Meia Alma
14 Capítulo 13 - Corrida
Notas iniciais
Eu ia postar ontem, mas problemas na internet #poisé ¬¬'
Eu fiquei chateada,admito. Fiz o maior capítulo da minha vida e ninguém comentou, sendo que passei uma semana inteira escrevendo ele.
Algumas pessoas, às vezes, ao olharem por um motivo qualquer para cima por qualquer motivo que eu jamais saberia e nem queria saber, conseguiam me ver perambulando sobre os prédios. Cogitei a possibilidade de retornar ao orfanato, talvez para retornar a conversar com Alice ou coisa parecida, mas havia a possibilidade de as crianças correrem pra cima de mim como elas haviam feito depois de perder o medo.
Ao longe via alguns, bem distantes uns dos outros, perambulando também, provavelmente pensativos, pois as Auras eram as dos que ainda não haviam dado a resposta, mas resolvi deixá-los, afinal, pressionar não levaria a nada.
— Ei. – Me assustei ao escutar a voz de Djan atrás de mim.
— Parabéns, conseguiu se aproximar sem eu perceber. Poderia ter me matado.
Ele revirou os olhos, mas com uma expressão de que talvez não era uma má ideia.
— Minha mãe adivinhou quem já “deu resposta positiva” e quem vai dar, não sei pra quê. – falou. – Então ela me mandou atrás de você porque é o mais difícil de achar.
— Nossa, quanta consideração.
— São palavras dela.
Dei de ombros, não era como se realmente me importasse o que ela dizia. Percebi então que havia uma garota atrás dele, aparentemente da mesma idade e um pouco mais baixa. Seu cabelo era aloirado, longuíssimo e cacheado, preso com laços de fita, com grandes olhos castanhos avermelhados. Ela usava uma toga de mangas compridas num vibrante tom de verde, um cinto dourado prendendo-a na cintura, e eu via que ela usava várias jóias.
— Quem é você? – perguntei me virando para ela.
— Solaris. – Respondeu.
— E você, não estuda nem nada parecido? – voltei-me a Djan. – Só te vejo andando por tudo quanto é lugar.
— Não te interessa. – retrucou e ele acabou levando um tapa de Solaris no braço. Ele a olhou contrariado.
— A sacerdotisa disse que você deve ir para o centro de pesquisa, por causa dos equipamentos. – Ela continuou o que Djan não disse.
— Tudo bem, mas eu não sei onde ele fica.
— Aquele prédio ali. – ela apontou para trás de mim, olhei e vi que era um dos mais altos e menos danificados da região. Ele tinha um estranho formato oval, coberto de vidros negros. Estranhamente, ele me lembrava o prédio de pesquisas da Ordem, mas deixei aquele pensamento de lado. Com certeza eles não deveriam fazer experiências humanas. Vi brevemente Solaris sair arrastando Djan reclamando sobre o fato dele ser muito grosso, então saltei do prédio em direção ao chão, indo por lá mesmo naquela direção, sem nem me importar com os humanos que me olhavam torto.
Mal cheguei lá e vi Diego na frente, e ele parecia ter acabado de chegar, assim como eu.
— Te chamaram também?
— Sim. – respondi. – Alguém do templo?
— Ahan, o cara parecia estar se segurando pra não me atacar. – disse, revirando os olhos. – Ignorando isso, o que fazemos?
— Entramos? – sugeri irônico, já indo em direção às portas de vidro.
Ele me seguiu e as portas se abriram diante nossa aproximação iminente. O interior era completamente branco e muito bem iluminado, havia barras de ferros dispostas para as filas que provavelmente deveriam se formar em direção de um balcão de ferro, com dois grandes aquários que mais pareciam colunas, com dezenas de peixes coloridos, e pelo que vi, havia polvos, raias e pequenos tubarões que seguiam apenas abrindo suas bocas e comendo os peixes. Havia apenas uma moça de cabelo preto preso em um coque sentada, mexendo no computador enquanto falava com uma mulher alta e loira com o cabelo também preso, que deveria ter uns quarenta e poucos anos, trajando um jaleco branco, mas dava pra ver claramente que ela usava uma blusa com o que parecia um espartilho, uma saia lisa, tudo branco. Ela olhou para nós e então deu a volta naquele balcão para se aproximar, enquanto a de cabelo negro pareceu se intimidar com nossa presença.
— Bem vindos. – Ela disse, parecendo um tanto frívola com seus olhos estranhamente... Rosados. – Meu nome é Elysant Ashmore. Quais seriam seus nomes?
— Hm, o meu nome é Diego, e esse aqui é o Hideo.
— Venham comigo. – disse, apenas dando suas costas para nós e indo em direção à um grande espaço vazio que se localizava à nossa esquerda. Ela aproximou-se de uma pequena e fina barra vertical de ferro, que imediatamente se desdobrou para o alto e quando estava aproximadamente da altura de Elysant, então formou o formato da base de um retângulo, com uma holografia formando-se em seu centro. Ela moveu em alguns botões e me assustei quando o chão pareceu se mover. Então percebi que estava numa espécie de elevador gigante sem paredes nem portas. – Caso estejam se perguntando, sim, nós que vamos dar a ajuda que lhes ofereceram.
— E por que só nós dois estamos aqui? – perguntei.
— Tomamos a liberdade de pegar as roupas que vocês usavam ontem quando salvaram a cidade, e acreditei que seria melhor começar com... Os maiores.
Eu e Diego nos entreolhamos, e só então lembrei que tínhamos a mesma altura e que éramos os dois mais altos do grupo. O elevador parou num andar repleto de computadores e hastes de holografias, com pessoas andando de um lado para o outro. A luz azulada fazia meus olhos doerem, e vi Diego esfregando os seus, antes de Elysant sair do elevador e acabarmos tendo de segui-la.
— A Ordem não oferece equipamentos? – perguntou enquanto andava.
— Nós não trabalhamos pra Ordem. – Diego respondeu.
— E provavelmente seremos caçados por isso. – acrescentei.
Ela nos olhou por cima do ombro, com uma expressão que pareceu dúvida, mas nos guiou até uma bancada, onde vi a minha camisa só de uma manga, a sem do Diego, e os equipamentos que havíamos feito de couro assim como outras coisas, como minhas botas. Quando diabos eles haviam pegado tudo aquilo?!
— Os equipamentos de couro de aërja que vocês fizeram são bastante resistentes. – ela observou. – Mas...
Ela colocou a mão dentro de minha camisa e ela saiu completamente no corte do ombro que havia sido feito por Raiden ou aquela garota, não lembro.
— Antes que me perguntem, eu vi pelo tamanho que essas roupas deveriam pertencer a vocês.
Elysant pegou duas esferas do tamanho de bolinhas de gude e as jogou em nossa direção, porém os objetos pararam em pleno ar, na frente de cada um. Elas abriram-se ao meio e uma imensa luz azul lançou-se em meus olhos. Praguejei e os cobri, vendo as manchas brilhantes alastrando-se por minha visão, sentindo também uma picada em minhas mãos, e só tirei-as de sobre eles quando elas sumiram, mas Elysant não parecia preocupada com nossa reação, apenas mexia na holografia que parecia um computador. Vi Diego resmungar e esfregar os olhos.
As luzes das esferas estavam formando letras, e a que estava à minha frente dizia:
Altura: 1,85
Peso: 63 kg
Tipo sanguíneo: AB-
Idade: Não especificada
Caramba, eu sou tão magro assim? Bom, mas a do Diego estava:
Altura: 1,85
Peso: 66 kg
Tipo sanguíneo: O +
Idade: Não especificada.
— Vocês são um tanto quanto subnutridos, não? – Uma voz masculina perguntou e alguém bateu em meu braço. – Porque a massa muscular foi contada também e vocês não são magricelas.
— Eu sou tão magro assim? – Diego murmurou.
— Poderia ser pior, poderia ser eu. – falei num tom autodepreciativo.
— Farx, o que você faz aqui? – Elysant questionou, virando-se e pondo as mãos na cintura. Olhei para o lado para o homem que nem dera atenção, e vi um cara de uns quarenta anos, assim como ela, bem magro, com o cabelo castanho curto e uma barba rala, assim como ela usando o jaleco.
— Ajudar, ué.
— Não pedi sua ajuda. – respondeu num tom seco, e ela literalmente foi embora. Eu e Diego nos entreolhamos, então Farx suspirou e tomou o computador abandonado.
— Sinto muito por isso. – desculpou-se. – Preciso dos nomes completos de vocês dois. Primeiro o de cabelo branco.
— Hã... Espera.
— Diego, não me diga que você esqueceu seu sobrenome. – Falei em um tom cético.
Ele deu uma risada sem graça e coçou a cabeça. Como uma pessoa pode esquecer o próprio sobrenome?!
— Se é assim... Enquanto seu amigo não lembra o nome todo dele, diga o seu, e a sua idade também. – Ele franziu o cenho. – Nunca vi eles não especificarem a idade de alguém.
— Tudo bem, meu nome É Hideo Keegan Hentric e...
— Hentric?! – ele me interrompeu.
— Hã... Sim?
— Você tem um irmão gêmeo chamado Yudai?
— Hã... Acho que o certo é dizer tinha...
— Sabia que você se parecia com alguém! – exclamou, me assustando. – Você é o filho do Helder, não é?!
A essa altura eu deveria estar com vários pontos de interrogação na minha cabeça, mas resolvi ficar quieto.
— Bom, é. — Diego me olhou com uma expressão de quem estava precisando urgente de respostas.
— E o que você quis dizer sobre dizer que tinha um irmão? – perguntou, dando um nó no meu cérebro, mas consegui entender afinal.
— Ele morreu faz sete anos. – respondi, sentindo meu peito doer.
— Oh, nossa, sinto muito.
— Vou sobrar na conversa. – Diego disse.
— Que sobre então. – rebati e ele se encolheu. -... De onde você conhece o meu pai?
— Deixa eu ver... Da escola, rachamos o apartamento na faculdade, eu vi vocês dois desde que nasceram até os cinco anos, quer mais?
— Hã, não. Mas eu não me lembro de você.
— Espera... Mas se você é um híbrido, então... – começou.
— Não, o governador vendeu a gente porque não tinha como ele pagar a Ordem. – respondi.
— Gordo maldito. – disse voltando ao computador.
— Concordo plenamente.
— Espera, mas então você tem... – Farx começou a contar os anos nos dedos.
— Eu tenho vinte e sete anos. – adiantei.
Ele me encarou e então murmurou algo sobre estar ficando velho, e que é claro que as bolinhas não iam conseguir especificar minha idade por causa da minha aparência.
— E você, lembra-se do seu nome completo? – perguntou a Diego que olhava para o fosso atrás de nós.
— Diego Sean Ewis. – disse por fim. – Tenho vinte e sete anos também.
— Tudo bem... – Farx terminou de digitar no teclado virtual e as bolinhas se fecharam e caíra no chão. – Pronto, venham comigo.
Ele saiu da frente do computador que imediatamente fechou-se, e encaminhou-se à esquerda, então o chão começou a se deformar, formando escadas. Descemos rapidamente e no andar de baixo era repleto de máquinas, e havia várias pessoas trabalhando usando luvas, máscaras, óculos e os mais variados tipos de proteção.
— Vocês correm riscos de se intoxicar ou coisa parecida?
— Não.
— Mas se quiserem uma máscara é só pedir. – respondeu, pondo as máscaras e os óculos, então voltou a andar. – Nós tentamos fazer os mais diversos tipos de proteção para as guardas de toda Darneliyan, inclusive aos guardas do templo, embora eles sejam teimosos o suficiente para não usarem por mais que façamo-nas os mais leves quanto possível. – suspirou. – Soube que um de vocês nocauteou eles, então, agradeço, porque talvez assim aqueles cabeças duras aprendam.
— Foi o Hideo. – Diego disse.
— Pois bem, nós fazemos tudo da forma mais... Hm, sintética quanto possível. – apontou para uma máquina que possuía apenas uma agulha e mexia em algo que não identifiquei, apenas via que era escuro. Farx começou a mexer nas coordenadas dela então ela se afastou, e as duas barras verticais ao lado da mesa começaram a se separar, revelando no centro uma espécie de material negro mas que lançava alguns reflexos brilhantes. – Se afastem.
Dei um passo para trás, assim como Diego, mesmo sem entender muito bem a situação, então só vi um clarão e um cheiro ácido atingir minhas narinas. Movi-me, incomodado, esfregando o nariz. Só vi então aquele pedaço de pano expelindo fumaça, e quando ela se dissipou, estava intacto.
— Se esse tiro tivesse acertado a cabeça de um de vocês, teria a pulverizado. – informou. – Mas ao contrário do que acontece na maioria do continente, vocês usam mais... Armas brancas, não é?
— Sim.
— Vocês nunca testaram com armas cortantes ou coisa parecida. – perguntei.
— Não, por que... Bom, é a primeira vez que vamos fazer alguma coisa para híbridos ou qualquer pessoa que lute com monstros.
— Se quiser, podemos tentar. – Diego disse mais numa brincadeira.
— Se quiserem, ataquem só o pano, por favor.
Diego o olhou com uma expressão “mas era brincadeira”, mas resolvi tentar. Movi minha Aura, modelando-a numa forma cortante e lancei contra o pano. Escutei o som de algo rasgando, mas a sensação foi de quando ataquei o monstro na Ludwings. Era muito resistente, então desisti, voltando a escondê-la.
— Um ataque desses teria te cortado ao meio. – Diego disse.
— Quando ele se moveu?!
— Eu não me movi.
Farx me olhou com as sobrancelhas erguidas, mas aproximou-se do pano, tirando de onde estava preso, trazendo até nós. Havia parado de cortá-lo um pouco acima da metade.
— É um feito bem surpreendente. – Farx disse, esticando o pano, que mesmo cortado não cedeu ou rasgou. – Vocês estão bem além do que estamos acostumados. Da última vez que um desses ficou nesse estado, era na fase inicial há vinte anos com um tiro daqueles.
— Me sinto honrado. – falei nem um pouco honrado.
— Mas isso daí é bem melhor que as armaduras que a Ordem dava para nós em caçadas a Despertados. – Diego observou.
— Se fosse um desses muita gente teria sobrevivido à Guerra do Norte. – falei.
— Despertados? Guerra do Norte?
— Despertados são um tipo pior de monstro. – Diego respondeu. – Normalmente, se um híbrido encontra um desses estando sozinho, é o mesmo que dizer que ele vai morrer.
— A Guerra do Norte foi uma ocasião em que a Ordem mandou metade dos híbridos dela lutar contra hordas desses aí. E só o nosso grupo sobreviveu. – Finalizei.
— Nossa. – disse parecendo convincentemente surpreso e me passou aquele pedaço de pano, e foi minha vez de me surpreender. Ele era incrivelmente leve, e por dentro, macio, também maleável. Por fora, sua textura parecia uma cota de malha. Puxei, assim com Farx fizera, e era incrivelmente elástico, e cedeu apenas um pouco mais, com uma resistência que eu ainda não tinha visto. Com certeza era mais resistente que os meus membros.
— Do que isso é feito? – Diego perguntou assim que eu o passei o trapo e ele o testou.
— Tem tanta coisa aí que nem lembro mais. – Farx disse com sinceridade, voltando a andar. – Deve ser mais leve e confortável que as armaduras que vocês disseram que usavam.
— E mais resistente do que eu. – acrescentei.
— Se você diz... Temos esse tipo de... Liga de ferro. – anunciou enquanto pegava um quadrado fino, mais parecido com uma lajota, que brilhava talvez como prata polida, lançando reflexos bruxuleantes devido à luz artificial, e sua superfície parecia ondular como água. – Tentamos fazer o mais próximo e barato o possível perto do Ferro dos Deuses. Esse é o melhor que conseguimos... Por enquanto.
— As armas dos híbridos são feitas de Ferro dos Deuses. – falei.
— Devem valer fortunas. – Farx disse com uma careta. – Tem alguma por aí?
Tirei o pingente do pescoço e puxei-o transformando-o na usual grande espada e percebi que Diego tinha feito o mesmo, só que escutei algo como se saltando e exclamações. Só escutei um disparo e me joguei no chão quando senti algo quente se aproximar, seguido de uma explosão.
— O que vocês estavam fazendo?! – Farx gritou, aparentemente irritado.
— Mas senhor... Eles não iam... – Um homem, claramente um segurança, disse, o medo aparente em seus olhos e vi que tinham outros como ele, mas esse estava em frente ao computador.
— Eu que pedi para que eles demonstrassem suas armas! – exclamou enquanto eu levantava, e me assustei quando vi que a parede de ferro que ficava ao meu lado não existia mais, apenas uma montanha de pó. Graças aos Deuses aquilo não acertara minha cabeça, mesmo que eu sentisse toda a parte direita do meu corpo arder.
Abaixei para pegar minha espada, e vi Diego encarando o robô que era a arma de antes que ainda estava apontando para nós. Aquele troço não podia ser dos deuses.
— Era só o que me faltava. – Farx balançou a cabeça. – Vamos sair de perto desse robô, mas não guardem suas espadas, e não cortem nem espetem nada.
Pus a lâmina sobre o meu ombro, e encarei o guarda que havia feito o robô disparar, que olhava de mim à minha espada, como se eu fosse saltar e desmembrar cada um daqueles que estavam no recinto. Havia vários cochichos nos rondando, com alguns pesquisadores olhando para nós com uma mistura de medo e curiosidade.
— Você está bem queimado. – Diego disse.
— Estou sentindo que não estou sentindo a parte direita do meu corpo. – falei propositalmente.
Ele deu de ombro e só por precaução olhei para o meu pulso direito, que estava vermelho, ressecado e enrugado, então meu coração quase parou.
Ah não. Onde estava o símbolo do Yudai?
— Droga! – passei minha espada para Diego. – Já volto.
— O que foi? – Farx perguntou, mas ignorei-o.
Voltei todo o caminho que já havíamos percorrido, mas quando cheguei aonde tinha sido atacado, havia um robozinho ovalado branco que estava aspirando os últimos resquícios de pó. Ah, droga!
— Perdeu alguma coisa? – uma mulher perguntou com cautela, a voz abafada devido à máscara.
— Uma coisa minha caiu aqui.
Ela pegou o robô que se afastava e digitou alguma coisa em suas costas e um compartimento se abriu. Ela espiou e mexeu dentro dele, para tirar o símbolo com apenas um resto do elástico negro.
— É isso?
— Isso mesmo, obrigado. – respondi, pegando-o.
-... Não é melhor você procurar ajuda?
— Não, estou bem.
Voltei novamente para onde Farx e Diego me esperavam.
-... Eu não sabia que você tinha o símbolo do Yudai. – Diego comentou.
— Pois é, eu tenho. – falei enquanto me curava e Farx estava com os olhos pregados em mim. – O que foi?
— Eu queria ter uma filmadora agora, foi impressionante sua pele voltar ao normal.
— Se quiser eu arranco alguma parte do Diego, porque ele consegue regenerar membros.
Diego me encarou com uma expressão assassina, mas Farx apenas riu.
— Não precisa multilar ninguém para nada, não se preocupe. – recusou enquanto punha aquele pedaço de ferro sobre uma bancada. – Por favor, pode por as espadas aqui?
Diego as pôs e ele olhou para o símbolo em minhas mãos.
— Isso é interessante, uma coisa tão pequena se torna... – olhou para as claymores sobre a mesa. – Isso. Nunca tinha visto nada parecido. Não sei se é magia ou tecnologia.
— Eu achava estranho no começo. – Observei. – Mas era só no começo mesmo.
Ele assentiu.
— E mesmo que seja Ferro dos Deuses, é muito estranho, por que... Não tem nem sequer um arranhão, e vocês com certeza a usaram muito. – ele moveu-se, analisando-as. – Algo a dizer?
Depois que eu finalmente consegui sair daquele lugar, estava, por incrível que pareça, anoitecendo. Ainda segurava os restos do colar do Yu, e ainda pensava o que faria. Estava curto demais até mesmo para que amarrasse em meu pulso como uma pulseira. Ir comprar outro era meio fora de cogitação, e eu nem tinha dinheiro mesmo.
— E aí, o que você acha? – Diego perguntou, pondo as mãos no bolso.
— Hm, o quê?
— O que está acontecendo agora. Vamos atacar a Ordem, vamos receber equipamentos da cidade que tecnicamente repudiava híbridos e tudo mais.
— É um tanto quanto confuso. – confessei. – Mas bom... Ao menos não iremos desprotegidos. E ao que entendi, vamos ter que primeiro verificar a atividade do continente antes de qualquer coisa.
— Você... Acha que os outros vão aceitar? – questionou em voz baixa.
— Não sei.
No fundo eu queria que aceitassem. Acho que sentiria menos insegurança se soubesse que todos continuariam juntos, apesar de que eu não prestara atenção em ninguém nesses sete anos. Voltei para casa, nem me importando com os humanos que me olhavam torto. Já estava mais que acostumado agora.
Quando estava subindo o barranco, avistei Anita e Raquel conversando próximas à casa. Imediatamente estranhei, porque não era muito comum vê-las juntas. Parei imediatamente, mas estava distante o suficiente para que não escutasse nada, mas aquilo me deixava com a pulga atrás da orelha. Decidi então me aproximar, nem me importando de tentar me esconder ou coisa parecida, e como previa, elas me viram e imediatamente pararam de falar.
— Algum problema? – questionei quando estava próximo o suficiente.
— Sim. – Anita respondeu.
— Isso me afeta?
— Sim. – Raquel respondeu.
— Então fale. – revirei os olhos.
— Não acho seguro que você vá sozinho ir para onde quer que aquela coisa tenha mandado sozinho.
— Eu sei muito bem me cuidar Anita.
— Tanto que aquela coisa te agarrou e furou o seu olho sem esforço. Não sabemos para o que ele pode estar te mandando.
— E você quer que... A Raquel vá comigo?
— Bom, essa é a ideia. – Raquel disse.
— Sem chance.
— Nada que já não houvesse imaginado. – Anita suspirou e rolou os olhos.
— No caso, se houver problemas, não será um com problemas, mas dois com problemas!
— Você fala como se eu fosse atrapalhar! – Raquel protestou.
Olhei-a, sem saber o que dizer. Como falar o que estava passando na minha cabeça?
— Ah, resolvam-se os dois! – Anita exclamou em claro sinal de desistência, ela parecia cansada. — Eu vou pra dentro.
Depois que a porta fechou, eu me virei para Raquel.
— Eu vou sozinho.
— Quais são suas motivações para ir sozinho?
Hesitei em responder.
— Não quero problemas.
— Você está dizendo que vou atrapalhar. – afirmou.
— Olha Raquel, eu sei que você se preocupa comigo, mas ir falar com a...
— Pra começar, foi Anita que me pediu para ir com você. – esclareceu. – Ela disse que é melhor eu ir com você do que qualquer outro.
— Oh nossa, mas mesmo assim, sem chance!
— Primeiro, me responda: Você acha que eu sou indefesa?
Admito que aquela pergunta me pegou de surpresa. E quase que respondi imediatamente: Sim. Não conseguia explicar direito, era... Era a aparência dela somada ao fato que eu vira ela quando ainda era uma criança humana. Sei lá... Simplesmente não conseguia por na minha cabeça a imagem dela lutando, matando, ou seja lá o que fosse. Mesmo que ela tenha participado da Guerra, ela não era do meu grupo, e eu nem tinha prestado atenção nem nada do tipo. Estava mais preocupado em me manter vivo naqueles dias.
Cocei minha cabeça. O que eu iria responder?
— Estou esperando.
— Ah, quer saber, sim, acho!
Acho que me arrependi imediatamente quando vi sua expressão. Escutei alguém bater palmas dentro da casa, só faltava ter gente espionando.
— Eu não sou. – Falou com seriedade e sua expressão era estranha. Não parecia nem a mesma pessoa.
Lembrava-me muito mais Sophia. E ela estava irritada.
— Por quê? É por causa de quando eu era criança?
-... É por isso mesmo.
— E se eu te provasse que eu não sou tão indefesa quanto aparento?
Que tipo de pergunta era essa?
-... Talvez eu possa pensar.
— Vamos fazer o seguinte: Fora da cidade, tem aquele rio que acampamos antes do ataque. Podemos apostar uma corrida até lá, na margem, e um pode impedir o outro de qualquer maneira.
— Isso inclui bater um no outro e coisas mais?
— Basicamente. Se eu perder, eu não reclamo e você vai sozinho.
— Se eu perder, eu não reclamo e você vai comigo. – completei.
— Essa é a ideia.
— Hm... Tudo bem então. – falei, tentando ignorar o uivo que escutei dentro da casa. Seria o certo a fazer? Bom, ela parecia bem determinada.
E tecnicamente, eu não havia esquecido de meu posto de mais rápido da Ordem.
— Começamos no fim do barranco. – Ela avisou, saltando de onde estava. Suspirei e fui atrás.
— No três?
— Pode ser. – respondeu, e eu já sentia a adrenalina subindo no meu corpo, e estava sorrindo. Por tecnicamente ser um desafio, aquilo me animava.
— Um...
Nós dois ficamos exatamente lado a lado, para evitar injustiças.
— Dois...
Comecei a me preparar, e percebi que ela também.
— Três!
Fazia muito tempo que eu não fazia aquilo. Correr só por prazer ou coisa parecida. Pareceu que minhas pernas se moveram sozinhas e tudo virou apenas um borrão. Mas tinha um porém.
Não era exatamente como se Raquel tivesse ficado muito para trás.
Na realidade, ela não havia ficado para trás, nem um pouco.
Me desviei praticamente derrapando de prédios e pessoas, não tocando em uma sequer, então decidi que era melhor subir neles. A minha velocidade era tanta que ligeiramente corri pela lateral de um, me agarrei no gancho de um guindaste e me empurrei para cima de um prédio meio destruído, e só então reparei que Raquel havia sumido.
Havia apenas começado a me animar quando senti algo que ainda não sei se era uma joelhada ou um soco e me lançou no prédio. Senti quando o chão rachou e fui arremessado dois andares para baixo. Fiquei grogue entre as pedras durante um único segundo, antes de saltar para fora e ver que fora o suficiente para Raquel tomar uma boa dianteira.
Cerrei os dentes, antes de me lançar, saltando de um prédio para o outro sem dificuldade. Raquel claramente viu minha aproximação, e ela se jogou no chão, derrapando quando eu ia lhe dar um chute, então apoiando o peso nas mãos, conseguiu me acertar um chute do chão, fazendo-me cair também, mas ela pisou em meu ombro para se levantar e tomar impulso. Estava saltando para o outro prédio quando agarrei-a pelo tornozelo e lancei-lhe no chão, só levantei e corri o mais rápido que pude, até quase avistar as muralhas, mas mantinha-me atento, pois ela poderia aparecer do nada novamente.
Estava literalmente na muralha quando alguma coisa me empurrou e caí no chão. Caí de peito para cima e só então percebi que Raquel não se distanciava, e sim, se aproximava de mim com uma velocidade assustadora. Não, espera...
Ela acertou uma joelhada no meu pescoço antes que eu pudesse me levantar. O chão rachou e imediatamente parei de sentir tudo do meu pescoço para baixo. Comecei a tossir condenadamente enquanto tentava respirar, e logo fui consertar minha coluna com minha Aura, mas Raquel não saiu de cima de mim. Ela estava ligeiramente curvada sobre mim e o seu longo cabelo cobria a ambos.
— Você desiste? – perguntou.
— Nunca. – respondi com um sorriso nem um pouco abalado. Já retornara a sentir meu corpo, mesmo que o sangue estivesse sendo expelido por minha boca.
Ela desapareceu de cima de mim e num salto levantei e escalei a muralha em velocidade recorde, já a vendo-a correndo na planície aberta. Lancei-me em sua direção, agarrei os seus ombros, virando-a de frente pra mim e joguei-a no cão, com força o bastante para criar uma vala por onde ela fora arrastada, mas Raquel me deu um jeito de me dar uma joelhada no ombro, fazendo soltá-la, mas aproveitei a pequena oportunidade que possuía antes de disparar para entre as árvores.
Agora as coisas estavam meio difíceis, pois era um espaço muito pequeno, já que não corria em um trilha, tendo sempre de desviar das árvores. Me assustei quando ela agarrou meu braço e me atirou sobre uma árvore, que se partiu ao meio devido à soma de minha velocidade mais sua forçam. Levantei, arranquei um pedaço de madeira que havia ficado preso em minhas costas, então disparei mais uma vez em direção à Raquel e dei-lhe um escorão forte os suficiente para que também batesse e rompesse uma árvore.
Estava chegando à beira da rocha, e sabia que abaixo dela estaria o rio. Estava quase lá, cheguei à beira e saltei em direção ao rio, mas então percebi Raquel atrás de mim.
— Ah não! – Agarrei as mãos dela, prendendo-a em pleno ar e pondo-a sob mim, mas ela soltou uma de suas mãos e cravou-a em minha nuca, fazendo-me grunhir antes de cairmos na água.
Brigamos mesmo sem poder respirar, e nadei o mais rápido o possível até a superfície, aspirando o máximo de ar que consegui e escutando o som indicando que ela estava saindo. Ergui minha mão para pegar a pedra na margem, mas ela foi mais rápida e pegou-a primeiro, fazendo com que na verdade, eu pegasse as costas de sua mão.
Ficamos parados por um momento, ofegantes, meu corpo estava todo dolorido, e só então percebi que minha camisa estava bem rasgada, a água estava rosada, levando os resquícios de sangue que estavam em nossos corpos. Olhei lentamente para Raquel, que me olhou também, e sorriu.
— Ganhei.
Ah, droga. Mas por incrível que pareça, acabei sorrindo.
— Boa garota.
Icei-me para fora da água e me jogando de costas no chão, ainda com a respiração pesada, e senti que ela fez o mesmo. Nada melhor que descansar.
Passei a mão no rosto, percebendo então que ainda não havia soltado o símbolo de Yudai.
Bom, parece que eu teria companhia.
~o~
— Você está falando sério?! – exclamei.
— Shh, fala mais baixo! – Hadraian ralhou comigo.
— O Minhoca sempre é escandaloso, Draian. – Raiden suspirou com o queixo apoiado no muro, parecendo entediado.
— Cale-se Frango, ninguém te chamou para a conversa.
— A boca é minha, então eu falo quando quiser.
— Calem a boca os dois, se formos pegos estaremos mais que encrencados! – Hadraian exclamou.
— Sim, Vossa Alteza Real Rato. – nós dois acabamos dizendo em uníssono, fazendo-o revirar os olhos.
— Nossos queridos apelidos nada convencionais. – bufou, escondendo-se um pouco mais, prendendo o saco de Supressores.
O que havia acontecido? Pois bem, infelizmente, um amigo nosso, Bud, havia se metido em problemas. Estava além de nossa capacidade a chance de salvá-lo, mas queríamos apenas falar ao menos uma última vez com ele, pois Bud com certeza deveria estar à beira de um ataque de nervos, pois mal chegara e havia sido levado. O que ele havia feito? Bom, fora totalmente sem querer... Mas como se a Ordem se importasse.
Ele havia matado um humano.
Eu tinha visto, fora um garoto de uns quinze anos. Ele se pusera em frente ao monstro quando Bud o atacara, pois era exatamente isso, ele não sabia que o que acho que era o avô dele era o monstro. Acabou que ele e o “velho” foram atravessados e Bud estava com sérios problemas. Seria executado por ter quebrado as regras.
Agora estávamos nos arriscando, porque se um daqueles Aparições aparecesse, provavelmente seríamos executados junto com ele, e, cara, não estou nem um pouco afim de morrer hoje.
— Tudo bem, são sete Aparições, e nenhum está por perto. – Avisei. – Há uma Aura dois andares acima, muito provavelmente é a de Bud.
— Pode ser a Aura de um dos Aparições, retardado. — Raiden bufou.
— Rato, diz pro seu irmão Frango parar de tratar mal?
— Tecnicamente, frangos ciscam minhocas.
— Isso ficou estranho... Mas deixa pra lá. – murmurei, armando uma carranca antes de usar os tijolos da parede de modo que pudesse escalar.
Um detalhe que eu quase nunca mencionava era o fato de Hadraian e Raiden serem irmãos, ironicamente, o Rato é o mais velho e o mais baixo. Eles não pareciam nada um com o outro, pelo menos para mim.
Escalei os dois andares e me aproximei sorrateiramente de uma janela, espiando e quase xinguei. A Aura era de um dos Aparições. Deveria ter alguma coisa que eu pudesse diferenciar uma Aura da outra, porque mesmo sendo um rastreador, não dá pra discernir os pontos quentes. Escutei Hadraian murmurar algo, mas apenas observei. Esse Aparição era um homem, que era um meio termo entre estatura média e alto, e ele estava de costas para mim. Suas roupas eram basicamente um macacão negro, com apenas algumas partes de armadura, como ombreiras, protetores de mão, joelheiras e tudo mais. Como todos, ele usava um capacete negro que cobria seu rosto até a linha do buço, deixando apenas a boca e o queixo pra fora. O dele era ligeiramente triangular, e ele estava de lado para mim, mas parecia não me ver, por isso que cuidadosamente me retirei do seu campo de visão.
Senti duas Auras se aproximando e rezei que Bud fosse um deles, e as senti entrarem no recinto, uma voz feminina falando com o Aparição que eu vira, enquanto o outro mantinha-se quieto.
— Tem alguém aqui. – uma voz baixa e calma falou e meu coração quase saiu pela boca.
— Não estou sentindo ninguém além de nós, Oito. – outra masculina comentou.
— Tem alguém aqui. – reafirmou.
A janela se abriu e quase me soltei. Como assim?! Nenhuma das Auras se movera!
Um Aparição pôs a cabeça para fora. Seu capacete era bem mais ovalado que o do outro, e ele parecia ser bem mais alto. E o pior era que ele olhou exatamente para mim, mesmo eu tendo tomado um Supressor.
Estou ferrado.
Escutei o silvo de Hadraian e me soltei imediatamente, mas o cara saltou da janela. Droga, droga, droga!
Caí de costas no chão, mas levantei em velocidade recorde e saí correndo, e para a sorte dos dois irmãos, o Aparição parecia estar concentrado apenas em mim. Corri o mais rápido que pude, mas para mim era como correr às cegas, pois não sentia a Aura dele, então ele poderia estar em qualquer lugar.
Dei a volta na Ordem, para depois do lago, e olhei por cima do meu ombro, mas ele tinha sumido, mas então pareceu que o chão havia se aberto à minha frente. Gritei e caí em um local escuro, apenas minha voz fazendo eco, e havia alguém segurando meu pescoço. O suor escorreu por meu rosto, eu provavelmente iria morrer.
— Bela tentativa, mas não. – o cara falou em voz baixa.
Notas finais
Gente, meu sonho era escrever essa cena em que a Raquel descia a porrada no Hideo, juro :P
E quanto a esses Aparições, bem, eles são como o -1, -2, etc. Mas a classificação deles é diferente e eles são raros, explicarei mais para a frente u.u
Eu quero comentários!
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