Meia Alma

13 Capítulo 12 - Primeiro Passo


Notas iniciais
Oeeee pessoas, demorei, mas como falei pra Seth, capítulo enorme! O maior que escrevi até hoje o.o
Espero que gostem =D
Antes que me esqueça DE NOVO, o tema musical do Hideo é essa daqui:
http://www.youtube.com/watch?v=1QFGs2mEe7U
Acho a letra a cara dele nessa fic. Espero que gostem, porque ela é uma das minhas músicas favoritas e o Usher é um dos únicos artistas ocidentais que ainda escuto, junto com Flo Rida, Rihanna, Beyoncé e alguns outros .-.

Fitei o bracelete que estava em minhas mãos. Tão trabalhado ele era que chegava a ser pesado, e não havia dúvidas de que valia uma fortuna. Era de ouro maciço, e eu via uma profusão de pedras preciosas dispostas em desenhos os quais eu não conseguia enxergar com clareza.

- Por que você está me dando isso?

- Você consegue me entender na língua antiga. – respondeu. – Mas isso lhe ajudará a entender alguém que não for eu.

- Hã? Como... – ergui meu olhar do objeto, porém, Daichi havia desaparecido.

Um bufo escapou de meus lábios quando isso aconteceu. Ele simplesmente aparecia e sumia como se fosse um alien que se auto abduzia. Aproximei-me da ponta do barranco o qual ele estava segundos antes, e quando olhei para baixo, e deparei com Djan me encarando, e só então me deparei com algo: Ele vira a Daichi?

Suspirei, pondo o bracelete em eu antebraço e saltei até onde ele estava, pousando a sua frente, e ele não pareceu se assustar.

- O que você está fazendo aqui numa hora dessas? – perguntei.

Ele deu de ombros.

- As coisas estão muito estranhas no templo.

- Ah claro, mas sua mãe pode ficar preocupada. – murmurei com uma pontada de ironia.

- Se está se referindo à minha idade, você precisa se enxergar primeiro. – rebateu, cruzando os braços.

- Sou muito mais velho do que aparento. – retruquei. – Não se engane, híbridos param de envelhecer em certo ponto.

- Sacerdotes também não e você ficou surpreso com a aparência da minha mãe.

Rolei os olhos.

- Olha, acho que você não veio aqui para discutirmos coisas fúteis ou a idade de certas pessoas, não estou certo?

Ele pareceu ponderar, mas então assentiu.

- Alguma coisa aconteceu quando você chegou. Os mais antigos estão discutindo pelos cantos.

- Por que eu?

- Seu nome é Hideo, não é? – assenti, e ele continuou. – Eles falam alguma coisa sobre você, mas toda vez que tento escutar, mesmo que eles não me vejam, eles param. É frustrante.

- Não faço a mínima ideia de porque eles estariam falando sobre mim. – respondi. – É a primeira vez que venho à cidade, claro que contra... As regras.

Ele olhou para cima, para o local onde eu estava, e consequentemente, onde Daichi estivera, então baixou o olhar novamente.

- E... Aquele cara? – perguntou. – Ele sumiu...

-... De repente. – Completei, então ergui as sobrancelhas. – Ele tem o costume de fazer isso. É revoltante.

- Ele não é um híbrido.

- Não. – respondi. – Nem mesmo eu sei direito o que ele é. Ele aparece e some.

Djan assentiu, mas eu via a dúvida presente em seus olhos azuis.

- Você é estranho.

- Como se eu já não soubesse. – bufei. – Se me encontrasse há alguns anos atrás eu talvez fosse mais normal.

Foi a vez de Djan revirar os olhos.

- Quem está sendo mal falado por ter apagado a guarda é você, não eu.

- Não me importo, já sou mal falado o bastante só por ser um híbrido.

Ele franziu o cenho.

- Você já se importou?

- Logo quando me tornei um. – respondi. – Assim como todos, fui obrigado, então não me conformava com isso. Mas depois de um tempo, você deixa de se importar, afinal, as pessoas não parecem se lembrar que todos os híbridos já foram pessoas que viviam com elas, iam em viagens de família e tinham mais preocupação de seus pais descobrirem suas notas baixas do que... Serem desmembrados por monstros, de alguém aparecer para arrancar sua cabeça para ficar com seu posto, se transformar em monstro ou ter de matar seus amigos... – parei ao final, que quase não saiu. – Ou talvez até mesmo um parente seu.

Ele me encarava, sem dizer nada, só estava com os olhos meio arregalados e uma expressão surpresa. Um sorrisinho acabou se formando sem que eu quisesse. Acredito que acabei impressionando o garoto.

-... Eu... Nunca imaginei isso.

- Claro. Os humanos temem o que não conhecem. Então nós chegamos com força e velocidade sobre-humana e a habilidade de encontrar o que eles mais temem. Como eu já fui um, eu não tinha ideia de o que eles faziam para conseguir isso, o que me assustava, e provavelmente é por causa disso que as pessoas criam tantas lendas envolta de híbridos. – olhei-o de esguelha. – Como o de que cultuamos Neptera e oferecemos crianças a ela.

- Mas... São tantas crianças... E poucos híbridos.

- A maioria não sobrevive à transformação, e vários morrem no teste para se tornar híbrido. Eles pegam os aprendizes e os jogam numa cidade abandonada isolada por uma redoma, repleta de monstros. Os adolescentes, e às vezes, as crianças que foram jogadas lá tem permissão de retaliação, e quem encontrar a saída consegue se tornar um guerreiro que pode ser mandado em missões. É por essas e outras que nenhum híbrido morre de amores pela Ordem.

- Fazer isso com crianças é crueldade.

- Mas eles pouco se importam. – Dei de ombros. – Se você desobedecê-los ou der problemas, eles começam a tentar forjar sua morte de todas as maneiras possíveis. Por isso são poucos são os que tem coragem de ir contra ou dar um jeito de sair dela. Aqueles que conseguem, fingem que estão mortos... Como nós. Provavelmente, Elizabeth fez isso também. A Ordem é um buraco negro, uma vez dentro dela, você provavelmente só sairá morto dela.

- Para com isso. – Djan disse.

- Com o quê?

- Você está me fazendo sentir culpado. – disse e quase ri. – E isso não é legal.

- Se você contar isso para algumas pessoas, elas vão dizer que eu estava manipulando sua mente. – bufei. – Já conheço as histórias.

Ele pareceu ponderar. Senti a Aura de baunilha aproximar-se e olhei para cima, e vi Raquel sobre o barranco. Ela apenas olhou para mim e Djan e então voltou em direção à casa, sumindo de nosso campo de visão.

- Huh, ela é... Linda. – Abaixei o olhar e vi que Djan ficou vermelho ao dizer aquilo. – Ah, me ignora.

- Sim senhor. – respondi, mas não pude deixar de reparar que aquele elogio me deixara ligeiramente incomodado. – Acho que seria melhor você voltar para o templo, casa, ou qualquer lugar onde você more. Já está meio tarde, então é melhor dormir.

- Tá bom. – ele fez uma expressão “Como se eu nunca tivesse passado a noite em claro”, mas no fim acabou por ir embora.

Subi em direção a casa, e reparei que os primeiros raios da alvorada começavam a cortar o céu. Provavelmente Djan só cochilaria ou sequer dormiria. Entrei na casa e vi Raquel sentada no sofá, mas havia algo estranho. Havia luzes brancas à sua frente, pelo que vi, mas quando fechei a porta, elas sumiram e Raquel olhou para mim por cima de seu ombro.

- Você se preocupou. – Não foi uma pergunta, e ela percebeu, portanto, só assentiu. Raquel baixou seu olhar e só então percebi que ela olhava para o bracelete que Daichi me dera.

- De onde... – ela me olhou. – Isso veio?

Peguei-me já dividido. Falava a verdade ou inventava alguma desculpa?

- Hã... – Olhei para ele.

Raquel me olhou com uma expressão de “continue”. Anotação mental: Quando alguém de olhos grandes e sinceros te olham assim, eles começam a sugar as possibilidades de inventar mentiras e desculpas.

- Daichi apareceu novamente e me deu isso. – soltei com um suspiro de desistência.

- Daichi?

- A coisa de fogo lá da ca...

- Não, eu lembro que esse era o nome dele. – me cortou. – Mas ele não lhe deu isso para nada. – acusou.

- Não. É para eu entender Darneliyano antigo. – respondi.

Raquel olhou-me com uma expressão de “Não é só para isso que eu sei”, mas se levantou e subiu para o quarto dela, então resolvi que era melhor subir para o meu também. Quando entrei lá, vi que ela arrumou a cama, o que me deu uma leve pontada de culpa. Tirei aquele bracelete que ia do meu pulso até quase meu cotovelo e o escondi no guarda-roupa, então resolvi logo ir ao banheiro, tomar banho, trocar de roupa ou o que fosse mais antes que ele ficasse congestionado.

Quando saí, alguns minutos depois, Alec estava sentado no sofá encarando o chão.

- Pensando na Nina? – ironizei.

- Talvez sim. – respondeu para minha surpresa.

- Hm... – sentei ao lado ele. – Boa sorte.

- No quê?!

- Em qualquer coisa que vá fazer. – respondi. – Porque só ficar sentado não leva em nada.

- Ah, claro. – disse num tom ácido.

- Pode ignorar se quiser.

- Eu sei. – Murmurou. – Mas nada leva a nada mesmo.

Encostei minhas costas no sofá e fechei os olhos.

- Você já tem o meu respeito por conseguir gostar da mesma pessoa por tanto. – Ele ia responder alguma coisa, mas senti a fraca Aura de caramelo se movimentando, então avisei: — A Nina está vindo.

- O que tem eu? – Nina perguntou, descendo as escadas. Abri um olho e ela estava com algumas roupas em seus braços. Prestando atenção, o cabelo dela havia crescido bastante, se antes era na altura de seus ombros, agora estava em sua cintura. Mas ela continuava talvez quase meio metro mais baixa que eu ou Alec. Talvez mal chegasse à 1,50 de altura.

- N-nada. – Alec gaguejou e o vi coçando a cabeça, e acabei tendo de reprimir o riso, comprimindo os lábios.

Ela olhou para nós, desconfiada – afinal, tinha motivos de sobra. -, então abriu a porta do banheiro e disse:

- Vou tomar banho, então me expliquem essa história quando eu sair. – E fechou a porta.

Quando escutei o chuveiro se ligando, falei:

- Talvez eu não devesse ter avisado. Gostaria de ver a sua cara se ela escutando você dizendo que gosta dela em voz alta.

Alec me fulminou com os olhos, mas ignorei. Convenhamos, seria a cena do século, sem contar que talvez poderia fazer as coisas andarem finalmente. Ou ele poderia levar um fora épico. Pensando bem, foi uma boa ideia sim ter avisado.

- Ei, você ouviu sobre a colorida e o garotinho? – Alec perguntou.

- Sim, por quê?

- Eu gostaria de ir ver eles. Parece que estão no templo com Elizabeth.

Encarei-o, então olhei para o banheiro.

- Acha que é uma boa ideia de irmos antes de ela sair?

- Ótima ideia. – quando vi, ele já havia até saído da casa. Rolei os olhos, mas levantei e fui atrás dele.

Do lado de fora, a cidade ainda estava em um mal estado, péssimo, para dizer a verdade. Ainda havia a fumaça negra despontando de alguns prédios, vários destruídos, ou quase.

Ao se entrar “melhor” na cidade, as coisas não estavam melhores. Ainda era cedo, mas havia bastante gente nas ruas. Algumas olhavam com exasperação aos locais destruídas, havia quem chorava sobre os destroços.

- Essa era supostamente a cidade mais protegida do continente. – Alec disse para que somente eu escutasse. – E acho que algumas pessoas perderam tudo.

- Mas creio que elas devam agradecer o fato de estar vivas primeiro. – respondi logo após um homem de mais ou menos trinta anos nos encarar como se fosse culpa nossa o que ocorreu. Ingrato.

- Hm, talvez. – Alec disse, mas percebi que ele olhou para as pessoas que puxavam as crianças para longe de nós, então disse em um tom de voz mais alto, creio que para as pessoas escutarem mesmo. – Acho que é melhor irmos por cima dos prédios mesmo. Menos gente fazendo coisas totalmente supersticiosas perto da gente como se fossemos monstros.

Assenti. Já sabia que ele era doido mesmo. Tomei impulso e saltei para cima de um prédio que estava próximo, sendo que Alec já estava no seguinte.

- Essas coisas te aborrecem? – perguntei ao alcançá-lo.

- Muito. – Bufou. – Seres humanos é uma raça ingrata.

- Nós já fomos como eles.

- Por isso mesmo. – respondeu.

Encarei-o, mas ele estava de costas para mim, portanto, não viu meu olhar sobre ele. Decerto os humanos eram extremamente ingratos, mas era a primeira vez que eu via alguém falar desse modo.

Atravessamos a cidade em pouco tempo e logo chegamos ao templo. Havia um enxame de soldados, pessoas e ao que me pareceu, sacerdotes, sacerdotisa e serviçais ali. A Aura de Elizabeth não estava em lugar algum misturado à multidão, e sim dentro do templo, então fiz um sinal para que Alec me seguisse e saltei diretamente para o salão principal sem fazer barulho algum. Olhei para trás e ninguém pareceu ter nos visto, e vi que Alec fazia a mesma coisa, então logo o fiz para localizar Elizabeth naquele lugar tão grande. Por dentro, o templo era impressionante. As paredes possuíam adornos entalhados em pedra, madeira, e às vezes adornos em ouro, com algumas ocasionais e espaçadas enormes portas com várias desenhos gravados nelas.

Depois de no mínimo dez corredores, duas escadarias e mais um monte de serviçais e alguns sacerdotes que nos olhavam de esguelha, porém finalmente a encontramos. Estava de costas para nós e seu cabelo estava realmente enorme, uma cascata de cachos caindo até um pouco acima de seus joelhos. Ela usava uma espécie de longo e brilhante robe rosa claro, cuja cauda se arrastava pelo chão, preso à sua cintura por uma larga faixa de um tom escurecido de marrom. Ela parou e se virou, a pele quase que fantasmagoricamente branca, os olhos vazados que haviam sido cortados completamente brancos, o que chegava a ser ligeiramente assustador, pois Elizabeth sempre fora extremamente bonita, porém, tirando por suas roupas, era branco demais ao olhar, como um espírito de uma jovem mulher das histórias.

E só constando, isso não era nem um pouco agradável.

- Reconheço vocês dois pelo cheiro. Hideo... E Alec. – disse.

-... Sim. – Alec começou, e ela veio até nós.

- É bom saber que vocês estão vivos. – disse vindo até nós e deu um rápido abraço nele e outro em mim. – Acho que vocês estão atrás da garota e o menino.

- Bom, é isso mesmo. – respondi. – Mas o que aconteceu com os seus olhos?

Ela sorriu.

- Eu os cortei. – respondeu com chocante simplicidade.

- Realmente precisava? – suspirei e Alec me olhou com uma expressão de quem concordava comigo.

- Sim, pois eu precisava de um local seguro para ficar. – Hesitou antes de responder, começando a andar. – Nada mais seguro que a cidade onde híbridos são proibidos.

- Claro... Também é perigoso. – Alec sibilou.

- Mas... Por que você deixou a Ordem?

- Vocês deveriam ter visto o caos que se instaurou após a Guerra do Norte. – ela suspirou. – Estavam todos tranquilizados devido ao fato de Yudai e outros dígitos únicos terem ido, mas foi um choque quando a norte de todos foi anunciada.

- Nada além do que o esperado.

- O que começou o caos foi que eles anunciaram que vocês haviam morrido, e logo em seguida anunciaram as novas número 1 e número 2, como se só estivessem esperando pela morte de Yudai. – continuou sem sequer se virar para nós. – Eles apenas disseram que todos morreram e as apresentaram. Duas gêmeas.

Aquilo foi quase um golpe. Como assim?!

- Como assim?! Logo em seguida?! – Alec verbalizou o que senti imediatamente.

- Basicamente isso. – respondeu. – Seus nomes são Adeline e Aagje. Assim como você e Yudai, elas são idênticas.

Perguntei-me internamente se ela sabia que Yudai estava morto, mas mantive-me em silêncio. A Ordem era tão podre que foi capaz de mostrar sua cara de pau para todos. Isso realmente me dava ódio. Realmente, depois nós somos os monstros da história.

- E depois do que aconteceu ontem, as pessoas sabem que você é uma híbrida?

- Não. – respondeu. – Mas me pergunto como consegui me manter no templo com tantos videntes. Acho que nunca saberei. Mas voltando à aquela garota e o menino, ele tem acho que uns três anos. – disse. – Mas ele é especial.

Alguém me responda como alguém tem coragem de transformar uma criança tão jovem em híbrida.

- Não sei direito o que ele tem, mas ou ele tem um sexto sentido infalível, ou faz profecias. – prosseguiu, pegando-me de surpresa, e percebi que ela empurrava delicadamente uma porta. – Mas ele não precisa de Auras pra encontrar as pessoas.

O local era uma espécie de... Não sei explicar. O recinto era amplo e quadrado com altos muros brancos, porém folhagens e árvores curvavam suas folhas para o interior, que possuía alguns bancos brancos, mas possuía pequenos canteiros com flores e grama aos pés da parede. Olhando para cima, o teto era abobadado e sustentado por altas colunas, e podia-se ver ligeiramente o céu cinzento e nublado.

A garota colorida estava sentada em um dos bancos, ligeiramente encolhida com os cabelos loiros claríssimos caindo por sobre seus ombros. Ela olhava para a criança que estava deitada no chão com várias folhas e uma caixa de giz de cera. Ele imediatamente olhou para cima, em nossa direção. Seu rosto pequeno era rechonchudo, com grandes olhos vermelhos e um nariz pequeno, seu cabelo branco era cortado em uma franja infantil que ia até suas sobrancelhas. Então ele voltou a rabiscar o papel com o giz de cera vermelho, nos ignorando.

- Hum... Olá.

-... Olá. – A colorida falou timidamente. Sua fraca Aura mal se fazia visível.

- Essa é Paola. – Elizabeth disse. – E ele se chama Pietro.

Pietro puxou as folhas e virou-se em direção às pernas de Paola, e continuou rabiscando. Paola olhava de mim à Alec em silêncio, e quando percebi, Elizabeth fechou a porta atrás de nós, deixando-nos com ela.

- Hm, meu nome é Alec. Esse aqui é...

- Hideo. – Pietro disse sem desviar os olhos de seu desenho.

- Bem... É. – falei.

A garota não deveria se lembrar de mim, pois Maurice apagara suas memórias. Pietro sentou-se, largando o giz de cera e pegando um cor de pele. Então olhou para cima e disse:

- Quando você encontrar Mari no labirinto. – apontou o giz para Alec, que repentinamente pareceu mais uma arma que um giz. – Você tem que levar ela pra fora antes que Nodi pegue você, senão... Tchiii. – chiou enquanto fingia que o objeto cortava sua garganta.

- Pietro!

Alec me olhou como se pedisse ajuda, mas assim como ele, eu não entendera nada. Esse garoto não era normal, logo de cara se percebia isso. Me assustei quando alguma coisa bateu em minha testa e percebi que era um giz de cera azul claro. Nem vira quando ele jogara aquilo.

- A metade já voltou, mas o pai da menina é brabo. – ele disse pra mim. – Cuidado o monstro preto irritar ele.

Então ele voltou a rabiscar as folhas.

- Hã... Ele tem o costume de fazer coisas assim logo que encontra alguém. – Paola disse um tanto sem graça. – Assusta no começo.

Garota, assustar é eufemismo. Agora entendi o que Elizabeth disse.

- Ele sempre faz isso?

- Não, mas ele às vezes começa a falar coisas sem sentido. – respondeu. – Ou derruba as pessoas. Ele é muito forte.

Alguma coisa empurrou meu pé por trás e quando percebi já tinha caído sentado no chão. Alec começou a rir da minha cara.

- Só porque eu disse que você derruba as pessoas, não precisava derrubar ele...

- Desculpa mamãe.

- Que ridículo Hideo, com esse tamanho é derrubado por uma rasteira de um menino de uns três anos.

- Cala a boca. – rebati.

- Desculpa. – disse, embora não parecesse se desculpar nem um pouco. Rolei os olhos e resolvi continuar sentado no chão.

- Bom, mas... O que vocês dois estavam fazendo aqui? – perguntei.

- Os homens da Ordem... Começaram a desconfiar que Elizabeth estivesse viva. – disse timidamente. – Eles queriam que Pietro a encontrasse.

- Por ele ser muito pequeno, você toma conta dele? – Alec perguntou, se sentando no chão também.

- Eles classificaram o Pietro como instável psicologicamente, então precisa de alguém que consiga controlar ele. Mas eu não concordo com isso... Ele é só uma criança que já foi transformada em híbrida e tem numeração. Acho que ele só não entende um pouco as coisas.

- Ele já tem numeração?! – exclamei.

- Cinco. – Pietro ergueu a mãozinha com dedos curtos.

- Bom, é. – Paola disse, se abaixando para pegar um giz de cera jogando no chão. – Eles deram o número cinco, mas ninguém nunca tinha visto ele, então só me disseram para tentar estabilizar o número cinco. Eu não fazia a mínima ideia que era uma criança.

A Ordem está louca, disso não tenho dúvidas. E não tenho mais nenhuma.

- Eles queriam que você encontrasse Elizabeth. Como eles sabiam que ela estava viva?

Ela apenas negou com a cabeça, com uma expressão indicando que não sabia.

- Eles agora já sabem que vocês tão vivos. – Pietro disse e tacou um giz de cera verde em mim, porém o segurei antes de atingir meu rosto. Mas o laranja acertou minha testa.

- Salvamos uma cidade, meio difícil não perceber. – Alec bufou.

Elizabeth abriu a porta, entrando no recinto. Ela não hesitava em seus passos, mesmo sendo cega.

- Mas e você? – perguntei. – Qual seu número?

-... É o número 68. – respondeu.

Assenti e Elizabeth disse:

- Acho melhor sairmos daqui, porque o sacerdote... Brigão descobriu que vocês estão aqui e vai querer arranjar confusão. – ela “olhou” para Paola. – Acho que será melhor se vocês vierem também.

- Tudo bem. – comecei a levantar, e a vi pegar Pietro no colo, que largou o giz de cera que segurava, enquanto Elizabeth saía do recinto. Quando chegamos ao corredor, ela nos conduziu para outro que ainda não havíamos visto, o qual possuía uma escada.

- E agora, para onde vamos? – Alec perguntou.

- Eu vou para o orfanato da cidade. – Elizabeth respondeu. – Acredito que não terá problema se vocês irem.

- Sério, Elizabeth? Um lugar cheio de crianças? – perguntei com uma pitada de incredulidade.

- É mais fácil conquistar o coração de crianças do que de adultos. Elas ainda são puras e em formação, enquanto os adultos possuem sua visão manchada de preconceitos.

Se você diz... Se bem que Raquel andava com Yudai quando era criança...

Elizabeth saiu por um local relativamente tranquilo. Ali não possuía muitos transeuntes, os que estavam ali eram trabalhadores cuidando de tirar os destroços do local, que nos deram pouca atenção. Era um tanto impressionante ver que ela sabia exatamente por onde ir, e chegamos no que com certeza era um dos locais menos atingidos pela destruição. Era uma enorme casa de dois andares azul e branca, com as portas claras e uma mureta baixa de mesma cor. De longe conseguia escutar os gritos e as risadas infantis.

- Acho melhor irmos embora. – Alec disse o que pensei.

- Não acho, entrem. – Elizabeth continuou.

Paola nos olhou com dúvidas, Alec e eu entreolhamos antes de segui-la. Uma senhorinha de cabelos brancos, curtos e encaracolados de óculos redondos e, admito, simpáticas rugas apareceu correndo. Ela usava uma camisa de botões azul clara com uma saia cinza e casaco de mesma cor, e ela era um tanto gorda. Ela então olhou para nós três que estávamos atrás de Elizabeth, e perguntou:

- Com licença, mas eles...

- Não representam perigo algum às crianças. – respondeu. – Não se preocupe, eu que quis trazê-los. Essa é a senhora Miriã, ela é uma das pessoas encarregadas de cuidar do orfanato.

- Olá. – disse com um sorrisinho que, apesar de estar claramente um pouco assustada, não saiu forçado. – As crianças estão no pátio – disse e olhou para Pietro no colo de Paola. – então é melhor ir aqui por fora. – indicou um caminho pela lateral da casa, então foi por ele, andando apressada. Elizabeth não se preocupou em seguir o mesmo caminho, então a seguimos.

O pátio como um imenso jardim ou talvez uma parte de um parque, imenso mesmo, com grandes mesas de piquenique, bancos de cimento. Havia brinquedos como balanços e gangorras, uma fonte que pelo modo que havia crianças agrupadas, deveria ter peixes ali. Havia uma casa da árvore, e o que pareceu uma casa de bonecas em tamanho gigante embaixo. E havia muitas crianças ali, de vinte a umas trinta, talvez mais.

- Elizabeth – Däzh veio. – Miriã disse e várias crianças começaram a se virar. – E ela trouxe... Visitas... Peculiares.

Algumas dezenas de olhares curiosos não eram lá tranquilizantes, pelo menos para mim.

- Esses são Hideo e Alec. – Ela se adiantou. – E esses são Paola e Pietro.

Por incrível que pareça, tinha mais olhares de curiosidade do que de medo entre as crianças. E apesar de eu ser o que estava mais atrás, parecia que a maioria olhava para mim. Elizabeth adentrou um pouco mais naquele pátio e muitas crianças correram até ela, algumas pegaram suas mãos e ela foi se sentar em um dos bancos. Pietro se soltou dos braços de Paola e pulou para o chão, mas ela se abaixou e disse para ele que ele não falasse nada do que ele normalmente dizia para não assustar as crianças, nem derrubá-las ou fazer qualquer coisa que as assustasse.

Uma garotinha de cabelo loiro e rosto em formato de coração, que deveria ter uns quatro anos veio até mim, me olhou com grandes olhos pretos e disse:

- Você é muito alto.

- Não se engane, um dia ele já foi muito baixinho. – Alec disse e eu o fuzilei com os olhos.

Um garoto talvez um pouco mais velho apareceu, ele tinha cabelo bem curto, negro e usava um bermudão marrom e camisa verde.

- Você é um híbrido mesmo? Seu cabelo é vermelho.

- Não tá vendo que os olhos dele são vermelhos? – a menina para o meu susto começou a socá-lo.

Depois disso, foi um pouco de confusão. Elas realmente tiveram um pouco de medo no começo, mas depois esqueceram – ainda mais depois que Elizabeth disse que Alec conseguia controlar água.

- Mas se você é um híbrido, por que o seu cabelo é vermelho? – uma gordinha perguntou.

- É... Complicado. – respondi, já sentado em um dos bancos.

- Mas de onde você veio? – alguma outra perguntou. Era estranho estar rodeado de crianças.

- Deditio. – respondi.

- Vocês se parecem. – um menino apontou pra Alec.

- Somos primos.

- Quantos anos você tem?

- Vinte e sete.

Todas as que estavam envolta de mim soltaram um profundo e dramático “Oooooooh”.

- Você não parece ser adulto!

- Híbridos param de crescer depois de um tempo.

- Ele vai parar? – uma garotinha de cabelo castanho apontou pra Pietro que tinha arranjado lápis de cor e papel.

- Quando ele for maior ele vai.

- Com quantos anos você parou de crescer?

- Com a idade que você acha que eu aparento.

- É verdade que vocês podem pular de prédios sem se machucar?

- Dependendo da altura, sim.

- Se for do telhado do orfanato?

- Esse chega a ser baixo.

- E aquele monstro de ontem, você ajudou a matar ele?

- Na verdade, foi ele que matou. – Alec se intrometeu na conversa, praticamente do outro lado do mundo.

Outro grande e dramático “Oooooooh”.

Olhei para o fundo do pátio e vi alguém isolado dentre as árvores. Franzi o cenho e percebi que era uma criança de cabeça raspada em uma cadeira de rodas. Levantei e rapidamente as crianças se dispersaram, então fui até ela. Ao me aproximar, vi que era uma menina extremamente magra de mais ou menos sete anos, usando um vestido um tanto largo para seu corpo (ou talvez ela estivesse magra demais mesmo) de mangas curtas e bufantes, verde claro. Logo constatei que deveria ser câncer ou coisa parecida.

- Olá. – falei e ela me olhou com um grande par de olhos verdes.

- Oi. – disse baixinho e desanimada, logo baixando o olhar novamente.

- Qual o seu nome? – perguntei, me abaixando à sua frente.

- Alice, e o seu?

- Hideo. – respondi. – O que você está fazendo sozinha aqui, Alice?

- Nada. Eu não posso brincar mesmo.

- Ué, claro que pode. – Olhei para o local que estava cheio de brinquedos como bonecas e ursos. – Tem brinquedos de sobra lá.

- Mas eu não posso andar. – respondeu emburrada. – E todas as meninas tem cabelo comprido, e nem cabelo eu tenho. Elas ficam rindo de mim.

- Você não precisa correr nem andar pra se divertir. – respondi. – E os híbridos tem cabelo branco, mas o meu é vermelho.

- Mas elas ficam rindo de mim.

- Ignore. Elas só estão vendo como você é por fora.

- Mas elas vão embora, e dizem que só menino que é careca. E elas ficam dizendo que eu sou doente.

- Acho que elas não pensam que elas podem ficar ainda mais doentes que você.

- Mas... – ela baixou a cabeça. – Elas dizem que eu vou morrer.

- Todo mundo morre um dia. – continuei, e lembrei de que às vezes, crianças não tem dó. – Mas você pode melhorar e não morrer por causa da doença.

Ela me encarou, bastante cabisbaixa. Aquela era claramente uma doença difícil, e dava para ver que ela não estava recebendo muito apoio psicológico, o que deveria tornar tudo muito pior. Olhei para suas mãos de dedos finos e magros que estavam repousadas sobre suas pernas. Alice, como acabara de conhecê-la estava ou era bastante pálida, não sabia dizer. Pálida e magra.

- Quando eu era criança, ou humano, como você quiser, meu irmão vivia doente, e muitas vezes ouvi as pessoas dizerem que ele ia morrer. – comecei.

- E ele morreu? – perguntou.

- Morreu, mas não de doença. – respondi. – Foi numa batalha. Mas ele já havia passado ao ponto de ter sido deixado em coma induzido.

- O que é isso? – perguntou.

- O médico te dá remédio para você dormir. E ele te deixa dormindo por muito tempo, podem ser só alguns dias ou podem ser semanas.

- Isso é ruim?

- Eles só fazem isso quando você está muito doente. — Disse.

Ela abaixou o olhar, então senti uma Aura se aproximando. Uma Aura de menta. Olhei para cima e vi Susana pousar no telhado, seu cabelo preso em uma trança.

- Alec, Hideo! Tá todo mundo atrás de vocês!

- Ah, claro. – falei. – Tchau Alice, até outra hora.

- Tchau. – disse e de onde estava mesmo saltei para o telhado, e Alec apareceu logo depois. Escutei gritos e risadas das crianças lá embaixo. – O que foi?

- A Anita quer falar com todo mundo, mas vocês dois sumiram. – respondeu.

- Sobre o quê? – Alec perguntou.

- Ora, a gente só saiu atrás de vocês. – rebateu e pôs as mãos em punho na cintura. – A essa altura, todo mundo deve ter voltado pra casa, então vamos pra lá.

Rolei os olhos e saltamos do orfanato, disparando pela cidade até a casa onde estávamos. Chegamos em pouco tempo, e realmente todos estavam lá. Passei na frente dos outros dois e parei em frente à porta, já a abrindo. Estava todo mundo na sala, Nina, Maurice e Ygor sentados no sofá para três pessoas, Larry em uma das poltronas, Diego e Anita de pé, Raquel e Alma sentadas no sofá para duas pessoas.

- Onde vocês estavam?! – Alma exclamou.

- Incrivelmente. – Falei, normalizando minha respiração. – Em um orfanato.

- Brincando com as crianças? – Diego brincou.

- Quem estava fazendo isso era o Alec.

- O que tem eu? – questionou enquanto entrava pela porta.

- Estava brincando com crianças. – respondi. – Deixando isso de lado, o que foi?

- Eu queria falar com vocês. – Anita disse, olhando para a mesinha (absurdamente alta) de centro. Quando todos se aquietaram e se acomodaram (como eu que expulsei Larry de sua poltrona), continuou. – Depois que salvamos a cidade, eu comecei a pensar que... A nossa ação pode ter chamado a atenção da Ordem. E acredito que esteja certa. – Pôs as mãos na mesa. – Hoje de manhã, aquele garoto que atacou Hideo ontem apareceu e disse que a mãe dele estava me chamando no templo.

- Lá vem bomba. – Ygor disse.

- Bom, sim. – Anita disse e revirou os olhos. – Era ela e outra sacerdotisa, que o Hideo e o Diego já viram, Caoilainn. Elas disseram que... Essa é a melhor e única chance de agir.

- No quê? – Larry perguntou, e Alec e Nina trocaram olhares, e imediatamente entendi ao que ela se referia.

- Alec e Nina sabem, pois contei a eles há doze anos. – ela olhou para mim. – Se Hideo tem acesso às memórias de Yudai, então ele sabe também ao que estou me referindo.

Praguejei e Nina moveu-se desconfortavelmente no sofá. Alec coçou a cabeça.

- Apesar de tudo o que passamos, sinto muito, mas acho suicídio coletivo.

- Sabia que não era boa coisa. – Ygor suspirou.

- Do que vocês estão falando? – Maurice questionou em seu tom de voz baixo.

- Atacar a Ordem. – Alec respondeu.

A sala ficou tão silenciosa após ele simplesmente jogar isso que, se uma mosca passasse voando, creio que daria até para escutar sua respiração. Dava para enxergar a mais profunda marca da surpresa no rosto de cada um dos outros sete. Havia choque também. E foi a vez de Diego explodir:

- Isso é loucura, e como o Hideo disse, é suicídio! Seriam sessenta e... Seis – disse, lembrando-se claramente de Paola e Pietro. – pessoas contra onze! Sem contar que com certeza não sabemos de muita coisa que a Ordem pode esconder!

- Sem contar: Quem protegeria os humanos se a Ordem acabasse?! – Susana prosseguiu.

- Não é bem isso. Estou dizendo uma Ordem em que os híbridos comandassem. – Anita disse. – Tirar aqueles humanos...

- Frios, falsos, corruptos, megalomaníacos, loucos, arrogantes... – falei, listando em meus dedos. – Quer que eu continue?

- Não. – suspirou. – Aqueles como esses que o Hideo citou do poder.

- Ainda assim, se quisermos ir contra eles, serão sessenta e seis contra onze e mais seja lá o que eles esconderem dentro daquela coisa. – Diego se jogou no chão atrás do sofá.

- Talvez seja porque nunca testamos contra outros guerreiros... – Anita começou num tom sério e convincente. – Mas após esses sete anos que passamos treinando, todos os dias, o nível de todos aumentou. Muito.

Vi Maurice se ajeitar com uma expressão não muito boa. Depois de tantos anos, só então fui me lembrar de que antes ele era o número 68 da Ordem, o posto mais fraco dela. Aquilo não deveria ser muito tranquilizante para ele, se não estava sendo para mim nem para os outros.

- Todos aqui tem nível o suficiente para ir contra dígitos únicos da Ordem. – disse. – Incluindo até mesmo os cinco primeiros.

- Anita, não está exagerando? – Alma questionou. – Não duvido tanto de você ou Hideo, até o Alec e a Nina, mas todos? Ninguém...

- Como eu já disse antes, ainda não possuímos a chance de testar com outros guerreiros. – suspirou. – Pessoal, elas disseram que era a nossa melhor e única chance. Vamos desperdiçar a chance de fazer as coisas mudarem e talvez um futuro melhor para muita gente? Pensem bem: Nenhum de nós entrou na Ordem porque quis. Foi vendido, sequestrado, pego, mas nada por seu consentimento. A vida não era muito melhor lá, ou você fazia o que eles queriam ou você morria. Nenhum de nós tinha opção. Mas agora tem. Não vou forçar vocês a nada, mas, mesmo não querendo por todas as minhas esperanças em suas palavras, aquelas duas deram total apoio, inclusive cedendo equipamentos melhores a nós. E mesmo sem isso tudo, eu não hesitaria em arriscar minha vida para isso. É para quem já morreu, como nossos companheiros da Guerra do Norte, os que se foram antes disso. É talvez para os guerreiros que estão hoje na Ordem, para os aprendizes, para quem ainda pode ser pego. É para mim mesma também. Vocês decidem se querem ir ou não, mas mesmo se todos vocês me abandonassem, eu não hesitaria, pois mesmo que morresse, eu morreria de mente limpa, porque eu tentei. Tentei fazer algo que talvez fosse melhor para o futuro, talvez eu poderia inspirar um motim ou talvez alguém que viria muito depois. Mas eu iria com a consciência tranquila. E vocês?

Baixei meu olhar depois do seu praticamente discurso. Meu peito estava doendo. Eu realmente não queria que alguém passasse o que eu passei, mesmo que as possibilidades de alguém ficar com metade da própria alma fossem absolutamente remotas, mas... Eu fora vendido, sem sequer poder protestar. Vira meu amigo virar um monstro, e também a frieza como todos eram tratados. Vi o meu irmão morrer. Pensei em Pietro, tão pequeno e jovem, e já era um híbrido. Pensei em todas as crianças órfãs que vira hoje, principalmente Alice. Sabia que elas eram o tipo preferido da Ordem. Sem família, sem problemas. Elas podem se tornar tantas coisas no futuro, mas tudo pode ser arrancado pela Ordem, que lhes põe rédeas e as obrigam a visualizar apenas um tipo de futuro. Como acontecera comigo, e com todo mundo.

Soltei um longo suspiro ao me deparar com isso, meu peito já doendo quase que insuportavelmente. Era isso, não era? Passei a mão em meu cabelo, antes de dizer:

- Bem, se vamos todos morrer, eu já tenho meio caminho andado, não tenho? – falei. – E... Acho, não, tenho certeza de que, se Yudai estivesse aqui, ele estaria ao seu lado. Ele pensava sobre o que você dissera muitas vezes antes de morrer. Ele diria que a oportunidade não poderia ser desperdiçada, e, pensando melhor, não pode mesmo. Então eu vou.

Anita me olhou, claramente agradecida. Talvez a possibilidade de que nenhum de nós a apoiasse a assustava, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que ela iria mesmo sem nosso apoio.

- Eu estou envolvida nisso desde o início e não tenho nada a perder mesmo. – Nina disse. – Então eu também vou.

- Mesmos motivos. – Alec disse.

- Argh, não me faça sentir culpado. – Diego disse, se levantando. – Acho que depois dessa, eu também vou.

Internamente achei que ele só ia porque ela iria, mas decidi ficar quieto. Nunca se sabe o que se passa na mente dos outros, e se bem... Não era hora de pensar em algo assim.

- Mas Anita, você disse equipamentos. – comecei. – Como assim?

- Elas disseram que há um centro de pesquisa na cidade que é capaz de criar materiais extremamente resistentes, então eles podem fazer algo por nós, como os protetores que Diego e Hideo usam. Não precisam todos responder agora. Darei um tempo para que pensem, depois podem dizer se querem ou não.

Foi muito rápido, mas quase todos saíram da casa, ficando apenas eu, Nina, Raquel, Anita e Ygor – que estava mais pra deitado-quase-caindo do que sentado no sofá. Anita suspirou e começou a se dirigir para fora, e não hesitei em segui-la. Quando estava à uma distância considerável da casa, olhei por cima de meu ombro e a chamei:

- Anita.

Ela olhou para mim e franziu o cenho.

- O que foi?

Olhei novamente, certificando de que não havia ninguém por perto.

- Lembra da coisa de fogo? – ela assentiu. – Ele apareceu ontem de novo.

- O que ele queria? – perguntou, parecendo se tornar ainda mais séria.

- Ele... Pediu para que eu fosse a um lugar.

Ela me olhou com cautela, como se estivesse realmente pensando nas possibilidades. E a “ótima” primeira impressão que Daichi deixara com certeza havia marcado todo mundo e havia deixado uma impressão bastante ruim.

- Alguém mais sabe disso? – perguntou.

- Raquel. – respondi.

- E por que você está me dizendo isso?

- Para saber se depois de tudo isso, não tem problema de ir.

Anita parou e me encarou com uma expressão como de quem realmente estava tentando acreditar que eu estava falando sério.

- Da última vez, ele lhe causou um ferimento muito feio. – disse. – Você confia nele?

- De certa forma... Sim.

- Você se mete em problemas muito facilmente. – suspirou. – Mas sabe se cuidar.

- Isso seria um “Não tem problema você ir.”?

- Problema tem, mas acho que as chances de você ir para um suicídio são muito mais altas para o que estamos planejando do que seja lá para o que você esteja sendo mandado. – respondeu. – Eu acho que irei precisar ir ver umas coisas, então estou tendo que ir, a menos que você vá junto.

- Não, eu vou ficar. – respondi, e ela logo sumiu.

Fiquei parado primeiro, tentando pensar para onde iria, se voltava para casa, se perambulava pela cidade ou fazia qualquer outra coisa, aí meu estômago me lembrou que eu ainda não havia comido nada, então voltei pra casa para procurar qualquer coisa comestível. Depois de comer, subi para o quarto e abri o guarda-roupa, pegando aquele bracelete, e fiquei impressionado. Nele estava gravada a imagem de um lobo de pelagem que misturava o alaranjado do âmbar ou citrino e possuía partes brancas como se fosse feitas de opala deitado sobre um gramado de esmeralda e um céu de água marinha. Somado ao ouro, ele ficava ainda mais caro.

O bracelete era separado em três partes, a central era a do lobo, as duas abriam-se para fora como duas portas. Havia uma pedra de obsidiana na parte esquerda que com um encaixe de ouro da direita, formava um fecho. Abri-a e vi que havia um nome nela gravado, porém parecia ser tão antigo que estava apagado, fazendo com que eu não o visse com clareza.

Fechei-o novamente e pus no armário. Acho que vou ter de esperar um pouco antes de ir para onde Daichi dissera, sendo que ele dera o máximo de informações possíveis para não dizer o contrário. Esperava que aquilo ao menos ajudasse um pouco.

Saí da casa novamente e vi que as ruas estavam bem mais movimentadas, era só baixar um pouco o olhar que a maioria das pessoas não reparavam no que eu era, só algumas poucas. Havia soldados do templo por toda parte que me olhavam torto, mas os ignorei, indo para qualquer lugar onde meus pés me levassem, literalmente. Dobrei uma esquina onde não havia ninguém, apenas um enorme pedaço de entulho. Ergui-o e tirei-o do caminho com uma das mãos e então subi num prédio meio destruído e fiquei sentado lá observando a cidade até anoitecer.


Notas finais
Acho que uma das cenas mais esperadas está aí. Fiquei orgulhosa dessa fala da Anita u.u
Cara, o Pietro é um dos meus personagens favoritos, ainda mais quando ele for maior, embora não acho que a saga vai se estender até ele estar adolescente... Ou talvez sim. Se ele falasse comigo como ele falou com os rapazes eu me assustaria, sério.
A cena do orfanato acho tão amor. Principalmente a parte da Alice. Acho ela fofa, e é meio que uma homenagem à algumas pessoas da minha família, pq em ambas as partes tem histórico de câncer...
Ei, é impressão minha ou o Hideo meio que está voltando a ser o Hideo? Bom, vocês que vão ver aí.
É isso, eu estou voltando a responder reviews (combatendo minha preguiça suprema), então, mandem eles!