Meia Alma

15 Capítulo 14 - Aparição


Notas iniciais
Aee pessoas, ia postar ontem, mas não deu @.@
Não sei muito bem o que dizer aqui, então vamos falar de música! A partir da cena que Hideo sai da casa, comecei a escutar isso aqui. Acho que ajuda na cena:
http://www.youtube.com/watch?v=muLoBrTMuhY
Espero que gostem u.u

Ainda estava deitado de costas na margem do rio, recuperando o fôlego, e sentia que Raquel mantinha-se quieta ao meu lado, sua respiração aos poucos voltando ao ritmo normal e seu coração descompassado era audível, assim como o meu, porém havia o vazio frio em meu peito, e ele estava doendo. O céu estava escuro com apenas a luz e as estrelas servindo de iluminação e senti diversas Auras em movimento, pútridas e azedas se movimentando por perto. Estalei minha língua, pois o cheiro parecia se estender até o meu paladar, mas ao menos agradeci o fato de Raquel estar por perto e que sua Aura com cheiro de baunilha amenizava um pouco, mas mesmo assim sentei.

— Tem monstros por perto. – Ela comentou num sussurro, calmamente, afinal, não representavam perigo algum.

— Percebi. – suspirei e olhei em direção à Aura e vi que uma “garotinha” aproximava-se timidamente a muitos metros de distância, com um limpo vestido amarelo e os cabelos loiros cortados curtos e retos. Usando minha Aura, simplesmente cortei sua cabeça e ela virou pó, então imediatamente as outras Auras começaram a debandar.

— Como você faz isso? – Raquel perguntou, e percebi que ela há havia se sentado.

— O quê?

— Você consegue materializar sua Aura.

— Quem conseguia era Yudai. – suspirei, esfregando o local que doía distraidamente. – Ele aprendeu isso depois... De levar uma surra do Nicholas. Acabou passando para mim também.

— Ah... Nicholas. – ela disse num tom meio morto e eu sabia o motivo.

— Sim... – falei num tom distraído e ergui o resto do cordão, encarando-o.

— Esse é o símbolo dele.

Não fora uma pergunta, e sim uma afirmação.

— Eu sempre levei comigo nesses sete anos, mas ninguém reparou. – joguei o símbolo no ar e o peguei quando estava na altura de meu rosto, então ela o pegou de minha mão. – Estava no meu pulso, mas de tarde... Bem, teve um acidente.

— Então precisa encontrar alguma coisa para prendê-lo, porque acho que você não ficaria feliz se o perdesse.

Assenti e preparava-me para dizer algo sobre ter que procurar quando me enrijeci. Uma Aura aparecera do nada, e era uma Aura de híbrido. Bastante sutil, talvez tivesse se aproximado antes, mas eu não percebera, seu aroma era uma mistura, conseguia discernir o cheiro de noz, gengibre e pimenta.

— Tem alguém aqui. – Avisei, me levantando.

— Não sinto nada. – Raquel disse, então a puxei pelo braço, fazendo com que levantasse.

— Mas tem, vamos...

Assustei-me quando vi que o cara estava já bem na minha frente, entre eu e Raquel. Sequer sentira-o se mover. Ele tinha minha altura, dava para ver exatamente, e usava um macacão preto, com diversas partes de armadura, como ombreiras, usando um capacete ovalado que lhe cobria quase todo o rosto, deixando apenas a boca e o queixo para fora.

— O... – comecei.

— Traidores. – disse apenas num macio, que passava um falso ar de tranquilidade. Aquele tom de voz em que a pessoa parece que vai te matar a qualquer instante.

Depois só senti a dor lancinante em meu ombro.

Soltei um grunhido e imediatamente larguei Raquel, recuando, sentindo o sangue espirrando em meu rosto e escorrendo quente em meu corpo. Cerrei os olhos. Quando infernos aquele cara havia me atacado?! Tentei atacá-lo com minha Aura, mas ela simplesmente não se moveu. Como?!

Falando nisso, ele havia sumido. Olhei envolta, segurando meu ombro machucado, e vi que Raquel fizera o mesmo. Sua Aura não deixava rastro algum, e não dava para fazer a mínima ideia de onde aquele cara viera. Examinei o mais rápido que pude o ambiente e vi duas folhas secas rodopiarem sem nada.

Era isso.

Abaixei-me no exato momento que ele ia dar um chute, talvez sim muito bem dado em mim. Vi-o murmurar algo, mas Raquel lhe acertou um chute na cabeça, e vi claramente o capacete rachando-se com o impacto, mas não o quebrou, e isso o irritou. Ele se moveu e só escutei uma espécie de gemido estrangulado de Raquel e o som que reconhecia muito bem como de sangue jorrando. Ia me virar, preocupado com ela, mas o cara apareceu próximo a mim novamente, agarrando o meu pescoço. Arrastou-me e me jogou contra uma árvore, que quebrou. Levantei, mas ele de repente agarrou meu rosto com a mão, tapando meu campo de visão e me jogando novamente contra a madeira, e senti exatamente quando ela quebrou ao minha cabeça bater nela, o sangue também começando a escorrer quente por meu pescoço.

Quem diabos era aquele cara?! A força dele não era normal!

— É ele? – perguntou a alguém, e só então percebi que havia mais uma Aura ali. E eu já havia sentido antes.

Escutei passos hesitantes. Acertei uma joelhada no queixo dele, e a dor lancinante veio, mas em meu outro ombro, e ele me girou, jogando-me no chão dessa vez. Lutei para levantar, mas ele me empurrou contra o solo com ainda mais força. Vi dois pés hesitantes aparecerem em meu campo de visão e forcei a olhar para cima.

Era Raiden.

Ele estava assustado. Dava para ver em seus olhos. Droga, ele tinha dado com a língua entre os dentes? Comecei a ficar irritado, mas aquele cara fazia alguma interferência em minha Aura, não sabia explicar. Simplesmente não conseguia usar o Corte para sair daquela situação.

— É ele?! – exclamou irritado, e Raiden pareceu engolir o seco, olhando de mim ao cara do capacete, então assentindo

— É-é sim. – disse, logo fechando a boca, mas via claramente em seus olhos que estava desesperado. Grunhi, droga, eu tinha confiado naquele garoto, mas só então reparei em algo, mais especificamente, em seu pescoço. Parecia... Uma coleira de ferro. Fina e prateada, e tinha três pequenas luzes esverdeadas ali. Ele não estava com aquilo na primeira vez que o vira, e não me parecia ser o tipo de coisa que o deixava feliz em usar.

Senti a Aura de baunilha de Raquel começar a se mover, numa tentativa talvez de curar seu ferimento e vir me ajudar, mas acabei gritando para ela:

— Não faça isso! Irá te prejudicar depois!

Xinguei internamente e com um esforço de outro mundo, comecei a levantar contra a pressão do cara que me segurava. Senti mais que vi sua mão se erguer, e rolei para o lado quando ele estava prestes a me acertar um soco. Grunhi, sentindo a rocha próxima se esfarelar e levantei. Ele fez um movimento rápido com a mão e uma espada apareceu nela, porém ela era completamente negra e sem símbolo algum marcado em sua lâmina, como era em todas. Curei- me o mais rápido quanto o possível e peguei o símbolo de Yudai no exato momento em que ele me atacou, com força o suficiente que não duvidava de que ele poderia arrancar os meus braços apenas com a força depositada.

A força dele não era normal.

Senti a terra sendo arrastada por meus pés, então dei um jeito de empurrar seus braços para o lado, mas ele tentou atacar minha cabeça. Abaixei-me no momento certo e tentei lhe dar uma rasteira, mas ele saltou para trás no momento certo, quase acertado Raiden que foi jogou para o lado. Levantei e avancei contra ele, que rapidamente ergueu a espada para me impedir, mas aproveitei-me justamente de minha velocidade para desaparecer de sua frente e ir para o seu lado, e ele claramente não percebeu minha movimentação. Atravessei seu braço esquerdo com a espada e ela só foi sair no braço direito, fazendo-o gritar e escutei as exclamações tanto de Raquel quanto de Raiden.

Ele se contorceu e me acertou um chute, fazendo-me voar e cair na água. Escutei quando seus braços caíram nela, fazendo-a se tornar avermelhada, mas quando levantei, ele já estava terminando de fixá-los. Ele deu uma risada gutural e completamente psicopata ao meu ver, e seu sorriso era completamente psicótico e ensandecido de prazer masoquista, esfregando o próprio peito com força, quase como eu fazia quando ele doía.

— Você é forte.

Foi a vez dele de avançar contra mim, mas saltou quando já estava na minha frente. Girei, mas meus movimentos foram atrasados pela água, então mergulhei e fui para a parte mais funda quando o cara estava prestes a me acertar, e quando emergi, ele havia sumido. Olhei envolta de novo, mas não conseguia ver nada que me indicasse qualquer sinal dele. Vi Raiden em um lado da margem e Raquel do outro, abraçada a si mesma, com tanto sangue que me deu até enjoo, já que não vira onde o cara havia-a atacado.

Escutei o som de água se movendo e já me virava novamente quando vi Raiden aparecer na minha frente, aparando um golpe que acertaria meu rosto e com certeza faria com que eu desse adeus à minha vida, mas imediatamente reparei que era demais para ele. Empurrei-o para trás de mim, para dentro da água, mais especificamente para o fundo, enquanto via a boca do cara se retorcer em irritação. Ele preparou-se para me atacar e já me preparava para me defender enquanto escutava Raiden emergir para respirar, quando escutei um grito. Estridente, agudo e alto, insuportavelmente alto. Parecia ser capaz de quebrar vidro. Senti como se uma zona de impacto passasse por meu corpo e tapei os ouvidos, escutando Raiden praguejar e fazer o mesmo.

O cara sumiu e olhei por cima do ombro no exato momento em que o grito parou, vendo-o já na margem, com um ar totalmente aborrecido e disse:

— Você não serve para nada mesmo. Acho que aqueles seus amigos de olhos puxados vão sentir sua falta.

Ele estava falando com Raiden, então ergueu algo que me pareceu um pequeno pedaço de metal, amassando-o entre suas mãos, e simplesmente sumiu, indo embora, e imediatamente senti minha Aura voltar ao normal.

Fiquei sem entender até que escutei um pequeno e sutil apito, que me lembrava as bombas relógios de filmes. Olhei para o lado e vi que as luzes da coleira de Raiden estavam vermelhas e piscavam. Arregalei os olhos ao constatar o que era e ele já parecia em completo desespero quando tentei arranca-la, mas ela era rígida demais. Usei minha Aura, mas antes que a afastasse o suficiente de mim, ou pior, de Raiden, ela explodiu.

Fui arremessado para trás e escutei um zunido se espalhando por meus ouvidos, minha visão se tornando desfocada, com um ardor se espalhando lancinante por mim, antes de tudo escurecer.

Quando acordei, estava num dos sofás da casa de Sacraelum. Pisquei, ainda olhando para o teto amadeirado, e escutei o burburinho e pessoas se movendo, então olhei para o lado, levantando, e vi Ygor, Diego, Raquel e Alma envolta do que não demorei a perceber ser Raiden. O corpo dele tremia e percebi que os três o seguravam para que não convulsionasse, permitindo a Alma curá-lo.

— Você acordou! – Alma exclamou.

— Argh, sim. – esfreguei o meu rosto. – Como ele tá?

— Venha ver você mesmo.

Dei a volta para vê-lo, e imediatamente me arrependi, pois era extremamente feio. Parecia que não havia pele na parte esquerda do rosto de Raiden, a pálpebra havia sido arrancada e o globo ocular estava virado para cima, indicando que ele não estava consciente, a carne estava escurecida e queimada, eu via seus dentes claramente, pois a pele de lá também havia sido arrancada. Os músculos chamuscados do pescoço me davam náuseas, mas não tanto quanto, ao descer mais, vi camadas de carne, gordura e ossos em seu tronco. Forcei a bile que subia por minha garganta a descer, era absolutamente horrível.

— Ele está bem mal. – Alma informou. – Pode morrer antes de eu terminar.

— Colocaram uma bomba nele. – falei, me abaixando perto a ela, sentindo o odor de carne queimada.

— Raquel nos falou. – Diego disse. – E que vocês foram atacados também.

Olhei para Raquel, que o retribuiu, mas um tremor se espalhou pelo corpo de Raiden, e sua mão queimada imediatamente subiu para a de Alma a agarrando. Escutei os ossos de Alma estalarem, e ela gritou. Arranquei a mão dele de cima da dela, prendendo-a no chão e foi a vez dele gritar, só então me fazendo lembrar que não havia pele ali e a carne estava queimada, a textura não era exatamente o que eu chamaria de agradável. Alma segurou a própria mão quebrada, choramingando, e vi o olho dele girando de um lado para outro em agonia, as lágrimas dando um jeito de aparecer.

— Sinto muito! – exclamei ao me lembrar do fato.

Alma suspirou, então voltou para Raiden enquanto nós quatro o segurávamos, mas então reparei que ele tinha uma força física incomum no momento em que ele rachou o chão com uma tentativa de se virar, que se provou ser outra coisa quando ele virou a cabeça e as pedras do piso começaram a subir e descer loucamente.

— Afinidade com terra. – Ygor assobiou.

— Raiden, se controle. – falei me desviando de um pedaço que subiu bem embaixo de mim. – Ela está tentando te curar, está escutando?

Vi claramente quando ele mordeu a própria língua a ponto dela sangrar e fiz uma careta. Aquilo com certeza deveria dar uma agonia dos infernos, pois eu estava me doendo só de vê-lo daquele jeito, e vi que Diego estava com uma cara de quem estava se segurando para não vomitar.

— Ele pode estar inconsciente ainda. – Raquel comentou.

Assenti e chutei uma pedra que vinha na direção de Alma. O piso da casa ficaria em uma situação lastimável, mas tudo bem. Percebi que Alma estava tentando claramente curar primeiro o pescoço dele, que estava bem feio, mas a situação estava tensa. Senti Susana entrar na casa e ela gritou, provavelmente por uma pedra que deveria ter saído de qualquer lugar. Depois do que me pareceu – e eu não duvido nada de que tenha sido. – horas, só faltava o rosto dele, e Alma parecia realmente cansada, mas ao menos não havia mais pedras voando para todos os lados. Sacudi a cabeça e tentei secar o sangue de minha testa no meu ombro, mas não deu muito certo, então vi a carne voltando a se tornar avermelhada, o cheiro de queimado ainda perdurando, porém.

Estava ficando alarmado, pois os batimentos cardíacos de Raiden estavam realmente lentos e francos, e via com mais clareza e precisão que ele estava inconsciente, depois de horas de agonia, com certeza. A pele começava a crescer por sua mandíbula escondendo os seus dentes, mas olhei um pouco para cima e praguejei, ainda mais por não ter percebido antes devido ao fato de estar com os olhos pregados nos ferimentos.

— Alma, olhe para cima.

— O quê? Ah, não! – ela exclamou ao perceber o cabelo de Raiden estava se tornando quase que completamente negro. – Eu não gastei todo esse tempo para você morrer não!

— Alma, não acho que ele esteja consciente para te escutar. – Ygor observou.

— Que se dane, minha mão não foi quebrada pra ele morrer! Da última vez que eu curei alguém tão feio ele já estava morto e obrigado!

Revirei os olhos, mas a pálpebra dele ao menos estava retornando, faltava muito pouco, mas mesmo assim o cabelo dele estava se tornando cada vez mais negro e cada vez mais rápido.

— Acabei! – Alma exclamou.

— E o cabelo dele tá todo preto! – Ygor exclamou.

Era verdade. O cabelo dele estava completamente preto e Raiden estava muito pálido, com os olhos e os lábios arroxeados. Todos prenderem a respiração e o encarando, vendo se ele reagia a algo. Escutei todos suspirarem aliviados quando lentamente os fios brancos começaram a aparecer. Olhei envolta e vi a sala parecendo um cenário de guerra, com pedaços de rochas para todos os lados, e com certeza quando o resto voltasse, teriam um enfarto.

— Acho melhor pormos ele encima do sofá e... Talvez... Tentar... Ajeitar a sala. – Diego sugeriu, mas logo pareceu se desanimar ao constatar seu estado.

— Sem contar o casal que ainda está coberto de sangue. – Ygor comentou.

- Casal?! – exclamei.

— Ora, ultimamente vocês andam bem próximos, achei que já tinham virado um casal.

Encarei-o com uma expressão que indicava que ainda não havia entendido qual lógica ele utilizara para que classificasse a mim e a Raquel como um casal, mas ele não pareceu dar muita importância, apenas vi Alma olhando de mim para ela com sua expressão demoníaca de quem iria nos infernizar pelo resto da vida como ela fazia com Alec e Nina.

— Deixando de lado se eles são um casal ou estão deixando de ser, estamos com problemas em relação a casa. – Diego disse, segurando Raiden melhor para carregá-lo.

— Eu percebi, se é se você me entende. – murmurei cético.

— O que aconteceu aqui?! – Anita exclamou atrás de nós e todos pulamos. Quando aquele fantasma entrara em casa?! Se bem que... Era Anita.

— Raquel e Hideo trouxeram um “amigo”. – Ygor disse fazendo aspas com os dedos. – Mas ele não fez por mal.

— Apenas destruiu o piso e parte da casa. – Susana disse de algum lugar.

— Quieta. – Raquel disse a ela.

— O que aconteceu aqui? – Anita perguntou novamente, porém desta vez de maneira lenta e compassada.

— Er, bem, digamos que uma bomba explodiu encima dele...

Ela se aproximou, desviando-se das pedras espalhadas por todos os cantos.

— E por que uma bomba teria explodido encima dele?

Escutei Diego e Ygor murmurarem algo.

— Talvez por que... – Raquel começou e abaixou o tom. – Nós tenhamos nos metido em problemas.

— Eles vão morrer... – ouvi.

— Que tipo de problemas?! – Anita disse com veemência pondo as mãos na cintura.

— Um doido apareceu e... – comecei.

A porta da frente abriu-se com estrondo, e o que inicialmente achei ser uma bala de canhão veio voando por ela em minha direção, acertando-me no estômago. Fui arrastado – arremessado – para trás, bati no sofá antes que Raiden levantasse, virou, e caí por cima dele, tentando desesperadamente encontrar um jeito de respirar, para só depois perceber dois bracinhos rodeando meu corpo, dando-me conta de que não era uma bala ou coisa parecida, apenas Pietro. Ele estava agarrado em mim, murmurando coisas incompreensíveis e sem nenhum nexo para mim.

— P-Pietro. – Ouvi Paola ofegar da porta da frente enquanto Raiden arrastava-se debaixo de mim. Pietro soltou-se de mim e agarrou-se na perna de Raiden, encarando-o com olhos grandes e arregalados.

— Ele vai morrer, ele vai morrer, ele vai morrer... – ficava repetindo de modo assustador.

Levantei com dificuldade, sentindo meus ombros doerem enquanto Raiden tentava desgrudar Pietro de sua perna, sem grande sucesso, que ainda ficava repetindo coisas assustadoras.

— Ele simplesmente enlouqueceu falando um monte de coisas e saiu correndo. – Ela explicou, parecendo ao mesmo tempo envergonhada e assustada com a reação do garoto.

Assenti e reparei que ainda usava o que restara de minha camisa, bastante manchada de sangue e bastante rasgada, mas não era como se antes estivesse em condições de perceber. Anita estava distraída com Pietro e Raiden, então aproveitei para subir antes que ela desse por minha falta e vi que Raquel já havia o feito. Peguei-a pelo braço e perguntei:

— Aquele cara tinha te machucado. O quanto?

— Foi do meu ombro ao meu estômago. – respondeu, indicando um local onde sua blusa ainda estava suja de sangue e rasgada. Notei que ela usava os braços para cobrir o local rasgado. – Foi bem profundo, mas não acho que ele quisesse me matar, apenas me fazer não atrapalhar.

Franzi o cenho. Aquilo me deixara incomodado.

— Talvez... Não posso dizer ao certo. – comecei. – Mas e aquele grito? Foi você também?

— Bem... Sim. Normalmente posso fazer minha voz ser atrativa, mas posso muito bem fazer o contrário, e, aliás, é mais fácil. Não preciso de Aura, mas é um pouco difícil. – admitiu e assenti.

— Acho melhor verificarmos se o encanamento não foi danificado, porque não tivemos exatamente um bom fim de dia. – comentei e ela assentiu, então fui para o quarto que estava usando.

Felizmente, o encanamento estava tudo bem, então tomar banho não foi problema, e quando já estava apresentável no quesito sem sangue em local algum, saí do banheiro, deparando-me com Raiden sentado no sofá, parecendo cabisbaixo, encarando as próprias mãos.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntei, passando-me também que se ele realmente chegou próximo à morte hoje, ele obviamente não estava bem.

-... Eles devem pensar que eu morri. – falou e escondeu o rosto entre as mãos.

— Quem?

Ele pareceu hesitar em responder.

— Meu irmão e o meu amigo. Eles estavam naquela situação também. Aquela explosão... Eles devem...

Oh droga. Qualquer um pensaria que Raiden havia morrido com aquilo, e ele de fato quase havia.

— Eu tenho uma pergunta Raiden. Como você, ou vocês, conseguiram se por nessa situação, a das bombas.

Ele apoiou a mão no queixo.

— Um amigo nosso sem querer matou um humano, e queríamos dar uma última falada com ele. Zenon escalou o prédio da Ordem, só que um dos Aparições estava lá, e outros apareceram e um deles o detectou, mesmo com os Supressores. – Disse. – Ele tentou fugir, mas o cara o seguiu, e quando eu e o meu irmão percebemos, já tinha outros dois atrás de nós. Eles nos arrastaram pra dentro e... Uma Aparição tirou o capacete. Os olhos dela brilhavam, era estranho, e ela fazia você soltar tudo o que sabia sobre qualquer coisa... – Ele abaixou o olhar. – Acabei falando sobre vocês, sinto muito.

-... No caso, esses Aparições que você se refere, seriam o quê? Tipo aquele cara que me atacou?

— Aquele cara é um Aparição. – respondeu. – Ninguém sabe direito quem eles são, apareceram de repente. Antes eram sete, mas esse... Bem, ele se juntou ao grupo há uma semana, mais ou menos. Até onde eu sei, eles não tem nome, só são chamado de Um, Dois...

— Por classificação de força? – indaguei.

— Não, por quando se juntam ao grupo, por assim dizer. Esse foi o último, então ele é o Oito. Pelo que entendi nessa confusão, ele é o mais novo e o mais forte. – fez uma careta. – O segundo mais forte é o Quatro. O resto, eu não sei. Só sei que eles são mais fortes até que as números 1 e 2.

Ergui as sobrancelhas. Aquilo explicava muita coisa.

— Adeline e Aagje, não é? – ele assentiu. – Se eles são mais fortes... Podem ser uma experiência, ou simplesmente terem sido escondidos dentro da Ordem. Mas nunca soube de híbridos criados dentro dela. – Comentei, lembrando-me de uma lembrança que não era a minha, a qual a Ordem tentava criar híbridos com partes de Despertados.

— Eles falaram algo sobre um híbrido criado dentro da Ordem que foi para a Guerra do Norte, mas só cogitaram a ideia de ele estar vivo. Mesmo que esteja, nunca contatou com ela, então se for um; de vocês, está do seu lado. – revelou.

Aquilo me pegou de surpresa. Um de nós poderia ter sido criado dentro da Ordem?! Isso nunca me passara pela cabeça, ainda mais que, tecnicamente, ficar falando do passado não era bom para nenhum de nós – para mim, principalmente -, então nem nos importávamos tanto. Todos sabiam a numeração de todos, mas só foram se conhecer mesmo depois do desastre e tudo mais. Por exemplo, eu só conhecia Diego “indiretamente” antes, por meio da mente de Yudai, só depois é que eu realmente falei com ele, ainda que não fossem lá grandes conversas.

— Você sabe se eles falaram o nome dele?

— Falaram, mas... – bateu contra a própria testa. – Esqueci. Não estava prestando muita atenção.

— Tudo bem. – soltei um suspiro e olhei para cima, deparando-me então com Ygor na escada, nos encarando. – Desde quando você está aí?!

— Desde ainda agora. – respondeu e deu meia volta o que achei estranho. Ele era do tipo que fazia algum comentário sempre. Apesar de tudo, era melhor não tirar conclusões precipitadas.

-... Ei. – Chamei e ele me olhou. – Provavelmente não vão fazer nada com o seu irmão ou com o seu amigo... Zenon o nome dele, não é? – Raiden assentiu. – Ou ao menos acho isso. Talvez possamos fazer alguma coisa por eles, mas, agora, não vai dar. Acho melhor não falar nada, se alguém for falar, acho melhor que seja Anita, pois ela é meio quem comanda.

Ele assentiu e escutei os outros se movendo pela casa, então apenas dei as costas e saí pela porta da frente. Não sabia o que fazer direito, mas não queria fazer nada lá dentro. Dei a volta na casa e me surpreendi ao ver que Raquel estava sentada meio encolhida contra a parede. Suspirei e fui até ela, que apenas me olhou quando sentei ao seu lado. Ficamos em silêncio por algum tempo, até que falei:

— As coisas foram estranhas hoje.

— Sim. – concordou, então se moveu antes de me dar o símbolo de Yudai. – Tome, ficou comigo durante... A confusão toda.

Olhei para o pingente que estava com apenas um pedaço de elástico, antes de guardá-lo em meu bolso. Apoiei minhas mãos em meus joelhos então olhei para frente em direção às luzes da cidade, fechando meus olhos. Que dia mais anormal. Não que os meus dias fossem exatamente normais, mas aquele fora bastante estranho, apesar de...

Estava com uma sensação estranha. Por algum motivo, qualquer coisa referente ao tempo em que eu tinha quinze anos vinha a minha mente, e ao menos para mim, aquilo era assustador. Para qualquer pessoa deveria ser momentos de boas lembranças, mas justamente essas boas lembranças eram o que me assombravam. Não sabia por que, apenas sentia isso. Talvez porque fossem justamente na época em que era bem mais inconsequente do que eu sou hoje em dia, e acabo me achando um babaca só de lembrar como eu era.

— Hm...

— O que foi?

-... Raquel, você gostava de Yudai?

— Hã, sim, como muita gente gostava, aliás. – respondeu, me olhando como se houvesse estranhado a pergunta repentina.

— Acho que você não entendeu a “profundidade” da minha pergunta. – comentei, de cabeça baixa, olhando para o símbolo em minhas mãos.

— Ah... Por que você está me perguntando isso? – escutei sua voz abafada e nem precisei olhar para o lado para saber que ela escondia o rosto provavelmente corado em algo.

— Me veio de repente. – respondi. – Bom... Não importa mais agora, mas posso dizer que ele tinha ao menos um interesse em você.

Mantive-me de cabeça baixa, movendo o símbolo de um lado para o outro. Se Yudai estivesse vivo, provavelmente eu teria levado uma surra por dizer isso.Mas se bem que talvez ele poderia estar com Raquel agora, porque acho que ele não seria tão sem atitude a esse ponto – ou talvez fosse, pois é do meu irmão que estamos falando.

E esse pensamento me incomodava.

Escutei-a se movendo desconfortavelmente ao meu lado, e ao menos em minha opinião, ela tinha motivos de sobra para tal, acredito.

— Acho que... Meio que posso dizer que já sabia.

— Era tão na cara assim?

Ela ficou em silêncio, e quase considerei um sim, até ela me dizer:

— Ele me beijou.

Sério, isso me pegou de surpresa. Incomodou-me e ao mesmo tempo me veio o “Quando?! Como eu não vi isso?!”. Olhei-a e ela estava ao mesmo com tempo com uma expressão envergonhada e entristecida.

— Q-quando?

— Foi... Quando ele acordou, e você estava quase completando o Despertar. Ele estava tentando levantar e eu fui tentar fazê-lo deitar, então ele me puxou e...

Balancei a cabeça. Estava explicado porque não vira nada.

— Entendi. – interrompi-a, desviando o olhar. – Mas não entendo como ele levantou... Aquele ataque de Adamantia com certeza rompera sua coluna...

— Alma estava o curando, mas... Ele não quis terminar. Ela havia acabado de curar a coluna dele.

Assenti, então olhei para cima. Já havia anoitecido há um bom tempo, quando eu e Diego havíamos saído do centro de pesquisas, agora já deveria ser um pouco tarde, por volta das nove ou dez horas da noite. Levantei e limpei minha calça, então virei para Raquel e estendi minha mão para ela.

— Vou aproveitar que provavelmente muita gente já foi pra cama pra ver melhor a cidade. Quer vir?

Ela me olhou, antes de pegar minha mão e levantar. Não me importei de soltar a dela, então só me preocupei em ver se não havia alguma peste em alguma janela. Como imaginava, as ruas estavam quase sem movimento de carros, apenas um ou outro ocasionais. Não havia ninguém visível na região em que estávamos ao menos, mas havia lojas e lanchonetes abertas com pessoas dentro. Poucas, mas havia.

— É bem melhor vir quando não tem ninguém. – comentou e assenti, e vi algumas garotas num café olhando para mim, mas imediatamente desviaram o olhar ao ver meus olhos vermelhos. Ignorei-as completamente e segui em frente.

— A cidade é reconstruída muito rápido. – falei. – Ontem aqui era um cenário de guerra, mas agora...

— Chega a ser impressionante.

— Se você tivesse visto a tecnologia do centro de pesquisas, atribuiria acho que parte a eles.

— Provavelmente verei depois. – murmurou, fazendo-me olhá-la.

— Você aceitou a proposta da Anita?

— Sim... – suspirou. – Achei que... Depois de tudo, é o melhor a fazer, não é?

Assenti, voltando a olhar para a rua, apertando ligeiramente sua mão. Nem havia pensado que, quando Anita pedira que ela fosse comigo, ela já deveria ter aceitado. Era retardo meu, mas de certa forma gostava de saber que ela também estava do nosso lado, ainda que nossas vidas começassem a correr risco, como acontecera mais cedo.

Franzi o cenho, quase como se voltando a vê-lo a minha frente. Raiden dissera que sua classificação era ainda mais poderoso que um número 1, e da classificação, ele era o mais novo e o mais forte. Quem poderia ser, então? Não era um guerreiro criado junto com os outros com certeza, pois... O desapego que ela possuía consigo próprio, aquilo não era normal. Ele se divertira quando eu o machucara, não hesitara em nos machucar e tentar matar. Era bizarro demais. Fora treinado dentro da Ordem, mas então por quem? Híbridos trabalhavam dentro dela e... Provavelmente um deles estava em nosso grupo. Se não havíamos sido delatados ainda, ele deveria estar do nosso lado, mas, novamente, quem? O grupo era de onze – ou agora seria doze? – e eu tinha certeza, obviamente, mim, Alec, Nina, Anita, Maurice, Raquel, Susana, Larry e Alma. Sobravam Diego, que a primeira vez que vira fora na mente de Yudai, Ygor, que nunca vira antes. Voltava a mim Ygor na escada. Ele estava estranho. Seria ele? Não queria suspeitar dele, e não que ele não fosse confiável, mas alguém que trabalhava dentro da Ordem não era tranquilizante.

Algo tocou minha testa e nem percebi que havia parado e fechado os olhos. Vi que era apenas Raquel me encarando com seus grandes e sinceros olhos.

— Não comece a pensar coisas ruins. Não agora. – disse suavemente, fazendo-me abaixar o olhar e assentir. Só ela mesmo para me fazer ficar assim.

Olhei envolta, vendo onde estávamos, então voltei a olhá-la.

— No que estava pensando? – perguntou.

-... Em quanto eu era babaca até sete anos atrás. – menti.

Raquel inclinou levemente sua cabeça.

— Eu não acho que você era um babaca.

Desviei o olhar.

— Convenhamos, tudo o que eu sabia fazer era encher o saco dos outros, principalmente de... Bem.

— Você não era. Em minha opinião ao menos você era engraçado. E eu via o seu sorriso bem mais do que hoje em dia.

Aquilo ao mesmo tempo me pegou de surpresa e meio que me deixou sem jeito. Não sabia como reagir a aquilo direito, mesmo que fossem palavras inocentes. Acabei dando um sorrisinho que pude ver muito bem que a deixara surpresa.

Um latido fez com que eu “acordasse”, por assim dizer. Olhei por cima do ombro e vi um imenso cachorro marrom um tanto quanto próximo, com uma coleira vermelha no pescoço e a guia caída ao seu lado. Ele estava irritado com nossa presença e eu já havia aprendido que animais repudiavam nossa presença no geral, mas aquilo me irritou um pouco, sabe-se lá por que. Só depois que reparei em Farx correndo em nossa direção, sem jaleco, com uma camisa marrom, equilibrando um copo de café em mãos, várias pastas debaixo do braço e uma caixa debaixo do outro.

— Está tudo bem? – perguntei assim que percebi que ele quase derramara café fumegante na mão.

— Ah, ah, sim. – disse, equilibrando-o de modo que não escorresse. – Eu tive que sair correndo antes que esse garoto fugisse de vez e Elysant ficasse com ainda mais raiva de mim, ah, ah.

— Elysant? Esse cachorro é dela?

— Nosso, na verdade. – ele fez uma careta, tentando pegar o cachorro de um modo que nada caísse. – Somos casados, apesar dela estar com um ódio especial de mim.

Ia perguntar o porque, mas achei melhor ficar quieto, afinal não era de minha vida que estávamos falando. Ele conseguiu pegar o cachorro, deu meia volta e cuidadosamente foi até uma esquina, até que o cachorro se desembestou a correr e o arrastou atrás de si.

Eu e Raquel nos entreolhamos, numa pergunta muda de o que fazer, antes de voltar a andar.

Notas finais
Bom, é isso, espero que tenham gostado u.u
Sim, eu gosto do Hideo e da Raquel, sempre quero desenhar os dois, mas tenho meus momentos de procrastinação sempre, então g.g
Quero reviews, hein?