Meia Alma
10 Capítulo 9 - Apenas dando uma olhada.
Notas iniciais
Eu deveria ter postado ontem, mas não consegui. Ontem, a Bia, minha cachorra maltês de doze anos morreu. Foi muito rápido, ela entrou na casinha dela, levamos ela pra fora e quando minha avó abriu a porta ela tava morta, sequer teve tempo de fechar os olhos.
Ela era dois anos mais nova que eu, literalmente. Moro com meus avós desde os três, então cresci com aquela cachorrinha do lado, foi muito triste e repentino, chorei o dia inteiro, enquanto minha avó ainda está muito abalada. Ela já faz uma falta imensa... Espero que, mesmo que tenha sido por um animal, vocês compreendam...
O garoto franziu a testa revelando que estava despertando, provavelmente já sentia a dor de seu braço. Peguei o braço dele e pus-me a sua frente, esperando-o acordar. Ele entreabriu os olhos e começou a erguer o braço o qual terminava abaixo do cotovelo e joguei o resto ao seu lado. Ele arregalou os olhos e olhou para mim, então o vi tateando o chão ao seu lado. Direcionei minha Aura até seu pescoço e ele arregalou os olhos, provavelmente deveria senti-la gelada como uma lâmina pressionada contra seu pescoço.
- Q-quem é você?! – perguntou, a voz ligeiramente esganiçada.
- Você vai poder fixar seu braço, não se preocupe. – falei.
Ele me olhou assustado, parecendo procurar algo o que dizer, então me abaixei ao seu lado.
- Você sabe o que era a coisa negra que estava em seu rosto?
Ele olhou nervosamente para mim, e seus olhos estavam inquietos. Ele estava com medo, e não tinha como não estar.
- E-eu não sei. – gaguejou. – E-ela só...
- Falava todo tipo de coisa. Eu sei como ela é. – respondi. – Ela o incitava a me atacar, não é?
Ele engoliu o seco, mas assentiu.
- Ela dizia que você era culpado de muitas coisas... – ele falou em voz baixa no exato momento em que me levantei. – E-ela fazia, não sei, não sei o que ela fazia, mas era um ódio extremo contra você.
- Eu percebi. Qual o seu nome?
- Raiden. – respondeu, engolindo o seco.
Nome estranho... Mas se bem que o meu nome é Hideo, fazer o quê.
- Quantos anos você tem?
- D-dezessete.
- Você é do norte?
Ele assentiu.
- Com quantos anos você virou híbrido?
- Doze. – respondeu, movendo-se desconfortável por sua posição e percebi que ele havia notado a posição em que estava com a garota, e também deveria ser por causa da dor em seu braço.
A coisa preta o instigava em um ódio extremo contra mim. Deveria ser isso. Ele era do norte, e para que pudéssemos lutar no norte a população teve de ser deportada. A casa dele era lá, provavelmente ele vivera lá. Eu ficaria muito irado se me tirassem de minha casa para ela ser destruída, lembrava-me muito bem de as pessoas terem deixado tudo para trás – já que, afinal, possuía até mesmo móveis nas casas -. E foram apenas dois anos para virar híbrido, ou seja...
- Está explicado. – bufei.
- H-hã? O quê?
- Se você guardar segredo da Ordem, talvez eu lhe diga. – falei, quase que nem dando atenção a ele. O jeito que agia não me dava lá muita firmeza.
- Tudo bem. – me disse com uma firmeza que me provou o contrário.
Ergui uma sobrancelha para ele. Seria seguro falar alguma coisa para ele? Ele estava com uma feição que misturava medo com uma espécie de determinação. Talvez ele quisesse respostas, embora eu nãos as obtivesse em sua totalidade, porém, muitas vezes, era melhor pouco a nada.
Mas também havia o grupo. Não poderia dizer se era realmente seguro, não era apenas eu, afinal, eu fazia parte de um grupo. Se aquele garoto desse com a língua entre os dentes, poderia acabar gerando consequências para todos, não apenas para mim.
E consequências de meus atos já me bastavam a que me fazia lutar todos os dias.
- Acho bom você realmente guardar segredo. – me abaixei ao seu lado novamente. – Você pode acabar se arrependendo não por minha causa, mas por outra coisa.
Ele assentiu e retirei minha Aura de seu pescoço, permitindo-o a se sentar. Olhei para cima, certificando-me de que ninguém do grupo estava ali, então comecei.
- Há sete anos toda a população do norte foi transportada para que sobrevivesse, enquanto metade da Ordem foi enviada para que impedisse o avanço de Despertados, mas a missão foi fracassada e todos, inclusive o número 1 da época morreu, é essa a história, não é? – perguntei e ele assentiu. Ergui um dedo e respondi. – Mentira. Alguns sobreviveram, mas a Ordem tentaria eliminá-los, pois eles saberiam demais. Meu nome é Hideo, eu estava naquela missão. Pergunta número 1, respondida: Porque sentir ódio de mim: Minha ida com os outros forçou sua saída de casa.
- Por que... A Ordem se livraria de vocês por saberem demais?
- Ah, você não sabia? Se você sabe de algo que a Ordem considera perigoso, ela te elimina. – falei. – Rápido e fácil. Quando pisamos na cidade percebemos que era uma missão suicida, mas um plano do Yudai conseguiu fazer com que alguns sobrevivessem.
Ele olhou para o chão, e escutei-o murmurar enquanto eu me afastava:
- Se ele era o número 1, por que ele mesmo não sobreviveu?
Olhei-o por cima de meu ombro e meramente respondi:
- Por que eu o matei.
Nem pensei duas vezes antes de voltar para o topo da montanha. Na verdade, não tive coragem de ver a expressão de Raiden. Medo, incredulidade, dúvida? Não sei, sei que fui covarde o suficiente para temer a mera reação de um garoto cujo sequer sei a numeração.
Que patético.
- Graças aos deuses, pensei que você e o garoto já tinham começado a se matar de novo. – Alec disse no exato momento em que adentrei a clareira.
Apenas balancei a cabeça e me joguei contra as raízes de uma árvore próxima e toquei no ferimento em meu ombro, girando-o e verificando a dor. Maldição, ao menos parecia que eu não havia rompido algum músculo ou tendão, então estava tudo bem – pelo menos por enquanto.
- O que você estava falando com ele? – Anita perguntou. – Não era nada importante?
- Apenas perguntei quais eram os efeitos da coisa nele. – respondi. – Nada muito importante e acredito que ele irá pensar duas vezes antes de dizer algo sobre mim.
Ela me encarou, mas apenas ignorei seu olhar sobre mim, apenas me encostei contra a árvore e fechei os olhos.
Acho que preciso dormir.
–x-
- Ei Zenon, eu já vou dormir, você não vai? – Hadraian perguntou, olhando por cima de seu ombro.
- Não. – respondi, dando de ombros. – Vai lá se quiser.
Ele balançou a cabeça como se ponderasse. Seu cabelo branco era até a altura dos pequenos olhos vermelhos e amendoados – ou seja, meio puxados – na testa e até a nuca na parte de trás da sua cabeça. Ele tinha uma estatura média, e era magro, mas com uma estrutura corporal forte. Ele nunca falara nada, mas eu sabia que ele era do norte, e aquilo me incomodava. Não é por preconceito ou coisa parecida, mas atualmente, na Ordem, tem tanta gente que tem traços nortistas que acabam me deixando com a pulga atrás da orelha. Tudo bem que toda a população havia sido movida, mas haver tantos híbridos daquele jeito...
Bati com a minha cabeça na parede e o barulho foi tão alto que verifiquei se ele não Hadraian não havia retornado. O meu colega de quarto já me conhecia tão bem que acho que mesmo se ele estivesse escutado não voltaria.
Eu em questão não nasci no norte, apesar de ser descendente de lá. Tenho 21 anos, tinha 14 quando metade da Ordem foi para lá. Lembro que todos acharam aquilo muito estranho, mas meio que deixaram pra lá, já que o número 1 estava na missão. Ainda me lembro dele – ele era muito alto... Difícil não lembrar. -, já que era comum vê-lo no refeitório com seu irmão gêmeo, o número 9.
Pena que todos morreram naquela missão.
Algo chamou minha atenção, tirando-me de meus pensamentos. A essa altura, eu andava por cima da beirada do telhado, e senti um ponto quente se aproximando. Olhei para o gramado e vi o babaca, idiota, ingênuo do Raiden. Outro do norte. E ele estava voltando. Difícil não ver de longe que ele parecia meio que sem expressão. Aquele cara quase tinha medo da própria sombra, mas dessa vez tinha algo realmente errado, e ele andava encarando os próprios pés.
Ele entrou no prédio, mas tomou caminho à biblioteca da Ordem – pelo que sua Aura dizia. Esqueci-me de dizer que sou um rastreador. – e acabei o seguindo. Tem algo errado com esse idiota. Ele só foi matar um monstro normal, qual é. Ignorei a escadaria que levava à biblioteca e saltei, mas escorreguei e dei de cara no chão. Absolutamente normal.
Levantei, limpei minhas roupas como se nada tivesse acontecido ignorando a dor lancinante em meu nariz e entrei no recinto com luzes amarelados e estantes até onde a vista alcançava. A biblioteca da Ordem era enorme, tinha ali estantes do tamanho de enormes paredes, e talvez ainda faltasse lugar para alguns livros...
Encontrei Raiden olhando para o enorme mural onde estavam os símbolos, primeiros nomes e numerações dos guerreiros mortos na Guerra do Norte. Agora sim, posso falar com todas as palavras para aquela cena: Que. Bizarro.
- Ei, o que você está procurando? – perguntei. Ele estava muito estranho.
- Tinha alguém chamado Hideo na Guerra do Norte? – perguntou.
-... Tinha. – apontei para a primeira fileira horizontal. – Ele era o número 9.
- Você foi a alguma missão com ele?
- Hã... Sim. – estranhei a pergunta repentina.
- Como ele era?
-... Otimista. – respondi, franzindo o cenho. – Ele era engraçado também, mas às vezes parecia estar no próprio mundo dele.
Ele franziu o cenho.
- Tinha alguma chance de ele matar o número 1?
Que raios de pergunta é essa?! O que você andou fumando Raiden?!
- Não. – respondi de primeira. – Nem tanto pela diferença de numeração, mas porque – apontei para o primeiro símbolo. – ele e o Yudai eram gêmeos.
Ele arregalou os olhos, parecendo chocado e empalideceu, o que me fez questionar suas faculdades mentais. O que aconteceu com esse garoto — tudo bem, quatro anos mais novo que eu. Mas ele é mais novo de qualquer jeito. — durante a missão dele?
- O que foi?
- Acho que vi um fantasma. – respondeu simplesmente.
Notas finais
Por favor, comentem.
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