Meia Alma
2 Capítulo 1 - Sete anos de nada.
Notas iniciais
Não deu para fazer o desenho dele, ok? Mas vou tentar trazer no próximo cap!
A neve branca caía levemente do céu, em pequenos flocos que dançavam graciosamente pelo ar, misturando-se às várias camadas de neve cobrindo o chão como um enorme tapete branco e macio. O vento soprando ligeiramente em direção ao sul, fazendo com que a capa medieval branca que eu usava para me misturar com a neve ficasse colada em meu corpo, com suas bordas balançando-se rebeldemente à minha frente.
Deuses, eu realmente odeio neve.
— Ei Hideo, ande mais devagar! – Momoko gritou de trás de mim.
Apenas olhei por cima de meu ombro em direção à criaturinha irritante de pêlo azul e asas douradas que estava fazendo questão de me seguir.
— Ninguém mandou que você me seguisse. – falei simplesmente.
Moko pareceu ficar indignada, mas somente a ignorei, continuando a andar em direção à cidade de Legoi. Ou melhor, em direção às ruínas de Legoi. Não havia uma casa de pé ali, somente seus restos destruídos das pedras e concreto que antes formavam as construções, sendo eles cobertos por várias camadas de neve, quase que desaparecendo em meio à imensidão branca. Não duvidava nada que um dia eu passasse direto pela cidade, sem perceber que ela fora completamente soterrada pela neve.
Toda vez que eu me aproximava daquele local, o vazio em meu peito fazia questão de doer de maneira mais intensa do que o insuportável que me era normal. Dia e noite. Nunca parava de doer, jamais sarava, e ainda por cima vinha acompanhada pela terrível sensação de vazio, parte de meu ser que fora perdido, que ainda tentava reencontrá-lo, mas sem jamais conseguir.
Agora tente viver assim durante sete anos.
Eu passara esses sete anos de nada assim. Despedaçado, vivendo em trevas, com metade de minha alma, com uma dor insuportável que jamais me deixava, o fantasma da culpa sempre andando atrás de mim, fazendo-me questão de lembrar que fora culpa minha para que isso ocorresse. E como punição adicional, vinha atrás de mim um projeto de Despertado que não calava a porcaria da boca, com uma voz fina e irritante que jamais saía de meus ouvidos. Minha vontade era de amordaçar aquele focinho e nunca mais soltá-lo. Mas eu sabia que Moko faria questão de me importunar de várias outras maneiras até que eu soltasse seu focinho.
— Vai mais devagar!
— Moko, faça um favor. – retruquei já no limite com a vozinha fina. – Cale a boca e tente voar, se não consegue acompanhar andando!
Ela se calou, enquanto eu me aproximava cada vez mais da cidade onde todo meu inferno pessoal começara. O sangue que manchava a imaculada neve há sete anos fora completamente soterrada por incontáveis camadas brancas, deixando-a tão imaculada quanto antes. Com a mão esquerda, em que eu usava uma luva de couro negra que grande parte dos dedos fora cortada, e eu pregara botões de couro onde seriam os calos de minha mão, toquei na neve fria que cobria uma enorme pedra. Na outra mão, eu usava uma luva mais normal, também de couro, também negra, também com botões. E só então percebi uma coisa.
Maldição.
Meu capuz foi levado para trás pelo vento, mas sequer me importei. Apenas me joguei no chão, escondendo-me atrás de uma pedra, torcendo para que não me vissem, puxei Moko pela cauda e a enrolei em minha capa de modo que só seu focinho ficasse do lado de fora, mas apertado de tal maneira que ela mal conseguisse falar.
— So... Corro. – disse fracamente, sem quase conseguir abrir a boca.
— Quieta. – repreendi-a. – Esquadrão de caça da Ordem, eu estou salvando sua pele.
Ela manteve-se quieta, enquanto as quatro Auras apareciam.
Desde o fiasco da Guerra do Norte e com a morte de “todos” os guerreiros, a Ordem ocasionalmente mandava alguns esquadrões de caça para terminarem com alguns Despertados que haviam se mantido no norte. Claro que às vezes tínhamos de interferir, pois os Despertados passaram a andar em pequenos grupos. Na verdade, enquanto um era atacado, os outros ficavam à espreita, esperando o momento certo para atacar. Sem que os grupos percebessem, apenas matávamos os companheiros dos Despertados antes que eles entrassem em ação, então eles voltavam felizes e contentes para a Ordem por terem sobrevivido. Tá, ninguém volta feliz e contente para a Ordem, mas retornavam. Já era um começo.
O que possuía a Aura mais intensa, e, portanto, mais forte, era uma garota de um metro e setenta e pouco, com os cabelos longos, lisos, mas cacheados nas pontas. Ela prendia seu cabelo em um rabo de cavalo, então o enrolando num coque, para por o capacete. Sua Aura tinha um cheiro que me recordava lavanda.
Saíram um cara e uma garota, já usando a armadura completa, portanto não deu para que eu conseguisse ver seus rostos, mas ele tinha uma Aura com cheiro de capim, ela tinha uma Aura com o cheiro de... Madeira queimando?
Eu ainda não me acostumara com essa anomalia de sentir cheiros nas Auras. Talvez nunca me acostumasse completamente, ainda mais sabendo o modo de como eu a adquirira.
Apareceu também outra garota, estando ligeiramente afastada do grupo. Mas eu me surpreendi quando a vi.
Ela possuía a Aura mais fraca, mas também havia uma coisa. Seu cabelo era até a altura da metade de suas costas, divido ao meio, ondulado. Mas ela era loira. Se não fosse sua Aura e seus olhos vermelhos, eu juraria que ela era humana. Mas não era nada haver com uma nova experiência ou coisa parecida, dada à fraca intensidade de sua Aura, que parecia estar prestes a se apagar. Ela apenas deveria ser... Defeituosa. Talvez algo tivesse dado errado em sua cirurgia.
Os outros três pareciam ignorar sua existência, pois andavam à frente e falavam algumas coisas, suas vozes abafadas pelo uso do capacete, mantendo-a claramente fora da conversa. Contive um bufo ao constatar isso, e Moko moveu-se desconfortável em meu colo, provavelmente devido ao aperto em seu focinho. Eles também passaram direto pelas ruínas as quais eu me escondia, sem perceber que havia alguém ali, e a Aura de Moko era ligeiramente insignificante, portanto, devem ter apenas ignorado sua existência.
Suas Auras logo foram em direção ao norte, provavelmente atrás do Despertado os quais estavam procurando.
Após algum tempo, soltei Moko de dentro de minha capa, levantando, indo em direção ao porão da cidade. Aquele fora o motivo de eu ter vindo até aqui, senão não teria voltado para esta cidade nem sob tortura. A porta estava aberta, e dentro dele estavam quatro Auras inconstantes e que pareciam se espalhar por todos os lados fracamente, resultado desses anos as suprimindo, uma de café, outra de pinho, limão e canela, sendo, respectivamente Alec, Larry, Ygor e Diego. Havia também a de Maurice, com cheiro que me lembrava de algo doce, o qual eu ainda não conseguia assimilar qual era. Ele estava isolado em algum canto, e não estava se movendo.
Saltei, ignorando as escadas, e nenhum fez menção de se virar para me ver. As botas de couro gastas não fizeram barulho algum quando pousei no chão e tirei a capa, quando Moko entrou voando e gritou, fazendo todos os cinco saltarem:
— Oooooi!
Ygor olhou por cima do ombro, ele possuía o cabelo bastante liso, com a franja cortada reta na altura das sobrancelhas e seguia reta até sua nuca. Ele deu um muxoxo para Moko e disse para mim:
— Ao menos faça ao menos algum barulho, indicando que você chegou!
Dei de ombros, tirando a capa e comecei a fuçar as coisas atrás do que precisava: Uma camisa, já que a minha não estava mais no melhor estado no mundo, e talvez, botas mais resistentes. Esta não durou um mês. Calças também seria uma boa, acho.
— Ei, tem alguma coisa lá encima? – Diego perguntou.
— Um novo grupo de caça. – respondi, sem dar muita de minha atenção a ele.
— Pressinto problemas... – Alec gemeu, e tive de concordar mentalmente.
As pilhas de coisas ali até que estavam em um bom estado de conservação, considerando-se que estavam há sete anos debaixo da terra. Encontrei um par de botas de ferro que eram provavelmente do tamanho de meus pés, até um pouco abaixo dos joelhos. Sua parte frontal era presa a tiras de couro reguláveis na parte de trás das botas, talvez para dar em pés de diferentes tamanhos. Olhei e vi que em seu interior havia outras botas, com uma fina sola, totalmente feita de couro, talvez para manter a temperatura e ser mais confortável.
Escutei o som de pano se rasgando e Larry dizendo algo como que não servia mais. O que ele rasgara eu não sabia, e também não estava muito interessado.
— Seu fresco. – Ygor disse. Suspirei, já iria começar. Ele e Larry simplesmente não se davam bem de modo algum, qualquer coisinha virava motivo de discussão. E Larry rebateu. E a começou a discussão.
— Vish. – Diego disse ao meu lado. Eu já aprendera que aquela era sua palavra favorita.
Olhei o item que Larry descartara e vi uma camisa de mangas compridas negra. Ou melhor, uma camisa de manga comprida negra, pois Larry rasgara uma manga. Eu, que não via problema nenhum, peguei a camisa, depois daria um jeito nos fiapos rasgados. A manga restante era bastante larga, a ponto de que provavelmente ficaria balançando.
Tirei minhas botas de couro que estavam com as solas prestes a se romper e calcei as “novas”. Puxei suas correias de couro, fazendo com que se ajustasse melhor aos meus pés, já que ficaram ligeiramente grandes. Devido ao revestimento interior de couro, não ficara demasiada desconfortável. As pernas de minha calça negra eram tão largas quanto a manga da camisa que eu pegara, portanto, escondiam grande parte das botas. Eu a mantinha no lugar por meio de um largo cinto amarronzado.
Não, eu não usava tanto negro por estar de luto ou coisa parecida. Seria besteira continuar assim após tanto tempo. Só... Não sei, nós dez usávamos roupas negras por algum motivo e quando precisávamos sair, usávamos uma capa branca que nos camuflava à neve. Mas ao contrário dos outros, eu era o único que realmente precisava de um capuz em meio à neve. Alguém andando com o cabelo vermelho na imensidão branca é realmente chamativo, ainda mais quando se precisa ser discreto.
Vi algo dentre alguns armários, enquanto Alec puxava uma camisa sem mangas dentre algumas sacolas e Larry tentava agarrá-la, porém, ele a vestiu por cima da camisa que basicamente era igual a que eu agora segurava, tirando que a havia duas mangas em sua camisa.
— Egoísta! – exclamou, porém foi ignorado por Alec. E por todo mundo. Como quase sempre.
Peguei o objeto que chamara minha atenção e percebi ser uma longa adaga com um punho e bainha simples, tendo uma correia que servia para prender em algo. Desembainhei-a e percebi que, apesar de simples, ela era feita de Ferro dos Deuses. Poderia ser que somente fosse simples do lado de fora porque seu dono não tinha dinheiro para pagar algo mais elaborado. Usando ela cortei o pouco que restara da manga rasgada, bem em sua costura, então a prendi em meu cinto. Ninguém a percebera ali, e ela poderia ser útil, então não fazia mal ficar com ela.
Senti a Aura de Moko se atirando em direção a uma pilha de sacos e panelas, e quase todos pularam ao escutar o som das coisas caindo e se movendo, enquanto ela tentava desesperadamente pegar algo com suas patas. O que dera naquele projeto de Despertado?
Escutei o som que me lembrou dum rato, então deixei para lá. Moko era pequena demais até para conseguir caçar um humano, então ela tinha de se contentar com outras coisas. Mais um motivo talvez para ter sobrevivido até agora. E também ao fato que virou o bichinho de estimação das meninas. Na verdade, todo mundo. Mas ela fazia questão de me seguir. E dormir comigo. Sinceramente, eu também não me importava. Ela não conseguia assumir sua forma humana por algum motivo, então era quase – quase – como dormir com um bicho de pelúcia. Isto é, quando ela não roubava meu travesseiro.
Ygor e Larry discutindo, mais um “vish” de Diego. Alec estava quieto, não sabia o que ele estava procurando. Também não conseguia me interessar. Moko pegava mais animaizinhos sob os objetos, e Maurice continuava com sua normal – ou anormal, como preferir – quietude, se mantendo mudo. Ele quase nunca falava. Não havia muito em que se interessar.
Tirei minha camisa – que se rasgasse um pouco, iria se assemelhar à camisa de um mendigo – e vesti a outra que pegara. Não era tão ruim usar só uma manga, o problema era que... Tá, a camisa era ligeiramente, só um pouco, colada. Mas nada de mais, não revelava nada que não deveria também. A gola era alta, aberta na frente, então não incomodava muito.
Sem motivo algum, senti uma pontada tão forte em meu peito que meus olhos marejaram. Gemi e me encolhi levemente, mas ninguém deu atenção a mim. O que dera em mim? Forcei as lágrimas a voltarem seu caminho, não permitindo que escorressem. Meu peito latejava tanto que se tornava cada vez mais insuportável.
Encarei as coisas a minha frente, tentando esquecer a dor, ou ao menos agir como se ela não existisse.
— Vish, eu não estou gostando desse olhar parado. – Diego comentou atrás de mim. – E vazio.
Sacudi a cabeça levemente, respirando fundo para que ignorasse a dor. Me virei e comecei a sair do porão, pegando a capa.
— Vish, lá vem.
— Diego, por que você fala tanto “vish”? – Ygor perguntou enquanto eu subia as escadas.
Cheguei novamente à superfície, sentindo o vento gelado bater contra meu corpo e...
Senti as Auras do esquadrão de caça de antes sendo atacados por três Despertados.
Notas finais
A personalidade do Hideo mudou bastante do primeiro livro para o segundo, espero que vocês aprovem. Eles está mais anti-social, se é q me entendem...
Ele continua ruivo de cabelo curto. Se eu melhorar, tentarei fazer um desenho dele...
Até o próximo cap!
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