Meia Lua
13 Aquele que fala com gatos
“Feito, Odin.” Essa era a voz de Fred.
“Aniversário de Buda”, ouviu de Luca, e tudo apagou.
Abriu os olhos quase imediatamente. A dor tinha sumido. O peso também.
— Luca! Cássio! Galera! Funcionou, tô bem! Espera, onde eu estou?
Estava tudo escuro, com coisas indistintas à distância. Pelo que sabia, poderia estar no espaço sideral.
Então ficou surpreso com alguma coisa batendo no seu rosto. Estava tão escuro que tentou afastar-se às cegas.
— Valei-me, meu São Rick! Vade Retro, zumbi! Xô! Xô!
— Ai! Ai! O que é isso? Essa voz... Bóris?
Agora os olhos se acostumavam e conseguia ver o gato preto de Viviane de olhos arregalados, nas patas um objeto de madeira... só podia ser piada.
— Você tá me acertando com um crucifixo? Sou zumbi ou vampiro, seu maluco?
— Não sei o que você é, mas você tá morto! Fica aí! Não se aproxima mais, ou eu-
— Parou com a bagunça. — Com uma mão, segurou a cruz e com a outra, o gato através da pele do pescoço. — Onde a gente tá?
— No plano astral, onde mais? — Ah, merda. Toda aquela energia acumulada funcionou, mas do jeito errado. Impediu que ele morresse: era pra fazer isso. Mas também ejetou a consciência dele pra fora do corpo. E agora estava a uma ou duas realidades de distância de onde deveria estar.
— Como é que você tá aqui? E com um corpo físico?
— Gatos são seres místicos, genérico de Érri Póter! Podemos usar nosso talento natural pra passear entre as dimensões (principalmente quando a Senhora Bruxa da Lua está cozinhando comida), então entrar no plano astral é fácil e... Você tá perdido, né?
— Eu não sei voltar. Me ensina, por favor. — murmurou envergonhado.
— Como é? Não ouvi direito. — Bóris nem tentava esconder o sorriso de diversão.
— NÃO SEI VOLTAR! PRECISO DE AJUDA! TÁ OUVINDO AGORA?
— Tá bom, tá bom, sem piti! Você ainda tem algumas horas antes que seu corpo comece a ter problemas.
— Problemas como o que, Bóris?
— Talvez...morrer. Um pouquinho. — Ai, meu Deus. Se aquela era a ajuda que tinha, estava perdido. Respirou fundo. Paciência, Mauro.
— O que tá acontecendo com meu corpo agora, pode me explicar?
— Você não sabe de nada mesmo, hein, garoto? Ei! Ei! Para de me sacudir, eu explico! Seu corpo está em animação suspensa, tudo no mínimo, até você voltar. Parecido com o que vocês mundanos chamam de morte cerebral. Se se passarem algumas horas e você não voltar, sua conexão se parte, aí seu corpo morre, o resto de sua alma se junta a você e você vai pra próxima.
— Quer dizer que se alguém, depois de uns minutos que eu tô aqui, for ver se eu tô bem...
— Você vai parecer morto, ou quase. Foi mal, camarada.
Estudara tanto aquela magia! Se dedicou tanto! Meditou como um monge tibetano por meses pra fazer tudo certo, e ninguém sofrer se precisassem de outra cirurgia. Agora estavam todos achando que ele morreu. Droga, Luca devia estar arrasado, achando que deu tudo errado. Fred, Marina, Cássio...deviam estar se sentindo mal pra ca-
Espera aí. O Cássio. Ele não sabia do plano. Xingou-se de todos os palavrões que sabia. Ele era o maior idiota da história humana.
— Como eu faço pra voltar? Me ajuda, Bóris! Eu preciso voltar AGORA!
— Eu já te disse que leva umas horas pra... — O gato ainda queria brincar um pouco, mas alguma coisa estalou no garoto e ele entrou em desespero.
— Eu não tô sozinho lá! O Cássio vai matar todo mundo! Me ajuda! Cássio vai matar minha família, Bóris! E a culpa vai ser minha!
— Ok! Concentra. Fecha os olhos. Você tá procurando uma corda. Bem fina, quase transparente. Viu? Segura nela, e pensa num motivo forte o suficiente pra voltar. Desespero não ajuda, então vê se respira. Sua família deve ser suficiente. Mentaliza teu corpo. Qualquer encanto que aponte o caminho de casa que você usar segurando essa corda te leva de volta. Não se preocupe, é normal não acertar de — Uau. Ele conseguiu rápido, instável como estava. Não é que ele tinha mesmo talento?
***
A sensação era como cair de barriga na água. Se o trampolim fosse no topo de um prédio. Abriu os olhos, sem ar, e levantou de um pulo, com todo o corpo formigando. Viu a Marina correndo vários metros à frente. Começou a correr também. Tinha que dar tempo, repetia pra si mesmo. Tinha que dar tempo. Ouviu de dentro de uma das salas a voz de Luca:
—Vivo e sem ferimentos. E o Mauro?
Quase caiu por cima da Marina parada na porta tentando frear.
—AQUI! Cássio, não faz... Leão? Isso é um leão? Luca, cadê o Cássio?
—Embaixo da leoa. Bom ver que você está bem. — Parecia ...indiferente.
Marina o encarava de olhos arregalados. Um sorriso incrédulo foi se formando até que ela estendeu os braços num grito:
— Mauro! Você tá vivo! Mas como? Seu coração não tava batendo!
—Viagem astral. Botei energia demais na magia, saiu errado. História longa. Cássio, você, Luca. Fred, cadê o Fred? Marina, me fala! O Fred tá vivo?
— Há cinco minutos, estava tudo bem. Tava dormindo quando saí. Por quê?
Tinha algo alterado. Podia sentir que ele não chegou a tempo, que a merda aconteceu. Mas se todo mundo estava vivo, o que podia ter sido?
—Marina, pode tirar a leoa de cima do Cássio? Aliás, porque tem uma leoa aqui?
— Nimbus, aconteceu um monte de coisa. Nesse momento eu vou buscar o Fred e a gente explica. Tô vendo que vocês precisam conversar. Os quatro. E não, a Denise fica bem onde está até eu voltar. Já corri muito nos últimos quinze minutos. E ia me esquecendo: a arma, Luca. Por favor.
Ele pegou a pistola atrás de si, manobrou automaticamente. Soltou o carregador, puxou o ferrolho e travou a arma. Entregou os dois pra Marina. — Está segura agora. Não tem munição.
— Obrigada. Eu vou acordar o Fred. Por favor, fiquem calmos até eu voltar. Denise, olho neles. — A leoa grunhiu em aprovação.
Saiu pisando duro até virar a esquina. Então se permitiu hiperventilar e sentir medo por uns segundos. Se recompôs e foi acordar o Franja.
***
— Com licença...Denise? Vou só falar com meus amigos um minuto, certo? Luca, o que raios aconteceu aqui? Quanto tempo eu fiquei fora do ar? Porque Cássio está debaixo de um leão? Leoa, tanto faz.
— Marina tem razão. Precisamos conversar. Cássio tentou me matar, Mauro. E eu deixei.
Olhou o relógio. Quatro horas foi tudo que precisou pra todo mundo correr louco ou tentar matar uns aos outros. Pareceu bem menos no plano astral. No que eles estavam se transformando?
— Bom dia, pessoal. Quero dizer, boa noite. Essa é a Denise, Marina? Legal. Oi, Denise. — Fred abriu um sorriso sonolento, olhando pros amigos. — Eu não lembro direito o que aconteceu nas últimas horas. Então ou eu tomei um porre daqueles, ou...Ah, não. Surtei de novo? O que aconteceu dessa vez?
— Cássio achou que eu tinha matado o Mauro, e veio pra cima de mim. Espera, a gente vai resolver isso agora. Você não fez nada de errado, até resetou rápido dessa vez. — e explicando pra Marina. — Levo qualquer coisa entre uma hora e dois dias pra contornar a situação. Normalmente dormir ajuda, mas normalmente Fred apaga umas dez horas depois de um surto. Vinte minutos é um recorde.
Ah, ela sentia ainda mais falta da Denise (a humana) nessas horas. Ela falaria daquele jeito só dela, esfregaria a verdade na cara de todo mundo, ignoraria solenemente qualquer desculpa esfarrapada e resolveria tudo em meia hora. A leoa desapareceu. Cássio sentou-se no chão, junto com os outros, Luca desceu da cadeira e agora os quatro olhavam pra ela. Respirou fundo.
— Rapazes, eu estou morando aqui há pouco tempo, mas eu conheço vocês minha vida inteira. Nós todos estamos doentes de coisas diferentes, mas estamos. Vocês precisam conversar sobre isso, fazer alguma coisa pra liberar a pressão. Foi por muito pouco que ninguém morreu hoje. Eu sei como é se sentir sozinho, não querer sobrecarregar ninguém. Mas desse jeito não tá dando certo.
“Aqui a gente não tem psicólogo, médico, remédios. Todo mundo que a gente conhece está aqui, nessa sala. Pro bem ou pro mal, estamos juntos nisso. Ou nos apoiamos uns nos outros, ou caímos todos. Eu posso sair, se isso deixar vocês mais à vontade.”
— Você ajudaria mais ficando aqui, Marina. Você é parte dessa família. — Fred disse, e os outros concordaram. — Pessoal, tem mesmo umas coisas que eu venho escondendo de vocês. As vozes...não as escuto só às vezes. Elas estão comigo o tempo todo. Duas ou três, falando coisas agressivas, desagradáveis, insistindo que ...eu faça coisas ruins. Normalmente eu consigo ignorá-las, mas algumas vezes é muito difícil. Eu tenho que sair e fazer alguma outra coisa, mexer em alguma coisa ou correr.
Às vezes, sinto que algo de muito errado vai acontecer se eu ficar parado. Também vejo coisas que sei que não estão lá. Eu não saio porque o Luca precisa de ajuda. Eu é que não confio mais em mim sozinho. Desculpem. Eu sei que no meio de um surto podia ter matado alguém, mas eu ainda tô com vergonha de não poder contar com minha mente. Sempre foi o meu maior trunfo, e hoje não sei mais nem o que é realidade.
Fred terminou o relato olhando pro chão. Marina sentou mais perto, o puxando pra si, e o homem curvou-se até encostar a cabeça no ombro dela.
Mauro estava um pouco enjoado. Era bem pior do que imaginava. Será que algum dos remédios que trouxeram ajudaria, ou teria que inventar mais alguma gambiarra mágica? Se surpreendeu quando ouviu a voz de Luca. Parecia que discutia a previsão do tempo, o tom calmo um tanto deslocado depois do desabafo de Fred.
— Acham mesmo que eu uso vocês? Todos se sentem mesmo como ferramentas?
O tempo que esperaram Marina voltar com Fred foi suficiente pra acalmar-se e recolocar a máscara habitual. Não podia e não iria quebrar. Até aquele momento de franqueza na discussão com Cássio seria esquecido, afinal nenhum dos dois queria pensar naquilo de novo.
— Você é quem tem os melhores planos. De algum jeito, você consegue antecipar as coisas, Luca. Eu não me sinto usado.
— Mesmo sabendo como eu fico, você ainda me ajuda. Eu ainda consigo fazer coisas importantes, e sei que não vou estragar nada, porque você tá por perto. Por que a pergunta?
— Faço o que é melhor pro grupo, não por egoísmo. Lamento se parece assim.
Podia ver os olhos apertados em desconfiança de Fred, fixos nele. Ironicamente, era o mais difícil de enganar. Às vezes se recriminava por ter deixado alguém inteligente quanto Fred tão próximo, mas era humano. Precisava ter contato com alguém, e não seria amigo de Cássio e Mauro. Afetaria seu julgamento, e tinha maior necessidade deles vivos e seguros que de amor e amizade. Eles tinham grande chance de serem infectados e precisarem morrer, e não conseguiria fazer aquilo com outro amigo.
Nenhum tremor na voz, ou um olhar alterado. Não havia sequer um sinal do estresse de minutos atrás, e era isso que preocupava Fred. Ao contrário dele mesmo, que se agitava e corria e anunciava a todos os ventos sua dor, Luca parecia... relaxar. Lembrava dele sorrindo e lhe assegurando que estava bem, minutos depois de Maria morrer.
— Luca, você...
— Eu estou bem, Fred. — E para os outros. — Depois preciso discutir com vocês os planos que fiz em casos de emergência. Não vou mais cometer o erro de esconder coisas importantes de vocês. Mas vocês não vão gostar.
— E quando foi que a gente gostou de algum plano teu antes do resultado? Luca, você é maquiavélico. Já salvou nossas vidas trocentas vezes justamente por ser um planejador maquiavélico. Não fosse você com o controle da porta, o Jeremias teria entrado. E eu e Cássio pelo menos já estaríamos numa caixa.
— O que aconteceu com Jeremias, Mauro?
— Três semanas depois do Cássio chegar, Jeremias chegou na porta em desespero, arrastando a Dorinha desmaiada, Marina. Ele não tinha sido mordido, mas ela sim. Todos nós queríamos deixá-los entrar. Menos o Luca.
— Ele era um dos meus amigos mais próximos, lembra, Marina? Só que daquela vez específica, Luca estava com o controle da porta. Ele ficou na frente, ameaçando quebrar o controle e impedindo todo mundo de chegar na porta. Eu estava prestes a arrancar o controle dele. Mas aí a Dorinha levantou. Transformada, era um deles. Ela... atacou o Jeremias.
— Foi muito, muito feio. Nenhum de nós se moveu, exceto o Fred, que desligou o som no primeiro grito. Cássio começou a chamar o Luca de Odin ou Chefe na brincadeira desde então, mas ele virou mesmo nosso líder desde aquele dia. Eu já o xinguei um monte de vezes por ser um chefe chato e rigoroso, que ignorava qualquer reclamação nossa. Mas nunca consegui fazer melhor que ele. Estamos aqui pra te apoiar também.
— Obrigado, Mauro.
Talvez fosse mesmo isso que faltava, pensou Mauro. Então sentiu a mão de Cássio procurar a dele. Segurou com firmeza, respondendo à pressão agoniada que o outro fazia. Aquela força que sempre o fazia lembrar-se de um homem se afogando.
— Cássio, fala. Você precisa. — Mauro tentou incentivar, já que o amigo não falou nada desde que ele voltou do passeio astral.
— O que eu preciso é ser chutado daqui, ou levar uma bala na cabeça. Eu não sou mais o homem que você conheceu, Marina. Sou um cara arruinado e raivoso, e acabei de tentar matar um dos meus amigos. Por nada!
Alguém tinha que pará-lo, antes que saísse de algum momento de raiva incontrolável e encontrasse o cadáver de alguém que tentou impedi-lo. Olhava pro Luca, procurando compreensão.
— Por favor, Luca. Eu não me controlo. Só sirvo pra ficar lá fora, matando obsessivos. Eu ofendi todos vocês, eu te disse coisas que... acho que vou me arrepender até o fim da vida. Não deveria nem tentar, merda. Por favor, me mata!
Sentado como estava, curvou-se até os cotovelos baterem no chão. Podia sentir o choque de Fred e Marina, mas não tinha outra saída. Agora que a cabeça esfriava, quase sufocava de remorso. Sentiu alguém puxar seu ombro com brutalidade, mas não esperava que esse alguém fosse o Mauro.
— Que merda você pensa que está fazendo?
— Eu não tenho nenhum controle sem você do lado, porra! Sou a droga de um cachorro louco! Alguém tem que acabar com isso! Quando eu pensei que você estivesse morto... — Parou por um momento, a angústia o impedindo de continuar — Se ao invés do Luca fosse o Fred? Ou a Marina?
— Você é a porra do meu melhor amigo, seu pedaço de lata idiota! Para de tentar morrer!
Marina encolheu-se, afastando da briga até que sentiu a mão de Luca no seu ombro. Apesar dos dois se xingarem violentamente, Luca e Fred pareciam só meio constrangidos. Marina não ousou tirar os olhos da confusão, mas apontou discreta na direção de Mauro e Cássio.
— Aquilo ali é normal?
— Relaxa, aquele é o jeito dos dois de discutir a relação. Só espero que ninguém perca um dente dessa vez.
— O lobo não aparecendo, fica tudo bem. Mas é melhor trocar o curativo.
— Lobo? Que lobo?
— Te explico depois, Ma. Eita, desculpe. Posso te chamar de Ma?
— Claro, Franja. Tá tudo bem.
Mauro estava em pé. Cássio não conseguiu, mas se tentava se equilibrar num joelho. Mauro olhou pra ele um instante, e toda a raiva explodiu numa risada.
— Você tá ridículo, caralho! Senta de uma vez, você tá espirrando sangue pra todo lado, seu burro! Para de pagar de macho se equilibrando numa perna só!
Chorando de tanto rir, ajoelhou-se e segurou-o pela frente da camisa. — A gente vai dar um jeito, Cássio. Tu faz um monte de burrada, tem um temperamento do inferno e é mais explosivo que o Kilauea, mas você é da família. Você é a droga da minha bola de vôlei. Já que você tem que curar essa perna direito, te ajudo a controlar toda essa raiva, tá bom? Para de querer aguentar tudo sozinho, seu retardado. Deixa a gente te ajudar.
—Mas eu acabei de... como vocês podem querer me ajudar depois do que eu fiz? Como podem sequer pensar em me perdoar por aquilo?
Luca se arrastou com a ajuda das mãos até perto de Cássio.
— Luca, eu... — O soco, mesmo sentado, o fez girar e cair no chão.
— Isso foi por ter ferrado com a sua perna. Mais uma vez. Dá um jeito nesse teu lado berserker, Cachorro Louco, ou quem vai te arrebentar na porrada sou eu. — Luca era novamente Odin, com aquela expressão de ameaça bem-humorada que lembrava demais um dragão sorrindo pra ser tranquilizadora. Afastou-se e subiu de novo na cadeira. — Vou lá tentar alimentar o Mengele.
— Caralho, Luca, que mão pesada! — Mauro estendeu a mão pra ele, ainda tentando controlar o riso.
— Você não tava ouvindo mesmo, né Cássio? — Fred falava, enquanto ajudava a Marina a levantar. Depois desceu num joelho e falou baixo, de forma que só ele ouvisse. — Quando eu percebi o que fiz naquele dia, baixei a cabeça e pedi desculpas. Disse que ele me batesse ou me matasse, se o fizesse se sentir melhor. Ele me perguntou como bater em mim o faria se sentir bem. “Não faça de novo.”, ele disse. Ele é do tipo que perdoa uma vez. Mas só uma. Vou buscar as coisas pro curativo.
Ficaram só os dois. Cássio sentou-se e olhou pros respingos de sangue no chão.
— Parece que eu vivo fazendo burrice, né?
— Às vezes penso isso também.
— Vai, esculhamba. Eu mereço mesmo.
— Nenhum de nós vai desistir de você, então vê se para de tentar. Mas eu fiquei surpreso por saber do Fred. O cara estava meio avoado nesses dias, mas não imaginava que fosse tão ruim. E a propósito, desculpa pela brincadeira idiota mais cedo.
— Não que eu tenha gostado, mas foi até bom. Quero dizer, foi bom que aconteceu o acidente aqui dentro. O osso embaixo da prótese estava tão ruim que quebrou com um pulo. Já imaginou se nós estivéssemos lá fora? Desculpe, eu devia ter te dado ouvidos. Tava morrendo de medo de passar por aquilo de novo, você lembra como foi da última vez.
— Tranquilo, Cas. Você tá desculpado, sabe disso.
— Se não tivesse acontecido aquilo tudo e Marina não tivesse feito a gente falar, um dia o Fred iria pirar de uma vez e soltar o inferno inteiro aqui dentro, ou abrir a porta. Agora para com essa história de beijo, beleza? Não gosto de você desse jeito. E não tô tão carente assim.
— Foi só uma brincadeira, Cas. Não vou fazer de novo.
— Mas diz uma coisa: Porque ninguém me falou desse plano maluco?
— Você iria aceitar que eu fizesse a magia de troca?
— Não, cacete! Mas se eu soubesse que você iria parecer morto, não teria corrido pra estripar o Luca!
— Eu também não sabia. A maior parte das magias em que você sai do corpo, você só parece estar dormindo. Mas eu acabei indo pra muito longe. E sinceramente? Preferi fazer isso que ver você passar por tudo aquilo de novo. Foi horrível demais, caramba.
— Não faz isso de novo, é sério.
— Para de se quebrar que eu não faço mais.
— Trouxe as coisas, gente. — Disse Fred — Eu faço esse, vocês fazem os próximos.
Limpou, encheu de gaze e passou a faixa elástica, explicando como fazer. Entregou o pano de chão pro Mauro — Dá uma geral nessa zona. E você, Cachorro Louco, sobe aqui na cadeira.
— Sério que vocês vão usar esse apelido tosco?
— Claro que sim. Vai se acostumando.
***
— Fred, tem um minuto?
Era tarde, mas ninguém dormia. Mauro ainda arrumava algo sem importância, e Marina continuou sentada na frente das telas sem prestar atenção. Luca sumiu como mágica. Cássio estava na frente dele, parado sem saber onde pôr as mãos, na cadeira de rodas emprestada.
— Claro. Vem comigo. Ma, não me espera, ok?
Marina piscou, distraída. — Sim, tudo bem. Boa noite, Cas. — Foram até a cozinha. Fred puxou um banco e esperou, o olhar compreensivo. Graças a Deus era um dos dias bons.
— Você disse mais cedo que falou com o Luca depois da briga de vocês. Que ele te desculpou.
— Sim, foi isso.
— Não foi parecido comigo. Nem de longe, porra. Luca ficou lá parado, me olhando como se tivesse pena de mim. Me deixando falar aquelas coisas. Ele me perdoou, e eu já tô feliz pra cacete por isso... Mas algum dia a gente se perdoa? Algum dia eu vou conseguir viver com o que fiz?
Na penumbra das luzes do corredor, Cássio parecia um adolescente. O homem mais velho pôs o braço sobre as costas do rapaz curvado. — Leva um tempo, mas você acha paz. Você não é um cara mau, Cássio. Um dia você vai perceber isso.
— Obrigado, Fred. Espero que você tenha razão.
— Vamos tentar dormir. Principalmente você, acabou de passar por uma cirurgia e forçou os pontos até onde deu. Precisa mesmo descansar. Vem, eu te ajudo a voltar pro papelão.
Demorou uma vida, mas todos foram dormir. Luca rodou lentamente, na última ronda do dia. Checou as portas, as telas, viu a lista de tarefas do outro dia e estava tudo em ordem. Rumou pra trás do tanque de resfriamento e estendeu seu colchão na sombra da enorme sucata verde.
Não precisando mais se conter, desceu da cadeira de rodas e deixou-se cair no colchonete. Todo o corpo doía e não encontrava força sequer pra chorar mais uma vez.
Se estava conseguindo tudo por que lutara, porque se sentia tão vazio? Não sabia o que era alegria havia semanas. Ou apetite. Ou descanso. Era penoso engolir três refeições e fechar os olhos até a manhã, no filme preto e branco sem graça que os dias tinham se tornado.
A única coisa que ainda o arrancava da cama era o propósito ainda firme de proteger todos eles como pudesse, e mesmo isso ficava cada vez mais difícil. Quando o sol se punha, e estavam todos seguros, a falta de objetivo o engolia. Estava cansado. Deus, estava exausto até os ossos. Se ao menos o sono chegasse.
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