Meia Alma
31 Epílogo - Em Fuga
Notas iniciais
“Mesmo que eu morra, continuarei ao seu lado. Mesmo que nos separemos, mesmo que se passem mil anos, eu irei te reencontrar”.
Poderia ser apenas uma promessa vazia. Mas não era.
O deus furioso perseguia ambos. Estava desesperada para manter acesa a pequena vida que florescia em seu ventre, pois o perigo não se estenderia a apenas os dois, mesmo ela sentiria as consequências. A ira voltada a ambos era tanta que sentia a destruição se alastrando pela ponte de luz, destruindo-a em chamas com rugidos quase animalescos.
Mas ele continuava ao seu lado, apesar do risco de morte.
A mão frígida de cobre segurava fortemente a sua, e corria com o outro braço abraçando seu ventre. Estava tão nervosa. Ambos tinham de sair dali o mais rápido quanto pudessem, tinham que sair daquela dimensão, tinham que escapar.
O portal à sua frente era estranho, mas sabia que era ele. Tinha que ser.
Pronunciou aquelas palavras, e a luz os abraçou.
Virou-se imediatamente para seu companheiro, afastando os cabelos negros de sobre os olhos. Olhos de vidro frios e violetas que o impediam de mostrar de seus sentimentos. Aquilo incomodava a ambos, mas não era momento de pensar naquilo.
– Pense em um lugar agradável no mundo mortal. – disse num sussurro segurando seu rosto enquanto ele ofegava. – Rápido...
O rapaz fechou os olhos e um lugar em especial apareceu em sua mente. Mesmo nem saber nem ver como era o local direito, transportou a ambos para lá.
A presença ameaçadora próxima a ambos desapareceu, fazendo com que uma onda de alívio imediatamente corresse por seu corpo. Ao menos por hora estavam a salvo. Os três.
Sua mão desceu até o peito que subia e descia do rapaz, sentindo o coração mortal acelerado. Pôs-se nas pontas dos pés, seus lábios roçando contra os dele, fazendo-o estremecer, sentindo pequenos choques elétricos diante o contato repentino.
Viu os olhos de um belo tom de laranja piscarem, confusos, antes que ele erguesse a mão agora de carne e osso, pegando-a como se para ver se era real, antes de voltar-se para ela.
– Você não tem jeito...
Ela sorriu, mesmo que um tanto pesarosa.
– Você seria a primeira pessoa que ele procuraria, mas só conhecia-o com aquela aparência. E... Sei que tudo aquilo lhe incomodava.
Ele sorriu gentilmente, e um trovão se fez ouvir, fazendo com que ambos olhassem assustados para o céu. As nuvens negras amontoavam-se num redemoinho de escuridão, os relâmpagos azuis brilhando em lampejos, formando uma assustadora face assustadora.
Sua mão foi agarrada, e deixou-se ser levada por seu companheiro num caminho desconhecido. Percebeu-se numa trilha em com longos galhos que se fechavam sobre si com suas folhagens, parecendo esconder os amantes dos olhos do deus. Parou um momento, carregando-a no colo antes que a mesma dissesse algo, levando-a por uma parte particularmente íngreme da trilha. Não era questão de romantismo, e sim praticidade.
Pararam em que lhe pareceu ser as ruínas de uma vila, cobertas pelas árvores, com mato alto e as casas abandonadas eram feitas de argila, num formato semelhante a uma tigela de cabeça para baixo, com a hera e as ervas crescendo por suas paredes. Ajudou-a entrar numa avulsa, entrando logo atrás.
– Sinto muito se não é o melhor lugar do mundo, mas...
Mas ela parecia maravilhada com um lugar novo. Depois de passar toda sua vida num mundo que jamais mudava, aquilo lhe parecia impressionante. E o rapaz relegou-se a sorrir ao perceber as feições da jovem.
– Como faremos agora?
Um suspiro escapou dos lábios dela, que se arrastou timidamente em sua direção, aninhando-se contra seu peito, os longos cabelos negros espalhados pelo chão de terra batida. Envolveu-a com seus braços, mesmo sabendo que sua força era nada para proteger a ela e a criança. Não quando o perseguidor de ambos era algo tão superior.
– Ele não descansará enquanto não nos encontrar. – disse simplesmente, fazendo-o assentir. Ela estremeceu em seus braços ao escutar um trovão. – Temos que sair daqui.
– Sim, eu sei... Mas...
– Não poderemos nos manter neste mundo. – disse com uma veemência que o assustou.
–... Deste mundo?
Ela passou a mão pelos cabelos, descendo então até o ventre, onde sentia aquela pequena vida, permanecendo em silêncio.
– Sairia do meu lado?
– Já disse uma vez, e irei repetir: Mesmo que eu morra, continuarei ao seu lado. Mesmo que nos separemos, mesmo que se passem mil anos, eu irei te reencontrar. Nada irá me impedir. Nem mesmo os deuses.
Fale com o autor