Mecânica
1 Capítulo Único: Ponto persuasor
Mecânica
Palavras ensaiadas. Discursos praticados. Atos forçados.
O quebrado sorriso mecânico.
E repetido. E como repetido, travado em um disco, girando e girando em seu próprio eixo. Reprisado em minha mente... Tantas vezes que eu mesmo já posso me considerar treinado.
A máquina... você me quer desse modo?
O sorriso mecânico volta.
Forjado, que nem o mesmo aço que forma a lâmina. Forjado, que nem a mesma lâmina que forma a arma. Forjado, que nem o mesmo humano que segura a arma?
Por que parou de sorrir, Katarina? Sente seu disco perder a velocidade? Inválido, defeituoso, falho.
O sistema que me interligava a você está enferrujando, e eu imagino que não devo a ajudar. Pois seus olhos, como aqueles malditos robôs que vimos em Piltover, se apagam rapidamente.
Desligam.
Eu também vejo seus movimentos automáticos, você sabe disso. Você tenta esconder, tenta disfarçar, tenta não ser tão óbvia, mas vejo seus olhos prenunciando que você erguerá o muro que tentará te proteger.
Você sabe também que ele não adiantará.
Mesmo que você tente... mesmo que você se oculte, se camufle, se mascare ou qualquer verbo que você quiser usar para definir a sua fuga, você sabe que não adiantará. Você não será a máquina.
Você sangra. Que nem eu. E que nem o homem que nos deixou.
Não me olhe com esses seus olhos intimidadores, eu não quero foder com uma maldita máquina. Não quero ter o desprazer de te olhar e ver a sua pele se transformar em sucata. Não quero que me transforme – ainda mais – em uma arma de matar.
Pelo menos não quero que isso venha de você.
Por que o sorriso? Eu te pergunto, mas você apenas pisca cansada. Seu sistema a fará desligar novamente?
Máquinas não sangram, e você sabe que o piscar de seus olhos a denunciou. Mas sabe também que eu não me importo. Você está apenas me mostrando algo que eu não irei seguir.
Por que quer que eu a toque, se além de mim ninguém mais sentirá o toque?
Não pegue a minha mão e não beije meus lábios, eles não virarão metálicos. Você não ganhará. Também sabe disso, está estampada em seus olhos que você quer a derrota.
Também não pressione sua boca contra a minha, eu sou o único aqui que talvez ainda respire. E talvez o único que ainda pode ter a respiração desenfreada. Eu sou o único que sente, o único que vê, o único que se importa.
Agora o seu próximo passo é sorrir novamente. Eu também já vi como esse ato treinado vai se desenrolar, Katarina. Então não me jogue contra a parede, não use o meu truque contra mim.
O que virá a seguir é você tentando me convencer. Eu te conheço, sei por onde você tenta se infiltrar. Eu sei também que sua boca estará tão próxima ao meu ouvido que eu finalmente sentirei o seu calor e começarei a duvidar.
Então não me dê boas-vindas.
Notas finais
Essa história, definitivamente, não deve fazer sentido algum pra você, leitor.
Mas pra mim faz, e aproveita ela aí tentando a entender.
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