e a raiva se renovou. — Você diz pra eu enfrentar as coisas feito homem, mas foge pra trás dessa coisa sempre que a situação fica ruim. Volta aqui, Mauro!

Segurou-lhe a camisa com força, mas a raiva diminuiu tão rapidamente quanto apareceu e se deu conta do óbvio: Se tivesse um bicho mágico atrás de quem se esconder e não sentir aquele medo absurdo, ele usaria sem hesitar. Droga, era capaz de não aparecer nunca mais.

— Me desculpa. Falar assim do DC foi foda. E sei que você quer me ajudar. A verdade é que eu estou apavorado. Sei o que preciso fazer, mas não pensei direito no quanto vai custar. Me pergunto se não vai me custar tudo. Não deveria querer você lá, mas preciso de você comigo pra isso dar certo. Isso soou gay pra caralho mas você entendeu, né?

A última coisa que precisava era do amigo pensando que ele não queria corresponder aos sentimentos dele. Mas então Mauro baixou a cabeça, tentando esconder a risada.

— É verdade, eu vivo me escondendo atrás do Lobo e você com medo e irritado o tempo todo. Somos dois idiotas, repetindo as mesmas reações sem parar.

Sentou-se ao lado. Talvez conseguisse dormir mais algumas horas.

— Eu estarei lá. Amanhã a gente sai, encontra teu tio e você vira o glorioso Capitão Feio 2.0, versão revista e melhorada. E você tá errado. Magali devia ser mesmo mais poderosa, mas tenho duas coisas que ela não tinha: Treino... — Cássio deu um tapa na própria testa e ficou olhando intrigado pra mão e pra Mauro. — E entro na tua cabeça zoada quando eu quiser. Nem fodendo você vai tirar minha magia, não sei fazer mais nada da vida. E mais uma coisa.

— Que é?

Mauro nem tentou disfarçar a raiva na voz. — Fala de novo do meu irmão daquele jeito e não vai ter poder sujo no mundo que me impeça de partir teu focinho em dois, entendeu? Põe essa mordaça duma vez, quero dormir.

— Entendi. Completamente.

O dia seguinte os encontrou em pé e prontos pra partir. Levaram a última semana revisando o plano e não ficariam mais prontos que isso. O robozinho novo do Fred abriu a porta interna. Se pegaram um momento olhando pra trás.

— É isso. A última vez que vamos passar por essa porta.

— Já não é nossa casa faz tempo. Fred, Luca e Marina não estão mais aí, esperando a gente voltar. Mas a gente vai voltar aqui mais uma vez sim.

— É mesmo. Esvaziar o Arquivo.

— Quem iria querer descansar num depósito cheio de poeira? Você não vai levar um bastão, Mau?

Abriram o portão externo e saíram. Mauro caminhou devagar até a lança perto da entrada. Havia pontos de ferrugem, mas as três pontas da lança japonesa ainda brilhavam ao sol. Lentamente, a máscara abaixou numa reverência e puxou a arma do suporte com uma das mãos.

Caminharam até a antiga casa de Cássio. Ao contrário das outras, parecia ter enfrentado um rio de lama e prestes a ruir. Dois nomes pintados com lama mais escura, com grandes letras infantis que enchiam a fachada de um lado a outro.

ANTENOR

CASSIO

Cássio não se deteve, seguindo a trilha de lama e árvores derrubadas pra dentro da mata como um fantasma, percebendo Mauro logo atrás. Meses antes, só a visão da fachada o faria chorar como um garotinho, mas até isso tinha se perdido. O Cássio que morou ali não existia mais.

Mauro podia sentir o bosque ao redor instilando raiva nos fundos de sua mente e podia apostar que na de Cássio também. Seu lobo o alertava de alguma coisa muito grande acompanhando seu trajeto no fundo da mata, fora dos seus outros sentidos. Escurecia depressa, e podia sentir a tensão na mão de Cássio, mas não ousou parar até encontrar uma construção. Não dormiria entre aquelas árvores. Achou uma casa invadida pelo mato que poderia servir. Deixou o nariz e os ouvidos do lobo investigarem os arredores, e a magia sutil que sussurrara não detectou nada hostil. Praticamente empurrou Cássio pra dentro e só relaxou após fechar a porta.

Cássio começou a bloquear a porta, procurando a ameaça que deixava seu amigo tão nervoso, mas estava um breu completo. Mauro soltou sua mão assim que entraram, então tudo que pôde fazer sem enxergar foi escorar a porta com o corpo e estender a mão pra frente. Ficar sozinho naquele escuro no meio de uma casa cheia de terra e mato o lembrava demais de dentro de uma tumba.

Oh, não. Não podia pensar em Berenice (Oh, Jumenta Voadora...) nem naquele templo sombrio (Nossa fiel protetora...), nem naquela música infernal (Vingadora de um mundo secreto...) que parecia se infiltrar na sua cabeça quanto mais se esforçava pra mantê-la fora (Traga para nós...). Merda, cadê você Mauro?

— Está tudo limpo. — A voz de Mauro surgiu depois de uma eternidade. — Sua mão tá gelada. O que...uff!

Cássio o abraçou com força, a cabeça encostada em seu peito. Ele não estava sozinho. Não estava enterrado. Graças a Deus Mauro não perguntou nada, só o esperou voltar ao normal.

Alguma coisa naquela noite fria fez Cássio entrar em pânico. Com o pouco que ele contara sobre a Serpente, o povo das Sombras e a Jumenta Voadora naquela semana, era surpreendente como aqueles quatro pareciam tão normais na sua adolescência. Pessoas comuns estariam num hospício ou no cemitério por muito menos.

— Cas, tira a máscara. Estamos seguros aqui.

Cássio arrancou a máscara, o poncho e a armadura improvisada de qualquer jeito e só esperou Mauro remover os próprios pra voltar pra onde estava. Céus, ele parecia uma criança se escondendo de um pesadelo no colo do pai. Ele era seu amigo. Só amigo, repetia pra si mesmo.

— Shhh, está tudo bem...Você vai ficar bem...Eu estou aqui... — Aos poucos, entendeu o que ele falava sem parar: “Eu não estou morto”.

Merda, como queria proteger aquele cara que literalmente tremia nos seus braços. Do medo, das lembranças dolorosas, de tudo. Ele já tinha passado por tanta coisa, merecia um pouco de sossego.

— Tá melhor?

— Posso... ficar mais um pouco?

— O tempo que você precisar. — Ouvia a respiração dele mais estável quando se afastou.

— Desculpe. Sou um egoísta do caralho por fazer isso com você.

— Isso o que, Cas?

— Teve uma época que eu estava... com mais que uma queda pela Magali. Se ela tivesse me dito sim, eu teria jogado meu namoro, minha dignidade, tudo pra cima sem pensar duas vezes. Se ela ficasse perto de mim do jeito que eu fico de você...

— Eu escolhi vir, lembra? Você não me queria aqui. É verdade, dói às vezes saber que nunca serei eu. Mas passa. Estou aqui como seu amigo. Um tipo esquisito, mas amigo. Continua.

— O Ângelo falou comigo ontem. Ele me disse que estará lá com a gente, pra que eu não perca a cabeça. Mas que se eu não me resolver com meu passado, a Serpente usará isso contra mim e o mundo vai pro saco de novo. Então... — Engoliu em seco, mas não desviou o rosto. — Quando estivemos em Sococó da Ema pra gravar o trabalho da escola, a Berenice, assistente de Madame Creuzodete, quis se vingar do mundo todo porque a filha escrota dela morreu fazendo burrice.

“Ela fez o Cebola morrer e quando isso não tirou a pirralha do purgatório, a Berenice nos envenenou e arrancou nossas almas pra animar uns guardiões mascarados e lutar por ela. Enterrou a mim, a Mônica e a Magá na floresta. O plano do Cebola deu errado como sempre, mas ele se sacrificou e junto com uma porção de crianças amaldiçoadas e um primo maluco do Xaveco, destruiu a Jumenta do cão.

Eles quebraram as máscaras e a alma da gente voltou pro lugar certo. Sair do corpo de repente foi horrível, mas acordar no escuro, com terra entrando pelo nariz, sem saber o que estava acontecendo foi... não tenho uma palavra pra aquilo. A Mônica já levantou furiosa, correndo pra pegar a bruxa louca, mas eu e a Magá fizemos muita força pra não quebrar naquele dia. Aí o Cebola voltou. Eu não dormi no escuro por seis meses. Se eles não tivessem me apoiado, eu teria me destruído pra esquecer.”

Mauro ficou parado, de queixo caído. Imaginava que era ruim, não fazia ideia do quanto. — O Cebola voltou?

— Voltou. Ele morreu e voltou umas vezes.

— Então como diabos ele morreu de vez?

— Cebola era imortal, não invulnerável. A porta estava aberta, foi tudo muito rápido. Todos nós pensamos que eram zumbis, ele tentou nos proteger. Os obsessivos partiram o cara em pedaços, mas meu amigo não podia morrer. Nem se recuperar. Pedi ao Ângelo, ele conseguiu ajudar.

Cássio suspirou, e o escuro não conseguiu esconder a tristeza.

— A gente meio que se acostumou a ter sorte e sair vivo no fim. Mas quando acabou, os dezessete anos de azar acumulado bateram de uma vez só. Eu tenho que lidar com isso, mas depois que Luca e os outros foram embora, as lembranças são mais fortes, os pesadelos mais realistas. É como se... — Ergueu a sobrancelha, como quem resolveu uma questão difícil — Alguém me fizesse reviver os piores momentos, me amedrontando pra eu não conseguir. É isso, não é? Aquela coisa já está mexendo com a minha cabeça.

— Claro que é. Como eu não pensei nisso? É coincidência demais. Fica parado. Puta merda, você tá fedendo de verdade. Hmm... é. Essa porcaria de cheiro disfarçou, mas sim, tem alguém te influenciando.

Mauro segurou os ombros do amigo, tentando encorajá-lo. — Tem uma porta aberta aí dentro, com toda essa insegurança. Posso te dar apoio, mas você precisa fechar o acesso desse troço maligno à sua cabeça. Sozinho.

— Não sozinho.

Se não pudesse lidar com aquilo, nunca conseguiria prevalecer sobre os poderes do tio. Podia sentir a malignidade dentro da sua cabeça, agitada por ter sido descoberta, como morcegos na luz do sol. Meu Deus, estava lá o tempo todo. Fechou os olhos e chamou em pensamento.

“Kainin.”

Finalmente lembrou de mim.

“Eu entendi errado. Derrotar você nunca foi suficiente, não é? É impossível deixar de ter medo.”

Também não quero que a Serpente tome o controle. Nós dois perderíamos tudo.

“Você é parte de mim, aceito isso. Não vou mais te negar. Me dê sua força, sua rapidez, seus instintos. Não deixe o pânico me paralisar, e nós podemos conseguir juntos.”

Enfim, liberdade.

Toda aquela preparação pra dormir era ridícula, e como tudo o mais naquela viagem, uma piada mortalmente séria. Ainda podia não acordar pela manhã. Ou pior, levantar como alguma outra coisa que não ele mesmo.

A escuridão ainda era espessa a ponto de não enxergar os joelhos à sua frente. O ar abafado e úmido ainda trazia lembranças ruins, mas podia aceitá-las e seguir, como seus colegas falaram que era boiar no oceano. A mão de Mauro ainda estava ali, lembrando que não estava sozinho.

Em noites como aquela, mal acreditava na sua sorte. Mauro tinha uma garota que gostava dele e um lugar seguro pra ir, mas escolhera ficar naquele buraco perigoso e sujo só porque Cássio precisava dele. Mesmo quando era fraco, ou estúpido, Mauro continuava ali ao lado. Não merecia a amizade de Luca, Fred ou Marina. Talvez nunca se tornasse um homem bom o suficiente pra merecer o amor de Mauro.

Mas era amado. E se saíssem daquela aventura insana e possivelmente suicida inteiros, se preocuparia menos em merecer e mais em aceitar. Retribuir como pudesse.

— É isso. Obrigado, Mauro. Você é um grande amigo.

— Que conversa estranha é essa, Cas? — Havia algo na voz dele... Uma tranquilidade indefinível. Alívio talvez? Ele estava se despedindo?

— Não é nada. Vou dormir, até amanhã. — Era uma promessa. Daria um jeito de ser ele mesmo no final de tudo aquilo. Acreditaria naquela parte de si que insistia em se tornar o homem que Mauro achava que ele era.

— Até amanhã. — Não podia ver sua expressão, mas a ênfase que Mauro pôs nas palavras era bem clara: Encontrasse uma maneira de lutar com aquilo e voltar. Ele estaria esperando, e não aceitaria desculpas.

Num suspiro, Cássio encostou na parede úmida e fechou o olho.

Notas finais
* Até o arco "Torre Inversa", o Capitão Feio não lembrava que Cássio era seu sobrinho adotivo, mas conviveu algum tempo com ele (em histórias mais antigas foi ele que o ensinou a fabricar brinquedos e gostar de quadrinhos). Optei por manter algumas memórias desconexas. * A história sombria que Cássio conta é um resumo da saga "Filhos de Umbra", e eu não acrescentei detalhes sombrios. Como é uma história juvenil, nos quadrinhos eles se recuperam magicamente do trauma, mas isso não faz sentido. Concordo com o Mauro, o normal seria algum deles (ou todos os quatro) acabarem no hospício ou no cemitério depois de tanta coisa. * Aceitar e conviver com todas as nossas partes é o que nos faz amadurecer. Claro que depois do fim do mundo Mauro também precisou se entender com o monstro Id dele (que passou anos preso num pote de maionese). Muito, muito obrigada a todos. Sobre o próximo capítulo: Cuidado com o que você deseja.