Meia Alma
3 Capítulo 2 - Estranha... Rotina
Notas iniciais
Espero que gostem deste cap.
Saltei dentre as rochas da montanha que estava próxima ao local onde o grupo lutava contra apenas um Despertado. Quer dizer... A “colorida” estava inconsciente e ninguém no grupo fazia menção de ir ajudá-la, talvez por pensarem-na como inútil. Eu realmente discordava com suas atitudes, mas a besteira estava feita.
Estranhamente silencioso, dado o fato de que eu calçava botas de ferro, me aproximei do local, sendo seguido por Maurice. Eles não perceberiam minha presença, assim como o Despertado contra quem lutavam. Ele parecia um enorme gafanhoto negro, sem nada de mais. A única coisa interessante em sua aparência foi que suas patas possuíam lâminas nas pontas, apenas isso.
Sim, eu admirava a aparência de Despertados. Mais uma prova de minha não completa sanidade mental.
Olhei por trás das montanhas e vi os outros dois Despertados, à espreita, esperando o momento para atacarem. Um lembrava um ciclope, tirando ao fato de que sua cabeça era cilíndrica com a ponta em formato de ovo e possuía presas de aranha no lugar de uma boca. Sua cauda de lagarto ricocheteava lentamente de um lado para o outro. O outro parecia... Uma... Espécie de guarda-chuva enorme com um olho dentro de um quadrado e no lugar do cabo do guarda-chuva existia um pé quase humano. Era uma das formas mais ridículas que eu já havia visto.
Antes que eu ou Maurice reagisse, o Despertado/guarda-chuva abriu-se e atirou uma chuva de estacas em direção ao grupo. Está bem... Ele poderia ser ridículo, mas era eficiente. Todos foram acertados, sendo que sua comandante fora acertada um pouco acima do peito, o cara na costa e a outra garota bem no estômago. Somente para variar, todos perderam a consciência.
O Despertado que parecia-se com um ciclope começou a se aproximar, falando de algo como se divertir... Com as garotas, para depois devorá-las. Mantive-me em meu esconderijo até que ele se aproximou do local de onde eu estava. Ele era quase do tamanho da montanha, porém mais baixo do que a altura de onde eu estava.
Tomei distância e disparei a toda velocidade em sua direção. Quando ele fez menção de se virar, cortei sua cabeça ao meio. Os outros dois gritaram algo e seu corpo caiu pesadamente ao chão, a ponto de fazê-lo tremer, a neve levantando-se um pouco.
— Tem outro aqui! – o gafanhoto – agora quase que desmembrado – exclamou.
— Espera, ele é ruivo?!
Antes que o guarda-chuva disse outra coisa, saltei e o cortei em pequenos pedaços, quase que irreconhecíveis. Havia treinado um meio de conseguir utilizar alta velocidade sem precisar mais de minha Aura, então...
Senti uma pontada em meu braço direito e bufei ao ver que o gafanhoto havia me acertado. Ele movia freneticamente suas pernas remanescentes numa tentativa de me acertar, porém, eu desviava com facilidade, já que conseguia ver os locais por onde ele me atacaria com antecedência. Peguei o símbolo que estava no cordão de elástico negro enrolado em meu pulso, transformei-o em uma claymore e joguei em sua direção.
A espada de Yudai atingiu certeiramente sua cabeça, fazendo com que seu corpo caiu para trás, levantando a neve como se fosse poeira, e logo seu corpo voltou a ser humano, a espada soltando-se e caindo sobre a densa neve que se manchava com seu sangue.
Peguei minha espada, fazendo-a virar novamente o pingente pendurado ao elástico negro que eu usara desde sempre, e o passei por meu pescoço novamente. Fui até o Despertado que acabara de matar, peguei a espada de Yudai e a transformei novamente em seu símbolo. Enrolei seu símbolo em meu pulso direito, como sempre fazia desde... Aquele dia. Maurice ainda olhava de cima da montanha, atônito, provavelmente devido a velocidade em que eu matara os Despertados. Porém, logo saltou em direção ao chão, se aproximando rapidamente.
Voltei em direção aos híbridos inconscientes da Ordem e verificando seus ferimentos. Nenhum ali corria real risco de morte, o problema era a garota loira. Ela estava prestes a acordar. Ignorando-a ligeiramente, removi a estaca que estava cravada no ombro direito da comandante. Ela se remexeu como se sentisse dor, mesmo que estivesse inconsciente. Quando tirei aquilo, o sangue fluiu um pouco mais, manchando a neve.
— O q...
Fui em direção à garota rapidamente, tapando sua boca antes que ela falasse algo que fosse capaz de acordar os outros, já que já havia visto várias vezes pessoas desmaiadas acordarem ao escutar algo. E eles não estavam fingindo. Seus olhos se arregalaram, provavelmente pensando o que todos os Despertados pensavam ou falavam quando me viam: “Oh nossa! Ele é ruivo!”, ou coisa parecida. Olhei para Maurice, que assentiu e se aproximou. Os olhos da garota se arregalaram mais ainda, com uma expressão de “O que ele vai fazer?!’’. Ele segurou o rosto dela, obrigando-a a encará-lo e olhar dentro de seus olhos. Ergui o olhar, encarando o céu, sem soltar sua boca, mas ainda assim consegui ver a brilhante e violenta luz vermelha.
— Está feito. – Maurice disse.
Colei meu polegar na palma de minha mão, mantendo os dedos retos, e bati com real força na nuca da menina. Seus olhos rolaram nas órbitas e soltei sua boca e sua nuca, fazendo com que ela caísse no chão.
Essa era uma habilidade especial dele, Maurice podia fazer as pessoas se esquecerem de certos fatos.
Levantei e voltei para onde os outros estavam, tirando as estacas de seus corpos juntamente com Maurice, quando Alec e Ygor começaram a aparecer dentre a neve, o vento assobiando, tirando suas capas e demonstrando suas roupas negras.
— Vocês acabaram com esses três? – Ygor gritou, para fazer-se ouvir diante o vento.
— Sim. – respondi. – Depois que todos aqui perderam a consciência.
— Tsc, algum deles te viu?
— Só a menina loira, mas eu já cuidei disso. – Maurice respondeu com uma voz extremamente baixa.
Alec deu uma olhada na garota loira, curioso.
— Estranho... Será que quem fez a cirurgia dela não era muito qualificado?
Não respondi, apenas tirando a as estacas do pessoal que foi atacado. Ygor jogou a loira sobre seus ombros como se ela fosse um saco de batatas e pegou o cara pela cintura, segurando-o debaixo do braço.
— Vamos tirá-los daqui de perto. – Alec disse, jogando a comandante sobre o ombro. – Se eles encontrarem os túmulos do pessoal, estaremos ferrados.
Ah sim... O vale onde enterramos todos os mortos da Guerra do Norte era perto daqui.
-... Por quê? – Ygor perguntou enquanto eu levantava.
— Primeiro, iriam notar algo estranho. Quem enterraria todos os mortos se não tinha mais ninguém no norte? – Alec começou, enquanto Maurice colocava a outra garota nos ombros. Era um tanto estranho, pois mesmo naquele estado, ela era mais alta do que ele. – Os Despertados não seriam.
-... E poderiam notar a falta de símbolos. – Falei por fim.
Quando enterramos todos os corpos, decidimos que deveríamos cravar os símbolos de cada um sobre seus túmulos, assim demarcando o local onde estavam os corpos de determinados híbridos. E também não ter a surpresa desagradável de quando fosse enterrar um corpo, acabasse desenterrando outro. Poderiam pensar que fora um acidente ou coisa assim, mas nada justificava o fato dos corpos terem sido enterrados e as armas cravadas ali.
Os três dispararam em direção ao sul, então me virei e fui em direção à enorme caverna que nos servia de moradia desde que passamos a morar aqui. Logo senti que Anita não estava ali, assim como Susana e Nina. Saltei as pedras da montanha e fui para a entrada da caverna.
Entrando lá, vi a usual fogueira acesa para dar um pouco de claridade ao local, sendo ela, porém, longe da entrada da caverna, para evitar que ela fosse apagada pelo vento e neve.
Tirei a capa branca, deixando-a dobrada num canto, então adentrei ainda mais na caverna. Passei por alguns “corredores”, até que entrei na galeria onde Alma procurava alguns objetos. Apenas fui atrás de faixas ou coisa parecida e Alma deu um pulo quando me viu.
— Ei! Faça algum barulho que indique que você tá chegando!
Contive um suspiro ao constatar que era a segunda vez que alguém dizia aquilo para mim. Ainda mais quando Alma continuou:
— O que tem de errado com você? Suas botas são de ferro e você não faz nenhum barulho!
Hã... Realmente, isso era estranho. Talvez tivesse algo errado comigo mesmo.
Peguei as faixas e saí de lá, quando Alma puxou uma panela, empunhando-a como se fosse uma arma, exclamando um “ahá!”. Revirei os olhos e fui para as galerias mais profundas, entrando numa determinada que estava à minha direita. Era pequena, e na verdade, funcionava mais como quarto, mas ali só existia o colchão com lençóis envelhecidos e um travesseiro que eu usava como cama.
Sentei no chão velho e tirei as luvas. Com a mão, esfreguei distraidamente o sangue que escorria por meu braço. Tecnicamente, eu poderia usar minha Aura para curar os ferimentos e suprimi-la perfeitamente após, mas certas pessoas ficariam escandalizadas então, para evitar dor de cabeça, era melhor fazer do velho modo.
— O que aconteceu com seu braço?
Levantei o olhar e vi Raquel parada na entrada, seu olhar preocupado, o que para mim, não fazia muito sentido. Não precisava se preocupar, era só enfaixar o meu braço que estaria tudo bem, mas decidi responder.
— Um Despertado, ou melhor, três. – suspirei. – Acabei com dois e terceiro atingiu meu braço, mas está tudo bem.
— Seu braço está coberto de sangue. – observou. – Não pretende enfaixá-lo assim, não é?
Bom, na verdade pretendia, já que não me importava muito. Dado ao fato que eu não ter respondido, Raquel suspirou, então não importei em manear a cabeça afirmativamente.
— Se seu braço ficasse podre e caísse, você iria reclamar. – disse, e tive de admitir que ela tinha razão. – Espere aí e não faça nada.
Ela saiu antes que eu dissesse qualquer coisa, então somente dei de ombros, não me importando sequer com meu braço latejante. Doía, mas normalmente eu não me importava com ferimentos como esse, que chegavam a ser quase insignificantes. Bom, a dor era quase nada comparada a dor de meu peito, que fazia questão de jamais me deixar. Olhei para meu braço ensanguentado. A maioria das pessoas ficaria horrorizada de ver algo como isso, mas para mim não era nada. Já havia visto coisa pior. Muito pior.
Senti algo tocar úmido meu braço e praticamente dei um pulo, estando sentado. Raquel claramente prendeu o riso ao meu lado, cerrando os lábios.
— Estava distraído com nada? – questionou.
— Sim, estava. – confessei, já perdendo completamente o interesse. – Derreteu neve?
— Basicamente. – respondeu.
Olhei para o pano e falei:
— Eu posso fazer isso.
— Você irá fazer de qualquer jeito.
É, novamente ela estava certa.
Eu não conseguia me importar com nada.
Notas finais
A PRIMEIRA FALA DO MAURICE!!! XD
Tá, ele é caladinho, mas deixando isto de lado...
Eu estou já vendo algumas editoras para que Olhos de Sangue seja publicado, nas férias veremos com mais calma! Talvez ano que vem ele entre no mercado!
Bom, críticas? Elogios? Tudo nos reviews!
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